quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Os "keynesianos de quermesse" são manetas



Imagine, caro leitor, que você resolva experimentar uma nova dieta, uma dieta “heterodoxa”, baseada na ingestão apenas de doces. Isso mesmo: para emagrecer, uma bomba de chocolate no café da manhã, um pudim de leite e uma banana flambada no almoço, um petit gateau de lanche, e um sorvete de doce de leite de jantar, pois ninguém é de ferro. Parece um sonho, não?

Agora imagine que, após um mês nessa dieta, você ganhou uns bons quilinhos, em vez de perder. Digamos que, depois de quatro anos aplicando religiosamente a receita, você observe na balança que está com 50% a mais do peso inicial. O que você faria? Estrangularia o autor da dieta maluca? Entrava num spa radical? Ou dobrava a aposta e passava a ingerir ainda mais guloseimas calóricas?

Parece absurda tal opção, não é mesmo? Mas é exatamente aquilo que nossos colegas “heterodoxos” propõem quando se trata de economia. Sério! O “nacional-desenvolvimentismo” com sua “nova matriz macroeconômica” produziu apenas estagflação e até aumento da desigualdade social? Então, ora bolas!, precisamos intensificar o veneno, digo, o remédio, para obter finalmente resultados melhores com uma dosagem maior.

Sei que parece piada, mas é como agem nossos “keynesianos de quermesse”, como diz Alexandre Schwartsman. Eu sua coluna de hoje na Folha, o ex-diretor do Banco Central comenta sobre o manifesto de luminares dessa ideologia, para quem os fatos é que precisam se encaixar na teoria, e não o contrário. Diz ele:

Às vezes, na verdade quase sempre – o “quase” apenas para acomodar alguma exceção desconhecida – tenho a impressão que nossos “keynesianos de quermesse” habitam uma dimensão à parte (a Dimensão Z), onde os fatos se acomodam às crenças, permitindo que o voluntarismo mais primitivo se estabeleça como ideologia hegemônica.

Veja-se, por exemplo, o manifesto publicado por luminares da quermesse nacional, defendendo a manutenção da atual política econômica. Não bastasse reivindicar para si o monopólio do desenvolvimento com inclusão social – como se todos os demais economistas favorecessem a decadência econômica com piora da distribuição de renda –, os signatários do documento levam às raias do extremismo a distância entre o mundo como ele é e a realidade como reflexão distorcida de uma mentalidade peculiar.

[...]

É, portanto, notável, embora nada surpreendente, que a conclusão da quermesse seja sempre a mesma (“vamos aumentar o gasto público!”) independente da natureza do problema.

Diga-se, aliás, que esta postura diminui em muito a credibilidade da promessa de “iniciativas contracionistas (…) para quando a economia voltar a crescer”, mas, justiça seja feita, estas vozes também se calaram quando o país crescia forte e o governo seguia com o pé no acelerador fiscal. Sua coerência em sempre pedir mais despesa é legendária.


Pois é. Eu costumo chamá-los de “keynesianos manetas”, pois todo economista sempre se protege de suas previsões com um famoso “on the other hand“, ou seja, abrindo a possibilidade para uma rota alternativa. Já esses economistas só têm uma mão, que aponta invariavelmente na mesma direção: mais gastos públicos.

Jamais vi um desses típicos “keynesianos” saindo da toca para pedir redução de gastos públicos, nem mesmo quando a economia está “bombando”. É mais fácil ver um elefante rosa com bolinhas amarelas voando pela janela do que um “heterodoxo” pedindo menos gasto público, mais austeridade fiscal. Mesmo quando o paciente está engordando muito, a receita deles é a mesma: comer mais doce!

Pergunto: pode dar certo?




Por Rodrigo Constantino

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