segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Aplausos falsos e vãos


A Grécia passava por um período de decadência quando Fócio, em pronunciamento na Assembleia, criticou com veemência a sociedade local por seus costumes e seu egoísmo. Imaginava violentas reações, inclusive a deportação, surpreendendo-se com prolongados aplausos. Confuso, indagou de um amigo: “teria eu dito alguma asneira?”

Assim terá acontecido no palácio da Alvorada, na noite de quinta-feira, quando a presidente Dilma reuniu as bancadas, os governadores e os ministros do PT. Viu-se muito aplaudida, na saudação aos companheiros, faltando alguém ao lado para ouvir sua pergunta: “o que falei para receber tanto apoio, quando minha intenção foi chamá-los à realidade e à razão?”

Só a ambição e o sabujismo explicam a reação do PT, hoje transformado num conglomerado insosso e disforme, unido faz pouco em torno da reeleição, mas de novo perdido no cipoal de pretensões fisiológicas. Com as exceções de sempre, garantida que foi a permanência no poder, o partido parece longe das exortações de quinta-feira feitas pela presidente a respeito de preparar-se para mudanças de concepção e de metas, capazes de mudar a complicada relação do partido com o governo. Porque entre os petistas prevalece a obstinação de se aproveitarem das benesses do novo governo para satisfação de seus interesses pessoais. Importa repetir, com as exceções de sempre.

Dos que permaneceram no Congresso e nos governos estaduais, aos que foram eleitos pela primeira vez, uma preocupação maior os domina: ocupar estruturas grandes e pequenas do poder, sem propostas para desmanchar os graves nós que estrangulam os caminhos para o desenvolvimento nacional. Do PT não tem partido, nem partirão, sugestões para a economia voltar a crescer, a sombra da inflação ser afastada, os investimentos retomados, a corrupção combatida e as instituições, reformadas. Não é com eles, os companheiros, mudar o Brasil. Pelo contrário, empenham-se para que continue o mesmo, paraíso de nomeações, contratos superfaturados, negócios intermediados e facilidades de toda ordem para perpetuar sua prevalência política.

Tenha a presidente Dilma percebido ou não as intenções de seu pano de fundo, esteja ela sendo sincera ou não, a verdade é que seu projeto de mudanças despertou apenas aplausos, mas nenhum apoio real para concretizá-las, Poderão posicionar-se contra ou a favor da reforma política, do plebiscito ou da Constituinte Exclusiva, hipóteses remotíssimas que servem apenas para enxugar gelo. Não lhes custa bater palmas para esdrúxulas ou até ilusórias promessas vindas de cima, pois empenham-se mesmo na satisfação de seus baixos propósitos.

Não será com o PT estagnado por doze anos de mando federal que a presidente Dilma conseguirá virar o jogo no segundo mandato. Mesmo tendo transmitido um ríspido alerta ao partido, continuará colhendo aplausos falsos e vãos. Será que disse alguma asneira?




Por Carlos Chagas

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