terça-feira, 22 de setembro de 2015

E se você fosse o governo brasileiro agora?



Seu filho não quer cortar gastos, sua mulher não aceita contribuir mais com o orçamento da casa. Há uma solução, mas ela exige que você reveja antigos preconceitos


Pois é, a coisa está feia. Já faz um tempo que você avança no cheque especial. Gasta mais do que recebe e, para piorar, sua lojinha vem arrecadando menos todo mês. Para piorar um pouco mais, o agiota que compra as suas notas promissórias já está desconfiando da sua reputação de bom pagador. Na tentativa de acalmá-lo, você promete quitar a dívida com juros mais altos, e assim a bola de neve vai aumentando.

Bate um arrependimento, né? Estava indo tudo tão bem. Mas nos últimos quatro anos você esculhambou o orçamento. Gastou mais em casa, se encheu de funcionários, facilitou o crédito para os clientes e deu empréstimos meio malucos. Esperava que outras pessoas da cidade tomassem a mesma atitude e comprassem mais na sua lojinha de material de construção. Não deu certo. Você se endividou, eles também.

O jeito é sentar e pensar em soluções. A primeira é cortar gastos, mas isso causa uma reclamação danada em casa. Seu filho se acostumou com Negresco – não quer mais saber de Mabel. Se diminuir a mesada da sogra, a coitada morre de fome. A escola dos seus filhos e o plano de saúde já não são uma maravilha – sua mulher vive dizendo que é preciso investir mais em saúde e educação. Se você cortar gastos nessas áreas, é capaz dela pedir o divórcio. Para diminuir as despesas, é preciso ter pulso firme e assumir uma postura de mau. Mas você conquistou a patroa jurando ser o cara mais bonzinho do mundo.

A segunda alternativa é pedir para a família ajudar um pouco mais. Difícil. Sua filha trabalha o dia todo, ganha uma miséria e está cansada de contribuir com 40% do salário. Sua mulher reclama que você já exige muito da família, gasta demais com si próprio e dá muito pouco em troca. Se você insistir na ideia, é capaz dela se mudar para Miami e levar todo o dinheiro para aquele morenão charmoso de quem você morre de ciúmes.

Apesar do risco, você joga o assunto na mesa. Todos dizem que a chance de aprovar a nova alíquota é ínfima. “Mas é só uma contribuição provisória”, você insiste. Eles fazem “não” com a cabeça. “Juro que é provisória”, você diz, quase chorando. Eles não acreditam mais em você.

Quando tudo parecia sem saída, você vislumbra uma alternativa viável: vender a casa de praia! Com o dinheiro da venda do sobrado no Guarujá, você poderia quitar parte da dívida. E ainda se livraria de todas as despesas de manutenção do sobrado. Não precisaria mais aturar aquele picareta do caseiro, que de vez em quando inventa a necessidade de reformas só para cobrar propina do pedreiro e do encanador. Tem mais. Os possíveis compradores da sua casa fariam uma boa reforma – e comprariam os materiais na sua lojinha. Eles ainda prometem pagar a você, em forma de royalties e outras obrigações, uma porcentagem do dinheiro que conseguirão alugando o sobrado durante a temporada. Pronto, achamos uma solução. Bora vender a casa de praia!

Eu sei, tem um problema. Sua família adora o sobrado no Guarujá. Tem o maior carinho por ele. Anos atrás, quando você pensou em vendê-lo para uns estrangeiros, seu filho surtou e passou anos gritando “o sobrado é nosso!”. Ainda acusou você de querer dilapidar o patrimônio da família e entregar aos gringos uma riqueza tão valiosa. Mas veja: em tempos de crise, é preciso ter maturidade e virar a página ideológica. A venda do sobrado no Guarujá ainda impressionaria o agiota, e você, com mais credibilidade, poderia emprestar dele com juros menores. Vai por mim: é a melhor opção.

Ouvi dizer que você está cogitando fingir que está tudo bem, continuar gastando e empurrar o problema para frente. Quando der tudo errado, você semearia o conflito em casa. Diria a sua filha que a culpa é toda do irmão dela, aquele integrante da elite rentista que tem horror aos pobres. Convenceria a sua mulher que a ganância do agiota causou os problemas em casa. Quando todos estiverem em guerra, você sairia de fininho e apagaria a luz.

Por favor, não faça isso. Deixe de onda e venda logo a casa de praia.




Por Leandro Narloch

Coxinha e caviar: quando o estereótipo vale, e quando não vale



Se o uso do termo "coxinha" nada diz, se serve somente para tentar desqualificar aqueles que condenam o PT, a expressão "esquerda caviar", por outro lado, faz tudo sentido e toca numa ferida, expõe uma gritante hipocrisia de boa parte da esquerda.


Rótulos e estereótipos servem para simplificar o mundo, para que possamos encaixar em alguns conceitos toda uma gama de crenças, ideias e posturas. Claro que, por definição, tais rótulos serão simplistas, incapazes de abranger toda a complexidade do ser humano. Isso não quer dizer, contudo, que sejam inúteis ou sempre inadequados. Ao contrário: eles exercem importante função em nossas vidas, pois nos permitem ter uma ideia melhor das coisas sem precisar dedicar um tempo infinito a cada detalhe de cada um.

Capitalista e socialista, portanto, servem para mostrar se uma pessoa defende a liberdade econômica, a propriedade privada e o império da lei, ou se ela quer concentrar no estado o controle da economia, quer igualdade de resultados em vez de liberdade e prefere a “justiça social” ambígua em vez da mesma regra valer para todos. Dentro de cada rótulo há inúmeras nuanças, sem dúvida, mas como discordar de que separar os dois grandes grupos facilita e ajuda muito nos debates e compreensão?

O mesmo para esquerda e direita, para coletivista e individualista etc. Pegar um extremo caricato desse rótulo e transformá-lo num estereótipo, como se todo esquerdista fosse, por exemplo, um comuna de faculdade com camisa do Che Guevara que adora Cuba, isso seria absurdo, sem dúvida. É o que, infelizmente, algumas pessoas fazem, impedindo um debate honesto. Todo anticomunista vira, assim, um “fascista”, e por aí vai. Aliás, boa parte da esquerda mais radical adora essa estratégia.

Mas há, ainda, outra tática comum, que é bancar o “neutro”, o “imparcial”, e condenar todos os rótulos e estereótipos, jogando tudo na vala comum. Ayn Rand percebeu essa tática da esquerda há anos: condena tanto o comunismo como o fascismo e o capitalismo. Reparem que coisa: jogou no mesmo saco podre duas ideologias totalitárias, assassinas, ao lado do capitalismo, que retirou milhões da miséria e preservou a liberdade individual. É como alguém condenar a peste bubônica, o câncer e a sogra. Pobre sogra, sabe que é o único alvo verdadeiro do ataque…

O sociólogo Antonio Engelke, que já foi citado nesse blog por conta de um artigo em que condenava o “dogma” da austeridade, publicou hoje um texto no GLOBO atacando tanto o termo “coxinha” como a expressão “esquerda caviar”. Seu argumento foi justamente o de que são estereótipos que não capturam a complexidade do mundo. Mas faz sentido jogar no mesmo saco ambos? Ou será que, com essa tática, ele quer no fundo criticar quem aponta todas as incoerências, contradições e hipocrisias de uma esquerda “defensora” do socialismo que ama o capitalismo?

Não creio que o sociólogo tenha lido de fato meu livro Esquerda Caviar. Se tivesse lido, saberia que, na primeira parte, dediquei nada menos do que vinte possíveis explicações para a origem do fenômeno. Ou seja, sei perfeitamente que se trata de algo complexo, que vários caminhos podem levar as pessoas a essa situação de paradoxo. Mas está bem claro que tipo de esquerdista está sendo exposto com o uso da expressão. Engelke cita os “liberais” americanos, do Partido Democrata, ou a “ala mais sóbria” do PSDB, mas esses são vistos como “direita neoliberal” pela esquerda caviar brasileira.

É engraçado que o sociólogo cita Francisco Bosco para fazer seu ponto, como se essa ala da esquerda quisesse apenas reformar o capitalismo e combater suas desigualdades. Bosco defende os black blocs, o PSOL, o socialismo! Ou seja, para condenar quem faz uso da expressão “esquerda caviar”, o sociólogo acaba dando razão a essas pessoas. Essa turma não quer reformar o capitalismo, mas acabar com ele. Condena o lucro, a ganância, o livre mercado, e se beneficia de tudo que só o capitalismo pode oferecer. Se isso não é hipocrisia, não sei o que é!

No mais, resta o velho e manjado monopólio da virtude, outra marca registrada da esquerda. Alguns ícones da esquerda caviar alegam que não desejam punir os ricos, e sim que todos sejam ricos, possam ter os mesmos bens materiais. Ora, e clamam por medidas socialistas, estatizantes? Mas na prática elas aumentam a miséria e até mesmo as desigualdades! Detalhes. O que importa é bancar o abnegado de forma populista e demagógica. “Sou pelos mais pobres”, diz o sujeito. E como, exatamente? “Defendendo taxação sobre fortunas, imposto de renda de 80% e sempre mais estado”, responde. Assim complica…

Se o uso do termo “coxinha” nada diz, se serve somente para tentar desqualificar aqueles que condenam o PT, a expressão “esquerda caviar”, por outro lado, faz tudo sentido e toca numa ferida, expõe uma gritante hipocrisia de boa parte da esquerda. Como defender Cuba e viver em Paris? Como elogiar a Venezuela e gozar de liberdade de expressão? Como cuspir na ganância e só pensar em acumular mais fortuna?

É por ter mexido nesse vespeiro que vemos essa reação da esquerda caviar. Ela tenta desqualificar de toda forma aqueles que finalmente acordaram para todo um discurso hipócrita, inconsistente, de quem deseja apenas bancar o altruísta igualitário, enquanto vive como um nababo. Jogar a expressão “esquerda caviar” no lixo ao lado de “coxinha”, termo idiota que não diz absolutamente nada de relevante, é uma tática antiga da esquerda. Vamos condenar o assassino, o estuprador e, sim, o banqueiro. Ficará claro qual é o verdadeiro alvo, não é mesmo?







Por Rodrigo Constantino

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O que é realmente o socialismo e qual o seu maior problema



Não há nada mais prático do que uma boa teoria.

Por isso, proponho-me a explicar em termos teóricos o que é o socialismo e por que ele não apenas é um erro intelectual, como também é uma impossibilidade científica. Mostrarei por que ele se desmoronou — ao menos o socialismo real — e por que o socialismo que segue existindo na forma de intervencionismo econômico nos países ocidentais é o principal culpado pelas tensões e conflitos de que padece o mundo atual.

Ainda estamos vivendo em um mundo essencialmente socialista, não obstante a queda do Muro de Berlim; e continuamos tolerando os efeitos que, segundo a teoria, são próprios da intervenção do estado sobre a vida social.

Para definir o socialismo, é necessário antes entendermos o conceito de "função empresarial". Os teóricos da economia dizem que a função empresarial é uma capacidade inata do ser humano. Não estamos nos referindo aqui ao empresário típico que leva adiante um empreendimento. Estamos nos referindo, isso sim, à capacidade inata que todo ser humano tem de descobrir, criar, tomar conhecimento das oportunidades de lucro que surgem ao seu redor e atuar de modo a se aproveitar das mesmas.

Com efeito, etimologicamente, a palavra 'empresário' evoca o descobridor, alguém que percebe algo e aproveita a oportunidade. Em termos mais figurativos, seria a lâmpada que se acende.

A função empresarial é a mais essencial das capacidades do ser humano. Essa capacidade de criar e de descobrir coisas é o que, por natureza, mais nos distingue dos animais. Neste sentido geral, o ser humano, mais do que um homo sapiens é um homo empresario.

Quem seria, portanto, um empresário? Não se trata apenas de Henry Ford ou de Bill Gates, que sem dúvida alguma são grandes empresários no âmbito comercial e econômico. Um empresário é toda e qualquer pessoa que tenha uma visão criativa, uma visão revolucionária. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Sua missão era ajudar aos mais necessitados, e ela buscava fazer isso de forma criativa, unindo voluntários e canalizando os desejos de todos para o seu objetivo. Por isso, Teresa de Calcutá foi um exemplo paradigmático de empresário.

Portanto, entendamos a função empresarial como sendo a mais íntima característica de nossa natureza como seres humanos, a característica que explica o surgimento da sociedade e o seu desenvolvimento como uma extremamente complicada rede de interações. A sociedade é formada por inúmeras relações de interação e troca entre indivíduos, relações estas que são empreendidas porque, de alguma forma, imaginamos que estaremos melhor após elas. Todas estas relações são impulsionadas por nosso espírito empresarial.

Todo ato empresarial produz uma sequência de três etapas.

A primeira consiste na criação da informação: quando um empresário descobre ou cria uma ideia nova; quando ele gera em sua mente uma informação que antes não existia.

Para colocar essa descoberta em prática, ele parte para a segunda etapa, que é quando ele combina recursos para satisfazer necessidades. Se, de um lado, ele percebe que há um recurso barato e mal aproveitado, e, do outro, ele descobre que há demandas que podem ser satisfeitas com este recurso, ele irá atuar de modo a coordenar este "desarranjo". Ele irá comprar barato o recurso, utilizá-lo, transformá-lo, e vendê-lo a um preço maior, satisfazendo assim a demanda que ele havia percebido.

Desta forma, a informação é transmitida a todos, o que nos leva à terceira e última etapa, que é quando os agentes econômicos, atuando de maneira descoordenada, observam, aprendem e descobrem que devem conservar e economizar melhor um determinado recurso porque alguém o está demandando.

Estes são os três planos que completam a sequência: criação de informação, transmissão de informação e, o mais importante, o efeito de coordenação gerado pelas duas etapas anteriores.

Desde o momento em que acordamos e nos levantamos da cama até o momento em que voltamos a dormir, disciplinamos nosso comportamento em função das mais distintas necessidades, em função das necessidades de pessoas que nem sequer conhecemos; e fazemos isso por iniciativa própria porque, seguindo nosso próprio interesse empresarial, sabemos que assim saímos ganhando. É importante entendermos tudo isso porque, em contraste, vejamos agora o que é o socialismo.

O socialismo deve ser definido como sendo "todo e qualquer sistema de agressão institucional e sistemática contra o livre exercício da função empresarial". O socialismo consiste em um sistema de intervenção que se impõe pela força, utilizando todos os meios coercitivos do estado.

O socialismo poderá apresentar determinados objetivos como sendo bons, mas terá de impor estes objetivos supostamente bons por meio de intervenções coercivas que provocarão distúrbios neste processo de cooperação social protagonizado pelos empresários. Sendo assim — e essa é sua principal característica —, o socialismo funciona por meio da coerção. Esta definição é muito importante porque os socialistas sempre querem ocultar sua face coerciva, a qual é a essência mais distintiva de seu sistema.

A coerção consiste em utilizar a violência para obrigar alguém a fazer algo. De um lado temos a coerção do criminoso de rua que assalta um indivíduo qualquer; de outro temos a coerção do estado, que é a coerção que caracteriza o socialismo. Quando a coerção é aleatória, não sistemática, o mercado tem, na medida do possível, seus próprios mecanismos para definir direitos de propriedade e defender-se da criminalidade.

Porém, se a coerção é sistemática e advém institucionalmente de um estado que detém todos os instrumentos do poder, a possibilidade de nos defendermos destes instrumentos e evitá-los é muito reduzida. É neste ponto que o socialismo manifesta sua realidade em toda a sua crueza.

O socialismo não deve ser definido unicamente em termos de propriedade pública ou privada dos meios de produção. Isso é um arcaísmo. A essência do socialismo é a coerção, a coerção institucional oriunda do estado, por meio da qual se pretende que um órgão planejador se encarregue de todas as tarefas supostamente necessárias para se coordenar toda uma sociedade.

A responsabilidade é retirada à força dos indivíduos — que são naturalmente os únicos responsáveis por sua função empresarial, e que almejam seus objetivos e querem alcançá-los utilizando os meios mais adequados para tal — e repassada a um órgão planejador que, "lá de cima", pretende impor por meio da coerção sua visão específica de mundo e seus objetivos particulares.

[N. do E.: no Brasil, pense nas agências reguladoras que cartelizam todo o mercado e impedem a livre iniciativa e a livre concorrência, em todos os ministérios que impõem a agenda de seus integrantes sobre toda a população brasileira, em toda a burocracia que atrapalha o empreendedorismo dos pequenos, e em toda a carga tributária que impede o surgimento de novas empresas].

Nesta definição de socialismo, vale enfatizar que é irrelevante se este órgão planejador foi ou não eleito democraticamente. O teorema da impossibilidade do socialismo se mantém intacto, sem nenhuma modificação, independentemente de ser democrática ou não a origem do órgão planejador que quer impor à força a coordenação de toda a sociedade.

Definido o socialismo desta maneira, expliquemos então por que ele é um erro intelectual.

O socialismo é um erro intelectual porque é impossível que o órgão planejador encarregado de exercer a coerção para coordenar a sociedade obtenha todas as informações de que necessita para fornecer um conteúdo coordenador às suas ordens. Este é o grande paradoxo do socialismo, e o seu maior problema. O planejador da economia necessita receber um fluxo ininterrupto e crescente de informação, de conhecimento e de dados para que seu impacto coercivo — a organização da sociedade — tenha algum êxito.

Mas é obviamente impossível uma mente ou mesmo várias mentes obterem e processarem todas as informações que estão dispersas na economia. As interações diárias entre milhões de indivíduos produzem uma multiplicidade de informações que são impossíveis de serem apreendidas e processadas por apenas um seleto grupo de seres humanos.

Os teóricos da Escola Austríaca de Economia, Mises e Hayek, elaboraram quatro argumentos básicos no debate que mantiveram durante a primeira metade do século XX contra os teóricos da economia neoclássica, os quais nunca foram capazes de entender o problema inerente ao socialismo.

E por que não foram capazes de entendê-lo? Pelo seguinte motivo: eles acreditavam que a economia funcionava exatamente como nos livros-textos de faculdade. Mas o que os livros-textos ensinam em relação ao funcionamento da economia de mercado é radicalmente falso e fictício. Tais manuais baseiam suas explicações sobre o mercado em termos matemáticos que supõem um ajuste perfeito. É como se o mercado fosse uma espécie de computador que ajusta de maneira automática e perfeita os desejos dos consumidores à ação dos produtores. O modelo ideal dos manuais é o da concorrência perfeita, descrito pelo sistema de equações simultâneas de Walras.

Quando era universitário, minha primeira aula de economia foi com um professor que começou sua explanação com a seguinte e espantosa frase: "Suponhamos que todas as informações sejam conhecidas". E logo em seguida ele se pôs a encher o quadro-negro com funções, curvas e fórmulas. Esta é exatamente a hipótese da qual partem os neoclássicos: todas as informações são conhecidas e nada se altera; tudo é estático. Mas esta hipótese é radicalmente irreal. Ela vai contra a característica mais típica do mercado: a informação nunca é conhecida por todos; ela está dispersa pela economia. Ela não é um dado constante que está ali para ser consultado a qualquer momento. O conhecimento dos dados surge continuamente em decorrência da atividade criativa dos empresários: novos fins são almejados, novos meios são criados e utilizados. Logo, qualquer teoria econômica construída a partir deste pressuposto irreal está fatalmente errada.

Os economistas neoclássicos pensaram que o socialismo era possível porque supuseram que todos os dados necessários para elaborar o sistema de equações simultâneas de Walras e encontrar sua solução eram "conhecidos". Não foram capazes de apreciar o que ocorria neste mundo que tinham de investigar cientificamente; por conseguinte, não conseguiram entender o que realmente se passava.

Somente a Escola Austríaca seguiu um paradigma distinto. Ela nunca supôs que as informações já estavam dadas e eram conhecidas por todos. Ela sempre considerou que o processo econômico era impulsionado por empresários que continuamente incorrem em transações e descobrem novas informações. Somente ela foi capaz de entender e explicar que o socialismo era um erro intelectual. Ela desenvolveu seu argumento utilizando quatro enunciados: dois podem ser considerados "estáticos" e os outros dois podem ser considerados "dinâmicos".

Em primeiro lugar, a Escola Austríaca afirma, como já dito, ser impossível o órgão planejador coletar e utilizar corretamente todas as informações de que necessita para imprimir um conteúdo coordenador às suas ordens. O volume de informações que os seres humanos manejam e com as quais lidam diariamente é imenso, de modo que é impossível gerir o que sete bilhões de seres humanos têm na cabeça. Embora os neoclássicos não tenham sequer conseguido entender este argumento, ele é o mais fraco e o menos importante. Ao fim e ao cabo, nos dias de hoje, com toda a capacidade informática existente, é um pouco mais fácil lidar com volumes imensos de informação.

O segundo argumento é muito mais profundo e contundente. A informação com que lida o mercado não é objetiva; não é como a informação que se encontra impressa em um catálogo. A informação empresarial possui uma natureza radicalmente distinta; ela é uma informação subjetiva, e não objetiva. Ela é tácita, por assim dizer. Ela é do tipo "sabemos algo, temos a técnica, a prática e o conhecimento, mas não sabemos no que tudo isso consiste detalhadamente."

Explicando de outra forma: é como a informação necessária para andar de bicicleta. É como se alguém quisesse aprender a andar de bicicleta estudando as fórmulas físicas e matemáticas que expressam o equilíbrio que mantém o ciclista enquanto ele pedala. O conhecimento necessário para saber andar de bicicleta não é adquirido desta forma, mas sim mediante um processo prático de aprendizagem, normalmente bem acidentado, que finalmente permite entender como se equilibra sobre uma bicicleta, além de detalhes fundamentais, como o de que, ao fazermos as curvas, temos de nos inclinar para não cairmos. É bem provável que Miguel Indurain desconheça os detalhes das leis da física que o permitiram vencer o Tour de France por cinco anos consecutivos, mas ele indubitavelmente possui o conhecimento de como se anda em uma bicicleta.

A informação implícita não pode ser moldada de maneira formalizada e objetiva; tampouco pode ser transmitida corretamente a um órgão planejador. Só é possível transmitir a um órgão planejador — de modo que este assimile e imponha uma coerção, dando um conteúdo coordenador às suas ordens — uma informação unívoca que não dê brechas a mal entendidos. Porém, a esmagadora maioria das informações das quais dependemos para sermos bem-sucedidos em nossas vidas não é objetiva; não é informação de catálogo. É informação subjetiva e tácita.

Mas estes dois argumentos — que as informações são extremamente volumosas e que possuem um caráter subjetivo — não bastam. Existem outros dois, de caráter dinâmico, que são ainda mais contundentes e cuja implicação inevitável é a impossibilidade do socialismo.

Nós seres humanos somos dotados de uma inata capacidade criativa. Continuamente descobrimos coisas "novas", almejamos objetivos "novos", e escolhemos meios "novos" para alcançá-los. É impossível transmitir a um órgão planejador a informação ou o conhecimento que ainda não foi "criado" pelos empresários. O órgão planejador pode se empenhar o quanto quiser em construir um "nirvana social" por meio de uma publicação diária de decretos e da imposição da força. Mas, para fazer isso — ou seja, para se alcançar o "nirvana social" — ele tem de saber exatamente o que ocorrerá amanhã. E o que vai ocorrer amanhã dependerá de uma informação empresarial que ainda não foi criada hoje, e que não pode ser transmitida ainda hoje para que nossos governantes nos coordenem eficientemente amanhã. Este é o paradoxo do socialismo, a terceira razão.

Mas isso ainda não é tudo. Existe um quarto argumento que é definitivo. A própria natureza do socialismo — que, como dito, se baseia na coerção, no impacto coercivo sobre o corpo social ou a sociedade civil — bloqueia, dificulta ou impossibilita a criação empresarial de informação, que é precisamente aquilo de que necessita o governante para dar um conteúdo coordenador às suas ordens.

Esta é a demonstração em termos científicos do motivo de o socialismo ser teoricamente impossível. É impossível o órgão planejador socialista coletar, apreender e colocar em prática todas as informações de que necessita para imprimir um conteúdo coordenador aos seus decretos. Esta é uma análise puramente objetiva e científica.

Não é necessário pensar que o problema do socialismo está no fato de que "aqueles que estão no comando são maus". Nem mesmo anjos, santos ou seres humanos genuinamente bondosos, com as melhores intenções e com os melhores conhecimentos, poderiam organizar uma sociedade de acordo com o esquema coercivo socialista. Ela seria convertida em um inferno, já que, dada a natureza do ser humano, é impossível alcançar o objetivo ou o ideal socialista.

Todas estas características do socialismo têm consequências que podemos identificar em nossa realidade cotidiana. A primeira é seu poder de encanto. Em nossa natureza mais íntima, sempre encontramos o risco de ceder ao socialismo porque seu ideal nos tenta, porque o ser humano sempre tende a se rebelar contra sua natureza. Viver em um mundo cujo futuro é incerto é algo que nos inquieta, e a possibilidade de controlar este futuro, de erradicar a incerteza, nos atrai.


Em seu livro A Arrogância Fatal, Hayek diz que, na realidade, o socialismo é a manifestação social, política e econômica do pecado original do ser humano, que é a arrogância. O ser humano sempre teve o devaneio de querer ser Deus — isto é, onisciente. Por isso, sempre, geração após geração, temos de estar em guarda contra o socialismo, continuamente vigilantes, e entender o fato de que nossa natureza é criativa, do tipo empresarial.

O socialismo não é uma simples questão de siglas, abreviações, sindicatos ou partidos políticos em determinados contextos históricos. O socialismo é uma ideia que está e sempre estará se infiltrando de maneira insidiosa em famílias, comunidades, bairros, igrejas, empresas, movimentos, partidos políticos de todas as ideologias etc. É necessário lutar continuamente contra a tentação do estatismo porque ele representa o perigo mais original que há dentro dos seres humanos, nossa maior tentação: crer que somos Deus.

O socialista acredita ser genuinamente capaz de superar o problema da impossibilidade da coleta, da apreensão e da utilização de informações dispersas, problema esse que desacredita totalmente a essência do sistema que ele defende. Por isso, o socialismo sempre decorre do pecado da soberba intelectual. Por trás de todo socialista há um arrogante, um intelectual soberbo. E isso é algo fácil de constatarmos ao nosso redor.

O socialismo não é somente um erro intelectual. É também uma força verdadeiramente antissocial, pois sua mais íntima característica consiste em violentar, em maior ou menor escala, a liberdade empresarial dos seres humanos em seu sentido criativo e coordenador. E, como é exatamente isso o que distingue os seres humanos dos outros seres vivos, o socialismo é um sistema social antinatural, contrário a tudo o que o ser humano é e aspira a ser.





Por Jesús Huerta de Soto
Professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.

sábado, 19 de setembro de 2015

O Plano D de Deseducação



Na crise provocada pela má gestão populista, os que sofrerão mais serão a educação, a saúde e os empregos


Então tá. O governo não tem mais onde cortar. Quem explicou, com todas as letras, foi Edinho Silva. Ah, 90% dos brasileiros não sabem quem é Edinho Silva? É o ministro da Comunicação. O governo não tem Plano B para o ajuste. Faz sentido. Nunca teve Plano A, nem Plano X Y Z. Sempre teve o Plano D, de Dilma. E foi o que levou à falência nosso sonho de desenvolvimento responsável. Nem me refiro hoje a falência econômica. Passo a palavra a outro ministro, o da Educação, Renato Janine Ribeiro.

“Queremos que todos saibam do drama. É inaceitável em termos sociais”, disse Janine. Drama social? Depois de quase 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, com o pai dos pobres e a mãe do PAC? O drama da deseducação não foi criado ontem. Não foi provocado pelos Estados Unidos, pela Europa ou pela China. Na “pátria educadora” de Dilma, alunos do ensino fundamental público vão mal nas três habilidades, leitura, escrita e matemática. É o que mostra um estudo oficial com 2,5 milhões de estudantes.

A pátria que deseduca

Os números são implacáveis. Um em cada cinco alunos (22,2%) do 3º ano não entende o que lê. Outros 34% encontram algum sentido, desde que a informação mais importante esteja na primeira linha do texto. Na escrita, o mesmo cenário. Mais de um quarto dos alunos do 3º ano não aprendeu a escrever direito. Ou não sabe escrever palavras (11,64%) ou troca e omite letras, sem conseguir produzir frases legíveis (mais 15,03%). Em matemática, um quarto (24,29%) não soma, com três algarismos, e não subtrai, com dois algarismos. O ministro Janine afirmou que o cenário da má alfabetização é “assustador”.

O Maranhão do clã Sarney e o Alagoas de Collor são dois líderes no mau desempenho. Mais de 40% das crianças do Maranhão estão no pior nível de leitura. Não conseguem ler nem uma sentença. É o resultado do slogan “tudo pelo social” criado pelo ex-presidente da República José Sarney e perpetuado por sua filha Roseana. Não entendo como um político que deixa uma herança tão maldita em seu Estado, com a ajuda prestimosa da filha, faz questão de batizar avenidas, pontes, hospitais e prédios públicos com seu nome.

É a vaidade cega. Ao ser eleito em 2002,  Lula dizia que sua prioridade número 1 seria resgatar a dívida social, principalmente na educação e na saúde. Podia falhar em tudo, menos nisso. Cientistas políticos que vestiram a estrela diziam que seria até irônico o PT fracassar no investimento social e na geração de empregos. Agora, na crise provocada pela má gestão populista e pela irresponsabilidade, os que sofrerão mais serão a educação, a saúde e os empregos. Ninguém sabe fazer conta?

Nosso Estado inchado não fez e não faz as reformas necessárias, não mexe nos interesses sagrados dos partidos e não entrega os serviços merecidos pela população. Falha em todas as habilidades. Viola a Constituição ao não garantir os direitos básicos de cidadania. Ministro Janine, tem jeito de ensinar leitura, escrita e matemática ao Planalto?

Soneto da Educação

Quem defende maior carga tributária no Brasil com o argumento de que os europeus descontam mais Imposto de Renda fecha os olhos para a realidade brasileira. Em primeiro lugar, europeu matricula filho em escola pública, se interna em hospital público e usa transporte público. Tudo com dignidade. O brasileiro sabe que o buraco aqui é mais embaixo: a arrecadação dos impostos não ajuda a si próprio nem aos mais carentes.

Já que estamos no abecedário da crise, vejamos o que o brasileiro paga. IPI, IOF, ISS, Cofins, IPVA, IPTU, DPVAT, Darf, Simples, Supersimples, DAE, Cide, ICMS, INSS, Rais, imposto sindical, taxa de incêndio, taxa do lixo, sobretaxa de água, bandeira vermelha para energia elétrica, taxa de estacionamento urbano, tributação rural. E agora a CPMF.

Peço desculpas por não expandir cada sigla. Mas não teríamos espaço numa página impressa. Fora o que pagamos para a máfia dos cartórios no Brasil, em dinheiro, tempo e estresse. Não podemos dar um passo sem “reconhecer firma”, sem provar que somos quem somos. Para enriquecer quem exatamente?

A cultura do desrespeito

O Plano D, de Dilma em Desespero, pede o maior esforço ao contribuinte. Ressuscita o fantasma da CPMF, com o objetivo nobre de “ajudar os aposentados”. Se você é contra a CPMF, então é “contra os velhinhos”. As chantagens sucessivas de Dilma a tornam impopular com todos os setores da população.

É curioso. Ninguém hoje fala mais em “golpe” ou em “veredicto das urnas” que a presidente. Uma obsessão típica de quem se sente acuada. As contas de Dilma podem até ser aprovadas com ressalva pelo TCU, mas ela foi reprovada com louvor no ofício de “presidenta”. Eduque as crianças, Dilma, se ainda tiver tempo. É o mínimo.










Por Ruth de Aquino

Ensino brasileiro: máquina de produção de analfabetos funcionais

           

Parabéns, Paulo Freire, você conseguiu destruir de vez com a educação nacional!

Uma reportagem no GLOBO de hoje (19) expõe bem aquilo que todos já sabem: o fracasso do ensino brasileiro, principalmente o público. Ele não passa de uma máquina de produção de analfabetos funcionais, que são sabem ler, escrever ou fazer conta, mesmo anos depois de frequentar as escolas. Isso tudo, não custa lembrar aos que clamam por mais recursos públicos, com o governo brasileiro gastando o mesmo que a média da OCDE em relação ao PIB, ou seja, não é problema de falta de verba, e sim de mau uso dela. Vejam o resultado:

Boa parte dos alunos no 3° ano do ensino fundamental brasileiro não entende o que lê. De acordo com a Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgada nesta quinta-feira, 22,21% dos estudantes de escolas públicas nessa fase da educação foram classificados no “nível 1″, o mais baixo de uma escala que vai até o “nível 4″. Segundo os critérios estipulados para o “nível 1″, essas crianças conseguem ler as palavras, mas não são capazes de compreender o que diz o texto diante delas.

Ainda segundo os resultados da ANA, 34% dos alunos estão no “nível 2″. Eles compreendem o sentido do texto, mas não são capazes de encontrar uma informação explícita quando a mesma está no meio ou no final desse texto. De acordo com a avaliação, 32% das crianças estão no “nível 3″ e apenas 11,2% estão no “nível 4″.

[…]

No que diz respeito à escrita, a ANA aponta que 34,46% dos dessas crianças não conseguem escrever um texto adequado ao que foi proposto. O resultado é a soma dos três primeiros níveis de aprendizagem. Na faixa 1, a mais baixa, estão 11,64% dessas crianças. Neste patamar elas não conseguem escrever palavras e relacionar os sons às letras. No nível 5 (índice ideal), há somente 9,88% dos estudantes, o que significa que sabem atender à proposta e escrevem textos com maior complexidade, embora possam ocorrer erros ortográficos e de pontuação.


Fonte: GLOBO




Não há como ver esses dados e não “parabenizar” o patrono da educação brasileira, o comunista Paulo Freire, não é mesmo? Com sua visão marxista transportada para dentro das salas de aula, Freire criou uma legião de “pedagogos” e “professores” cuja meta não era mais transmitir conhecimento objetivo para a garotada, ensiná-la a ler direito, a fazer cálculos, nada disso! Essas coisas eram “opressoras” demais, instrumentos de uma elite burguesa que desejava perpetuar o injusto sistema capitalista.

Daquele momento em diante os professores teriam mais “humildade” para reconhecer que não eram detentores de um saber superior, e que poderiam ensinar às crianças analfabetas e pobres tanto quanto elas poderiam lhes ensinar. Era uma linda via de mão dupla, onde “nós pega os peixe” é tão correto como “nós pegamos os peixes”, já que ninguém é dono da razão.

Além disso, muito mais importante do que ensinar esses “preconceitos burgueses” era “conscientizar” esses alunos da luta social, das injustiças do mundo capitalista. Em suma, criar um exército de repetidores dos slogans marxistas. Deu certo! A turma não aprende a ler, não sabe escrever, e muito menos fazer contas complexas (o que talvez explique as demandas sempre por mais estado, sem levar em conta os rombos fiscais). Mas como cospe no capitalismo e elogia o socialismo!

Freire merece uma estátua em sua homenagem, de preferência no Maranhão ou no Piauí, nos estados mais pobres (e analfabetos) em que os alunos estão blindados contra todo tipo de “doutrinação” burguesa capitalista. Se não quiserem fazer uma estátua para o barbudo comunista lá, que ao menos façam uma em Cuba, sua grande inspiração ideológica. O Brasil tem o patrono da educação que merece, e o resultado está aí. Não seria hora de buscar uma alternativa mais… burguesa e capitalista?





Por Rodrigo Constantino

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

E agora, José?



                                                     O governo se esconde do povo.

Não há mais público para defensores do governo. Fica chato fazê-lo e assinar embaixo.


Eu sei, eu sei. De repente a vida ficou pesarosa e irritante para quem viveu décadas surfando na utopia. Aquele discurso socialista tinha a leveza de um sonho erótico e excitava no contraste com a realidade, coitada - encardida, feia e banguela. Vendia-se utopia no vidro traseiro dos carros. Vendia-se em camisetas, bandeiras e alto-falantes. Nos microfones, púlpitos e salas de aula. Nas charges e colunas de jornal. Era fácil de anunciar e barata de comprar. Haveria, logo ali, um novo céu, uma nova terra e um homem novo. Onde? Como? Era tão simples! Tudo se resumia em Lula-lá!

Tenho bem presente a Constituinte de 1988, os anos 90 e, principalmente, os gozos cívicos que marcaram a chegada de Lula ao poder. Uns poucos, entre os quais eu, antevíamos o que estava por vir. Assim como era inevitável a vitória da utopia sobre a realidade, era inevitável o desastre que sobreveio devagar, incontornável. Desastre moral, institucional, fiscal, econômico, cultural. Desastre que atinge todos os objetivos permanentes de qualquer sociedade civilizada: ordem, justiça, liberdade, segurança e progresso. Nada simboliza melhor o colapso de um projeto impulsionado pela ingenuidade de uns e a vaidade de outros do que Lula assistindo a Copa de 2014 pela TV, e Dilma no Sete de Setembro de 2015, cercando-se com as autoridades numa espécie de campo de concentração às avessas. O governo se esconde do povo.

Então, eu sei, a vida arruinou para quem, nos meios de comunicação, inflou um projeto político que agora se veste de pixuleco. Os propagandistas recolhem seus realejos. Não há mais público para defensores do governo. Fica chato fazê-lo e assinar embaixo. Isso só por muito dinheiro e boa parte dos antigos propagandistas da utopia eram voluntários, rodavam sua manivela por devoção. Vem-me à mente, então, o grande Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?". Agora, quando o sonho erótico virou desvario masoquista, ainda com o poeta digo a José: "O dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo fugiu e tudo mofou. E agora, José?".

José, coitado, cuida como pode de proteger o indefensável. Ele não mais se aligeira com os porta-estandartes da utopia que não veio. Repare bem nele. Furioso, xinga e ofende quem faz oposição num país que precisa, urgentemente, de rumo e prumo. É feio, mal educado, mas - que remédio? - se a utopia mofou e deu nisso que está aí?




Por Percival Puggina

Poliamor. Ou: Amor nenhum


Na TV e na internet tenho visto algumas propagandas do que chamam “poliamor“. São os relacionamentos com mais de duas pessoas, podendo ser dois homens e uma mulher, duas mulheres e um homem, três homens, três mulheres etc. Segundo seus praticantes e defensores, o amor não tem limites e o afeto não deve ser coibido; se posso amar mais de uma pessoa, por que não? Qual a necessidade de encerrar o sentimento e a prática sexual dentro de um retrógrado combinado a dois, expressão singular dos conservadorismos e crenças fedorentas da humanidade imatura?

O pessoal do poliamor acredita que não há necessidade alguma. Por imaginar que nenhum dos seus defensores lerá este texto, destino o blog aos leitores habituais, a fim de esclarecer ainda mais os motivos que me levam a desconfiar – para dizer o mínimo – desses “arranjamentos amorosos” vigentes entre os participantes dos centros acadêmicos de humanas.

O amor é um dos projetos mais radicais de uma vida humana. Para usar os termos de Julián Marias, nossa espécie é definida também pela capacidade de futurição: todo homem antecipa sua vida; imagina-a, projetando com mais ou menos detalhes aquele que deseja ser e que, por condição mesma da vida, não pode sê-lo no presente. Cada um de nós pode ser compreendido como quem é, atualizado no presente, e quemquer ser, com as imagens de eu e trajetórias pretendidas.

Assim, o argumento biográfico é uma espécie de resultante dramática entre projetos idealizados e realizações concretas. Sou esta pessoa aqui, que já percorreu tais trajetórias e deseja percorrer algumas outras. Por isso, a futurição é um modo de antecipação de si, uma espécie de ensaio da própria vida. Alcançar um grande objetivo, possuir uma profissão, fazer uma viagem, servir um bom prato no jantar, amar alguém: exemplos de atividades humanas que não poderiam acontecer sem um pouco de imaginação e projeção.

Sendo um projeto, o amor tem direção: como ensina o mesmo Julián Marias em sua Antropologia Metafísica,é uma instalação humana com vetores que vão ao encontro do outro (como flechas). Assim como não existe projeto sem um “fim”, não existe amor sem destinatário. Sendo instalação radical – por ser configuradora da existência pessoal – no amor o fim não é um fim, mas um meio. Ao me inclinar em direção a alguém, desejando amá-lo e fazê-lo meu projeto, sinto-me realizado à medida que não termino na relação constituída, mas a partir dela sou outro “a dois”, alterado verdadeiramente pela presença que agora compõe minha realidade radical. Do consentimento amoroso de duas pessoas – do consequente encontro de projetos pessoais – nasce um terceiro projeto que não é mais individual, mas duplo: não sou eu ou fulano que queremos dar certo. Somos nós. A dimensão plural se abre de forma inédita e uma parte do mundo passa a ser conhecida porque agora não vivo mais só. O nascimento de filhos é o símbolo desta “extravasão” que só é possível porque a realidade não “cabe” mais em indivíduos isolados.

Em outras palavras: amar é ir em direção a alguém e querer transformar este mesmo alguém em projeto radical. Amar verdadeiramente é ser alterado por esta projeção a ponto de não ser o mesmo sem aquela pessoa. É o que transparece em diversas entrevistas de Julián Marias quando se refere à esposa (falecida vários anos antes dele). Vi o filósofo espanhol dizer, repetidas vezes (e parafraseando-o): desde que ela morreu já não sou mais eu. Uma parte minha não está mais aqui e por isso sinto-me impedido de ser inteiro quem já fui.

Isto é amor radicalmente falando. A projeção é tão intensa que “compromete” a minha realidade. Não sou mais o mesmo, nem posso ser. A partir do nós um novo projeto nasce – o da felicidade da relação.

Creio que o poliamor é uma fuga desta radical instalação humana. Por não precisar olhar alguém direta e objetivamente, seus adeptos passam a olhar alguns ao mesmo tempo. Evadidos da direção – e da necessidade de escolher e sacrificar-se por um -, perdem-se e confundem-se entre vários olhares, numerosos como os fragmentos de eu de cada um dos envolvidos. Qual é o projeto de cada um dos três ou quatro homens e mulheres da relação poliamorosa? Para onde caminham? Qual o destino deles, não individualmente, mas enquanto corpo constituído? Ainda: se um dos envolvidos sai da relação e outra pessoa entra em seu lugar, o que isto significa? Como é possível alteração radical nestes termos?

Amar é um tipo de decisão que afeta, sempre e primeiramente, duas pessoas. É a porta da verdadeira intimidade, como diria Louis Lavelle, pois um “terceiro” sempre sobra. A experiência coletiva existe e é necessária à vida humana, mas apenas a comunhão a dois é capaz de abrir a porção da realidade tocada somente por nós, amantes de um projeto que rompe os limites do eu e verte-se numa nova realidade dinâmica e afetiva; comprometedora e consoladora.

Numa reunião do Clube do Livro deste ano, quando discutimos a obra Persuasão, de Jane Austen, escrevi sobre o amor e justifiquei, como pude, a razão de ser do encontro entre o homem e a mulher. Transcrevo uma parte daquele ensaio aqui:

“Numa relação amorosa, a oposição disjuntiva entre a mulher e o varão ― e assim desejada pela realidade, de forma estrutural ― condensa simbolicamente as duas formas de estar no mundo do ser humano, como diria Julián Marias. A mulher é aquela que enxerga longe ― nos desdobramentos da relação em que está ―os efeitos na eternidade do amor que mutuamente oferecem. Ela é como o vaso depositário das esperanças do homem, culminando na fecundação de seu útero toda a nova possibilidade característica do amor. Esterilidade é oposto ao amor. Por isso a mulher não deve aceitar posição inferior, que a desinstale deste lugar de privilégio, no qual o velho encontra o novo e a face da terra se renova.

Do mesmo modo, o homem é aquele que luta para realizar-se, exigindo de si mesmo a força necessária para fecundar a vida. É regido por um sol interior que o impele a cumprir, construir, prover no mundo,inexoravelmente masculino. Para o varão, a eternidade é uma morada atraente. A mulher, neste sentido, é o sinal sensível da eternidade que precisa ser conquistada e não perdida. É por isso que é o homem quem vai em direção à mulher, corteja-a como quem ensaia um pedido de casamento com a divindade, entrada para o Paraíso que sempre teme não ser mais seu. Que a realidade tenha feito as coisas desse modo, creio ser indiscutível. Mesmo nas relações homossexuais será necessário que os dois envolvidos exerçam papéis diferentes na hora do sexo. Portanto, a complementaridade é irrevogável. As grandes histórias de amor da literatura, como as de Jane Austen, são símbolos desta tensão existente entre os opostos que, quando felizmente vencem as descontinuidades e infidelidades, dão nascimento a um tipo de encontro ― o mais radical e frutífero entre os seres humanos.”


Este assunto, ou tema da vida humana, renderia outros textos. Prometo voltar a ele num futuro próximo. Por ora, penso ter esclarecido porque o poliamor é amor nenhum.

Ir a muitos destinos é ir a destino algum.




Por Tiago Amorim
Professor e mora em Curitiba (PR). É idealizador do curso “A Vida Humana”(www.avidahumana.com.br) e autor do livro “A Abertura da Alma” (editora Danúbio). Dá aulas no Solar do Rosário e atende em escritório próprio, onde desenvolve um trabalho de aconselhamento individual.