terça-feira, 2 de junho de 2015

Uma década perdida


Dias atrás reli uma entrevista que concedi em outubro de 2005 a Revista Justiça e Cidadania, quando presidia o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Depois de responder a primeira pergunta, afirmando que a Ordem estava se posicionando de forma incisiva em relação à crise política do país – fruto do escândalo do mensalão -, afirmei que em períodos como estes é que mais se ressalta o viés público da advocacia e que a Ordem ajudou a construir parte da história da República brasileira, sempre através de atos e não de omissões.

Na sequência, afirmei o estado de imoralidade perpetrado por agentes públicos, e que vivíamos uma das piores crises, porque diferentemente das demais, nasceu de dentro para fora. Fora instalada por denúncias de um Deputado da própria bancada que dava sustentação ao governo de um grande esquema de corrupção que ficou conhecido como “mensalão”.

A terceira pergunta foi insidiosa: “o Senhor acredita que o Presidente esteja envolvido?”. Assegurei em outubro de 2005: “não tenho a mínima dúvida de que o Presidente sabia o que estava acontecendo no Palácio. Se não sabia, não tinha a menor aptidão para governar. Além de tudo, os membros de seu partido afirmam que o PT não pratica uma política individual, mas coletiva. Desta forma, o Presidente Lula estaria mais do que ninguém, comprometido até o último fio de sua barba”. E ao fim, encerrei afirmando textualmente: “O Presidente Lula foi conivente com os atos irresponsáveis, criminosos e ilegais dos próprios ministros, inclusive aquele lhe é mais íntimo: José Dirceu”.

Na continuação, vimos que o Procurador Geral da República da época, mandou arquivar queixa crime que firmei como Presidente da OAB, pedindo a investigação da participação de Lula naquele escândalo, o que resultou em sua não participação no processo que levou a grande maioria a prisão, inclusive seu “capitão” José Dirceu.

Dez anos se passaram e o Brasil no campo da ética andou de lado, ou para trás. Vemos agora pela biografia da gestão de José “Pepe” Mujica, líder esquerdista, amigo íntimo de Lula, de que nosso ex-Presidente confessou ter tido conhecimento do “mensalão” e se aproveitou da trama criminosa, para temerariamente governar o Brasil à base de propina e manter sua hegemonia política, que continua podre até hoje.

Agora vivemos tempos cinzentos e de grande dificuldade, por um fruto do novo escândalo, o “petrolão”, que quase aniquila a maior empresa brasileira, a Petrobrás, por duas razões: pela irresponsabilidade da gestão Dilma I, que praticou malversação dos recursos públicos para ganhar uma eleição, com afirmações mentirosas e atuação no campo financeiro temerário, mergulhando o país numa de suas maiores crises, e nesta gestão Dilma II, que pretende recolocar o trem nos trilhos, mas exigindo cada vez mais um enorme sacrifício do povo brasileiro, sem abrir mão das benesses palacianas e do enorme tamanho da máquina pública. Novamente esta crise chamada “petrolão”, não tem agentes da oposição do governo, foi detonado pelas delações premiadas de antigo Diretor da Petrobrás, doleiros e outras figuras sinistras envolvidas.

Olhando hoje em 2015 a situação de 2005, não sabíamos que éramos felizes, apesar de estarmos às voltas com o “mensalão”. Por isso afirmo: andamos para trás no campo ético e da boa administração pública, foi indiscutivelmente uma década perdida.




Por Roberto Busato
Presidente do Conselho de Advogados do Mercosul (COADEM) e presidente da OAB Nacional entre 2004 e 2007

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