sábado, 25 de abril de 2015

Dados à mão e ideia nenhuma na cabeça


Tiradentes foi o primeiro grande bode expiatório da História do Brasil. Era, digamos, o menos valido dos inconfidentes das Minas Gerais. Pagou com a vida pela loucura de, não sendo abastado, ter comprado a briga da elite das ricas regiões mineiras, revoltada com a "derrama", obrigação de dar um quinto do ouro garimpado à Coroa d'além-mar. Enforcado, esquartejado, com as partes do corpo despedaçado espetadas em postes, a cabeça em Vila Rica, hoje Ouro Preto, foi esquecido no Império e celebrado na República como Protomártir da Independência. Hoje o Estado republicano leva em impostos, no mínimo, 50% mais do que a "derrama" colonial e o martírio dele é lembrado neste tempo nefasto em que, como se diz vulgarmente, "não está fácil pra ninguém" - seja para a nobreza, seja para a plebe.

Os fidalgos contemporâneos são a elevada hierarquia do governo federal e a elite partidária e sindical, que mandam na República com que Joaquim José da Silva Xavier sonhou. A situação de dona Dilma é tão precária que, num rasgo de altruísmo alienado, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), candidato a vice da oposição ao poder petista de mais de 12 anos, condescendeu em deixá-la "sangrar", como se, neste processo vil, nossa hemorragia não tivesse de desatar antes. "Inocente", diria compadre Washington. "Nem tanto", retrucaria o bêbado cético da piada que, à porta da Igreja no ofício fúnebre da Sexta-Feira Santa, resmungou ao ouvir o relato da paixão do Cristo: "Alguma ele fez".

O desavisado tucano pode até ter razão pelo menos num detalhe: a situação também não está fácil para a "governanta", que cada vez governa menos, embora isso não queira dizer que não governe mais. Governa, sim! E sua situação é tão aflitiva que não pode ser definida como de "pato manco", como se diz na América do Norte dos senhores que mantêm o título, mas perdem o poder de fato. Talvez seja o caso de compará-la com o corvo de asa quebrada à janela, da bela e triste canção de amor de Bob Dylan.

A semana que finou antes das honras de praxe ao alferes herói cheirou a incenso de exéquias para os petistas. Ela começou com a entrevista do ex-diretor da empresa holandesa SBM Jonathan David Taylor à Folha de S.Paulo, informando que delatou propinoduto entre sua firma e a Petrobrás em agosto e a Controladoria-Geral da União (CGU) deixou para investigar depois da reeleição de outubro. "Repilo veementemente", clamou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, repetindo o mantra que agora lembra as juras de inocência de João Vaccari Neto, preso nessa semana fatídica, ecoadas pelo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Rui Falcão. É como se dissessem: "Fecha-te, Vila Sésamo!"

Sim, há um quê de programa infantil de televisão em nossa chanchada trágica. Por exemplo: enquanto a presidente mentia para se reeleger na campanha oferecendo Shangri-lá ao eleitorado, seu Mágico de Oz, Guido Mantega, lidava com a contabilidade pública, tratada com rigor nas democracias com vergonha, como se fosse um conto sem fadas só de bruxas. Os truques de mágico de circo "tampa de penico" adotaram o nome de um drible desmoralizante no futebol, as "pedaladas" que o craque Robinho, do Santos, deu no desajeitado zagueirão Rogério, do Corinthians, em final de campeonato. O desconcerto contábil deu a segunda grande dor de cabeça da véspera da data consagrada ao herói martirizado: o Tribunal de Contas da União (TCU), incorporando de forma inédita a lógica dos fatos, definiu-o, unanimemente, como "crime". E não podia ser diferente, pois é crime. E grave!

Só resta conferir se o TCU, além de ouvir o óbvio de Nelson Rodrigues ulular, confirmará seus técnicos. E se o Congresso, a que ele serve, terá súbito e improvável pudor de refutar algo tão simples e óbvio, negando aval às contas do último ano do primeiro mandato de Dilma, incriminando-a.

Se a lógica patente substituir a obscura tradição, os rebelados contra o mandarinato petista que vão às ruas terão razão para confiar que a "gerenta" não chegará ao fim de sua malfadada gestão, pois haverá razões legais, além do mero fato de ela ter-se revelado "incompetenta". Mas esta é, por enquanto, apenas uma hipótese remota. Impeachment de presidente só pode resultar de um processo de responsabilidade efetiva e comprovada de crime contra os bens e o interesse públicos, com aval, primeiro, da Câmara e, depois, do Senado. Até Marina Silva pulou da rede para lembrar que não basta impedir, é preciso assumir.

A monjinha trotskista contribuiu para o debate político consequente de forma mais racional do que os tucanos que ela apoiou, timidamente, no segundo turno da última eleição. Estes realizam a proeza de ser, a um tempo, omissos e "oportunistas", como definiu o historiador José Murilo de Carvalho em entrevista ao Estado de domingo 12. Do alto de 51 milhões de votos, Aécio Neves acenou para os manifestantes do apartamento em Ipanema em 15 de março. E em 12 de abril convocou seguidores para um protesto ao qual não foi.

Essa omissão com pretensão a liderar, com dados à mão e ideia nenhuma na cabeça, só não superou em desfaçatez o oportunismo de aderir ao impeachment após pesquisa do Datafolha constatar o apoio de 63% da população à medida. Não estando autorizado por Carvalho a interpretar o que disse com brilho, este escriba desconfia que os oportunistas não se limitam a apreciar o sangramento de Dilma sem lhe ter dado, ao contrário de Brutus em Júlio César, nenhuma punhalada. O problema é que, como registrou neste espaço o tucano Roberto Macedo, economista de escol, o PSDB ainda não apresentou ao eleitorado sequer sua posição sobre os ajustes propostos por Levy.

O desgoverno Dilma não sabe o que fazer e a oposição não conta o que propõe para quando ele acabar: antes de apoiar o impeachment, devia dizer o que fará no dia seguinte.






Por José Nêumanne

"Uma afronta aos brasileiros"


É uma afronta aos brasileiros, que se mobilizam para exigir mudanças: enquanto a equipe econômica tenta cortar investimentos e despesas de custeio para viabilizar o necessário ajuste fiscal, o Congresso propõe e a presidente da República aprova a triplicação da "mesada" aos partidos políticos. O Orçamento-Geral da União para 2015 foi sancionado por Dilma Rousseff sem veto à proposta de aumento do Fundo Partidário de R$ 308,2 milhões para R$ 867,5 milhões. O Fundo é uma das principais fontes de receita para os partidos políticos.

O incremento substancial do Fundo Partidário, em proporção sem precedentes, no momento em que o governo se debate com a necessidade de ajustar suas contas e os protestos populares se estendem aos políticos e aos partidos em geral, é mais uma demonstração de que Dilma Rousseff é incapaz de resistir à chantagem daqueles de cujo apoio necessita para fazer o que chama de "governar".

Por detrás dessa aberração está, para começar, uma organização político-partidária anacrônica e totalmente comprometida com a mentalidade patrimonialista que, salvo poucas e honrosas exceções, transformou os partidos políticos num fim em si mesmos, em porta de acesso a vantagens e privilégios pessoais. Além disso, há a penúria em perspectiva que apavora o partido do governo, desmoralizado pela exposição da corrupção endêmica que inibe as grandes corporações empresariais de continuar investindo pesadamente em "doações legais" ao PT. Além disso, o PT, como óbvio protagonista do propinoduto da Petrobrás - e sabe-se lá de quantos outros -, pode ser obrigado pela Justiça a ressarcir os cofres públicos que foram assaltados.

Segundo apurou a Folha de S.Paulo junto a dirigentes petistas e técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o aprofundamento das investigações da Operação Lava Jato pode resultar na "inviabilização" do funcionamento do partido, em decorrência das pesadas multas a que se pode tornar sujeito, e até mesmo da cassação do registro da legenda.

Diante dessas ameaças, os dirigentes petistas exerceram forte pressão sobre Dilma Rousseff para que não vetasse a proposta de triplicação da verba do Fundo Partidário. Esta passa a ser, até onde a vista alcança, a principal fonte de recursos do PT, que na semana passada, certamente já contando com o dinheiro do contribuinte, anunciou a decisão - a ser referendada pelo congresso do partido, em junho - de não mais aceitar "doações" de pessoas jurídicas. Decisão que se tornou mais fácil de adotar quando o Fundo Partidário, que em 2014 rendeu ao PT R$ 50,3 milhões, porá em seus cofres, em 2015, R$ 117,4 milhões. PSDB e PMDB passarão a receber, respectivamente, R$ 95,9 milhões e R$ 93,7 milhões.

A afrontosa triplicação da verba do Fundo Partidário para este ano recoloca em foco a questão do financiamento da atividade partidária e das campanhas eleitorais. Assunto que divide radicalmente a opinião dos diretamente interessados.

Partidos políticos são entidades privadas de direito público. Essa condição coloca desde logo a questão de saber até que ponto faz sentido uma atividade privada ser financiada com recursos que por definição devem ser aplicados para benefício direto da coletividade. E outro ponto polêmico é o financiamento dos partidos políticos por pessoas jurídicas - corporações que têm algum interesse na administração pública, em especial as empreiteiras de obras. É claro que o dinheiro que corre nesse esquema, longe de significar "doação", é um investimento à espera de retorno compensador.

O ideal, numa sociedade livre e democrática, é que os partidos políticos vivam da contribuição de seus militantes e apoiadores. De quem vota: as pessoas físicas, os cidadãos. Alegam os políticos que essa fonte de recursos é absolutamente insuficiente para cobrir, por exemplo, os cada vez mais elevados custos das campanhas eleitorais. Ora, esse é um problema dos partidos e de seus marqueteiros, não do cidadão contribuinte. Até porque os partidos já dispõem do chamado horário gratuito de propaganda eleitoral - que é gratuito para os partidos, mas não para os contribuintes.



Editorial
O Estado de S. Paulo - 22/04/2015

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O ajuste fiscal e o Brasil: leviano e nada republicano


A presidente Dilma, como o senador-candidato Aécio Neves alcunhou, tem realmente se mostrado leviana*, pois, sendo a responsável pelas atuais dificuldades político-econômicas-financeiras-sociais do país, e, apesar de saber e propagar a necessidade do ajuste fiscal:

- mantém o almanaque de 39 ministérios, que custam ao país, anualmente, cerca de 60 bilhões de reais, sendo desnecessária grande parte daqueles órgãos, que poderiam ser extintos ou se transformar em órgãos subordinados às estruturas de ministérios de real importância. Foram criados apenas para cooptar os partidos políticos da coalizão, ou atender ao populismo eleitoreiro. Citam-se os seguintes: da Pesca e Aquicultura; do Turismo; do Esporte; da Promoção da Igualdade Racial; das Políticas para as Mulheres; do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; da Micro e Pequena Empresa; de Portos da Presidência da República; da Aviação Civil da Presidência da República...

Aliás, embora importante e absolutamente necessário, poderia riscar o da Relações Exteriores, que, de passado de excelência, se transformou em ridícula sucursal da ideologia mercosulista-bolivariana, com seguidos vexames internacionais pelas mãos de um dinossáurico e inexplicável assessor palaciano. O que é mais escandaloso é o titular da pasta se sujeitar a isso, quando ele – o titular, o ministro – é que é o assessor de RE da Presidência!!

- mantém o gasto de 214 milhões por ano com os 891.949 servidores, que se dividem em 20.922, com contratos temporários, 113.869 em cargos de confiança e comissionados, e 757.158 efetivos, sendo que os mais de 100 mil em cargos de confiança, não foram concursados!;

- não cancela e nem audita e publica os vergonhosos e misteriosos gastos com cartões corporativos, que compram, de perfumes e tapiocas, a noitadas em motéis (ah, se fosse só isso!); são mais de 12 mil cartões, cujos gastos chegam a 200 milhões de reais, de transparência negada aos contribuintes e ao Congresso!;

- sancionou o Orçamento Geral da União para o Congresso, com um aumento de cerca de 600 milhões para o fundo partidário, mais de 200%!, enquanto a equipe econômica prepara um corte de 80 bilhões, para garantir as metas do superávit primário, na educação, saúde, defesa, transporte, direitos trabalhistas, pensões, creches,.... ou seja, em tudo que afeta a vida do povo, E, no meio desse vendaval que assola o País, o Congresso demonstra que ajuste, apertar o cinto, reduzir custos, não é com ele. Pelo contrário!;

- não cancela e reestuda as reparações chamadas de "auxilio- ditadura", que aprovou mais de 40 mil pedidos de indenizações dos que se arrogam terem lutado pela democracia, quando, na verdade, o fizeram pela implantação de ditadura comunista. Os valores dessa "reparação" já chegam a cerca de 4 bilhões de reais;

- não explica os empréstimos concedidos pelo BNDES, à revelia e aprovação do Congresso, para obras em Cuba e países africanos governados por ditadores;

- não se empenha pelas reformas política, tributária, previdenciária e trabalhista, que cortariam muitos gastos abusivos e modernizariam essas áreas, preparando o País para o futuro;

Não é sem sentido, pois, a insatisfação generalizada, as manifestações contra o governo e a péssima avaliação de seu desempenho. De um lado, passeatas espontâneas, de pessoas vestidas e portando bandeiras, verde e amarelas. Do outro, minguados e envergonhados militantes, contratados por miseráveis lanches e gorjetas, com bandeiras vermelhas, inclusive do MST, cujo titular, à margem da lei, ordena a destruição e invasão de próprios públicos e particulares, ficando tudo por isso mesmo, e ele ainda é absurdamente homenageado com a outorga da Medalha da Inconfidência, conspurcando a todos que a receberam com mérito, que, de pronto, deveriam devolvê-las. Isso foi uma audácia!!!

A imposição da medalha deveria ser respondida com uma aposição floral. Ao atrevido e nada republicano governo petista de Minas Gerais.

Nunca antes na história deste país houve tanta tolerância com a incompetência e leviandade. E tanto desprezo à ética, à moral e ao futuro do Brasil.

*do site significados.com.br:

Leviano significa imprudente, sem seriedade. É um adjetivo que qualifica o indivíduo que age precipitadamente, e que não tem consideração com o outro.

Leviano é aquele que expressa opinião sem ter certeza do que está informando, e também não domina o assunto.

Ser leviano é proceder sem bases verdadeiras, é ser hipócrita, maldoso e irresponsável, é aquele que tem comportamento volúvel, que age com insensatez.

O indivíduo leviano é uma pessoa fútil, medíocre, não tem noção do que é prudência, sabedoria e ponderação, transmitindo a imagem de pessoa irresponsável.

“...as coisas que não acontecem no País: a meta não atingida, a obra inacabada, a lei que não pegou, o assassino que foi solto...; em suma, nosso problema principal é a paralisia secular", descrita uma vez por Mário Henrique Simonsen, brilhantemente:

“O Brasil é um país sob anestesia, mas sem cirurgia. É deprimente o que o Brasil não faz” - Arnaldo Jabor





Por Luiz Sérgio Silveira Costa

Bipolaridade intelectual


A bipolaridade intelectual é o distúrbio que mais ataca jornalistas, colunistas, sociólogos e palpiteiros tanto da esquerda quanto da direita. Num dia o camarada diz morrer por um princípio, no dia seguinte rejeita a ideia e ainda despreza quem a defende. Sua avaliação sobre o que é correto ou moral é imprevisível, varia conforme a pessoa ou o partido que praticou a ação. Eis alguns exemplos atualizados da bipolaridade intelectual:


Terceirização de funcionários: “grande ameaça às conquistas dos trabalhadores”.

Terceirização de médicos cubanos: “grande conquista da medicina brasileira”.

*

Ajuste fiscal de FHC: “fora tucanos neoliberais!”.

Ajuste fiscal de Dilma: “é preciso ter maturidade e entender a importância do equilíbrio das contas públicas”.

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Imprensa descobre que Fernando Gouveia, dono de um blog contra o PT, tem uma empresa que presta serviços ao governo de SP no valor de R$ 70 mil mensais:

- Eis um claro exemplo de conflito ético!

Imprensa descobre que Leonardo Sakamoto, dono de um blog a favor do PT, tem uma ONG que presta serviços à Secretaria de Direitos Humanos no valor de R$ 546 mil por ano:

- Eis um exemplo de uma pessoa ética!

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Blogueiro conservador, sobre armas: “Contra o estado-babá! O cidadão deve assumir a responsabilidade por suas ações”.

Blogueiro conservador, sobre maconha: “A favor do estado-babá! As pessoas não sabem o que fazem”.

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Feminista, sobre aborto: “As mulheres têm direito de decidir interromper a gravidez”.

Feminista, sobre cesáreas: “As mulheres não têm direito de optar pela cesárea”.

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Jean Wyllys, sobre casamento gay: “O estado não deve se meter na vida privada dos cidadãos”.

Jean Wyllys, sobre economia: “O estado deve se meter na vida privada dos cidadãos”.

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Adolescentes ricos ateiam fogo em índio em Brasília: “prisão perpétua para esses playboys!”.

Adolescentes pobres ateiam fogo em traficante rival: “redução da maioridade penal é fascismo”.

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Pobreza na África: “a culpa é do comércio internacional, principalmente com os Estados Unidos”.

Pobreza em Cuba: “a culpa é da proibição do comércio com os Estados Unidos”.

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Independência da Palestina: “é preciso respeitar o princípio da autodeterminação dos povos”.

Independência das Falklands: “As Malvinas sempre foram argentinas”.





Por Leandro Narloch

O Caderno de Teses do PT


O Partido dos Trabalhadores apresenta apenas um comportamento louvável: a honestidade com a qual fala sobre seus objetivos. O PT sempre deixa bem claro suas intenções por meio de artigos, notas, entrevistas, pronunciamentos e ações de apoio a ditaduras socialistas. Dilma e Lula nunca tiveram pudor em discursar ao lado de banners estampados com a imagem de símbolos e heróis comunistas. Sua militância prefere qualquer bandeira vermelha à bandeira do Brasil.

O Caderno de Teses, publicado pelo partido para ser apresentado em seu 5° congresso nacional, é apenas mais um documento que registra que ele, PT, é muito mais do que um partido político. O PT é um bem organizado e estruturado grupo ideológico, com projetos que têm o Brasil como uma ferramenta política e como fonte de recursos para a disseminação do socialismo na América Latina. Ninguém pode acusar o PT de enganar a sociedade. O Foro de São Paulo foi criado, realizado e vem se desdobrando na frente de todos.

Entre as teses defendidas, estão a intimidação de pessoas e movimentos vistos como de direita, rompimento com a dívida interna e externa, liberdade especial para sindicatos e movimentos sociais, estatização da Rede Globo e o controle de todos os veículos de comunicação e mídias virtuais, reestatização de empresas e de infraestruturas, controle do mercado financeiro, protecionismo em alto grau, anulação da Ação Penal 470 (mensalão) e punição aos ministros que julgaram pela condenação dos petistas. É preciso lembrar que esse documento não é nenhum manifesto do PSOL, do PSTU ou do PCdoB. É um documento do PT, do partido que ocupa hoje, agora, a Presidência da República! Mas a presidência é pouco… Eles querem mais! Muito mais! Eles querem o poder total e perpétuo do país e da América Latina!

Alguns pontos chamam a atenção nas 165 páginas do documento: Primeiro, a repetição sistemática da palavra ou das derivações de “democracia”. Pregam a intimidação social, política, cultural e econômica em nome da democracia. Pregam a destruição da direita em nome da democracia. Pregam que a força estatal deve agir sobre pessoas, empresas e instituições em nome da democracia. Defendem a democracia ao mesmo tempo em que defendem todos os governos totalitários da América Latina. Segundo, as estapafúrdias referências históricas para justificar o controle do mercado, citando, pasmem, Estados Unidos e Japão no século XIX! Terceiro, a total rejeição à responsabilidade do partido sobre a corrupção e sobre a dilapidação da economia brasileira. A tese Muda Mais: Por Um Novo Ciclo De Mudanças No País, item 32, parágrafo “e”, escreve: “O PT não vê autoridade no PSDB e na mídia liberal-conservadora em sua disposição de acusar e criminalizar o PT exatamente porque são os maiores defensores do financiamento empresarial das campanhas, dos interesses rentistas e patrimonialistas e da impunidade”. Ou seja: do ponto de vista petista, todas as evidências, documentos, extratos bancários, testemunhos e confissões relacionadas aos casos de corrupção são meros detalhes descartáveis diante do embate político-ideológico que se resume na tentativa do MAL, representado por todos aqueles não alinhados ao PT, em destruir o BEM, representado pelo Partido dos Trabalhadores − o PT é inocente de tudo; os outros são culpados por tudo, sempre!

Confesso que a leitura desse documento não me surpreendeu, e por isso meus temores aumentaram. Se pessoas como eu, que se dão à desgastante tarefa de ler e escrever sobre os absurdos do PT já se mostram indiferentes − e até sem criatividade para explorar outras abordagens −, diante de COISAS do tipo, talvez estejamos reabrindo uma brecha para os petistas imporem seus projetos sem qualquer pudor, como vimos dias atrás, com a canetada de Dilma triplicando a verba partidária. Ninguém faz isso à toa. Não me surpreenderei se amanhã ou depois acordar com a notícia de que Dilma decretou sua própria “reforma política”, sob total conivência do Congresso.

Por vezes, diante do crescente número de pessoas comuns e da mídia que começaram a se manifestar contra o PT nos últimos meses, sinto-me cheio de otimismo, crente de que a sociedade brasileira vai tirar do poder essa corja criminosa. Noutras vezes, como hoje, vejo uma ditadura socialista-marxista continuando a ser construída a todo vapor, com os mesmos objetivos de três décadas atrás. Como demonstra Sun Tzu em A Arte da Guerra, é quando se vê acuado que um exército se torna mais perigoso.

O Partido dos Trabalhadores não é um partido político, mas, sim, um exército que, como tal, não abrirá mão do território que ocupou. Hoje, o PT está entre morrer ou matar todos os inimigos; fará de tudo – “o diabo”, como já disse Dilma −, para se preservar no poder.

O erro fatal da sociedade brasileira será crer na promessa de diálogo e de regeneração do PT, confiando a ele mais liberdade, mais dinheiro e mais poder. O que a “metade não corrompida” precisa entender é que, se eles estão em guerra, nós precisamos nos levantar para combater nessa guerra. O objetivo deve ser a destruição daqueles que não têm pudor em dizer que querem nos destruir.




Por João Cesar de Melo

O desabafo desesperado de uma professora indignada com a indisciplina escolar


We don’t need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone! – Pink Floyd


O “pós-modernismo” veio com toda a sua rebeldia contra o “sistema”, contra aqueles valores “burgueses” rígidos da era vitoriana ou do que restara dela. Era chegada a hora de acabar com essa rigidez, com a “palmatória”, com aqueles professores autoritários, com qualquer hierarquia.

Como quase todo movimento, havia alguma legitimidade em suas críticas, pois apontavam para excessos realmente existentes. E como quase todo movimento bem-sucedido, o pêndulo extrapolou para o outro lado. O pós-modernismo virou sinônimo de bagunça, indisciplina, e quem mais sofre com isso são os próprios alunos.

É o que argumenta a professora Kátia Simone Benedetti em seu livro A Dignidade Ultrajada: Ser professor do ensino público nos dias atuais (Barra Livros). Ganhei o livro de presente da própria autora, que escreveu uma longa dedicatória já denotando sua angústia. Em um trecho, ela diz: “Depois de 15 anos na educação, tornei-me uma pessoa absolutamente desesperada em relação ao futuro de nosso país”.

No decorrer da leitura, o motivo fica claro: Kátia defende, com base em sua formação em psicopedagogia com viés darwinista*, que a ciência foi abandonada em sala de aula em troca de algum idealismo confortante qualquer, tal como o conceito de “bom selvagem”. Passou-se a ignorar que crianças precisam de limites, de disciplina, e que o professor representa justamente essa função em classe.

A perda de respeito pelos professores tem deixado muitos deles deprimidos, sem falar que os bons docentes acabam abandonando a profissão e o espaço é ocupado pelos desqualificados e despreparados. Kátia não poupa de críticas os “profissionais de fora de sala de aula”, ou os “educadores de gabinete”, aqueles que vivem nas torres de marfim do mundo acadêmico das ideias, sem contato no dia a dia com os alunos em sala de aula. Muitos desses também alimentam uma visão romântica do ensino, prejudicando os alunos.

A premissa por trás do manifesto está na existência de uma “natureza humana”, ou seja, nós seres humanos não somos totalmente maleáveis, não somos uma “tabula rasa” como pensam alguns. E isso leva à necessidade de se impor limites e regras de conduta desde cedo, reconhecendo-se inclusive as hierarquias sociais. Ao tentar rasgar isso tudo, os pós-modernos subverteram importantes valores, e o resultado foi o caos.

Exercer a autoridade necessária não é o mesmo que autoritarismo. Claro que alguns vão abusar desse direito, mas o abuso de alguns não deve tolher o uso dos demais. Para combater os excessos, as falhas de alguns por conta inclusive da natureza humana, os pós-modernos acabaram jogando o bebê junto com a água suja do banho, e destruíram a autoridade legítima. O caminho ficou livre para a baderna.

Não são poucos os casos em que a hierarquia se encontra invertida, com os protagonistas trocados: a autoridade dentro das salas de aula deixou de ser exercida pelo professor e passou a ser exercida pelos alunos. Como apostar em uma boa instrução assim? Como achar que esses jovens sairão das escolas não só com boa formação, mas com respeito aos outros? Essa horizontalização passou dos limites. Como diz a autora:

Essa inversão de valores está inviabilizando ou, no mínimo, comprometendo drasticamente a qualidade das situações de ensino-aprendizagem porque é endossada pela sociedade (principalmente pela figura dos pais) e imposta pelas autoridades educacionais e pelo discurso acadêmico vigente e pela legislação educacional do país.

Não creio que alguém vá defender a volta da palmatória, nem mesmo o mais reacionário dos conservadores. Mas tampouco é preciso ser careta ou “antiquado” para notar que algo está fora do lugar, que as salas de aula viraram “terra de ninguém”, e que os professores decentes simplesmente não suportam mais ensinar em um ambiente desorganizado desses. É urgente restaurar a disciplina hierárquica dentro da sala de aula!

* A autora usa muito como base o livro O animal moral, de Robert Wright, que já li há muito tempo, mas lembro de ter gostado e absorvido importantes insights sobre o “bicho” homem.





Por Rodrigo Constantino

Editorial do Estadão: " A guerra do PT"


O PT julga que está em guerra. É o que está escrito, com todas as letras, nas “teses” apresentadas pelas diversas facções que compõem o partido e que serão debatidas no 5.º Congresso Nacional petista, em junho.

De que guerra falam os petistas? Contra quem eles acreditam travar batalhas de vida ou morte, em plena democracia? Qual seria o terrível casus belli a invocar, posto que todos os direitos políticos estão em vigor e as instituições funcionam perfeitamente?

As respostas a essas perguntas vêm sendo dadas quase todos os dias por dirigentes do PT interessados, antes de tudo, em confundir uma opinião pública crescentemente hostil ao “jeito petista” de administrar o País. O que as “teses” belicosas do partido fazem é revelar, em termos cristalinos, o tamanho da disposição petista em não largar o osso.

“Precisamos de um partido para os tempos de guerra”, conclama a Articulação de Esquerda em sua contribuição para o congresso do partido. Pode-se argumentar que essa facção está entre as mais radicais do PT, mas o mesmo tom, inclusive com terminologia própria dos campos de batalha, é usado em todas as outras “teses”. Tida como “moderada”, a chapa majoritária O Partido que Muda o Brasil avisa que “é chegado o momento de desencadear uma contraofensiva política e ideológica que nos permita retomar a iniciativa”.

A tendência Diálogo e Ação Petista conclama os petistas a fazer a “defesa dos trabalhadores e da nação”, como se o Brasil estivesse sob ameaça de invasão, e diz que as “trincheiras” estão definidas: de um lado, a “direita reacionária”; de outro, os “oprimidos”. A chapa Mensagem ao Partido quer nada menos que “refundar o Estado brasileiro”, por meio de uma “revolução democrática” – pois o “modelo formal de democracia”, este que vigora hoje no Brasil, com plena liberdade política e de organização, “não enfrenta radicalmente as desigualdades de renda e de poder”.

Da leitura das “teses” conclui-se que o principal inimigo dos petistas é o Congresso, pois é lá que, segundo eles dizem, se aglutinam as tais forças reacionárias. O problema – convenhamos – é que o Congresso representa a Nação, o povo. Se o Congresso resiste a aceitar a agenda do PT, então a solução é uma “Constituinte soberana e exclusiva”, cuja tarefa é atropelar a vontade popular manifestada pelo voto e mudar as regras do jogo para consolidar o poder das “forças progressistas” – isto é, o próprio PT.

Uma vez tendo decidido que vivem um estado de guerra e estabelecidos quem são os inimigos, os petistas criam a justificativa para apelar a recursos de exceção – o chamado “vale-tudo”. O principal armamento do arsenal petista, como já ficou claro, é o embuste. O partido que apenas nos últimos dez anos teve dois tesoureiros presos sob acusação de corrupção, que teve importantes dirigentes condenados em razão do escândalo da compra de apoio político no Congresso e que é apontado como um dos principais beneficiários da pilhagem da Petrobrás é o mesmo que diz ter dado ao País “instrumentos inéditos” para punir corruptos. Há alguns dias, o ex-presidente Lula chegou ao cúmulo de afirmar que os brasileiros deveriam “agradecer” ao PT por “ter tirado o tapete que escondia a corrupção”.

É essa impostura que transforma criminosos em “guerreiros do povo brasileiro”, como foram tratados os mensaleiros encarcerados. Foi essa inversão moral que levou o governador petista de Minas, Fernando Pimentel, a condecorar o líder do MST, João Pedro Stédile, um notório fora da lei, com a Medalha da Inconfidência, que celebra a saga libertária de Tiradentes. A ofensiva dos petistas é também contra a memória nacional.

Ao explorar a imagem da guerra para impor sua vontade aos adversários – inclusive o povo –, o PT reafirma seu espírito totalitário. A democracia, segundo essa visão, só é válida enquanto o partido não vê seu poder ameaçado. No momento em que forças de oposição conseguem um mínimo de organização e em que a maioria dos eleitores condena seu modo de governar, então é hora de “aperfeiçoar” a democracia – senha para a substituição do regime representativo, com alternância no poder, por um sistema de governo que possa ser totalmente controlado pelo PT, agora e sempre.





O Estadão - 24/04/2015