sexta-feira, 29 de maio de 2015

Trecho do livro Cristianismo Inteligente


Mesmo uma vida piedosa, quando desapegada da inteligência, sofre com os males da ignorância e pode, até por isso, acabar sucumbindo diante da complexidade da existência.


Em primeira mão, informo meus amigos que está em andamento o projeto de meu livro que se chamará Cristianismo Inteligente. Nele, compartilharei minha ideia sobre a natureza do cristianismo, que está muito além da trivialidade da ritualística e da banalidade dos pensamentos rasteiros. Assim, segue um pequeno trecho, para vocês entenderem um pouco sobre o que estou tratando:

“O que a inteligência tem a ver com fé? Esta, como muitos pensam, não deveria recolher-se ao seu ambiente propício, falando apenas com os seus, que é para quem interessa seu discurso, sem pretender alçar-se para além de seus círculos afins? Aliás, foi isso que ouvi desde garoto: que não deveria aventurar-me demais em questões intelectuais, pois elas poderiam causar-me a perda de minhas convicções religiosas.

Cresci ouvindo que a religião é inimiga da ciência e que um bom cristão é conhecido por sua conduta, não pelo seu pensamento. Também que quem se aventura em questões profundas da razão, em especulações arriscadas, corre o risco de desviar-se da fé, de perder a pureza religiosa.

Isso, porém, não representa manifestações isoladas, de religiosos zelosos. De fato, não é possível negar que o cristianismo contemporâneo possui uma certa tradição anti-intelectual que vem de mais de um século. Principalmente em suas vertentes mais místicas, nos movimentos carismáticos católicos e no pentecostalismo protestante, o uso da razão é visto com cuidadosa suspeita. E ainda que haja um legado de cultura em outros círculos cristãos, em geral, ele está restrito a algumas poucas cabeças pensantes. A ideia comum nas igrejas e paróquias é que ser cristão é algo que nada tem a ver com inteligência, mas com devoção e fé.


No entanto, ao estudar a história da Igreja e os livros de teologia e filosofia cristãs, fica claro que o cristianismo possui uma tradição intelectual pujante, que suas razões são profundas e suas especulações chegam a ser mesmo complexas. Ao ler a Bíblia vê-se que o que está ali revelado, apesar de compreensível, não se trata de verdades simplórias. Aliás, a maioria das heresias dá-se por uma compreensão equivocada dos textos bíblicos. Além do que, são as próprias Escrituras que valorizam o conhecimento e a sabedoria como virtudes que devem ser buscadas.

Diante disso, sempre me pareceu muito claro que o anti-intelectualismo que presenciei entre as comunidades cristãs era incompatível com a própria história da Igreja Cristã, tão recheada de grandes pensadores, de desenvolvimentos filosóficos profundos e disputas teológicas acirradas. Alguma coisa nisso tudo deveria estar fora do lugar. Algo havia mudado em algum período da história para afastar os cristãos do amor pela literatura, pela Filosofia e pela própria razão, que foi uma característica tão marcante entre os antigos.

Por isso, pretendo, além de fazer um breve apanhado histórico da evolução da vida intelectual dentro do cristianismo, mostrar como ela não apenas é compatível com uma vida religiosa, como é desejável, senão necessária para qualquer cristão.

Na verdade, cheguei à conclusão que mesmo uma vida piedosa, quando desapegada da inteligência, sofre com os males da ignorância e pode, até por isso, acabar sucumbindo diante da complexidade da existência.

Apesar de tudo, tenho plena consciência da dificuldade do tema proposto, pois, à primeira vista, pode parecer que advogo a favor de um racionalismo frio, que ignora as necessidades e valores que existem na mística cristã. Também alguns podem apressadamente achar que estou colocando a intelectualidade como um requisito para a salvação humana. Porém, todas essas conclusões são levianas. Meu objetivo é apenas mostrar como o abandono da intelectualidade, o preconceito contra a razão e o desprezo pelo conhecimento podem, ao contrário do que muitos pensam, ser, sim, cruciais para a derrocada de uma vida espiritual. Aliás, demonstrarei como sequer é cabível falar em espiritualidade apartada do conhecimento.

No entanto, para compreender minhas razões será preciso saber o que eu entendo por inteligência, conhecimento e espiritualidade. E posso garantir que todas as definições que trarei nesta obra se distanciam consideravelmente das formas populares como esses termos são tratados.”







Por Fábio Blanco
Advogado e teólogo

Corrupção + Reeleição = Destruição


O Brasil vive o impacto histórico de um final de guerra, cuja simbologia mais expressiva revela uma destruição e devastação em todos os campos e setores. Pudera: corrupção + reeleição=destruição.

O escândalo interplanetário da Fifa ressoa o quanto o Brasil dos últimos anos se deixou corromper e corrompeu e por isso hoje carrega e ostenta um definhamento do seu tecido social, com agonia da sociedade, de uma oposição tímida e tíbia, e somente agora quando lá fora provocam as prisões aqui se deflagra a apuração preliminar.

A malsinada reeleição deve de há muito ser banida e extinta da carta política e ela traz sequelas em todos os âmbitos, pois que a perpetuação do poder é um solo fértil para o abuso, desvio de poder e empolga a corrupção. Com o senso comum do parlamento de por fim a reeleição, também precisaríamos rever os cargos do legislativo e mandatos para o judiciário.

Nos parlamentos o máximo de exercício seriam dois mandatos, oito anos, e após não haveria mais qualquer oportunidade de voltar. O mesmo com o senado de único mandato de oito anos, prazo razoável e bastante elástico. Em atenção ao executivo seria até salutar que os mandatos de prefeito, governador e presidente fossem esticados para cinco anos o que viria ao encontro de uma gestão racional e sem sobressaltos, quando fiscalizada e supervisionada.

Não é diferente no judiciário, na Suprema Corte. Notadamente, os Ministros deveriam ter, no máximo, um mandato por dez anos, e nada mais. Seria essencial para abrir espaços e arejar a magistratura, ao passo que nas demais instâncias superiores o mandato não poderia ser superior ao prazo de oito anos.

Com essas medidas a República sairia fortalecida e a democracia igualmente, pois não teríamos tantos sangue sugas no poder e o clientelismo que permite ainda o regime das capitanias hereditárias. As instituições necessitam de reformas e no momento da crise se proclama uma chance rara, ótima oportunidade, para se lançar a semente e findar a relação espúria entre o poder econômico e o político.

O mega escândalo do futebol é pior do que a vergonhosa derrota 7X1 que completa um ano, e se não formos capazes de virar o jogo, permaneceremos no terreno lamacento e no lodo que nos corrompe e infelicita a sociedade, a qual não reage, apenas pede mudanças mas nem sabe ao certo o que deseja.


Com tantos descontroles que o futebol propicia, agora é o momento ímpar para se apurar a corrupção, lavagem, dívidas de clubes e todos os escândalos que nos levaram para a várzea ante as partidas e jogos que se assistem por todo o País.

O fim das reeleição é altamente salutar mas melhor seria o acantonamento da corrupção e sua letal destruição, a fim de que não enterre e sepulte,de uma vez por todos,o tecido social. O Brasil está perdendo essa batalha e somente terá condições de vencer a guerra acaso reaja e peça que a cidadania esteja consciente da situação.

Muito dinheiro desviado,roubado,propinas e mais propinas distribuídas. O rombo é sinal evidente da necessidade do ajuste fiscal, e se o contribuinte continuar a pagar a conta será sinal mais característico da impunidade, do que crime que compensa. O tempo é agora para uma transformação plural dessas violentas circunstâncias de formação de quadrilha, do crime organizado.

O garantismo, nada mais, nada menos, é uma válvula de escape para a impunidade. Sejamos como nas cortes do exterior: pilhado em flagrante está preso e por longos anos, sem direito aos indultos, mudança de regime ou benesses, pois que a punição é o único e indolor remédio para consertarmos as mentes poluídas e que vagam entre a pilantragem e o ganho fácil a custa do sofrido povo brasileiro.






Por Carlos Henrique Abrão
Doutor em Direito pela USP com Especialização em Paris, é Desembargador no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

As contradições internas do PT

                                                                                                      O PT tem duas caras

O PT está em profunda crise após mais de 12 anos no poder. Os escândalos de corrupção, as contradições entre discurso e prática, as tentativas de adorar mais de um Deus (no caso Capeta) ao mesmo tempo, tudo isso fez com que o partido chegasse ao ponto de ter a própria sobrevivência questionada.

Situações estranhas, como Lindbergh Farias, talvez a mando de Lula, tornar-se um ferrenho opositor do próprio governo Dilma, pedindo a cabeça do ministro Joaquim Levy, mostram como a crise é grave. Algo que até Marco Aurélio Garcia reconheceu recentemente, quando teve que discursar para uma plateia esvaziada no congresso do partido, clamando pela volta às raízes, ou seja, a saída pela intensificação dos equívocos esquerdistas.

Se o patamar da crise é novidade, após tantos escândalos virem à tona, as contradições internas não são. Em meu livro Estrela Cadente, de 2005, eu já mostrava essa “esquizofrenia” petista, antes mesmo dos escândalos do mensalão e do petrolão. A decisão de se unir ao PMDB e ao PL já causou uma ruptura entre os “pragmáticos” e os “idealistas”. O PT quer falar uma coisa e fazer outra, e quer fazê-lo impunemente, como se fosse possível usar duas caras para sempre. Abaixo, o capítulo do livro que trata do assunto:

Diante de todo o quadro até aqui apresentado, os militantes petistas encontram-se cada vez mais divididos, vivendo uma verdadeira crise de identidade. O PT enquanto partido, com suas defesas ideológicas, difere cada vez mais do PT governo, que adere ao pragmatismo e fisiologismo, usando do autoritarismo para obter mais poder. O realpolitik tem ocupado mais espaço com o avanço do PT no poder político brasileiro. O PT teria uma dupla personalidade. A cúpula poderosa do partido migrou seu discurso para o centro do espectro político-ideológico, descartando o lado mais radical do partido, que prega uma verdadeira revolução socialista. Ainda é visível o ranço ideológico no governo, mas muitos acreditam que isso seria apenas um meio para a manutenção do poder político. Este seria o único objetivo real, na opinião destas pessoas, como o exemplo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) do México, que tornou-se uma super máquina partidária que controlou o poder por 70 anos.

O próprio PT acaba funcionando como uma nação socialista, onde o discurso prega a “democracia participativa”, mas em nome da unidade do partido, uma cúpula decide as questões importantes. Os que discordam, acabam expulsos. Esse autoritarismo dentro do partido ficou claro quando o PT fechou uma aliança com o PL para as eleições de 2002, não submetendo tal decisão a qualquer outra instância além do Diretório Nacional, nem consultando os filiados. Ocorreram mudanças no Estatuto do partido, com maior delegação de poderes às executivas, eleitas por voto direto. A estrutura partidária concentra enorme poder sobre o restante do partido. Fora isso, até mesmo contribuição financeira obrigatória sobre os salários existe, como o dízimo da Igreja Universal. O “individualismo” é combatido dentro do PT também, e em nome da “causa geral”, todos devem ceder e contribuir. Claro que essa “causa” fica cada vez mais confusa, pois os ideais socialistas seriam possíveis através de uma revolução que os mais poderosos ou moderados não desejam, posto que atingiram seus objetivos particulares pelas vias democráticas, unindo-se aos demais partidos e afetando a coesão ideológica do PT. E até mesmo os românticos são individualistas!

Com isso, o PT de hoje difere bastante daquele imaginado por seus fundadores em 1980. Naquele tempo, reinava um romantismo utópico, e como não havia o compromisso com a governabilidade, propostas irreais ocupavam a agenda do partido. Havia uma recusa petista em ampliar suas alianças nos primeiros anos, para não corromper seus ideais. Pelo seu crescimento explosivo, assim como participação maior no governo, ocorreu uma oligarquização do partido, assim como uma quantidade enorme de alianças, que acabaram desconfigurando o PT. Ele ficou mais burocratizado, menos operário, e mais focado na pura obtenção de votos, adaptando o discurso de acordo com essa necessidade. O PT conta com enorme parcela de funcionários públicos dentro do seu quadro, e mais da metade recebe acima de 10 salários mínimos. Circula na internet uma definição interessante do que seria o partido (atribuída a Roberto Campos): “O PT é um partido orientado por intelectuais que estudam e não trabalham, formado por militantes que trabalham e não estudam, e comandado por sindicalistas que não estudam e nem trabalham”. Toda brincadeira tem um fundo de verdade.

O PT ficou mais elitista, e justamente por isso, certos radicais resolveram sair do partido, abrindo concorrência para capturar os votos da esquerda mais extrema. Enquanto isso, os que comandam o partido entraram em uma disputa pelos votos tradicionais do PSDB, com discurso mais moderado. São, na minha opinião, apenas táticas adaptadas para a chegada e manutenção no poder, como a mudança do conceito de luta de classes marxista por algo difuso como “direito à cidadania”. Os discursos foram adaptados, mas ainda estão repletos de objetivos vagos e abstratos, com conceitos subjetivos, justamente para possibilitar o atingimento do verdadeiro objetivo: o poder arbitrário.

Esse dilema, de abraçar o socialismo utópico sempre defendido, ou dedicar-se à acomodação entre diferentes grupos de interesse, vem causando uma ruptura interna no PT. E o governo Lula parece balançar entre esses dois caminhos, ora dando claras indicações de que o socialismo anda vivo nos planos do PT, ora pegando o rumo da terceira via social-democrata. O governo tenta combinar convicções ideológicas com o pragmatismo do governo. Acaba não agradando nem a gregos, nem a troianos. Os sonhadores socialistas, que almejam uma revolução, uma guinada ainda mais rápida no sentido de uma cubanização do Brasil, sentem-se traídos pelos anos de discursos e promessas. E os adeptos da social-democracia acabam vendo o PT apenas como um PSDB piorado, e ainda com fortes vícios autoritários, herança do socialismo. Enquanto isso, outros partidos buscam ocupar o lado mais revolucionário que antes era dominado pelo PT, cujo lema antigo era “Vote no Três que o Resto é Burguês”.

Segundo José Giusti Tavares, o PT é dominado pela decepção e pelo ressentimento, contendo uma nova “intelligentsia comunista” que não alimenta qualquer utopia e não possui sequer um programa de governo. Até porque uma democracia constitucional não possibilitaria a realização de um programa nas linhas ideológicas do PT antigo. Giusti considera que “seu objetivo (PT), dissimulado por uma miríade de projetos políticos exóticos, que atraem o apoio de minorias desajustadas, passa a ser a erosão dos valores, da cultura e das instituições do sistema político brasileiro”. Suas críticas são voltadas em especial para o PT gaúcho, e o levam à conclusão de que o partido é autoritário, tendo dificuldade de participar normalmente do governo da Federação. Não foram poucos os casos que corroboraram tal tese.






Por Rodrigo Constantino

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O retrato da falência do ensino público brasileiro


Pergunte a dez “intelectuais” como resolver os problemas do Brasil e terá dez respostas iguais: educação. Se com isso querem dizer jogar ainda mais recursos públicos no modelo atual de ensino estatal – e é isso mesmo que querem dizer, então estão redondamente enganados. Nosso modelo está falido, transformou-se numa máquina de doutrinação ideológica, e de desrespeito ao professor, que muitas vezes vive em clima de total insegurança.

A quebra de hierarquia em sala de aula, o ambiente um tanto anárquico e caótico, os desafios à autoridade do professor, tudo isso começou lá atrás, na década de 1960, e foi um fenômeno mundial. Mas aqui no Brasil, especialmente nas periferias, a situação saiu totalmente do controle. Os alunos ameaçam com o uso de violência e dominam a escola, fazendo o professor temer o exercício de sua profissão.

Um caso estarrecedor foi filmado por um celular e ocorreu em Minas Gerais, dentro da biblioteca do Colégio Estadual Dom José de Haas, no município de Araçuaí:


Na sequência, um jovem de 14 anos, estudante do sexto ano, em meio a risadas de outros alunos, começa a importunar a professora com perguntas de baixo calão. Em determinado momento, o aluno toca nos seios e nas nádegas da educadora. Além disso, empurra os livros que estavam na mão da mulher no chão. Ela chega a questioná-lo: “Você não respeita ninguém, não?”. Mas não é suficiente para fazer a sequência de ofensas parar. No fim do vídeo, os dois chegam a trocar agressões.

De acordo com a vice-diretora do colégio, Silvana Cunha, o caso ocorreu na tarde do dia 10 de abril. Segundo ela, o garoto foi suspenso das aulas no dia 15 de abril, e, desde então, está impedido de assistir às aulas. No dia 23 de abril, foi realizada uma reunião na escola com os pais dos alunos para falar sobre o episódio. Segundo Silvana, a direção está tentando transferir o aluno de escola. Ainda de acordo com a vice-diretora, o pai do jovem não compareceu ao colégio após o episódio. O caso também está sendo acompanhado pelo Conselho Tutelar do município.

Que tipo de gente pode achar graça numa “brincadeira” dessas? Como os professores podem lecionar num ambiente desses? E Chico Buarque acha que basta jogar ainda mais recursos públicos em nossas escolas estatais para evitar crimes como o que matou o médico ciclista Jaime Gold?

Não, o buraco é bem mais embaixo! O Brasil se transformou numa fábrica de delinquentes, e são vários os motivos, entre eles: a impunidade, a subversão de valores morais, a falta de limites impostos pelos pais, a transferência da responsabilidade de educar para o estado, etc. Tudo isso permite esse tipo de abuso que vimos acima, sem maiores consequências para o rapaz. É tudo muito triste e desanimador. A educação é fundamental para um país, sem dúvida. Mas como apostar nessa “educação” que o estado oferece?



Por Rodrigo Constantino

Lula deve explicações


Um dia o Lula falou que não bastava aumentar salários. Era preciso mudar o regime. O tempo passou, mas à exceção dos metalúrgicos do ABC, durante alguns anos, os salários não aumentaram e o regime continua o mesmo. A Nova República continuou velha e o partido dos trabalhadores nem é dos trabalhadores e muito menos é partido. A reforma política nada reformou. A Câmara rejeitou todas as propostas de mudança e o Senado confirmou a supressão de direitos trabalhistas.

Fazer o quê? Aguardar as próximas eleições é sonho de noite de verão. Faz décadas que nos enganamos com a expectativa, porque tudo fica na mesma. Imaginar a rebelião das massas equivale a desconhecê-las e a ignorar que jamais terão consciência de sua capacidade.

Quem assistiu as longas sessões da Câmara, terça-feira (26) e ontem (27), rejeitando alterações eleitorais, bem como a adesão do Senado ao massacre do trabalhador, concluirá pela desimportância do Congresso e a falência dos partidos políticos.

Madame, no México, exultou e confundiu todo mundo ao dizer “que desde 2008 o Brasil adotou medidas anticíclicas para evitar contaminação da economia pelos efeitos da crise global e que agora é hora de desfazer as medidas anticíclicas e fazer o dever de casa”. Entenderam? Nem eu.

A verdade é que apesar de o PT continuar votando contra os direitos trabalhistas, nenhuma proposta saiu de suas bancadas no sentido de dividir com as elites a carga de sacrifícios para enfrentar a crise econômica. Joaquim Levy já se declarou contra o imposto sobre grandes fortunas e sua opinião parece haver frutificado no partido. O vampiro continua se banqueteando no banco de sangue.

Numa palavra, o regime continua o mesmo enquanto, ou por conta disso, os salários não aumentam. O Lula deve explicações. Pretende voltar ao palácio do Planalto, em 2018, com que intenção? Corrigir os malfeitos de Dilma parece muito pouco. Ampliar o assistencialismo será inócuo. Mudar o regime?

O primeiro companheiro precisa dizer o que pretende. O seu ideal não pode restringir-se à possibilidade dos operários freqüentarem churrascarias uma vez a cada seis meses. Muito menos a voltar aos tempos em que a crise econômica não nos atingia. O provável candidato é intuitivo. Pouco ou nada lê. Toca de ouvido. Mas deve definir o seu regime.





Por Carlos Chagas

"Vai pra Cuba" e o crime de PT-fobia


Todos já sabem que o tal “Humaniza Redes” é jogada de marketing saída da cabeça do João Santana. Ou assemelhado. Resulta em bem concebida forma de censura a todos que não amam o PT, o petismo, o governo petista, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Portanto, é violência disfarçada. É a “criminalização” do antipetismo.

As organizações, personalidades e práticas políticas construídas em torno do partido da estrela, na cabeça dos que conceberam o Humaniza Redes, devem ser objeto de devoção e reverência nacional. Saudados com “Hasta la vitoria, siempre!”.

A expressão “Vai pra Cuba!”, aliás, tem sido apontada como sólido indício de ódio contra o PT. Entretanto, poucas coisas tão ansiosamente desejadas por qualquer petista, da base ao topo da pirâmide partidária, quanto uma excursão a Cuba. Viajar a Havana, com ou sem a companhia de Lula, já foi prêmio disputado pela militância. Toda visita à ilha de Fidel Castro constitui ato litúrgico, uma espécie de batismo de fogo simbólico. Encontro-me frequentemente, em debates, com muitos desses “compañeros” que estudaram por lá com aval do partido, ou que fazem peregrinações periódicas à ilha, de onde retornam como quem transpôs os umbrais do paraíso socialista.

Portanto, todo petista que se preze deveria responder a um “Vai pra Cuba!” com um “Se Deus quiser!”, principalmente porque a expressão poderia substituída por coisa muito mais desagradável e ofensiva, tipo “Vai pra Miami!” ou “Vai pra Nova Iorque!”. Mas isso sim, seria coisa de gente mal-humorada, intolerante, do tipo que se irrita com o Mensalão, o Petrolão, os sucessivos escândalos, as mordomias, as “pedaladas”, a irresponsabilidade fiscal, as mentiras e mistificações, as explicações esfarrapadas, a carestia, a inflação, o aumento de impostos e o crescente desemprego. Para ficar no que se sabe.

Ódio não é um sentimento que se deva cultivar. Por isso, sugiro um programa “Harmonize PT”, para acabar com a semeadura de ódio que o partido, há anos, semeia onde quer que a imaginação humana possa vislumbrar uma fissura em grupos sociais. Foi por esse caminho que o PT foi jogando os brasileiros uns contra os outros até darem conta do que estava acontecendo.

Mas se o ódio faz mal, tampouco seria benéfica e respeitável a passividade tolerante que o petismo apreciaria neste momento. O fiapo de democracia que nos resta está sustentado nos movimentos de rua e nas redes sociais porque as instituições, bem, as instituições estão com a vida ganha. E o país tem um governo petista com uma oposição tucana. Pode haver infortúnio maior?




Por Percival Puggina

Presidente impedida


Estranhou-se a ausência do ministro Joaquim Levy no momento do anúncio dos cortes no Orçamento, mas deu-se como natural o fato de mensagem de tamanha importância não ser transmitida ao País pela presidente da República.

Dilma Rousseff seria a porta-voz abalizada. Isso em tempos normais. Neles também caberia à chefe do Poder Executivo reunir governadores para debater o contrato federativo e receber os prefeitos que anualmente "marcham" a Brasília.

A tarefa neste ano ficou com os presidentes da Câmara e do Senado. A presidente já não havia aparecido quando do anúncio das medidas do ajuste fiscal, oficializando assim a transferência da condução pública da economia para Joaquim Levy. Questão de confiabilidade.

Depois, viu-se forçada a terceirizar a articulação política. Questão de habilidade. Entregou o serviço ao vice-presidente Michel Temer, comandante em chefe do PMDB, justamente o partido que o governo de início pretendia alijar da coalizão, substituindo por aliados mais dóceis.

Adiante o Congresso limitou a uma só a indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal pela atual presidente, ao aprovar a extensão de 70 para 75 anos de idade a aposentadoria compulsória dos magistrados.

No meio tempo Dilma Rousseff e a opinião pública desentenderam-se de tal maneira que à presidente não restou opção a não ser o recolhimento. Parou de circular em eventos onde pudesse haver contato com a população e precisou até abrir mão do monólogo dos pronunciamentos oficiais em rede de televisão a fim de evitar vaias e panelaços.

Diga-se em favor da presidente que não é o único alvo. O vice também já foi obrigado a desistir de discursar em solenidades públicas devido a protestos de não mais que 50 pessoas e até o ex-presidente Luiz Inácio da Silva andou levando uns passa-foras quando apareceu no programa anual do PT. Do qual, pela primeira vez, Dilma absteve-se de participar.

Como reza o lugar comum, não está fácil para ninguém. Nem para a oposição que, apesar de todo o desgaste do governo, tem dado um duro danado para calibrar o enfrentamento com o Planalto. Precisa manter acesa a chama da insatisfação, mas, ao mesmo tempo, não pode perder o pé da realidade.

Por exemplo: de que adianta insistir em pedido de impeachment via Parlamento se está mais do que evidente que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não dará prosseguimento ao processo, seja por falta de embasamento objetivo ou ausência de interesse político?

Ademais, sejamos francos: se por hipótese remota houvesse o afastamento da presidente antes de dois anos de mandato e fossem realizadas novas eleições, a oposição estaria mesmo interessada em assumir o comando do País do jeito que está?

Por ora, ao PSDB parece soar muito mais agradável assistir ao PT, Dilma, Lula e companhia encontrarem uma saída para a enrascada que eles mesmos construíram. Além disso, as coisas entre os tucanos voltaram a ficar complicadas em termos de ambições presidenciais.

O senador Aécio Neves já não corre sozinho. O governador Geraldo Alckmin constrói seu caminho rumo à candidatura e o senador José Serra começa a se reposicionar. Para os oposicionistas, portanto, melhor o impedimento de fato, na prática, que um impeachment de direito sem efeito.

Voz do dono. Além de consenso mínimo entre as forças políticas representadas no Congresso, falta a esse projeto de reforma política que agora começa a ser debatido no plenário da Câmara, o principal: o entendimento por parte do eleitor.

É de se duvidar se o ator principal do processo - o dono do voto - faça a mais pálida ideia do significado daquilo que discutem suas excelências. A amplitude da pauta leva a crer que, mais uma vez, a intenção é propor mudar para deixar tudo como está.

Isso na melhor das hipóteses, porque pode piorar.




Por Dora Kramer