sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O medo das ruas


Dilma, ao contrário do que diz a sabedoria popular, está pronta a ceder os dedos para manter os anéis. Aliás, o que Dilma mais teme é a sabedoria popular, aquela que vem das ruas e que deve se manifestar no domingo, 16: para sobreviver, chegou a pedir socorro a Renan Calheiros. Ele tem experiência: foi um dos principais articuladores de Collor, o primeiro a perder legalmente a Presidência.

Dilma solicitou a Renan que, no Senado, bloqueie os torpedos disparados da Câmara por Eduardo Cunha. Como os dois são correligionários, pediu-lhe também que neutralize o poder de Cunha no PMDB. Renan concordou e apresentou-lhe um programa de Governo, em que o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Se este é o seu programa, ainda bem que não é o presidente.

Dilma almoça hoje com Lula e com o vice Michel Temer - de quem não gosta, a quem sempre tratou com descaso e que foi obrigada a engolir fazendo cara boa (o máximo possível). Por Lula, tem o temor reverencial, tem a paixão por ele de todo petista, mas tem o medo de que Lula passe por cima dela. Dilma, embora faça uma força danada para não governar, odiaria ser rainha da Inglaterra.

Dilma busca a saída. Mas deveria reler (ou ler) Alice no País das Maravilhas.

Alice - Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?

- Isso depende muito de para onde quer ir - responde o Gato de Cheshire.

Alice - Para mim, acho que tanto faz... - disse a menina.

- Nesse caso, qualquer caminho serve - afirmou o Gato.

A dona da ideia

Quem lembrou Alice, um delicioso clássico da literatura, foi uma excelente jornalista, Bety Costa.

E ela nem citou a Rainha Louca, a que cortava cabeças.

Renan em ação

Em 1962, eleito governador de São Paulo, Adhemar de Barros chamou o professor Delfim Netto e encomendou à sua equipe um programa de Governo. Delfim, antes da posse, entregou-lhe o texto completo. Adhemar mandou traduzir tudo para o inglês, encadernou as duas versões e disse a Delfim: "Vou botar na biblioteca do palácio. Quero ver agora quem diz que não tenho programa".

As sugestões de Renan não foram bem trabalhadas como as de Delfim, estão apenas em português, mas seu destino é o mesmo: a prateleira. Não são para valer: apenas servem para dar base à distribuição de cargos e benefícios. Se fossem aplicadas, resultariam em boa melhora das finanças, mas não das públicas.

Socorro, Janot

A melhor saída da crise para Dilma, neste momento (só neste: mais tarde a coisa até pode piorar), depende do promotor Rodrigo Janot. Se ele fizer a denúncia contra Eduardo Cunha, enfraquecerá o presidente da Câmara, hoje líder inconteste da oposição. Mas pode atingir também Renan Calheiros, e tudo muda - menos a situação da presidente.

Porque, vale repetir, seu problema não é a crise, não é a política, não é Cunha: seu problema é que ninguém mais a leva a sério.

Do sarcasmo ao deboche

O Piauí Herald (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald), publicação humorística sofisticada, está tratando assim os problemas da presidente Dilma:

"A nova propaganda do PT começou a circular hoje:

"CASAS BRASÍLIA - Ciente da gravidade crescente da crise política, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, enviou um recado para toda a base aliada. ‘A presidenta enlouqueceu! Queima total de estoque de cargos comissionados! Garanta o futuro de três gerações de afilhados políticos!’, narrou o petista pelo alto-falante do Congresso, provocando alvoroço.

"O governo prometeu lançar na semana que vem outras propostas gestadas pelo gabinete de crises. ‘Não há tempo para mais nada! Começou o Mandato Maluco! Toda sexta-feira, um promoção enlouquecedora para quem fizer o cartão de fidelidade’, explicou, pausadamente, Edinho Silva num megafone emprestado pela CUT".

Humor involuntário

Ainda mais estranho que o comportamento da presidente em crise é o da oposição - não a oposição real, comandada por Eduardo Cunha, mas a que se proclama oposição, do PSDB. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, disse que cabe ao Governo, não à oposição, buscar soluções para as crises política e econômica enfrentadas pelo país. O governador paulista Geraldo Alckmin disse que Dilma "não pode responsabilizar os outros por problemas que ela própria criou".

Isso explica por que as candidaturas presidenciais de Alckmin e Aécio deram em água de chuchu: se a oposição não tem sugestões para resolver a crise, por que colocá-la no lugar do Governo? Por que trocar seis por meia dúzia? A propósito, se a oposição real nasceu dentro do Governo, para que oposição?

Atenção ao Supremo!

O Supremo Tribunal Federal inicia amanhã um julgamento da maior importância: decide se é crime ou não portar drogas para uso pessoal. É uma questão constitucional (se o Estado tem o direito de se envolver na vida íntima dos cidadãos) e tem repercussão geral: a decisão vale para todos os casos, em todo o país.






Por Carlos Brickmann

No jogo do impeachment, toda desconfiança é motivo de pressão


A pressão “diuturna e noturnamente” do governo do PT para salvar Dilma Rousseff do impeachment levanta, entre outras, as seguintes suspeitas de conspiração:

1) O descarte da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, em decorrência da Operação Lava Jato, teria sido combinada com Dilma Roussef para que Renan ajude o governo a melar o impeachment.

2) O prazo de mais 15 dias dado pelo TCU para Dilma explicar as irregularidades apontadas pelo procurador Julio Marcelo de Oliveira nas contas de 2014 teria sido combinado com o governo por intermédio de Renan (que tem forte influência sobre três ministros do tribunal, indicados pelo PMBD) para dar tempo não apenas de esfriar a pressão popular, mas de o procurador-geral Rodrigo Janot denunciar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e melar o impeachment.

3) A decisão em caráter liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, de que as contas de presidentes da República precisam ser votadas por uma sessão conjunta do Congresso – formada por deputados e senadores e não pelas Casas Legislativas de maneira separada – teria sido combinada com o governo para tirar o poder de Cunha, entregá-lo ao presidente do Senado (que também preside o Congresso) e melar o impeachment.

4) O pedido de vista (mais prazo para analisar o caso) feito pelo ministro do TSE Luiz Fux no julgamento do prosseguimento da ação do PSDB que pede a impugnação do mandato presidencial de Dilma teria sido combinado com o governo para esfriar a pressão popular, evitando que a eventual derrota na votação favoreça o clima de impeachment e que o clima de impeachment favoreça a impugnação.

As quatro suspeitas acima podem corresponder à realidade? Podem. Tudo pode ter sido só coincidência? Pode. Até os itens 3 e 4? Pois é.

Alguns organizadores dos protestos de domingo denunciarão nos carros de som o suposto “acordão” do item 2, relativo ao prazo do TCU, embora as irregularidades recém-incluídas sejam injustificáveis e tornem ainda mais difícil a explicação de Dilma Rousseff.

De qualquer modo, a pressão é válida.

A coluna Painel, da Folha, informa que ministros do TCU receiam ser alvo das ruas e já estão recebendo centenas de mensagens pedindo a rejeição das contas da petista.

Além disso, o Movimento Brasil Livre mudou o lema dos atos para “Fora Dilma, e leve o Renan com você”. “Como o presidente do Senado quer ficar ao lado de alguém que queremos derrubar, que saia com ela”, disse um dos líderes. Amém.

Uma das funções do ato de 16 de agosto é essa: criar vergonha em todos aqueles que podem salvar o desgoverno mais corrupto e mentiroso da história do Brasil.




Por Felipe Moura Brasil

O Brasil já é a Venezuela: presidente da CUT convoca "soldados" com "armas nas mãos" às ruas, diante de Dilma


É um espanto! Que o governo está acuado, sem credibilidade e rejeitado por quase todos os brasileiros (ao menos todos que pensam e valorizam a ética), isso é sabido. Que o PT precisa, então, de bodes expiatórios, e volta a resgatar seu velho discurso surrado de tempos revolucionários comunistas, atacando a “burguesia”, a “elite golpista” etc, também sabemos. Que Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, torne-se o Diabo em pessoa como se fosse o responsável por um só problema gerado pelo governo, entendemos como desespero petista.

Agora, que o presidente da CUT, braço sindical do PT, faça um discurso convocando seus “soldados” a irem com “armas nas mãos” para as ruas defender a presidente Dilma, isso já é algo completamente absurdo. O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, pediu aos movimentos sociais a ida à “rua entrincheirados, com armas na mão, se tentarem derrubar a presidente”. Vejam:


O sujeito acha que o Brasil já é a Venezuela. Só pode! E o pior é que, pelo visto, é mesmo! Afinal, em país sério esse moço teria sido preso! E a presidente da República jamais poderia escutar calada uma convocação de traição dessas. Ela é a comandante em chefe das Forças Armadas, que possuem o único Exército legítimo e constitucional do país. Sindicalistas não têm soldados, mas militantes. Se vão armados às ruas, não são soldados, mas meliantes praticando um crime. Como pode Dilma ficar passiva, conivente, com um atentado desses?

Freitas afirmou ainda que se houver “qualquer tentativa de atentado à democracia, à senhora ou ao presidente Lula nós seremos um exército”. Como os outros que o antecederam, o presidente da CUT fez duras críticas ao ajuste fiscal e ao mercado financeiro. “O mercado nunca deu e nunca dará sustentação ao seu governo. O povo dá sustentação ao seu governo”, disse. “Queremos também que governe com a pauta que ganhamos na eleição passada e não com recessão”, concluiu.

Resta saber: que povo é esse que o rapaz pensa representar? O povo, ou 70% dele, rejeita o governo! Atentado à democracia é não respeitar as leis e a Constituição, que prevê, inclusive, impeachment. Ou a democracia foi desrespeitada quando Collor, eleito pelos votos do povo, caiu, sob o apoio intenso do PT e da CUT? A retórica é ridícula, e visa a amedrontar todos aqueles cidadãos honrados que pretendem ir às ruas, de forma pacífica, no domingo. O tiro vai sair pela culatra: o povo brasileiro perdeu o medo, pois o respeito já perdeu há muito tempo, por esses líderes sindicais bandidos e pelo PT.

Para que o leitor tenha noção do assombro da coisa, peço que imagine um governo de “direita”, aceitemos até o PSDB social-democrata de centro-esquerda para facilitar, fragilizado e envolto em inúmeros escândalos, sem aprovação alguma, cambaleando e prestes e cair. Um Bolsonaro da vida, então, aliado desse governo, ameaça colocar um exército nas ruas, e convoca seus seguidores a saírem armados para defender o presidente tucano. Alguém acha que a reação seria igual? Alguém realmente acha que a imprensa daria apenas uma nota nos jornais e ficaria por isso mesmo? Se a imprensa já faz um alarde bem maior quando um sujeito isolado levanta um cartaz pedindo intervenção militar, imagine o que faria num caso desses!

É impressionante o viés, o duplo padrão, a cumplicidade com essa esquerda retrógrada e criminosa. Esse Freitas pensa que o Maduro governa nosso país, e que pode fazer esse tipo de ameaça bem ao lado da presidente, como se estivesse numa Republiqueta das Bananas. E deve estar mesmo, pois tamanho descalabro passa batido! Fica impune! E a própria presidente se cala, consente, permite uma ameaça ao povo brasileiro bem no Palácio do Planalto. E a maioria nem liga, como se fosse normal, como se essa gente fosse assim mesmo e não precisássemos fazer nada para impedir ou mudar. Estamos anestesiados!

Eis as “armas” que temos e devemos usar contra esses verdadeiros golpistas: os argumentos, a palavra, a pressão nas ruas, nossos gritos, cartazes, nosso voto. E, claro, as leis do país. Se os bandidos golpistas realmente tentarem um golpe, acharem que podem sair às ruas armados de fato, então temos a polícia e, no limite, o Exército para impedi-los, para fazer valer a lei, a Constituição. Não temos medo do MST ou da CUT, dos “exércitos” criminosos desses “movimentos sociais” que querem transformar o Brasil numa Venezuela – e estão conseguindo. Se chegar a esse extremo, sabemos que nossos militares irão agir. Mas espera-se que não seja necessário, e que meliantes armados ou que incitam a violência sejam presos, como seriam em um país sério.





Por Rodrigo Constantino

Por um liberalismo cultural


Vemos nos dias atuais uma situação instável em nosso país, graças à péssima administração da presidente Dilma Rousseff, principalmente no âmbito econômico. A subida dos impostos, a alta da inflação e os casos de corrupção fizeram com que a presidente tivesse índices de aprovação baixíssimos, com a indicação de até um possível impedimento do mandato. Isso mostra apenas a vitória do liberalismo econômico frente aos defensores do Estado agigantado, com a prova de que a intervenção dos governos na economia não gera riquezas, gerando apenas problemas, como alta carga tributária, fuga de capitais e miséria.

E esse caso também é uma mostra da vitória do liberalismo enquanto política, pois se mostra a cada dia as alianças pouco ortodoxas do Brasil em sua agenda internacional, com o nosso país a cada dia mais se aproximando de países que pouco mantém respeito à democracia e aos direitos humanos, como Cuba, Venezuela, Rússia, Índia e China, via Foro de São Paulo, MERCOSUL, BRICS e UNASUL. Mas ainda o liberalismo no Brasil precisa vencer mais uma batalha dentro dessa guerra: a guerra cultural.

Nessa batalha, infelizmente os nossos amigos socialistas têm vencido desde os anos 1950, quando a obra “Cadernos do Cárcere”, do pensador marxista italiano Antonio Gramsci teve uma grande entrada nas universidades Brasil afora. Esse período também foi marcado pela primeira geração de intelectuais socialistas em nosso país, como Nelson Werneck Sodré, Fernando Henrique Cardoso, Caio Prado Júnior, Maria Yedda Linhares, Paulo Freire, Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Hollanda. E essa geração de intelectuais foi ganhando credibilidade no meio acadêmico brasileiro, com isso influenciando toda uma geração de pensadores que viriam posteriormente. Aliado ao movimento musical dos anos 1960, que tinha como líderes Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, foram conquistando espaço dentro da mídia e da opinião pública; Dias Gomes e Benedito Ruy Barbosa atuando pelo campo da dramaturgia iam colocando ideais defendidos por eles em suas novelas; Frei Betto e o teólogo Leonardo Boff agiam pelo campo religioso, propagando a famigerada teologia da libertação nesse âmbito. E o cenário político brasileiro a época foi favorável aos socialistas, graças ao período militar: com a supressão de direitos políticos e exílios de pessoas ligadas a movimentos socialistas, esses mesmos intelectuais saíram do Brasil e colocaram-se na posição de vítimas da opressão realizada pelo governo, ganhando cada vez mais visibilidade frente ao Brasil e ao mundo.

Depois da queda do governo militar, em 1985, esses agentes de disseminação das ideias de esquerda foi consolidando cada vez mais o seu espaço não apenas no âmbito midiático, mas também no campo político: Fernando Henrique Cardoso foi eleito senador e depois presidente da república, o Partido dos Trabalhadores foi fundado e ganhando cada vez mais apoio e adeptos: o PT uniu em seu corpo intelectuais de esquerda, sindicalistas, personalidades da mídia, pessoas ligadas a Teologia da Libertação e ex-guerrilheiros dos tempos de ação armada no período militar. E com toda a influência que a esquerda exercia, que ia desde a novela, passando pela música, pela educação e pela religião, ela varreu por um bom tempo as ideias liberais para longe do campo cultural, que aos poucos vem mudando com o cenário favorável a disseminação das ideias da liberdade.

Casos como o do humorista Danilo Gentili, dos jornalistas Rachel Sheherazade, William Waack e Diogo Mainardi, dos músicos Lobão e Roger, da banda Ultrage A Rigor e dos pensadores como Olavo de Carvalho, Bruno Garschagen, Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield e Rodrigo Constantino são as mostras que o jogo cultural começa a virar em nosso país: cada vez mais os livros de autores liberais e conservadores tem tido alcance e boas vendas no nosso Brasil e, com esses primeiros sinais de um chamado “liberalismo cultural”, ganhando cada vez mais notoriedade no meio midiático.

Para que as ideias da liberdade continuem a manter o espaço que já vem sendo conquistado aos poucos, é necessário que bebamos um pouco das águas do inimigo, em termos de como alcançar o objetivo: utilizando a subversão cultural proposta por Gramsci e denunciada pelo filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos (1901-1968) para alavancar de vez o liberalismo cultural em nosso país. Utilizando os veículos de mídia para mostrar que valores como mérito, trabalho, resguardo, prudência, respeito às liberdades e propriedades e a garantia da isonomia não morreram e devem ser basilares para que tenhamos um novo Brasil, utilizando os métodos só que com outros ideais. Para termos um país com menos Gregórios e mais Danilos. Com menos Chicos e mais Rogeres. Com menos Cristinas e mais Racheis. Pois como dizia o economista austríaco Ludwig Von Mises, ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão.





Por Jefferson Viana

Cartas na mesa


Collor olhou no relógio, assinou a mensagem de seu afastamento temporário do cargo e retirou-se do Palácio do Planalto. Este é hoje um dos maiores pesadelos de Dilma Rousseff, ou seja, seguir os passos do Presidente que sofreu o impeachment.

Impeachment, renúncia e cassação. Estas são as três palavras mais escutadas atualmente em Brasília. Cada uma carrega um significado. Cada uma carrega um desfecho. Cada uma representa um cenário. Este leque de possibilidades não deixa de ser, de certa forma, um componente de sorte para o destino da Presidente. Em cada uma delas o poder passará a ser ocupado por um grupo e enquanto estes não se entenderem, Dilma ganha tempo para tentar sua recuperação e evitar o pior.

O impeachment pode ser uma alternativa em caso de revés no julgamento das pedaladas fiscais. Neste caso, a Câmara dos Deputados precisa instaurar processo contra a Presidente, que será posteriormente julgado pelo Senado Federal. Neste caso, durante o afastamento temporário, o vice assume, o que levaria Michel Temer ao cargo de Presidente da República. Dificilmente Dilma escaparia de uma condenação final no Senado. Esta opção é a preferida hoje por grupos de deputados e alguns senadores.

A cassação de mandato é o caminho preferido pela ala dos tucanos liderada por Aécio Neves. Neste caso, provavelmente teríamos novas eleições, onde ele seria o candidato natural e favorito em função do recall. Na verdade, talvez seja a opção menos provável, pois dificilmente a justiça eleitoral tomaria o rumo de cassar o diploma da chapa vencedora no pleito presidencial. Isto já foi feito em pleitos estaduais, mas em nível federal seria um fato completamente novo.

A renúncia é ato unilateral da Presidente, que pode fazer uso do expediente quando bem entender. Apesar de dizer que suporta a pressão, no íntimo sabe-se que ela está abatida e cansada. Especula-se que Dilma já possui uma carta redigida e guardada, caso necessite. Isto pode acontecer diante da iminência de um processo de impeachment ou cassação ou até mesmo diante do agravamento da crise e a negociação de um pacto de governabilidade ou estabelecimento de um novo governo de união nacional. Neste caso assume o vice, Michel Temer, até o término do mandato.

Entretanto, o fato mais preocupante até o momento é a falta de liderança. Dilma hoje enfrenta a maior crise de governabilidade que a República experimentou desde a redemocratização. Falta-lhe apoio popular e político. As seguidas surras tomadas pelo governo no parlamento somente evidenciam a ausência de uma líder capaz de reagir ao momento delicado vivido pelo País. As tentativas de reação não geraram até aqui capacidade de rearticular a base aliada no Congresso Nacional.

Mas o problema de Dilma vai além da política. A crise econômica agrava-se a cada dia sem qualquer sinalização de que os remédios eficientes para resolver o problema sejam aplicados. As reformas necessárias para recolocar o Brasil nos trilhos não constam no receituário da Presidente, tampouco do seu partido. O Ministro da Fazenda tornou-se um mero bombeiro sem chances reais de apagar o fogo, mas apenas controlá-lo.

As cartas estão na mesa. Se Dilma deseja impedir o pior, precisa evitar que a crise política colida com o agravamento da situação econômica, o que chamamos de tempestade perfeita, noves fora a Lava Jato. É uma tarefa difícil. Sem base no parlamento ou respaldo popular, com um ajuste fiscal tímido e sem liderança, Dilma laçou-se nesta semana em uma aventura: reassumiu a coordenação política do governo. Mas comete um erro: isolou Temer. Como dizia Garrincha, esqueceu-se de combinar com os russos. Se der errado, em breve Dilma pode começar a consultar o relógio, assim como Collor fez em 1992.





Por Márcio Coimbra
Cientista Político e Coordenador do MBA em Relações Institucionais do Ibmec.

De novo as ruas


Novas manifestações estão programadas em todo o país no próximo domingo, expondo a indignação da sociedade diante exatamente de quê? Há quem veja nesse cenário o desdobramento natural de uma crise, cujo início remonta a junho de 2013; outros, a continuação de uma apertadíssima campanha presidencial, e, portanto, mero oportunismo político.

Já uma massa de descontentes reverbera o horror à inflação, que lhe corrói o poder de compra. Daí a panela estar na moda. Mas há também aqueles que sinceramente estão preocupados com a saúde das nossas instituições, a rigor ainda em processo de afirmação. A redemocratização do país é uma jovem de pouco mais de trinta anos apenas.

Nesse ponto, pego carona no pensamento do tão reverenciado Raymundo Faoro, figura-símbolo da Ordem dos Advogados do Brasil ao tempo da ditadura, que insistia na mudança (e, de fato, tudo mudou), mas ao mesmo tempo não tinha medo de perguntar sobre o que vem além da mudança.

Mudamos, sim. Alcançamos o Estado democrático de Direito carregando vícios e práticas antigas, deixando prevalecer os pontos de vista dos poderosos sobre os da grande massa de cidadãos. Daí negócios de Estado confundir-se com negócios pessoais, fazendo da corrupção uma instituição igual às outras, ou imiscuindo-se sorrateiramente nelas. A corrupção deixou de ser endêmica e passou a ser institucional. Tornou-se onipresente, onipotente e onisciente, ocupando o lugar em praticamente todas as esferas do Poder.

Por certo, o que as manifestações têm a dizer é que queremos algo além das práticas triviais da democracia, sobretudo quando sabemos que nas democracias também se abusa do poder, também se adotam processos arbitrários e discricionários, forjados à surdina, desprovidas de conteúdo social e que servem apenas para legitimar quem detém o monopólio do poder.

O rol de escândalos, a dança das cadeiras nos postos dos altos escalões da administração federal, as suspeitas de enriquecimento ilícito à custa do erário público, tudo isso fermenta uma massa onde se misturam indignação, raiva e medo.

No mundo atual, as ordens estabelecidas estão sujeitas a questionamentos das formas mais surpreendentes e rápidas, levados por uma coesão de palavras e idéias que ultrapassam fronteiras. Nunca o individual foi tão poderoso como agora, justamente por concentrar na palavra transmitida em tempo real a aspiração coletiva.

O desafio de agora, sobre o qual todos nós temos responsabilidades, está em restaurar a esperança de um futuro melhor e repor a confiança nas instituições. Por isso, não podemos continuar vivendo uma simples “situação democrática”, por mais eleições que possam ocorrer. Queremos uma democracia como valor universal, que se traduza em participação, ética e responsabilidade.

O povo é fonte e base da soberania de um país, e em nome dele o Poder é exercido. Foi a autoridade moral de Sobral Pinto quem trouxe de volta esse princípio básico nos gigantescos comícios que exigiam diretas-já para o Brasil. Hoje, novamente este povo toma as ruas, avenidas e praças exigindo ética na política. Cabe aos agentes públicos compreender a mensagem, sob pena de perderem a fonte de sua legitimidade e colocarem em risco a credibilidade das instituições republicanas.





Por Ibaneis Rocha
Presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB/DF)

Aula de massinha política


Vamos explicar para quem ainda não conseguiu entender? A imensa maioria dos brasileiros sai às ruas pacificamente porque quer o fim desse governo, dessa política, dessa administração, mas ainda confia nas instituições para resolver esse problema. Em qualquer nação civilizada, isto bastaria para que os governantes entendessem a grandeza de um gesto político. Aqui não. Aqui, bandido fica encastelado no governo roubando e você precisa chamar a polícia para tirá-lo de lá.

Na leitura avariada dessa gente, as manifestações em si não são o golpe, mas ensejariam um. Fica claro que não querem sair da teta, certo? A crise se resolveria pacificamente se, confiando nas instituições, os próprios bandidos caíssem em si e se entregassem. Alguém aqui acha que farão isso?
Há dois elefantes no governo, um em decorrência do outro; ambos se segurando na mamata.

São os “políticos da forma geral” que puxaram para si as benesses do poder e os ladrões, que perceberam como era fácil nesse cenário montar uma gigantesca máquina de roubar. Usar um bandido para derrubar o outro é quase escandaloso, mas parece que é a única saída que temos no momento. A outra é deixar claro quem é quem nessa trama sórdida e exigir que o cidadão pare de votar em bandidos. A desinformação aqui é industrial e a ignorância, um negócio muito rentável para os poderosos de turno.

Sabermos que a única oposição efetiva ao governo emana da própria base “aliada” desse governo cheira a vigarice, não é mesmo? Onde está a oposição? Quem acredita na covardia dessa gente não entende nada de ideologia; são todos de esquerda, meus amigos. Todos amiguinhos. O contrário de capitalismo é o comunismo; o de democracia é que é ditadura. Assim como não existem democracias comunistas, não existirão ditaduras capitalistas. Podem ir tirando os “little horses from the rain” que isso aqui já é uma ditadura, que também precisará ser derrubada como aquela outra. É preciso desenhar?

Se o capitalismo só produz “senhores de engenho”, o socialismo só produz bandidos. Com essa visão clara de ambos fica claro entender o que pensam, o que os move e o que defendem. Parem de aplaudir idiotas que empurram ideologia pra você com palavras elegantes. Eles continuam não valendo o que comem e brandindo uma mentira fundamental. Você precisa ser manipulado. Não sabe votar: se soubesse, não cairia nessa armadilha toda vez que ela é montada por aqui. E com urnas eletrônicas superfaturadas então? O serviço fica muito mais simples.

Não acredito em “planos mirabolantes”, nem em hegemonia mundial para se conquistar o poder. Acredito em algo muito pior: a “mentalidade” reinante. Por ela, subir na vida é pelo atalho e isso é lugar comum em qualquer tecido social rasgado e puído como o nosso. É nas entranhas que essa gente se acomoda, “transferindo renda” para os próprios bolsos. É tão escancarado que não sei como não somos governados pelo PCC de uma vez, no lugar do seu braço político, o PT.

Comunistas nunca se rendem, meus caros. Eles se imiscuem. Eles sempre se misturarão com a farinha poítica manca que produzimos por aqui, para ficarem à espreita de novas brechas na sociedade ─ para expandir a infiltração. Ou reconhecemos este estado de coisas e barramos essa gente via enxugamento da coisa pública, exigindo competência administrativa para cargos públicos, ou seremos eternos reféns de novas quadrilhas.

Por último, a pétubrais. Instrumento vagabundo de um golpe em gestação, a estatal aparelhada até a medula é um monstro que atravessa a gasolina mais cara do planeta para os seus consumidores. E tem gente que apresenta essa vigarice como “exemplo de desenvolvimento”. Desenvolvimento de bandidos, ainda não está claro? Ou desmontamos o Estado elefante de nosso lombo ou permitiremos eternamente que financiem, via esses mamutes gordurosos, as quadrilhas de turno, com o dinheiro desviado com que esses vigaristas atuam, meus caros. Acordem.

Hora de recreio.





Por Vlady Oliver