sexta-feira, 21 de agosto de 2015

É possível encolher o estado brasileiro – e as condições nunca estiveram tão propícias quanto hoje


Nesta abrangente e detalhada entrevista, o jornalista e documentarista Adalberto Piotto, atualmente na Rádio Jovem Pan, entrevistou o presidente do IMB, Helio Beltrão, sobre as questões mais prementes hoje na economia e na cultura brasileira.

Segundo Helio, boa parte da população ainda tem a mentalidade de que precisamos de burocratas gerenciando nossas vidas por meio de um estado-babá muito presente na economia. Ainda predomina a mentalidade de que um burocrata sentado em Brasília, munido de uma caneta, é capaz de saber melhor o que pode funcionar para todos os indivíduos de todos os cantos do país do que todo o conhecimento que está disperso pela sociedade dentro da mente da cada indivíduo.

E a consequência dessa tutela é a perda da autonomia, da liberdade, do dinamismo e da capacidade empreendedorial.

Além disso, e para piorar, há os grupos empresariais e sindicais de sempre, que estão em um confortável conluio com o poder, e que têm todo o interesse de manter a atual máquina de Brasília operando intocada.

Helio também fala sobre a indústria do carimbo, que ainda é muito resiliente. E isso decorre dos grandes grupos de interesse já encastelados no poder, que ganham com o atual arranjo de criar dificuldades para vender facilidades. A própria existência de cartórios é boa para empresas já estabelecidas, pois dificulta o surgimento de novos concorrentes. Será muito difícil mudar isso se ainda tivermos a mentalidade de que precisamos desse tipo de controle.

Ao passo que na Suécia e nos EUA qualquer um pode autorizar e registrar uma cópia — nos EUA, o notário público normalmente é um farmacêutico —, aqui no Brasil a mentalidade cartorial segue firma a despeito de todo o avanço tecnológico já vivenciado pelo mundo.

Para resolver o atual descalabro, não basta apenas "colocarmos um dos nossos em Brasília". Mesmo que um genuíno libertário assuma a presidência, se a mentalidade da população ainda for estatista, nenhuma reforma poderá ser feita. Não haverá clamor popular por tais reformas.

Uma analogia que, segundo Helio, retrata bem esse problema, seria a de tentar infiltrar uma pessoa boa e honrada no PCC (Primeiro Comando da Capital) com o intuito de tornar aquela quadrilha uma organização de pessoas boas e decentes.

O que irá acontecer, nesse caso, é que, ou essa pessoa boa irá se corromper e irá se tornar mais um membro da quadrilha, ou ela simplesmente pedirá para sair.

Com o estado, o raciocínio é o mesmo. O estado tem a sua própria lógica — a lógica de manter o poder, de usar verbas para proveito da máquina, de fazer acordos de favorecimento a grupos de interesse — e essa lógica só poderá ser mudada de fora para dentro, por meio de mudanças na mentalidade da população.

Sobre a questão dos programas sociais, Helio afirma que há alternativas não-estatais que funcionariam de maneira muito mais eficaz. Se, em vez de ter seu dinheiro confiscado por impostos, você tivesse a opção de doar seu dinheiro para ONGs auditadas pelo mercado, você muito provavelmente escolheria uma ONG cuja auditoria independente revelasse que 95% do dinheiro doado realmente chega a quem precisa (ao contrário do modelo estatal, em que 95% é desviado e vai parar nos bolsos de que não precisa), e provavelmente você escolheria uma ONG que trabalha na sua comunidade, de modo que você passaria a ter mais responsabilidade e mais poder de fiscalização e cobrança.

Portanto, mesmo na questão da rede social, há alternativas não-estatais que trazem de volta a questão de responsabilidade individual. É muito mais importante devolver ao cidadão a responsabilidade por resolver os problemas sociais do que deixar tudo nas mãos de Brasília.

Embora a entrevista seja relativamente longa (29 minutos), esta é sem dúvida uma das melhores e mais completas exposições dos ideais do livre mercado, do voluntarismo e de livre cooperação entre os indivíduos. E o entrevistador é extremamente competente. Vale muito a pena.






Por Hélio Beltrão
Presidente do Instituto Mises Brasil

Era vidro e se quebrou


O problema é quando o mentiroso começa a mentir a si mesmo, e acreditar. Os psicanalistas dizem que não vale a pena continuar a terapia

Não é uma questão de ódio ou de intolerância, é de confiança. Na primeira pesquisa de opinião depois das eleições, dois terços dos brasileiros diziam que Dilma tinha mentido na campanha. É duro e raro que um governante flagrado em mentiras sérias recupere a confiança dos eleitores. Pode até ser aceito como um bom administrador, mas a confiança não se restaura, porque não há ex-mentiroso. Uma vez mentiroso, sempre mentiroso, dizem a História, a lógica e a sabedoria popular. Não há obras, manobras, loteamento de cargos e campanhas publicitárias que nos façam voltar a acreditar em quem nos enganou.

Claro, mentir, em certa medida, todo mundo mente, faz parte da condição humana, alguma hipocrisia é indispensável para uma convivência civilizada. Já pensou se todo mundo fosse sincero todo o tempo e dissesse o que lhe vem à cabeça? O problema é quando o mentiroso começa a mentir a si mesmo, e acreditar, caso em que os psicanalistas dizem que não vale a pena continuar a terapia. Dilma começou mentindo para os outros — e agora mente para si mesma. Sim, ela não rouba, mas mente muito.

E para piorar, mente muito mal, ao contrário de Lula, que usou seu grande talento histriônico para fazer da mentira uma das suas melhores armas. Durante anos muitos acreditaram nele, hoje todo mundo sabe que ele sempre soube de tudo e mentiu o tempo todo. Pode até ter feito um bom governo, mas é mentiroso.

Sim, todo politico mente: uns para o bem, outros para o mal.

Nos países anglo-saxônicos, de ética protestante, a verdade é um valor básico. Para eles, mentir é ilegal, pode levar à execração social e até a cadeia, por falso testemunho. Bill Clinton, mesmo popularíssimo, foi impichado na Câmara (e salvo pelo Senado ), não porque teve um caso com Monica Lewinsky, mas porque mentiu ao país.

No tempo da luta armada, Dilma fez a escolha errada, achando que poderia derrotar a ditadura militar pela força e instaurar a ditadura proletária, mas acabou contribuindo para atrasar o processo de abertura política que levou à redemocratização. Por puro autoengano.




Por Nelson Motta

Propor aumento de imposto num país como o Brasil é simplesmente indecente e imoral

    
   Para quem tem apenas um martelo, tudo se parece com prego

“Os governos nunca quebram. Por causa disso, eles quebram as nações.” (Kennet Arrow)
A sequência é conhecida: governantes populistas e irresponsáveis gastam mais do que podem, endividam seus estados ou o governo federal e, depois de quebrarem seus estados, alegam que a única saída é aumentar os impostos. Essa turma se recusa a cortar na carne, a reduzir gastos públicos, despesas desnecessárias ou defender reformas estruturais. A saída proposta é sempre e invariavelmente a mesma: avançar sobre o bolso do pagador de impostos.

Vejam o caso do Rio Grande do Sul. O estado quebrou após a gestão incompetente de Tarso Genro. E agora, o governador José Ivo Sartori resolve quebrar promessa de campanha e propor aumento de impostos. Faz isso como se estivesse contrariado, como se não houvesse alternativa, como se fosse a única medida possível para continuar pagando os servidores públicos.

“O remédio é amargo, muito amargo. Mas o estado está na UTI e momentos assim exigem verdade. Também sou contra medidas assim (aumento de impostos), também poderia dizer que tenho contrariedade. Fizemos de tudo para evitar, mas o estado vive situação de emergência e precisa do ingresso urgente de dinheiro no caixa para cumprir as obrigações mais essenciais em 2016. Este ano, infelizmente, ainda vamos conviver com muitas dificuldades, problemas muito sérios”, justificou o governador.

Fizeram de tudo para evitar uma ova! Alguém realmente acha que os estados brasileiros e o governo federal possuem estruturas enxutas, gastos responsáveis, postura austera? Piada! Temos governos perdulários, quadro inchado de servidores, privilégios, mamatas, muitas tetas alimentando muitas boquinhas. Mas mexer nisso esses governantes não querem, pois geraria a revolta dos grupos organizados de interesse. Melhor subir impostos e diluir o fardo entre todos os trabalhadores…

Nosso estado já arrecada quase 40% de tudo o que produzimos, mas acha pouco! O que entrega em troca? Ótimas estradas, hospitais modernos, segurança, escolas de primeira? Pausa para gargalhar. Mas vem crise, sai crise, e tudo que os governantes conseguem é defender mais impostos. Inclusive com o apoio de um Ph.D. de Chicago, para provar que quem tem apenas um martelo, só enxerga prego na frente.

O editorial da Folha de hoje falou do PIS/Cofins, mostrando como nosso sistema tributário é “canhestro” após uma “evolução” gradual governo após governo. O jornal traça um paralelo com certas características estranhas de alguns bichos, resultado de uma evolução nem sempre favorável, e diz:

Algo semelhante se deu com nossos impostos, cujas alíquotas se esticaram com o propósito de alcançar melhor o bolso do contribuinte. Destaca-se, nesse monstrengo, o pescoção do PIS/Cofins. […] Trata-se de tributo punitivo para a produção de bens, pois incide sobre o faturamento das empresas, e não sobre o lucro. Além disso, um emaranhado de regras permite compensar determinados créditos relativos a custos acumulados pelas firmas ao longo da cadeia produtiva; muitas terminam por não reclamá-los como poderiam.

Como mais uma demonstração de fome insaciável por nossos recursos, os governadores resolveram “retaliar” o governo federal, que teria fechado um pouco a torneira. E eis como decidiram reagir: querem aumento de impostos sobre herança de imóveis. Também está em estudo, embora ainda sem decisão final, propor ao Congresso a fixação de uma alíquota mínima de 18% para o ICMS que incide sobre a venda de diesel. Bela reação: quem paga o pato é, claro, o trabalhador de classe média, como sempre.

Do lado desses governantes estão todos aqueles que vivem das tetas estatais, enquanto do outro lado estamos nós, pagadores de impostos que sustentamos a farra toda. Em sua coluna de hoje na Folha, Reinaldo Azevedo fala dessa disputa, descrevendo o que está por trás do combate ao “ajuste fiscal” daquela turma vermelha que foi às ruas nesta quinta (dia útil, para provar que não trabalham mesmo):

Pois é… Embora muitas pessoas tenham dito para si mesmas e para os outros, no domingo passado, que não podem ser obrigadas a arcar com o custo da irresponsabilidade petista, a quase todos era claro que o ajuste fiscal é necessário; que ele é a correção fatal das bobagens feitas pelo petismo. Vale dizer: não batemos panela, bumbo ou boca contra o ajuste fiscal. Mas contra Lula, o boneco inflado, e contra Dilma, a Lírica da Mandioca, que não sabe cortar gastos nevm fazer… ajuste fiscal!

Quem grita contra o que faz sentido no governo é Guilherme Boulos, o coxinha predileto das tias –”Que menino opinioso!!!”. Quem faz isso é João Pedro Stedile, o sem-terra a quem a enxada provocaria um choque anafilático. Mobilizar-se contra a correção necessária dos desmandos do Estado hipertrofiado é coisa de mamadores oficiais; de gente que depende dele para alimentar as suas taras de classe, ainda que tomadas de empréstimo, como no caso dessa dupla.

Ou por outra: quem quer Dilma fora da cadeira presidencial defende a única coisa que pode fazer algum sentido em Dilma. Os que a querem onde está a consideram uma vira-casaca, mas ela ainda é a melhor garantia do Estado-babá, que vai mantê-los alimentados com o leite de pata estatal. E aí está a esquizofrenia.

[…]

Nós, os antiesquerdistas, vencemos. Não queremos nada pra nós. Nem sinecura nem caraminguás. Só lutamos pelo triunfo da matemática. Os outros apenas imploram para viver, vencidos pela evolução da espécie.


Boulos, Stedile e companhia só querem tetas estatais, pois têm verdadeira ojeriza ao trabalho. Mas não seria tão otimista quanto Reinaldo Azevedo a ponto de decretar que tais espécies foram vendidas pela evolução. Como vimos acima, a “evolução” tem seus truques, e certas características bizarras podem se desenvolver como instrumento de sobrevivência e até prosperidade.

Num país como o Brasil, esses bichos estranhos, que nunca trabalham e só falam em nome do povo, dos pobres e dos trabalhadores enquanto mamam nas tetas estatais, não só sobreviveram como desfrutam de verbas cada vez mais polpudas. São elas que estão ameaçadas agora, com a crise causada pelo excesso de irresponsabilidade da esquerda no poder.

Mas quem está disposto a afirmar que a saída será menos privilégios para os bichos estranhos, para as cigarras “raivosas”, e não mais carga tributária para as formigas trabalhadoras? Tudo indica que o “ajuste fiscal” que tem predominado não tem nada de ajuste real, que cortaria na carne tantos gastos inúteis dos governos, e sim, uma vez mais, aumento de impostos. Chega a ser indecente e imoral falar em mais impostos num país como o nosso.

Mas ei, indecência e imoralidade é com essa turma mesmo, pois essas são suas armas de sobrevivência nessa “evolução” da espécie. Até o dia, claro, que teremos tantos parasitas para tão poucos hospedeiros que o organismo como um todo acusará o golpe fatal, levando junto os próprios parasitas…





Por Rodrigo Constantino

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A narrativa absurda da esquerda que se recusa a aprender com os próprios erros


Se esquerdista aprendesse com a experiência, a esquerda acabava. Afinal, é uma tentativa depois da outra, todas inexoravelmente fracassadas. Mas os utópicos igualitários nunca podem desistir. Como um viciado em crack, eles simplesmente não enxergam possibilidade de vida sem seu ópio. Para eles, abrir mão da utopia é deixar de viver. Para preservar a fantasia, então, ignoram os fatos e se recusam a aprender com os próprios erros.

Já disse e repito: o grande esforço dos liberais deve ser, agora, deixar bem clara a mensagem de que o inferno que estamos enfrentando tem 100% de origem nos equívocos esquerdistas, no nacional-desenvolvimentismo que criou a “nova matriz macroeconômica”, no intervencionismo estatal, na seleção de “campeões nacionais” etc.

Mas os esquerdistas não vão desistir facilmente. Já preparam, agora que o PT afunda de vez, a narrativa que dissocia o lulopetismo da “verdadeira” esquerda. Gente que até ontem estava empolgada com o governo petista, agora se finge surpresa e traída, pois, afinal, o problema do PT é não ter sido esquerda o suficiente. Isso é pura balela!

Só que os socialistas vão insistir nessa tecla, com certeza. Em artigo publicado hoje na Folha, Roberto Amaral, ex-presidente do Partido Socialista Brasileiro, tentou caminhar nessa direção, mas ainda defendendo as “conquistas” do PT no governo:

Partidos do campo da esquerda e até os da base do governo fogem de seu dever político de defesa da presidente Dilma e de seu mandato, enquanto o PSDB, e seu derrotado candidato, pregam, irresponsavelmente, a ruptura constitucional ao apelarem para a esdrúxula convocação de novas eleições. A pregação desse golpismo não contribui para a saída da crise, apenas a aprofunda.

Esse quadro expõe a mediocridade de nossas lideranças políticas, pequeninas, presas no entorno de seus projetos pessoais, mesquinhos, sem qualquer visão de Brasil, sem qualquer consciência de destino, carentes de perspectiva histórica. Alimentam um impasse ao cabo do qual não haverá vencedores.

Sairemos vencidos, mortos nossos sonhos, distantes nossas utopias como a linha do horizonte. A mediocridade faz sua festa.


Ele quer evitar a todo custo a “morte da utopia”, pois ela daria lugar a uma mediocridade reinante. Como se mediocridade não fosse um elogio para a incompetência petista! Como se essa “utopia” já não tivesse nos custado caro demais! É uma insistência espantosa no erro, só para não admitir que sonhou o sonho errado, um pesadelo para os brasileiros.

Mas se Amaral ainda tenta preservar Dilma e o PT, Marcelo Freixo, do PSOL, já ensaia um afastamento maior do governo, para preservar o esquerdismo radical. Em sua coluna de hoje no mesmo jornal, ele parece acreditar que os problemas causados pelo governo petista são fruto do afastamento do ideal igualitário, e não de sua visão intervencionista típica da esquerda:

Por isso, apesar dos acordos eleitorais, o futuro da gestão não estava determinado, mas em disputa. Foi ao longo do mandato que Lula trocou a possibilidade de transformação pela acomodação aos vícios da política tradicional.

Reconheço conquistas como o fortalecimento dos órgãos de investigação, a valorização do salário mínimo, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores e a redução da miséria. Entretanto, o PT não avançou nas reformas de base no sistema político, na educação, na saúde, na ampliação da participação social e nas questões agrária e indígena.


Como alguém pode ter a cara de pau de insinuar que estamos vivendo nessa crise porque o governo do PT não intensificou a reforma agrária, ou não deu mais privilégios aos movimentos indígenas, ou não adotou uma democracia mais “direta”, como a venezuelana? É muita inversão de fatos! Mas é o ato desesperado de quem precisa resguardar sua utopia, blindá-la contra a realidade, contra mais essa experiência totalmente fracassada da esquerda radical no poder.

Não tentem se afastar do lulopetismo agora, esquerdistas! Essa desgraça toda infligida ao povo brasileiro é responsabilidade do esquerdismo que defendem, que ainda defendem apesar de tudo. O PT não se afastou de suas bandeiras; ele as colocou em prática, sob protestos e alertas dos liberais, e aplausos e regozijo dos socialistas. E agora a casa caiu.

Não venham afirmar que o monstro é órfão, muito menos filho da suposta “guinada à direita” do PT. É filho da esquerda mesmo. Um filho que sempre acaba renegado, abandonado, quando mostra sua verdadeira cara. Mas quem pariu Mateus que o embale…





Por Rodrigo Constantino

Um mito que se esvai


A evidência do processo de desconstrução de um mito foi uma marca importante deixada pelos protestos de rua do dia 16: Lula nunca mais! O repúdio a Dilma e ao PT eram as outras palavras de ordem dominantes no evento, óbvias por mirarem as personagens que se destacam na cena política: a protagonista e seu coro. Mas, por detrás de Dilma e do PT, emergiu fortemente na percepção dos cidadãos a figura do arquiteto da grande mistificação populista que encantou a maioria dos brasileiros enquanto pôde se manter sobre seus pés de barro.

O sucesso popular de Luiz Inácio Lula da Silva foi o resultado da conjugação de virtudes pessoais, como a excepcional habilidade para aliar meios a fins – a essência da política –, com circunstâncias históricas, como a globalização da economia e das comunicações que fizeram amadurecer, na virada do século, momento propício a um forte influxo humanista na economia de mercado que vinha de impor sua hegemonia no planeta.

No auge de seu prestígio popular, quando comemorava, em 2010, com a eleição de Dilma, sua terceira vitória consecutiva em eleições presidenciais, Lula claramente se sentia detentor de um poder quase absoluto. Acabara de dar um passo decisivo para o projeto de perpetuar a hegemonia política de seu PT.

Esqueceu-se da célebre advertência de Lord Acton: o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. E não permitiu que restassem dúvidas quanto a quem era o verdadeiro dono desse poder quando, ainda antes da metade do primeiro mandato de Dilma, a convenceu a praticamente renegar a “faxina ética” que realizara em seu Ministério ainda em 2011.

É bem verdade que com o tempo, e principalmente a partir da posse no segundo mandato, Dilma afastou-se gradativamente da influência política direta de Lula. Mas faltou-lhe competência política para salvar a si, ao PT e ao Brasil do desastre político, econômico, social e moral cujas raízes estavam solidamente plantadas desde os primeiros meses do primeiro governo de seu criador e frustrado preceptor.

A avassaladora evolução das investigações da Operação Lava Jato começa a revelar os primeiros indícios de que Lula pode estar envolvido em episódios que já levaram à prisão donos das grandes empreiteiras de obras com os quais desenvolveu estreito relacionamento pessoal, tanto como presidente da República quanto, depois, como consultor, conferencista e lobista internacional.

Mas não é a Lava Jato – ou apenas ela – que aproxima Lula de Lord Acton. Por apego ao poder, o chefão do PT corrompeu, principalmente, um projeto político em que, durante muito tempo, uma maioria de brasileiros de boa-fé, completamente iludida, acreditou firmemente: a redução das desigualdades com o pleno acesso da população marginalizada da vida econômica aos bens sociais essenciais, como educação, saúde, saneamento, transporte, segurança.

O fastígio econômico dos seis primeiros anos de governo de Lula, apoiado nos princípios sólidos de estabilidade econômica herdados de governos anteriores e numa conjuntura internacional extremamente favorável, permitiu avanços sociais importantes no desfrute de uma política social focada no crédito fácil e na gastança voltada para bens de consumo. A ambição de transformar esses avanços em vantagens eleitorais a curto prazo e não em efetivas conquistas no prazo longo, aliada à miopia de viés ideológico, levou à implantação de uma “nova matriz econômica” intervencionista, estatista. Enfim, a corrupção de uma política que se anunciava voltada para os benefícios sociais resultou nas mazelas que hoje todo o País sofre.

Lula, portanto, corrompeu com sua ambição de poder um projeto político que fez as pessoas acreditarem ser socialmente desejável e exequível. E acabou por inviabilizá-lo – aí com a forte ajuda de Dilma – ao vinculá-lo à “ideologia do bem” segundo a qual não existe verdade fora do Estado. Razões suficientes para que o País queira vê-lo pelas costas.





Editorial do Estadão - 18/08/2015

Cuidado! Seja honesto!


Para o brasileiro decente, que vive do suor (bíblico) de seu rosto e paga seus impostos, acordar a cada quinta ou sexta-feira com mais uma fase da Operação Lava Jato se tornou uma pequena grande recompensa, uma espécie de homenagem tardia que o Estado rende à honestidade.
As cenas dos agentes da PF efetuando as prisões e as entrevistas dos procuradores-ninjas explicando as investigações são um bálsamo para os cidadãos que se consideram os otários da República, dada a histórica impunidade usufruída por quem rouba para esconder fortunas na Suíça ou construir piscinas folheadas a ouro.

Para quem se sentia pequeno e indefeso contra a corrupção histórica, é reconfortante saber que os efeitos da Lava Jato — o medo que ela impõe aos que andam fora dos caminhos que mamãe recomendou — deixam sem dormir os empresários e os políticos que costumam conspirar contra a coisa pública. Alguns deles, inclusive, já refletem sobre o assunto por trás das grades e de prisões preventivas.


Os tempos estão mudando.

Se você é um reles funcionário do Detran cobrando um ‘por fora’ numa vistoria no Rio de Janeiro…

Se você ajuda alguém a fraudar o INSS sonhando em dirigir uma Range Rover…

Se você é um fiscal da Receita estadual que reduz uma multa aplicável por lei em troca de uma mochila cheia de papel pintado…

Se você é um deputado que cobra de grandes empresas para enfiar artigos em projetos de lei (ou retirá-los de lá)…

Se você é um banqueiro que fecha os olhos para as regras ‘know your client’ e aceita que o dinheiro sujo contamine a sua legítima operação bancária….


Cuidado. Muito cuidado.

Sua hora deve estar chegando.

Ontem, muitos brasileiros foram às ruas pedir a saída da Presidente da República mais impopular da história. A sociedade ainda debate se há base para um pedido de impeachment, se há materialidade suficiente nos fatos — seja na questão das pedaladas fiscais, seja na contaminação das contas de campanha.

Mas os brasileiros que foram à rua não se sentiam sozinhos. O Ministério Público Federal e um juiz obstinado estão apontando um novo caminho. Um caminho de tolerância zero.

Mais do que uma operação isolada ou um ponto fora da curva, a Lava Jato é um estado de espírito. É o espírito do tempo.

Cuidado.






Por Geraldo Samor

Fim de Era


A mudança qualitativa dos protestos ocorridos em todo o país no domingo não se mede em números, mas em símbolos. O boneco inflável do ex-presidente Lula como presidiário que surgiu em Brasília e hoje está em todos os lugares do mundo graças à criatividade liberada pela internet, marca o fim de uma era, quebra um mito, faz a ligação direta entre a corrupção e o chefe do grupo, responsável, na visão popular, pelos esquemas corruptos, e por ter colocado Dilma no Palácio do Planalto.

Dez anos depois do mensalão, quando seu nome era impronunciável, Lula aparece aos olhos da multidão como aquele que tem o domínio do fato. Pela terceira vez em oito meses, multidões vão às ruas em todo o país para rejeitar o governo Dilma, o que não deveria ser banalizado pelo governo se ele estivesse atuando dentro da realidade.

Como Collor na ocasião de seu impeachment, a presidente Dilma parece estar em outra realidade. Aos olhos de Ulysses Guimarães falando sobre Collor, a reprovação das ruas vale mais que uma eleição, pois desse plebiscito saiu o repúdio da praça pública àquele que, embora eleito, perdeu a legitimidade.

A tese de Ulysses foi lembrada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que pediu um gesto de grandeza como a renúncia à presidente Dilma, ou ao menos um ato de contrição. Pois Ulysses também falou da renúncia no caso do Collor, em uma entrevista ao Jô Soares que o Jorge Bastos Moreno resgatou em seu blog, lembrando os casos de Getulio e Jânio Quadros.

Ulysses chegou a afirmar que a dimensão da praça pública “é maior do que na urna”. Collor morrera civicamente, decretou Ulysses, “morreu no respeito da nação e não acredita que morreu. É um fantasma”. Não é mais presidente, pontificou.

Pois os petistas que hoje falam em golpe contra Dilma e alegam que 800 mil pessoas na rua não revogam 54 milhões de votos, naquela ocasião em que estavam na campanha para derrubar o então presidente Collor, não consideravam absurda a tese de Ulysses. E o próprio Lula, em declarações gravadas que circulam na internet para reavivar a memória dos mais esquecidos, disse que a maior lição dada pelo impeachment de Collor era que o povo enfim aprendera que os mesmos cidadãos que elegeram um presidente podem tirá-lo do poder.

O frágil apoio que o senador Renan Calheiros está dando à presidente Dilma, portanto, não deveria ser suficiente para que o governo petista se sentisse seguro, pois, como bem salientou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no comentário que postou no Facebook, os conchavos políticos não garantem a legitimidade do governo.

Muito mais por que Renan, assim como Cunha, representa o que há de mais nocivo no fazer política do PMDB, a possibilidade sempre presente de uma traição. Enquanto interesses comuns os unem, Dilma e Renan caminharão juntos, mas, como gostam de dizer os peemedebistas, só até a beira do túmulo, pois ninguém cai na sepultura abraçado ao morto.

Depois das manifestações que chegaram até à porta da família Calheiros em Maceió, o presidente do Congresso deve estar menos à vontade na posição de garantidor do governo do que antes. Mas se os acordos de bastidores estão dando gás à presidente, as ruas continuam enviando suas mensagens.

Bastará um gesto desabusado por parte de Renan, como sentar em cima da análise das contas da presidente Dilma caso o Tribunal de Contas da União (TCU) eventualmente as rejeite - o que agora ficou mais provável, pois a responsabilidade final está nas mãos do presidente do Congresso - para que a indignação latente volte a se manifestar pelo país.



Por Merval Pereira

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Dilma recebe ultimato: renuncia ou será saída!


As ruas deram o recado: Mudança, já! O desgoverno fingiu que não é com ele. Lula ficou pt da vida porque o boneco presidiário 13-171 virou meme e ganhou fama mundial, acabando com a dele. Os radicalóides agendam, para o dia 20, atos em defesa do indefensável. Dilma recebe ultimatos. FHC mandou ela renunciar. Tucanos já se articulam com Michel Temer para o impeachment que, se acontecer, nada vai mudar em termos estruturais. Pior, deixará a coisa do mesmo jeito, ou pior ainda.

O cenário brasileiro nunca esteve tão instável, política, econômica e moralmente. O impasse institucional caminha, velozmente, para uma ruptura. O desgoverno, seus aliados e a "oposição" de mentirinha já constataram que o pirão desandou, e tenta uma negociação na base do velho conchavo de bastidor. A banda revolucionária de esquerda teve a mesma percepção, mas prefere a solução na base da radicalização do discurso e da porrada explícita, para tentar implantar, de vez, o bolivarianismo do Foro de São Paulo. Não vai dar certo. O povo já avisou que repudia...

Dilma começa a enxergar uma saída doida. Enquanto é tempo, seria bom romper com o PT (que nunca foi o partido dela, uma brizolista histórica) e manda a base aliada para o inferno. O problema é que não tem coragem nem competência para tanto. O previsível é que Dilma não deve cair sem reagir. Não combina com a personalidade dela. A não ser que surja (ou seja providencialmente inventado) algum problema de saúde. Neste caso, o Sírio e Libanês faria o serviço, direitinho, para o Michel Temer Lulia (que é da banda dos "brimos").

A solução temer, no entanto, é temerária. Não é consenso nem na base aliada. Também encontraria a mesma resistência popular. Curiosamente, apesar dessa rejeição, a ideia do vice assumir vem sendo encarada, seriamente, pelos banqueiros que lideram o segmento empresarial que joga sempre a favor do regime da Nova República. Também divididos, os tucanos oportunistas também acham que trocar Dilma por Temer seria uma boa para eles. José Serra já sonha até com o Ministério da Fazenda - lugar que o Levy adoraria largar para retornar, quando a quarentena permitir, ao seu lugar guardadinho na divina Cidade de Deus (do Dinheiro, claro, onde fica a sede do Bradesco).

Dilma está mais que insustentável. Só um milagre (que ninguém sabe qual) segura seu mandato. Lula vive sua pior crise existencial. A condenação da banda de Cerveró, na Lava Jato, foi interpretada como um recado final para ele. A operação policial-judicial vai se aproximar de seus aliados. Antonio Pallocci está de prontidão. José Dirceu continua pt da vida, amargando a cadeia. Enquanto isso, todos ficam reféns políticos de Renan Calheiros e Eduardo Cunha - que teatralizam, muito bem, uma suposta divergência que não existe entre eles.

A economia segue instável e com sinais de piora de crise no curto e médio prazos. Governos são derrubados sempre que o bolso e a subsistência do povo são afetados. Este é o grande medo da petelândia - que aposta na radicalização de quinta-feira que vem como um começo de reação a favor da Dilma. No quadro conjuntural presente, é quase certo que o feitiço vire contra os feiticeiros, ferindo, mortalmente, a bruxa e o verdadeiro chefão de todos.

O PTitanic afunda ao som de um funk composto pelo companheiro Cramulhão... se Dilma ficar, uma coisa é certa: Lula será o grande rifado... Te cuida, $talinácio...






Por Jorge Serrão

16/08 e a questão da legitimidade


Nosso jornalismo, há muitas décadas, foi tomado de assalto pelos que chamo "pedagogos da opinião pública". Por sua visibilidade, do alto de suas posições nos meios de comunicação, sentem-se como mestres em salas de aula, praticando contra a opinião pública o mesmo abuso mental que tantos professores praticam com os alunos, mediante influência e poder. Uns e outros, pedagogos da opinião pública e professores militantes, operavam antes de o PT nascer e prepararam dedicadamente seu caminho ao poder. Era na base do nós e eles. Simples assim: a esquerda era o bem e, fora dela, nada haveria que prestasse.

Algumas coisas sobre si mesmos eles já compreenderam, ao longo dos últimos meses. Seu prestígio despencou junto com o daqueles a quem emprestavam ou vendiam apoio. Seus discípulos já lhes viram as costas. São formadores de opinião que não formam opinião alguma e cujas manifestações exigem enorme esforço mental. Não é fácil parecer que não fazem exatamente aquilo que estão fazendo, mas "pegaria mal" se fizessem.

Exemplifico. Os pedagogos da opinião pública não são contra as passeatas. Mas ensinam que "Impeachment-já!" recusa o ritmo constitucional que aponta para a sequência crime, acusação, julgamento e (só então) impeachment. Entenderam? Segundo eles, os manifestantes deveriam sair às ruas, Brasil afora, levando faixas mais ou menos assim: "Impeachment, se possível, quando possível!". Quem carregaria uma peça dessas? Animados com uma candura e uma doçura que exige um canavial inteiro propõem "menos ódio" nas manifestações. Engraçado, não é mesmo? Que fim levou a boa e velha indignação pela qual tanto cobravam quando serviam ao PT oposicionista? Agora, a justa indignação virou ódio? Sentimento maligno, politicamente hediondo, pimenta que arde no olho?

Eles nos ensinam, também, que o "Fora Dilma!" é frase autoritária. Diagnosticam que ela fere a legitimidade do mandato da presidente. Como pode alguém dizer "Fora Dilma!", seis meses depois de a presidente ter sido eleita com maioria de votos?

É a pedagogia da conformidade bovina. Se for assim e para isso, a gente fica em casa assistindo um filmezinho, que é exatamente o desejo por trás dessa pedagogia para boi no cercado.

Falemos, então em legitimidade, jornalista pedagogo militante. De que legitimidade falas quando te referes ao atual mandato da presidente? Da legitimidade alcançada com votos atraídos pelo festival de mentiras, mistificações e falsidades que se derramou pelo país em 2014? Da legitimidade via votos comprados com bilhões de nosso dinheiro? Da legitimidade alcançada com ameaças de que um festival de desgraças se abateria sobre o país em caso de vitória da oposição (para logo após a adotar aquelas mesmas medidas contra as quais verberava)? Da legitimidade via urnas eletrônicas? Via Smartmatic? Via apuração sigilosa? Da legitimidade de quem agora não arregimenta mais do que 7% dos eleitores?

O povo não estaria nas ruas se não se sentisse enganado, ultrajado e furtado! Aprendam isso e aprendam a ouvir o povo, em vez de apenas falar-lhe. Aproveitem do caráter, este sim pedagógico, das manifestações dos últimos meses. E com o que ainda lhes reste de consciência, arrependam-se do que ajudaram a produzir no país. O preço desse constrangedor serviço está sendo pago com corrupção em proporções jamais vistas, com recessão, inflação, desemprego, carestia, perda de credibilidade nacional e humilhação perante as demais nações. 

Está de bom tamanho?





Por Percival Puggina

Recado das ruas: sem acordo!


O símbolo das manifestações de domingo, que faz sucesso nas redes e vai ficar, é o boneco inflável de Lula na Esplanada dos Ministérios, ao sabor do vento e da ira de milhares de pessoas que se dispuseram a sair de casa num lindo dia de sol e calor para gritar contra ele, Dilma e o PT. A sincronia é evidente: quanto mais a Lava Jato se aproxima de Lula, mais a ira popular o atinge.

Se os protestos de junho de 2013 eram difusos e confusos, eles foram ganhando discurso e organicidade e chegaram a este 16 de agosto com vigor, disseminados pelo país inteiro e principalmente com foco. Pouco importa se houve menos gente que no histórico março, o fundamental é que quem foi às ruas ontem sabia exatamente o que queria dizer _ e para quem.

Homens, mulheres, jovens, velhos e crianças, de verde e amarelo, ladeavam imensas faixas defendendo o “impeachment já” e gritavam “Fora Dilma”, “Fora PT, “Lula nunca mais”. Dez entre dez entrevistados se diziam exaustos com tanta corrupção e um novo personagem, um personagem a favor, passou a brilhar nas ruas empanturradas de gente no DF, em todas as capitais e em incontáveis cidades do interior.

Esse personagem não é político, não tem mandato e não tem partido. Trata-se do juiz Sérgio Moro, versão atualizada do então ministro Joaquim Barbosa. Joaquim entrou para a história como o menino negro e pobre que veio a presidir o Supremo Tribunal Federal justamente durante o bombástico julgamento do mensalão, que, pela primeira vez, não perdoou a “elite branca” e a elite política do país. É como se Moro, com a Lava Jato, desse continuidade ao serviço.

A população que rejeita maciçamente Dilma, o PT e o que Lula passou a representar é a mesma que aprova maciçamente Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, que quebram paradigmas e ensinam aos poderosos e aos cidadãos comuns que a Justiça pode, sim, valer para todos. Um aprendizado e tanto, com presidentes de partidos do governo, diretores da Petrobrás e os maiores empreiteiros trancafiados ou presos a tornozeleiras eletrônicas.

De nada adiantam acordões políticos em Brasília, porque esse processo não vai parar. Como de nada adianta o governo se dizer feliz da vida porque as manifestações de ontem tiveram menos gente do que as de março. Tiveram mesmo, e daí? Elas ocorreram em todas as regiões, desde as mais ricas até as menores e mais pobres, deram nitidamente os seus recados e têm uma força política enorme.

Política é dialética, não cartesiana, e o valor e o peso de manifestações não podem ser medidos só pelo número de manifestantes, porque havia tantos a mais ou tantos a menos. A de domingo, a terceira num único ano, foi muito expressiva e já deixa engatilhada a próxima. A sociedade está mobilizada e é ela quem dá a Dilma o troféu de presidente mais mal avaliada da história pós-redemocratização.

Dilma ganhou um cerco de segurança na semana passada, com mãos amigas do Supremo, do TSE, do TCU, do Senado e da mídia, mas a irritação popular contra ela não esmaeceu, e uma coisa é certa: se tem a imagem de mulher honesta, que não passa a mão no dinheiro público, Dilma destruiu a economia e passou a ser indelevelmente vista como a presidente que mente, que vendeu um País maravilhoso na campanha e entregou um País ao cacos do primeiro para o segundo mandato.

Com acordão ou não em Brasília, a percepção da população não mudou: a corrupção chegou ao auge e há uma exaustão com a era PT, o governo Dilma e as mágicas de Lula. Ele escapou das primeiras manifestações, mas não passou incólume pelo tsunami e não tem mais força popular para resgatar Dilma. Talvez, nem mesmo para se resgatar.

Seu prestígio está como o enorme balão com a sua cara na Esplanada dos Ministérios: ao sabor dos ventos – dos ventos da economia e da Lava Jato.

Dilma pode até estar salvando o mandato, mas isso não é tudo. Ela, o PT e Lula nunca mais serão os mesmos




Por Eliane Cantanhêde

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Por que o PT deve acabar


Nos últimos dias, uma série de “deserções” das fileiras petistas tem acontecido, num momento em que ser petista é mais algo para se esconder como capricho atrasado e teimosia diante da realidade do que mostra de superioridade moral.

Dizem que o PT traiu seus ideais originais. Alguns até negam que ele ainda seja de esquerda.

Balela: o ideal do PT original era expropriar a “burguesia” e criar uma democracia de operários. Depois de 13 (!) anos no poder, o PT expropriou a burguesia e faz vigorosos contratos com empreiteiras para ou sermos operários deste esquema, ou falirmos.

Onde está a traição, se o PT cumpriu à risca o que prometia?

Quando debatia com Collor em 1989, Lula pregava uma jabuticaba chamada “socialismo democrático”, já que os países socialistas, que ele tanto defendia, entravam no colapso que resultou na Queda do Muro e na falência da União Soviética.

Já no poder, em 2007, no 3.º Congresso do Partido dos Trabalhadores, um vídeo promovido pelo próprio PT declarava qual era o “segundo grande tema do nosso [deles] Congresso, o Socialismo Petista” (sic).

O vídeo afirmava reiteradamente que eram um partido anticapitalista, que a luta anticapitalista estava no seu sangue, e que o conceito de socialismo “está presente desde a criação do partido, há 27 anos”.

Falando entre os seus, os petistas não precisam se preocupar com o que ordenam seus marqueteiros, preocupados em engabelar a população. Entre petistas, não há nada de “democracia”, “cumprir a lei”, “respeitar a Constituição”, “que papo ultrapassado, o socialismo já acabou, a Guerra Fria foi vencida pelos caras corretos e agora somos todos capitalistas de carteirinha”.

Lá, o mote é socialismo, é enaltecer Cuba e ditaduras totalitárias, é chamar genocida de “companheiro” e falar com toda a naturalidade da tirania bolivariana, para logo a seguir, quando estiver na imprensa, nos blogs ou conversando com pessoas normais, afirmar que aceitam a derrocada do socialismo, que o PT se dá muito bem com o capitalismo, que é paranóia de ultraliberais fanáticos como o Rodrigo Constantino chamar o PT de “bolivariano” e enxergar traços socialistas no PT. E, claro, que o Foro de São Paulo não existe, ou então é só uma reunião de velhas viúvas do totalitarismo bolchevique ou ainda que o PT nada tem a ver com isso.

Ora, o PT continua idêntico ao PT 89, sem riscos e até melhor repaginado, com terno Armani e sem tantos perdigotos. Inclusive foi a fundo no seu projeto de democracia operária: hoje, ou se trabalha batendo prego para uma grande empreiteira (“pleno emprego! oportunidades a todos! diminuição das desigualdades! distribuição de renda! vocês plantam inflação para colher juros!”), se tornando operário, ou sua pequena empresa vai à falência – com todos os brasileiros recebendo salário de peão da Odebrecht, lá se vão as diferenças sociais e está distribuída a renda.

Mesmo o enriquecimento destes empreiteiros, em conchavo com o governo, nada tem de traição do projeto inicial petista: o socialismo “científico” surgiu justamente com um industrial financiando um pretenso intelectual que nunca bateu um prego na parede para pendurar um quadro na vida.

As empreiteiras que estão na mira da Lava Jato não são um “desvio” do projeto petista anos 80: são exatamente sua extrema materialização. Numa democracia sindical, os empreiteiros não querem concorrer no livre mercado, e sim atuar em concessões com o governo, para que todos nós paguemos pelos seus projetos sem opção de “desigualdade” causada pelo “capital financeiro” na Bolsa de Valores. Marcelo Odebrecht, Léo Pinheiro e companhia são apenas nossos Engels.

E qual a preocupação dos sindicatos como CUT com a Lava Jato? Como Dilma Rousseff se pronunciou sobre tantos bambambans presos? Ambos apenas criticaram o risco de “desemprego” – ou seja, se empresas como Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez falirem, aí sim está comprometido o projeto sindicalista petista da década de 80, sem empregos de batedores de martelo em empreiteiras protegidos por leis trabalhistas.

A resposta da presidente e dos sindicatos não é preocupação com a corrupção, com o tráfico totalitário de poder e dinheiro: é apenas com empregos comprometidos para as classes baixas. Assim se juntam nossos Engels com nossos Stalins. Assim o povo voltará a ter de fazer negócios e abrir pequenas empresas no livre mercado e teremos novamente “desigualdade” e risco de “desemprego”.

Dilma e o PT podem ser acusados de tudo, exceto de descumprir ou trair os ideais antigos do PT. A classe média, a antiga “burguesia”, continua devidamente expropriada, e todos nós continuamos tendo como opção inevitável, num governo petista, virarmos apertadores de parafuso sindicalizados. Com os movimentos sociais pregando isso na nossa cara.

O que acontece de fato neste momento no Brasil não é uma traição de ideais. É uma dissonância entre uma simbologia construída em torno de um projeto de sociedade (“trabalhadores! fim da desigualdade! moral social na política!”) e a realidade concreta que vem com tais discursos.

Não é uma “onda conservadora” que perpassa o Brasil: é a realidade reagindo a uma tentativa de mascará-la. Isto que torna alguém mais, digamos, reacionário. Ou seja, desconfiado de “salvadores” políticos.

O PT inteiro tentou e conseguiu se safar de seu projeto de compra de consciências e concentração de poder no Executivo, o mensalão, escorando-se tão somente no carisma de Lula para ganhar eleições – inclusive as duas de Dilma, já que ela, sozinha, não parece capaz de completar uma frase com sujeito, verbo e predicado.

Enquanto tal carisma acaba, restam apenas militantes os mais ferrenhos, inclusive os acadêmicos e jornalistas, a ainda acreditar no projeto petista – muitas vezes a soldo. Feministas, por exemplo: que não percebem a vergonha que é a primeira presidente do sexo feminino precisar tanto da figura de Lula para completar uma frase. Progressistas sofrem da Lei de Rothbard: são especialistas naquilo que menos enxergam.

A simbologia do PT ainda é afirmar que “lutaram contra a ditadura”, aquela que terminou há mais tempo do que durou. Quem ainda aguenta 50 livros sobre a ditadura lançados por mês? Quem ainda cai na esparrela de que os socialistas da década de 60 e 70 lutavam por um regime livre, de livre empreendimento e livres eleições, e não um totalitarismo cubanófilo que acaba mais gerando uma simpatia exagerada por militares, e não pelos socialistas?

Apenas militantes com lavagem cerebral. E estes cada vez mais estão distantes da população de carne e osso. Os militantes, por exemplo, adoram falar que José Dirceu “lutou pelo Brasil”, mas apenas conseguem se auto justificar diante de sua prisão – não convencer qualquer pessoa de que nossas liberdades políticas, hoje, sejam conquista de Dirceu.

Pelo contrário: se tivemos um regime de exceção (que saiu do poder sozinho, ao contrário do despotismo cubano, de quem Dirceu se considera “um ex-agente do Serviço de Inteligência”) foi justamente graças a pessoas como Dirceu, Lula e Dilma.

O apelo a uma “social-democracia” (embora o PT seja mais honesto no termo, e diga claramente “socialismo democrático”) foi o que fez o PT crescer já depois da redemocratização. Na oposição, estava sempre criticando o “livre mercado”, as “privatizações”, o FMI.

No poder, gabava-se de “tirar 40 milhões de brasileiros da miséria”, número que, como Lula admite entre risos, era inventado. Na verdade, apenas trocava o critério de contagem de pobres, como contar uma pessoa que receba R$291 por mês como de “classe média”. Nesta bricolagem embusteira, para atingir tais “números”, depois regurgitados pela militância como Verdades Morais Absolutas, chegaram a dar R$ 2 (sim, DOIS REAIS) para "tirar da miséria" 13 mil famílias.

A alquimia numérica pode durar um certo tempo, mas qualquer liberal sabe que não muito. Mesmo com o pouco apreço que nossa educação, jornalismo e cultura tenham pelos liberais, a conta desconfiada deles está sempre mais próxima da realidade.

Hoje vemos que a economia estatal do PT, seu desapreço pela livre iniciativa (a da “desigualdade”, que precisa ser corrigida e “regulada” pelo Estado) gerou os números de desemprego, PIB retroagindo, empresas falindo e todos precisando virar funcionários da Odebrecht para sobreviver. É ruim? É péssimo. Mas é exatamente o que o PT sempre pregou e apregoou.

Se o discurso de corrigir a “desigualdade” não convence mais, é porque a população, mesmo sem o conhecer (já que liberais não inventam, apenas descrevem a realidade), percebeu a lição de Friedrich Hayek: para um Estado ter controle sobre a sociedade, precisa de poder sobre a sociedade.

A cada nova desculpa do PT para não conseguir entregar o mundo dos sonhos, e prometer um novo PAC ou culpar a mídia e a classe média, os agentes estatais apenas estão querendo mais poder. E quanto mais problemas surgem, vão precisando de ainda mais poder para corrigir os problemas do meio do caminho, e a razão inicial – digamos, o combate à desigualdade ou alguma besteira de sociólogo do tipo – acaba até sendo ignorada.

Nada foi mais claro do descompasso entre discurso e realidade do PT do que a entrevista de Dilma à Folha, em que Dilma afirma que “não respeita delator”.

Ora, delatores, no caso, eram empreiteiros que lucraram com a “economia estatal” não-socialista (mas que “regula” o mercado com concessões e “investimentos” do governo em empresas) do PT. Dilma, que ainda tem uma simbologia de “eu luto contra a ditadura”, falava como se “delatores” fossem combatentes e terroristas presos que alcagüetassem os colegas. Sua retórica e a realidade têm um descompasso de meio século.

Sem conseguir mais vencer a realidade e a lei com carisma, sem o apelo do ideário socialista agora que as pessoas sabem o que estava além da Cortina de Ferro, sem a promessa do Eldorado do PT no poder, sem o discurso do controle estatal em nome da distribuição de renda e do combate à desigualdade, com seus figurões sendo presos e se considerando tão heróis que vestem toalhas de mesa como capas de super-heróis ao caminhar para o camburão (o que deveria ser a suprema notícia internacional do século XXI) e com a população agora até indo às ruas para mostrar seu repúdio, resta apenas ao PT ser uma mancha de vergonha para os petistas que acordarem para a realidade.

O PT, felizmente, deve acabar.





Por Flavio Morgenstern

domingo, 16 de agosto de 2015

A Anta, as Hienas ou a Onça: Quem vai beber água?


Nos últimos dias, a Rede Globo, que historicamente sempre competiu com o PMDB para ver quem consegue ser mais governista, deu uma estranha freada no destaque ao tema corrupção em seu principal noticioso, o Jornal Nacional. Nem a mais astuta criança, em vã esperança de entendimento da realidade, tem capacidade de compreender por que isto aconteceu. A família Marinho e os marketeiros da Dilma, acuados por diferentes motivações, devem saber o real motivo. A Regra do Jogo político/midiático é muito bruta aqui em Babilônia, onde verdades secretas até vêm à tona, mas a impunidade continua beneficiando os poderosos de plantão.

A Globo até já agendou uma reportagem sobre corrupção para o domingão à noite, no Fantástico. Dependendo do tamanho da coisa, a manifestação popular deste 16 de Agosto pode (ou não) merecer o destaque correto, justo e perfeito. A repercussão editorial vai depender muito daquilo que os poderosos projetam e conchavam para acontecer na aguardada "dança dos famosos" da Republiqueta de Bruzundanga. Existe um risco concreto de nem acontecer este programa, que seria imperdível e muito desejado pela maioria da população brasileira. Tudo vai depender do poder de reação pessoal da impopular Dilma Rousseff - que tem uma arma atômica: a caneta que assina as publicações no Diário Oficial da União.

Eis as questões de complicada resposta para o mais sábio roteirista de Hollywood (ou mesmo do nosso Projac global): O Império da Dilma contrataca? Ainda é possível seu Despertar da Força? Seu principal Jedi fará o retorno triunfal? Dart Vader conseguirá hegemonia, perante o ladro negro, que comanda a força rebelde da base aliada, para lhe roubar o trono? A Jornada das Estrelas do PT realmente atingiu o esgotamento? Ou estamos vivendo mais um ilusório episódio de uma Guerra nas Estrelas sem previsão de terminar - bem ou mal?

O fim nem sempre explica direito o meio do filme que começou muito mal com o golpe militar do falecido General Leônidas - que inventou a Nova República, em 1985. O fato concreto é que chega ao fim, de forma melancólica, o regime sempre liderado pela cúpula do PMDB - o partido mais governista de todo o universo, que só perde ou empata no quesito com a Rede Globo e, não sejamos injustos, com a maioria esmagadora da mídia amestrada tupiniquim. O impasse institucional caminha para ruptura, com o agravamento da crise econômica e com a desmoralização da atividade política. Quem não enxerga isto está vendo outro filme de ficção...

A voz das ruas vai se manifestar neste domingão. O esquema dominante vai continuar fingindo que o problema não é com a classe política desqualificada... Até quando? O imediatismo faz a massa centrar a bronca na Dilma. Mas ela não é a causa dos males. Ela é consequência da falha estrutural histórica. Dilma tentará fingir que não liga para o clamor popular. Pelo absolutista poder presidencial, tem chances de reação, mesmo que pareçam mínimas... Imagina o que pode acontecer se Dilma resolver chutar o balde e romper com o PT? Os insatisfeitos vão partir para o pau (ou outras armas)...

Se o processo radicalizar e fugir do controle, seria a hora de a Onça beber água. O problema é que os generais da selva ainda não querem ou não sentem vontade. As hienas continuam dando gargalhadas. Fazem conchavos inimagináveis, enquanto devoram os restos mortais de um Estado Capimunista - centralizado, cartorial, cartelizado e corrupto. Molusco outrora matreiro, Lula parece se afogar no mar de lama que ajudou a cultivar. Só um poderosíssimo Lava Jato seria capaz de limpar sua alma...

Assim, sobra para a Anta - cujo principal predador, por sacana coincidência, é a Onça - que disputa o bicho com a Sucuri... Por incrível que pareça, apesar da maré de impopularidade (que parece irreversível), estrategistas políticos de alta estirpe ainda avaliam que a Anta lá do Planalto tem salvação da extinção por impeachment, por cassação eleitoral ou por renúncia forçada... Basta que ela faça jus à inteligência original do bichinho cientificamente conhecido como Tapirus Terrestris. Antas têm fama de ótimas nadadoras, mas não é isso que poderá salvá-la neste nosso oceano de esgoto da politicagem. A principal capacidade da Anta é sua capacidade de sobrevivência na escuridão da selva em que se mete...

A anta costuma ser tímida, pacífica e indefesa diante do ser humano. Nossa Anta é "arroganta", guerrilheira e parte para a ignorância, de forma destrambelhada, quando se sente acuada pelos acontecimentos desfavoráveis ou pela pressão crescente das massas. Por isso, o grande evento cívico de logo mais tem importância. Muita gente na rua acua a Anta - ameaçada de tomar no TCU, no Cunha e, mais recentemente, até na CUT (depois que um falastrão, em pleno salão nobre do Palácio do Planalto, bostejou que o negócio era pegar em armas para defendê-las dos golpes).

A Onça ficou ouriçada com a provocação... A Anta fingiu que não era com ela... O Molusco fingiu que desqualificava o imbecil provocador, embora já tivesse feito alusão recente ao eventual emprego do tal "exército do Stédile" - o que também irritou a Onça... Nossa selva começa a ficar em Temperatura Máxima. Muitas gente, nas ruas, aposta e pede um "Vale a Pena ver de Novo". A Onça não está a fim... Mas ela conhece muito bem o sábio provérbio brasileiro: "Depois da onça morta, até cachorro mija nela"... No caso presente, as hienas são os cães infernais...

Só uma Intervenção Constitucional, demandada e exercida pelo Poder Instituinte do Povo Brasileiro, tem condições de botar ordem na nossa selva (ou seria um jardim zoológico?)... Esta é a única saída para libertar a Nação da escravidão imposta pelo crime institucionalizado. A maioria das pessoas de Bem não aguenta mais!

O impasse caminha para uma ruptura - de consequências imprevisíveis. É preciso implantar a República Federativa de verdade. É fundamental implantar, de fato, a Democracia (a Segurança do Direito). Temos de retomar a Ordem Pública, fundamental para a Paz Social. Enfim, temos de mudar (revolucionar, e não apenas reformar) a estrutura do Estado Brasileiro.

Essas não são apenas as vontades (nem sempre claramente manifestadas) pela maioria do povo. Essas são as necessidades mais urgentes do cidadão brasileiro honesto - vítima da desgovernança do crime organizado, viabilizado pela estrutura estatal que suga e agride a sociedade, em vez de cumprir o papel primordial de dar efetiva Segurança, protegendo as pessoas. No Brasil, o Estado se serve da sociedade, e não serve a ela. Justamente porque, aqui, o Estado não foi concebido pelas forças sociais, mas imposto historicamente a uma sociedade construída fora das bases democráticas. Azar nosso... Nós que mudemos a nossa sorte!

A mudança brasileira é inevitável. Trata-se de uma demanda interna e do mundo, que depende de nossa estabilidade institucional e produtiva. Por isso, o povo, em massa, nas ruas, mesmo sem saber direito o que está fazendo no evento patrocinado pela "oposição", já é um avanço, um passo gigantesco para mudar o Brasil para melhor. Só a pressão exercida diretamente pelo povo provocará tais mudanças. O resto é conchavo e conversa fiada...

Vamos ter amor, fé e esperança para mudar o Brasil! Quem não tiver, mude do Brasil, se puder... A Onça vai beber água, mesmo que faça isso apenas na base do conta-gotas...
















Por Jorge Serrão

Da irritação à indignação


Pelo menos 200 cidades do país estão organizadas para os protestos de hoje, fazendo prever milhões de cidadãos nas ruas demonstrando explícita discordância diante do modelo econômico e político que nos assola. Dentro da rotina adotada faz muito, haverá fulanização, com a presidente Dilma Rousseff ocupando a pole-position, mas com direito à execração de outros personagens, do Lula a Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Fernando Collor e muitos outros.

O Brasil apresentará sua irritação e indignação por conta da roubalheira generalizada na administração pública e privada, do aumento do custo de vida, dos impostos e tarifas, do desemprego, da falência dos serviços que o Estado deveria proporcionar, da redução de direitos trabalhistas e da leniência com que o governo age frente à corrupção. Com os excessos de sempre, a manifestação deverá ser pacífica, marcada pela presença das famílias nas ruas de grandes e pequenas cidades. Não se trata da rebelião das massas, muito menos da revolução. Será um grito de “basta!”, “chega!”, “não dá mais para aguentar!”

Durante a ditadura militar, a panela de pressão custou a explodir, chegando ao clímax com a campanha das “diretas já”, que significou muito mais do que o anseio de o povo votar para presidente da República, senão de que a sociedade não aguentava mais a sucessão de generais-presidentes e suas imposições. Agora, na democratização, muitos anos transcorreram até que emergisse o protesto generalizado.

Em todo o país será ouvido o grito de “fora Dilma!”, ainda que na realidade trate-se da rejeição de valores bem acima de julgamentos e críticas sobre pessoas. É o modelo que se esgotou. Aquilo que Madame representa, tanto quanto representavam os presidentes militares. Apesar da diferença fundamental de concepções e posturas dos dois regimes, o produto final é o mesmo: a população não aguenta mais.

Salvo engano, o significado dos protestos de hoje não levará à ruptura imediata das instituições, da mesma forma como a emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso, transcorrendo pouco mais de três anos para a eleição direta de presidente da República. Sempre a prática poderá ser desmentida e inusitados acontecerem de pronto, mas as indicações são de que Dilma não vai cair logo depois dos panelaços deste domingo, assim como o general Figueiredo custou a deixar o poder. Encontra-se, porém, sentenciado o modelo vigente. O governo dos trabalhadores deixou de ser governo e, muito menos, dos trabalhadores. Transformou-se em pousada das elites, dos empreiteiros, da corrupção e da impotência em atender as reivindicações nacionais. A irritação e a indignação seguirão seu curso.




Por Carlos Chagas

Entre o Brasil e o Bananão


Estamos meio perdidos no Brasil. Como se estivéssemos no mato discutindo entre veredas que podem nos levar de novo ao campo aberto. São três saídas que nos mobilizam no curto prazo: continuidade, o impeachment ou a renúncia de Dilma Rousseff.

Muitos temem o desconhecido. Há opiniões respeitáveis contra o impeachment. Fernando Henrique o considera uma bomba atômica. Marina Silva confessou, numa entrevista, que sofreu muito por ser contra o impeachment. Sofrimento por sofrimento, ela também sofreu nas mãos do PT. O de agora vem da pressão da maioria que apoia o caminho do impeachment.

Evitar o desconhecido tem uma enorme força entre as pessoas preocupadas com os rumos do Brasil. Mas para quase todas com que falei essa própria noção de continuidade se abala com a presença de Dilma. A pergunta difícil de responder: o que será do Brasil com três anos e meio de um governo fraco, desorientado, acossado pelo maior escândalo político da história?

Não nos enganemos: o Brasil não será o mesmo, navegando sem rumo por mais três anos e meio de Dilma. Será muito pior.

A outra vereda é o impeachment. Na experiência vivida em 1992 foi possível constituir um governo de unidade em torno de Itamar Franco. Lembro-me de tê-lo entrevistado uma semana antes da queda de Collor. Ele não disse nada publicável. Mas, informalmente, sua experiência apontava para um governo de unidade destinado a transitar até as eleições.

Itamar e Temer têm temperamentos diferentes. Itamar foi ousado o bastante para encampar o Plano Real de seu ministro Fernando Henrique. Foi um momento de grande instabilidade o impeachment, mas acabou levando o Brasil a encontrar o instrumento mais estável de nossa história econômica recente.

... "A terceira vereda é a renúncia. Os que conhecem Dilma dizem que ela não renuncia. Ela mesma afirmou que suporta pressões, já passou pela ditadura. Parece que não sabe a diferença entre panelaço e pau de arara. Talvez seja sensível ao argumento da grandeza. Pode voltar contra ela, como um bumerangue, seu discurso no Maranhão: o País está acima dos projetos pessoais"....

Itamar era praticamente independente. Temer é ligado ao PMDB, que tem Eduardo Cunha e Renan Calheiros na marca do pênalti na Operação Lava Jato.

Para conduzir uma tarefa nacional, era preciso admitir que presidentes do Senado e da Câmara não podem seguir no cargo na condição de investigados no petrolão. O PMDB não pode tentar, após o fracasso do PT, controlar a Operação Lava Jato.

É sempre bom acentuar que o cenário de impeachment está previsto na Constituição. Não é um caminho ilegal, golpista e tudo isso que os defensores do governo dizem. Um dos caminhos legais é investigar a campanha de Dilma com base no depoimento do empresário Ricardo Pessoa e nas anotações de Marcelo Odebrecht. São muito fortes os indícios de caixa 2, com dinheiro de propina inclusive vinda de contas na Suíça.

A terceira vereda é a renúncia. Os que conhecem Dilma dizem que ela não renuncia. Ela mesma afirmou que suporta pressões, já passou pela ditadura. Parece que não sabe a diferença entre panelaço e pau de arara. Talvez seja sensível ao argumento da grandeza. Pode voltar contra ela, como um bumerangue, seu discurso no Maranhão: o País está acima dos projetos pessoais.

Não acredito em militantes com vontade de ferro. Isso é um mito stalinista que perpassou a luta armada no continente, feita em condições de extrema dificuldade.

Somos todos humanos. No domingo há manifestação. A maioria do povo brasileiro saberá encontrar, além desta, inúmeras formas de expressar seu descontentamento.

A quase totalidade dos analistas não a acha capaz de controlar o Congresso, onde não tem maioria. Governar com minorias? Só com muitas ideias na cabeça e gente capaz de defendê-las.

Isso o governo não tem. A popularidade de Dilma cai à medida que a crise avança. Ela está próxima da unanimidade, o que talvez possa ser sentido como uma forma enviesada de grandeza: a presidente mais impopular do período democrático.

... "Tanto Dilma como seu partido, a julgar pelos discursos e programa de TV, resolveram enfrentar a maioria e ironizá-la. É uma tática suicida. A Operação Lava Jato ainda reserva ao partido algumas surpresas, com as delações premiadas em curso. Nem precisa mais de revelações bombásticas. Basta comprovar as que foram feitas e o PT pode ter o destino dos partidos italianos que desapareceram com a Operação Mãos Limpas..."

A situação do PT não é das mais confortáveis na opinião pública. Lula reclama de que não pode mais frequentar restaurantes. Diante do cerco social, líderes conhecidos reduzem seus movimentos. Os de José Dirceu se estreitaram para alguns metros de uma cela.

Tanto Dilma como seu partido, a julgar pelos discursos e programa de TV, resolveram enfrentar a maioria e ironizá-la. É uma tática suicida. A Operação Lava Jato ainda reserva ao partido algumas surpresas, com as delações premiadas em curso. Nem precisa mais de revelações bombásticas. Basta comprovar as que foram feitas e o PT pode ter o destino dos partidos italianos que desapareceram com a Operação Mãos Limpas.

Entre quase todas as visões de saída da crise o pressuposto é de que um projeto político morreu. Nossas discussões sobre saída, no fundo, convergem para essa constatação. O problema, como em muitos velórios, é o momento do enterro. Há sempre um parente vindo do sul, alguém que não conseguiu passagem, enfim, prazos diferentes.

Vivemos uma crise econômica, perdendo 100 mil empregos por mês. Logo poderemos sentir o reflexo em convulsões sociais. Pessoalmente, descarto a inércia por achar que é a pior das soluções. Mas não estou perdido sozinho.

Estamos todos no mesmo impasse. O PT e o governo afirmam que cassar o mandato de Dilma levará o País ao caos.

Domingo, as pessoas saem às ruas para dizer o que querem. Os políticos costumam fingir de mortos, esperando passar o calor das manifestações. Acho muito difícil marcá-las com tanta antecedência, pois movimentos sociais têm fluxo e refluxo e um nível de espontaneidade. Mas novas formas de protesto surgirão.

Não creio que o Brasil vá se curvar a um esquema criminoso por medo ou apenas delicadeza. Alguns adversários apanharam muito do PT e, agora, dão a outra face. Há muita elegância e beleza nesse gesto de Cristo. Mas, como lembra um personagem de Beckett, naquela época se crucificava depressa. Ou o Brasil encontra energia e forma de se livrar de um sistema de dominação criminoso ou amargará anos de atraso e desânimo.

De qualquer forma, estaremos juntos. E, de certa forma, separados. A nacionalidade não é uma segunda pele. Bolsões criativos podem surgir aqui e ali, mesmo vivendo num país medíocre e assustado, um Bananão, como dizia Ivan Lessa.




Por Fernando Gabeira

sábado, 15 de agosto de 2015

Dilma vai usar telejornais para tentar salvar o governo


A entrevista da Dilma ao jornalista Kennedy Alencar, do SBT, é a prova de que a presidente não tem projeto para o Brasil. Durante quase meia hora em que foi arguida de forma contundente sobre os vários problema do país, Dilma mostrou-se evasiva, desorientada, apática e desolada. Esta é a primeira de uma série de entrevistas que o Palácio do Planalto começa a montar para a presidente sair do ostracismo e procurar se comunicar com a população pelos telejornais. Apesar do brilhantismo do repórter, a presidente refugou a todas as perguntas. Se todos os encontros com jornalistas, daqui pra frente, forem como este do SBT, não é difícil supor que a tendência é aumentar a impopularidade da presidente que deixa transparecer um vazio de poder. Quando questionada sobre quando o país vai sair da crise, respondeu vagamente: “No final deste ano ou em 2016”.

A regra número um do marketing político é clara: quando você tem um político com alto nível de rejeição é preciso escondê-lo da mídia e trabalhar nos seus feitos para depois voltar a apresentá-lo de forma planejada e estratégica. A Dilma, do SBT, parecia um boneco de cera com dificuldade para se expressar e de sair das incômodas perguntas do jornalista que a todo momento a colocava no canto da parede. Para quem assistiu a entrevista, uma coisa ficou marcada: o isolamento da presidente é um fato real, apesar dela negar.

De hoje por diante o brasileiro vai ver a Dilma virar “arroz de festa” nos principais telejornais do pais, muitos deles financiados pela Caixa Econômica e Banco do Brasil. O Planalto organizou uma agenda na mídia numa tentativa de mostrar que a presidente não tem medo de encarar os problemas da crise econômica. Ocorre que ela não consegue articular um raciocínio lógico em suas respostas, mesmo sabendo antecipadamente quais as perguntas lhe serão feitas.

Em meio a ebulição no Congresso Nacional, onde os presidentes das duas Casas se engalfiam, Dilma preferiu o Renan como tábua de salvação. O pacote que o presidente do Senado lhe apresentou foi apenas aperfeiçoado e atualizado. Estava na prateleira desde de abril deste ano, mas como sempre a presidente – que arrota prepotência – não queria se curvar às idéias de Renan respaldadas por respeitáveis economistas e empresários do país. Deixou-se levar por alguns assessores medíocres que viam na ação do presidente do Senado uma interferência no Executivo.

Outro motivo que levou a Dilma a jogar a boia foi a decisão de Eduardo Cunha passar para oposição. Na Câmara a presidente começou a entender que não tem negócio porque Cunha põe no colo do Planalto a notícia de que teria recebido 5 milhões de dólares de propina numa transação denunciada por um dos delatores da Lava-Jato. Com uma das Casas contra o seu governo, Dilma foi aconselhada a se juntar incondicionalmente a Renan e aceitar suas propostas para tentar tirar o país do caos.

Agora, seus assessores querem a sua participação maior na mídia. Não à toa, os Marinho, da Organização Globo, já começaram a abrir generosos espaços no Jornal Nacional para os factoides que a Dilma cria no Palácio do Planalto e para suas viagens, quando ela entrega casas inacabadas pelo país afora. E se for verdade a notícia de que um dos irmãos falou que “quem quiser ser presidente que se prepare para 2018”, os Marinho devem estar dispostos a bancar o governo da Dilma até o último minuto. Resta saber se eles vão esperar a economia derreter e o povo entrar em um circuito de indigência sem limite.







Por Jorge Oliveira

Logo se romperá o círculo de giz


Na vida e na economia, existem distorções que o Lula não conseguiu evitar e que Dilma parece não querer. São falsas verdades vindas do passado, praticadas por Fernando Henrique, Fernando Collor, José Sarney e antecessores, sabe-se lá desde quem. Trata-se de um engodo, um expediente, uma vigarice criada para manter intacta a divisão entre uns poucos privilegiados e muitos sofredores. Um círculo de giz traçado pela intolerância em torno da fragilidade de todos nós.

Porque permanece o raciocínio abominável de que, no Brasil, a felicidade e o Bem Comum surgirão com educação para todos, nada mais sendo obrigação do Estado e de seus artífices. É mentira. Vamos supor que sem exceção nossas crianças tenham acesso ao ensino básico, médio e até universitário. Estarão credenciadas para ingressar no mundo do trabalho digno e produtivo, capaz de gerar uma sociedade igualitária e feliz? Nada feito.

Porque as elites e os governos por elas formados lavam as mãos diante de tudo o mais que se desata à frente da educação, acrescentado a livre competição como seu corolário. Sentem-se desobrigados de outras contribuições, apesar da necessidade de sequência no processo iniciado com a escola. A partir do diploma para todos, ainda que hoje mero sonho de noite de verão, tudo estarão resolvidas as agruras do país? Só para os privilegiados, aqueles que pelo berço e pela riqueza nem precisariam competir. A imensa maioria necessita encontrar trabalho, daí lançar-se numa feroz disputa que leva o conjunto a arreganhar presas e acionar garras, uns contra os outros, já que o poder público, e as elites, desligam-se de demais preocupações com todos. Cada qual que se vire, mesmo precisando pisar no semelhante e até vangloriar-se da crueldade. Será esse o oxigênio da sobrevivência das minorias, mesmo sob a capa do cumprimento de seu dever ensejando educação para todos. São cooptados para essa distorção muitos dos que conseguiram alcançar o objetivo, ignorando haver-se tornado marionetes dos que realmente controlam a sociedade.

Continuar criando condições para os iludidos, educados e diplomados, conquistarem trabalho digno e produtivo seria dever dos privilegiados, mas se assim agissem estariam sepultando seus privilégios e sua condição de feitores do processo social. Daí o artifício da livre competição.

Por certo que a capacidade e a disposição de cada indivíduo influenciam a construção de seu futuro, mas o mínimo contido no primeiro patamar, no caso a educação para todos, se viesse a ser conquistado, precisaria alçar-se ao patamar seguinte, na forma de trabalho igualmente estendido a todos. Jamais como dádiva, favor ou prêmio, mas como direito inalienável do ser humano. Mendigar um emprego, como está acontecendo, contraria a lógica e a ética. É, no entanto, a ferramenta que mantém o controle de poucos sobre muitos. Até o desemprego, hoje, serve aos interesses da minoria empenhada em preservar suas benesses.

Alegam serem essas as leis do mercado, isto é, cada um que abra seu caminho na selva intransponível da livre competição entre quantidades distintas, imposta à maioria por enquanto impotente. O problema para os donos do poder é que aumenta a cada dia o número dos injustiçados e marginalizados. Graças à educação, suprema ironia para as elites, toma-se cada vez mais consciência da necessidade de ser rompido o círculo de giz. Cedo ou tarde.







Por Carlos Chagas

Por que os petistas tradicionais não se revoltam com o PT?


Os eleitores tradicionais do PT deveriam ser os mais empolgados em participar dos protestos contra Dilma. São eles as grandes vítimas, foram eles que o partido mais traiu e enganou. Desde anos 80, eles ajudaram na campanha, convenceram vizinhos e amigos, se emocionaram quando o PT venceu as eleições. No poder, o partido fez todo o contrário do que eles esperavam.

Vinte anos atrás, o PT dizia que era um partido diferente, avesso a negociatas e à corrupção. Hoje se esforça para nos convencer que é tão corrupto quanto os outros.

Muita gente votou no PT por defender a legalização do aborto e das drogas. Mas Lula não teve coragem de tocar nesses assuntos nem mesmo quando tinha o Brasil a seus pés, a 82% de aprovação.

O PT prometeu uma política econômica diferente da tucana; em 2003 e 2015, chamou executivos do mercado financeiro para tocar a política econômica (ainda bem).

O PT dizia que acabaria com o privilégio dos ricos, mas gastou mais dinheiro favorecendo grandes empresários aliados ao governo que ajudando os pobres. O subsídio dos empréstimos secretos do BNDES custa 35 bilhões de reais por ano; o Bolsa Família, 24 bilhões. A maior beneficiária dos empréstimos do BNDES é a Odebrecht.

A última razão que havia para seguir apoiando o partido é o combate à pobreza. Milhões de pessoas saíram da miséria durante o governo Lula, não se pode negar. Assim como não se pode negar que, por responsabilidade do governo, tudo isso está em risco. O desemprego não para de subir; 370 mil pessoas desceram para baixo da linha da miséria em 2014.

Os eleitores tradicionais do PT não estão sendo sinceros com si próprios quando dizem que “o PT se deixou contaminar”, “teve que se aliar às frutas pobres e jogar o jogo da política”. Não adianta disparar contra a Veja ou demais mensageiros. Pelo contrário, os petistas tradicionais deveriam ser os mais atentos às denúncias de corrupção, os mais preocupados em extirpar os integrantes que transformaram em motivo de piada o partido que eles tanto amavam.







Por Leandro Narloch

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O medo das ruas


Dilma, ao contrário do que diz a sabedoria popular, está pronta a ceder os dedos para manter os anéis. Aliás, o que Dilma mais teme é a sabedoria popular, aquela que vem das ruas e que deve se manifestar no domingo, 16: para sobreviver, chegou a pedir socorro a Renan Calheiros. Ele tem experiência: foi um dos principais articuladores de Collor, o primeiro a perder legalmente a Presidência.

Dilma solicitou a Renan que, no Senado, bloqueie os torpedos disparados da Câmara por Eduardo Cunha. Como os dois são correligionários, pediu-lhe também que neutralize o poder de Cunha no PMDB. Renan concordou e apresentou-lhe um programa de Governo, em que o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Se este é o seu programa, ainda bem que não é o presidente.

Dilma almoça hoje com Lula e com o vice Michel Temer - de quem não gosta, a quem sempre tratou com descaso e que foi obrigada a engolir fazendo cara boa (o máximo possível). Por Lula, tem o temor reverencial, tem a paixão por ele de todo petista, mas tem o medo de que Lula passe por cima dela. Dilma, embora faça uma força danada para não governar, odiaria ser rainha da Inglaterra.

Dilma busca a saída. Mas deveria reler (ou ler) Alice no País das Maravilhas.

Alice - Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?

- Isso depende muito de para onde quer ir - responde o Gato de Cheshire.

Alice - Para mim, acho que tanto faz... - disse a menina.

- Nesse caso, qualquer caminho serve - afirmou o Gato.

A dona da ideia

Quem lembrou Alice, um delicioso clássico da literatura, foi uma excelente jornalista, Bety Costa.

E ela nem citou a Rainha Louca, a que cortava cabeças.

Renan em ação

Em 1962, eleito governador de São Paulo, Adhemar de Barros chamou o professor Delfim Netto e encomendou à sua equipe um programa de Governo. Delfim, antes da posse, entregou-lhe o texto completo. Adhemar mandou traduzir tudo para o inglês, encadernou as duas versões e disse a Delfim: "Vou botar na biblioteca do palácio. Quero ver agora quem diz que não tenho programa".

As sugestões de Renan não foram bem trabalhadas como as de Delfim, estão apenas em português, mas seu destino é o mesmo: a prateleira. Não são para valer: apenas servem para dar base à distribuição de cargos e benefícios. Se fossem aplicadas, resultariam em boa melhora das finanças, mas não das públicas.

Socorro, Janot

A melhor saída da crise para Dilma, neste momento (só neste: mais tarde a coisa até pode piorar), depende do promotor Rodrigo Janot. Se ele fizer a denúncia contra Eduardo Cunha, enfraquecerá o presidente da Câmara, hoje líder inconteste da oposição. Mas pode atingir também Renan Calheiros, e tudo muda - menos a situação da presidente.

Porque, vale repetir, seu problema não é a crise, não é a política, não é Cunha: seu problema é que ninguém mais a leva a sério.

Do sarcasmo ao deboche

O Piauí Herald (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald), publicação humorística sofisticada, está tratando assim os problemas da presidente Dilma:

"A nova propaganda do PT começou a circular hoje:

"CASAS BRASÍLIA - Ciente da gravidade crescente da crise política, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, enviou um recado para toda a base aliada. ‘A presidenta enlouqueceu! Queima total de estoque de cargos comissionados! Garanta o futuro de três gerações de afilhados políticos!’, narrou o petista pelo alto-falante do Congresso, provocando alvoroço.

"O governo prometeu lançar na semana que vem outras propostas gestadas pelo gabinete de crises. ‘Não há tempo para mais nada! Começou o Mandato Maluco! Toda sexta-feira, um promoção enlouquecedora para quem fizer o cartão de fidelidade’, explicou, pausadamente, Edinho Silva num megafone emprestado pela CUT".

Humor involuntário

Ainda mais estranho que o comportamento da presidente em crise é o da oposição - não a oposição real, comandada por Eduardo Cunha, mas a que se proclama oposição, do PSDB. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, disse que cabe ao Governo, não à oposição, buscar soluções para as crises política e econômica enfrentadas pelo país. O governador paulista Geraldo Alckmin disse que Dilma "não pode responsabilizar os outros por problemas que ela própria criou".

Isso explica por que as candidaturas presidenciais de Alckmin e Aécio deram em água de chuchu: se a oposição não tem sugestões para resolver a crise, por que colocá-la no lugar do Governo? Por que trocar seis por meia dúzia? A propósito, se a oposição real nasceu dentro do Governo, para que oposição?

Atenção ao Supremo!

O Supremo Tribunal Federal inicia amanhã um julgamento da maior importância: decide se é crime ou não portar drogas para uso pessoal. É uma questão constitucional (se o Estado tem o direito de se envolver na vida íntima dos cidadãos) e tem repercussão geral: a decisão vale para todos os casos, em todo o país.






Por Carlos Brickmann

No jogo do impeachment, toda desconfiança é motivo de pressão


A pressão “diuturna e noturnamente” do governo do PT para salvar Dilma Rousseff do impeachment levanta, entre outras, as seguintes suspeitas de conspiração:

1) O descarte da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, em decorrência da Operação Lava Jato, teria sido combinada com Dilma Roussef para que Renan ajude o governo a melar o impeachment.

2) O prazo de mais 15 dias dado pelo TCU para Dilma explicar as irregularidades apontadas pelo procurador Julio Marcelo de Oliveira nas contas de 2014 teria sido combinado com o governo por intermédio de Renan (que tem forte influência sobre três ministros do tribunal, indicados pelo PMBD) para dar tempo não apenas de esfriar a pressão popular, mas de o procurador-geral Rodrigo Janot denunciar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e melar o impeachment.

3) A decisão em caráter liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, de que as contas de presidentes da República precisam ser votadas por uma sessão conjunta do Congresso – formada por deputados e senadores e não pelas Casas Legislativas de maneira separada – teria sido combinada com o governo para tirar o poder de Cunha, entregá-lo ao presidente do Senado (que também preside o Congresso) e melar o impeachment.

4) O pedido de vista (mais prazo para analisar o caso) feito pelo ministro do TSE Luiz Fux no julgamento do prosseguimento da ação do PSDB que pede a impugnação do mandato presidencial de Dilma teria sido combinado com o governo para esfriar a pressão popular, evitando que a eventual derrota na votação favoreça o clima de impeachment e que o clima de impeachment favoreça a impugnação.

As quatro suspeitas acima podem corresponder à realidade? Podem. Tudo pode ter sido só coincidência? Pode. Até os itens 3 e 4? Pois é.

Alguns organizadores dos protestos de domingo denunciarão nos carros de som o suposto “acordão” do item 2, relativo ao prazo do TCU, embora as irregularidades recém-incluídas sejam injustificáveis e tornem ainda mais difícil a explicação de Dilma Rousseff.

De qualquer modo, a pressão é válida.

A coluna Painel, da Folha, informa que ministros do TCU receiam ser alvo das ruas e já estão recebendo centenas de mensagens pedindo a rejeição das contas da petista.

Além disso, o Movimento Brasil Livre mudou o lema dos atos para “Fora Dilma, e leve o Renan com você”. “Como o presidente do Senado quer ficar ao lado de alguém que queremos derrubar, que saia com ela”, disse um dos líderes. Amém.

Uma das funções do ato de 16 de agosto é essa: criar vergonha em todos aqueles que podem salvar o desgoverno mais corrupto e mentiroso da história do Brasil.




Por Felipe Moura Brasil

O Brasil já é a Venezuela: presidente da CUT convoca "soldados" com "armas nas mãos" às ruas, diante de Dilma


É um espanto! Que o governo está acuado, sem credibilidade e rejeitado por quase todos os brasileiros (ao menos todos que pensam e valorizam a ética), isso é sabido. Que o PT precisa, então, de bodes expiatórios, e volta a resgatar seu velho discurso surrado de tempos revolucionários comunistas, atacando a “burguesia”, a “elite golpista” etc, também sabemos. Que Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, torne-se o Diabo em pessoa como se fosse o responsável por um só problema gerado pelo governo, entendemos como desespero petista.

Agora, que o presidente da CUT, braço sindical do PT, faça um discurso convocando seus “soldados” a irem com “armas nas mãos” para as ruas defender a presidente Dilma, isso já é algo completamente absurdo. O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, pediu aos movimentos sociais a ida à “rua entrincheirados, com armas na mão, se tentarem derrubar a presidente”. Vejam:


O sujeito acha que o Brasil já é a Venezuela. Só pode! E o pior é que, pelo visto, é mesmo! Afinal, em país sério esse moço teria sido preso! E a presidente da República jamais poderia escutar calada uma convocação de traição dessas. Ela é a comandante em chefe das Forças Armadas, que possuem o único Exército legítimo e constitucional do país. Sindicalistas não têm soldados, mas militantes. Se vão armados às ruas, não são soldados, mas meliantes praticando um crime. Como pode Dilma ficar passiva, conivente, com um atentado desses?

Freitas afirmou ainda que se houver “qualquer tentativa de atentado à democracia, à senhora ou ao presidente Lula nós seremos um exército”. Como os outros que o antecederam, o presidente da CUT fez duras críticas ao ajuste fiscal e ao mercado financeiro. “O mercado nunca deu e nunca dará sustentação ao seu governo. O povo dá sustentação ao seu governo”, disse. “Queremos também que governe com a pauta que ganhamos na eleição passada e não com recessão”, concluiu.

Resta saber: que povo é esse que o rapaz pensa representar? O povo, ou 70% dele, rejeita o governo! Atentado à democracia é não respeitar as leis e a Constituição, que prevê, inclusive, impeachment. Ou a democracia foi desrespeitada quando Collor, eleito pelos votos do povo, caiu, sob o apoio intenso do PT e da CUT? A retórica é ridícula, e visa a amedrontar todos aqueles cidadãos honrados que pretendem ir às ruas, de forma pacífica, no domingo. O tiro vai sair pela culatra: o povo brasileiro perdeu o medo, pois o respeito já perdeu há muito tempo, por esses líderes sindicais bandidos e pelo PT.

Para que o leitor tenha noção do assombro da coisa, peço que imagine um governo de “direita”, aceitemos até o PSDB social-democrata de centro-esquerda para facilitar, fragilizado e envolto em inúmeros escândalos, sem aprovação alguma, cambaleando e prestes e cair. Um Bolsonaro da vida, então, aliado desse governo, ameaça colocar um exército nas ruas, e convoca seus seguidores a saírem armados para defender o presidente tucano. Alguém acha que a reação seria igual? Alguém realmente acha que a imprensa daria apenas uma nota nos jornais e ficaria por isso mesmo? Se a imprensa já faz um alarde bem maior quando um sujeito isolado levanta um cartaz pedindo intervenção militar, imagine o que faria num caso desses!

É impressionante o viés, o duplo padrão, a cumplicidade com essa esquerda retrógrada e criminosa. Esse Freitas pensa que o Maduro governa nosso país, e que pode fazer esse tipo de ameaça bem ao lado da presidente, como se estivesse numa Republiqueta das Bananas. E deve estar mesmo, pois tamanho descalabro passa batido! Fica impune! E a própria presidente se cala, consente, permite uma ameaça ao povo brasileiro bem no Palácio do Planalto. E a maioria nem liga, como se fosse normal, como se essa gente fosse assim mesmo e não precisássemos fazer nada para impedir ou mudar. Estamos anestesiados!

Eis as “armas” que temos e devemos usar contra esses verdadeiros golpistas: os argumentos, a palavra, a pressão nas ruas, nossos gritos, cartazes, nosso voto. E, claro, as leis do país. Se os bandidos golpistas realmente tentarem um golpe, acharem que podem sair às ruas armados de fato, então temos a polícia e, no limite, o Exército para impedi-los, para fazer valer a lei, a Constituição. Não temos medo do MST ou da CUT, dos “exércitos” criminosos desses “movimentos sociais” que querem transformar o Brasil numa Venezuela – e estão conseguindo. Se chegar a esse extremo, sabemos que nossos militares irão agir. Mas espera-se que não seja necessário, e que meliantes armados ou que incitam a violência sejam presos, como seriam em um país sério.





Por Rodrigo Constantino