A recessão veio, mas alertou antes, pois há tempos o produto interno bruto (PIB) brasileiro vem fraquejando no seu desempenho, com a economia mostrando sérios problemas e o governo federal contribuindo para agravar vários deles. Em 2014 os dados da recessão mostraram o PIB caindo 0,2% no primeiro trimestre e 0,6% no segundo, em cada caso relativamente ao trimestre anterior. Medido da mesma forma, ele já havia caído 0,6% no terceiro trimestre de 2013, resultado não compensado no trimestre seguinte, quando o aumento foi de 0,5%.
Diz-se que há uma “recessão técnica”. Um site que traduz economês (www.Investorwords.com) aborda a expressão explicando que seu parâmetro é uma queda do PIB por dois trimestres consecutivos, ou mais. E acrescenta: “Uma recessão é tipicamente acompanhada por uma queda do mercado de ações, um aumento do desemprego e um declínio do mercado imobiliário”.
No Brasil o mercado de ações vinha mal e recentemente o Ibovespa subiu, mas por força de uma especulação quanto ao seu futuro, a maior probabilidade de que a presidente Dilma Rousseff não seja reeleita. O desemprego, medido nas seis maiores regiões metropolitanas do País, até aqui não aumentou, mas em parte porque a participação da população na força de trabalho vem se retraindo. O emprego formal já dá claros sinais de fraqueza. E o mercado imobiliário também está em declínio.
O mesmo site também diz que “não há uma única causa óbvia de uma recessão, embora em geral a culpa recaia na liderança federal, frequentemente o próprio presidente, o presidente do Banco Central ou toda a administração”. Definiu bem o caso brasileiro. Há tempos argumento que as taxinhas de variação do nosso PIB têm como maiores culpados o governo federal e a presidente que o comanda. Até aqui, ao se explicar, o governo passava o mico adiante, identificando como principal causa a crise da economia mundial.
Já contestei esse argumento várias vezes, como no último artigo neste espaço. Então mostrei, com base em estudo recente da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, que, tomados 33 países dessas regiões e as taxas previstas para a variação de seus PIBs em 2014, 26 (!) deles, enfrentando a mesma crise mundial, apresentam taxas maiores que a do Brasil, e várias bem maiores. Acrescentese que a economia mundial está em fase de recuperação, ainda que lenta, enquanto o Brasil afunda na recessão.
Mesmo com esse mergulho, a presidente Dilma voltou a brandir o mesmo argumento, num exercício ilusionista com números equivocados. Segundo este jornal (30/8), ela disse que “alguns países vizinhos, como o Chile, o Peru e a Colômbia, tiveram uma grande redução do seu crescimento”. Ora, para esses países as previsões citadas são de 3%, 4,8% e 5%, respectivamente. Ou seja, sua perspectiva é de crescer muito mais que o Brasil, para o qual as previsões correntes são em geral menores que 1%. Ademais, o Brasil já vinha atrás da maioria dos países latinoamericanos quanto às suas taxas de crescimento entre 2011 e 2013, mostrando que há anos o crescimento tem maior sustentação nesses países. A presidente também afirmou que China, EUA e Reino Unido foram os “únicos países” que se saíram bem no segundo trimestre de 2014. Mas o jornal Folha de S.Paulo, do mesmo dia, desmentiua, mostrando que pelo menos 27 países tiveram expansão.
Outro argumento presidencial atribui aos feriados da Copa parte da culpa pela recessão. Mas esses feriados ocorreram em junho e julho, e a recessão começou no primeiro trimestre, e o que fizeram foi apenas agravar um quadro crônico de taxinhas do PIB que marca o governo Dilma como um dos períodos de pior desempenho da economia nacional. Tais feriados, decorrentes de uma Copa encomendada pelo governo, podem ter tido algum efeito, mas menor, e passaria despercebido se o Brasil estivesse crescendo bem mais.
Quanto aos malfeitos econômicos do governo, amplio argumentos anteriores. Os erros macroeconômicos e microeconômicos governamentais são tantos, intensos e flagrantes que já os retiram da condição de meros suspeitos de atuarem como a força mais robusta e atuante. Na macroeconomia, o governo diz seguir o tal tripé macroeconômico, com o câmbio flutuante, metas adequadas de inflação e quanto às contas governamentais. Mas esse tripé está todo torto. A perna do câmbio, rebaixada para conter a inflação; as contas governamentais, frouxas no cumprimento de suas minimizadas metas; e sem ajuda da política fiscal a perna dos juros da política de metas de inflação é esticada em prejuízo da economia e também das mesmas contas. Com a perna do câmbio rebaixada agravamse ainda as contas externas.
Ademais, por si mesmo esse tripé, mesmo quando bem equilibrado, só se presta à estabilização do avião da economia. A força que o impulsiona vem dos motores, com destaque para os investimentos que criam capacidade produtiva adicional, empregos e rendimentos. Mas como estão esses investimentos? Segundo o último comunicado do IBGE, como proporção do PIB eles caíram de 18,8% no segundo trimestre de 2011 para 16,5% no mesmo período de 2014. Países vizinhos que crescem mais têm taxas acima de 20%. E no trimestre passado os investimentos caíram à descomunal taxa de 11,2% (!) relativamente ao mesmo trimestre de 2013.
Mesmo com o avião da economia desestabilizado e o empuxo dos investimentos fragilizado, da cabine de comando o que se ouve é que está tudo bem. Como disse o ministro Mantega: “O que vejo é uma economia saudável, estruturalmente sólida e que se defronta com problemas conjunturais” (Valor, 22/8). Pensando a recessão no contexto de uma cadeia produtiva global, ela é essencialmente “made in Brazil”, que produz seus principais componentes na fábrica governamental. De fora dela vêm apenas acessórios.

Nenhum comentário:
Postar um comentário