segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Influência da Igreja na sociedade



Por Samuel Pinheiro

Vivemos numa sociedade em que um número considerável de pessoas e particularmente de líderes de opinião nos mass media (televisão, rádio, revistas e jornais principais de âmbito nacional) desprezam, ignoram e até condenam a influência da Igreja na dimensão social, cultural, política e econômica.

Vivemos no tempo de um laicismo intolerante e algumas vezes feroz. Avizinham-se dias em que tememos que as convicções espirituais sejam banidas à força para as catacumbas do privado. A cultura pós-cristã está a ser substituída rapidamente por uma cultura anti-cristã sob a cobertura de uma inconsistente definição de tolerância e no embalo de uma multiculturalidade que só serve de pretexto para obliterar a cultura cristã. Para o português Dr. Durão Barroso, Presidente da União Europeia, a Europa deixou de ter cultura própria para ser um caldear de culturas, todas elas iguais em qualidade e valor. Será mesmo assim? (Revista “Visão”, 6-12 Janeiro 2005, José da Cruz Policarpo – Cardeal Patriarca, pp. 30).

A Igreja evangélica foi a impulsionadora da ideia da separação da Igreja do Estado, embora isso não deva significar que a Igreja ignore o Estado, nem que o Estado faça obstrução à Igreja. É de todo em todo desejável que entre um e outro existam protocolos de cooperação e exista um espaço salutar no sentido de a Igreja se mover no que à sociedade diz respeito, trazendo para ela toda uma intervenção rica em solidariedade, assistência social, promoção da pessoa humana, participação ativa do debate cultural e dos valores que suportam o tecido social, etc. E as igrejas evangélicas em caso algum, no meu entender, se devem abster de pronunciar-se, publicamente ou não, sobre todas as matérias concernentes à vida do homem, mormente os espirituais e éticos que necessariamente têm os seus desdobramento sociais, culturais e políticos.

Mas também somos parte de uma Igreja em que muitos desvalorizam a influência e a intervenção do espiritual na vida social, cultural, política e econômica. Parece-nos que somos uma geração que ainda não conseguiu libertar-se da síndrome de minoria e da mentalidade de cidadão de segunda classe. Temos uma postura meio envergonhada, meio inibida, não porque tenhamos vergonha de Cristo ou do Evangelho como “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”, mas por acanhamento cultural. Tenho a impressão de que à semelhança dos judeus no êxodo, ainda nos vemos como gafanhotos diante dos gigantes da cultura, da política, da ciência, da tecnologia, das artes, da literatura, dos mass media, do poder econômico, etc.

Uma parte da sociedade tem uma perspectiva negativa da influência da Igreja nas estruturas sociais, culturais, políticas e econômicas por um lado devido à postura da Igreja Católica Romana e o casamento, por interesse, entre o poder político e o religioso de que ela tem sido instrumento, e por outro, devido ao preconceito alimentado de muitas formas.

Face a estes fatores também certos setores das igrejas evangélicas acabam por temer e evitar dar relevo a essa influência e intervenção.

Afinal de contas quem influencia quem? É a sociedade responsável por alguma mentalidade evangélica, ou é a mentalidade evangélica de gueto responsável pela postura secular?

Um dos sinais desta tendência surge da parte de alguns evangélicos que consideram que o espiritual é apenas uma das partes em que se reparte a vivência do ser humano, e não a essência que percorre todas elas. Outro dos sinais manifesta-se no distanciamento da coisa política, econômica, social e cultural. Ainda outra é a desconsideração do trabalho, do associativismo, do voluntariedade e da intervenção político-partidária como se a unção do Espírito e o poder de Deus na vida dos Seus filhos não se repercutisse nestas áreas, como se a vida social fosse um mal necessário e não um bem a projetar e a valorizar.

Citamos aqui o Relatório da Consulta Internacional realizada em Grand Rapids sob a presidência de John Stott, no segundo volume da Série Lausanne, publicado pela ABU sob o título “Evangelização e Responsabilidade Social”:

“(…) a ação social responsável que o evangelho bíblico coloca sobre os nossos ombros, e o “evangelho social” liberal, que foi uma perversão do verdadeiro evangelho, são coisas muito distintas. Como declara o Pacto de Lausanne, ‘nós rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a ideia de que o homem possa algum dia construir uma utopia nesta terra’ (Parágrafo 15).

Uma outra causa do divórcio entre evangelização e responsabilidade social é a dicotomia que se desenvolveu em nosso modo de pensar. Nossa tendência é contrapor totalmente as ideias de corpo e alma, indivíduo e sociedade, redenção e criação, graça e condição natural, céu e terra, justificação e justiça, fé e obras. A Bíblia certamente faz distinção entre essas ideias, mas faz também uma relação entre elas, instruindo-nos a manter cada um desses pares em equilíbrio dinâmico e criativo. É um erro separá-los, como faz o ‘dualismo’, como também é um erro confundi-los, como faz o ‘monismo’. E é por esta razão que o Pacto de Lausanne, ao falar sobre evangelização e envolvimento sócio-político, afirma que ambos são ‘parte do nosso dever cristão’ (Parágrafo 5).” (pp. 18)

Faço ainda referência a obra mais pertinentes que li sobre a influência da cosmovisão cristã na vida individual, social, cultural, profissional, política e econômica do cristão cidadão permanente do Reino dos Céus e cidadão temporário do seu país, de Charles Colson com o título “E Agora Como Viveremos?” publicado pela CPAD.

Apenas uma citação para despertar o interesse:

“Evangelismo e renovação cultural são, ambas, tarefas divinamente ordenadas. Deus exercita a sua soberania de duas maneiras: através da graça salvadora e da graça comum. Estamos bem familiarizados com a graça salvadora; é o meio através do qual o poder de Deus chama pessoas que estão mortas em suas transgressões e pecados para uma nova vida em Cristo. Como servos de Deus, devemos ser agentes de sua graça salvadora, evangelizando e trazendo pessoas a Cristo. Mas poucos de nós realmente entendem a graça comum, que é o meio através do qual o poder de Deus sustenta a criação, retendo o pecado e o mal que resulta da Queda e que, de outra forma, dominaria sua criação como uma grande enchente. Como agentes da graça comum de Deus, somos chamados a ajudar a manter e renovar sua criação, a sustentar as instituições formadas da família e da sociedade, a buscar a ciência e a sabedoria, a criar obras de arte e beleza e a curar e ajudar aqueles que sofrem com os resultados da Queda.” (pp. 13)

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