quarta-feira, 1 de abril de 2015

O (In)Justo PT


Quando das minhas primeiras leituras de Platão, ainda no ginásio, uma frase chamou-me muito a atenção no livro que, em português, traduziu-se “A República”. O discípulo de Sócrates dizia que ‘o suprassumo da injustiça é parecer justo sem o ser’, e eis o que muitas vezes ocorre em Estados cujos políticos iludem a população por meio de programas sociais de assistência imediata, fazendo com que grande parte da massa, num imediatismo típico da contemporaneidade (talvez cada vez mais acentuado), se dê por satisfeita, ao menos temporariamente.

O PT, ao intensificar o programa de assistência social intitulado bolsa-família, que por sua vez se desdobrou nos mais diversos meios assistenciais de transferência de renda cujos nomes variam muito para expor nestas poucas linhas, nada mais faz senão, como sói dizer-se, com que os assistidos, num futuro não muito distante, tenham que ‘vender o almoço para pagar o jantar’. Em outras palavras, foi um governo que menosprezou as futuras gerações em prol de algumas reeleições para usufruir do poder como se este último a eles pertencesse.

Um governo que desmerece o futuro e, além disso, contraria a máxima de Rousseau exposta no Contrato Social de que um governante deve sempre priorizar o bem público ao bem particular, não pode se sustentar por muito tempo, e eis o que vemos hoje na conjuntura político-econômica brasileira: um desmoronamento das frágeis vigas que sustentavam um governo egoísta, que sempre priorizou o bem dos governantes sem se preocupar com os cidadãos. No início, talvez tenha passado por justo na visão de alguns, mas hoje, provou-se falho, corrupto e inepto.

Independentemente da saída de Dilma, seja por crime de responsabilidade ou mesmo pelo término de seu mandato, o importante é que o povo brasileiro está mais preocupado com a política, e percebeu que esta última é, sem dúvida nenhuma, modificável, ainda mais em tempos de democracia, onde não precisamos simplesmente nos submeter às leis sem nenhum direito à ampla defesa e podemos sempre questionar o porquê de existência ou inexistência de determinada norma. É nosso dever, na condição de cidadãos brasileiros num Estado Democrático de Direito, lutar por aquilo que queremos.

O povo que acreditou no governo petista foi iludido, e demorou demasiadamente para perceber o quão despreocupado foi este governo com o povo. Transferir renda não é governar, e sim dar o peixe para aqueles que precisam aprender a pescar. Quem se preocupa, ensina. Por sinal, acredito que a educação seja o principal motor de um país que queira melhorar como um todo, mas este assunto ficará para uma próxima oportunidade.

Não houve e nem haverá constatação do princípio da supremacia do interesse público na administração pública enquanto o Partido dito ‘dos Trabalhadores’ permanecer no poder. Os demagogos de plantão, que hoje governam nosso país nas mais diversas esferas políticas, atingiram o poder para provar, de uma vez por todas, que tudo aquilo que levou milhões de pessoas a confiarem neles era pura enganação com uma boa dose de retórica.

O período de sonambulismo cívico acabou. Os brasileiros perceberam que são capazes de mudar para melhor e estão fazendo por onde. Cada vez mais as redes sociais presenciam comentários sobre política, e isto, sem dúvida nenhuma, possui desdobramentos empíricos, haja vista as ‘manifestações de junho’ e a que fez vista aos olhos do mundo inteiro no último dia 15. Portanto, sigamos fortes para melhorar o nosso país.

Façamos por nós e pelas próximas gerações. Viva o Brasil!





Por Felipe da Silva Prado

O custo proibitivo da legalidade num país com governo obeso e intervencionista


Quando vazou parte da lista dos supostos detentores de contas na Suíça, o famoso SwissLeaks, escrevi um texto, reconheço, polêmico. Alguns o interpretaram como uma defesa da sonegação, e não era nada disso. Era apenas a tentativa de separar o joio do trigo e reconhecer que há crimes e “crimes”, especialmente num país como o Brasil.

O leitor pode não saber, mas na década de 1990 não havia sequer cartão de crédito internacional, os planos de governo confiscavam o dinheiro legítimo dos cidadãos, e era preciso levar dinheiro vivo só para alugar um carro na viagem. Eram tempos selvagens, o que não justifica abrir uma conta não-declarada no exterior, mas que sem dúvida coloca tal ato em contexto e bem distante de corruptos que recebem propina lá fora de verbas públicas desviadas.

Já disse algumas vezes e repito: o custo da legalidade plena no Brasil é quase proibitivo. A informalidade é, muitas vezes, o ar rarefeito que indivíduos e empresas respiram para não morrerem asfixiados pelo excesso de governo. Basta pensar no que aconteceria se todas as leis, regras e normas estatais fossem aplicadas na íntegra hoje. Eu digo: o Brasil parava e depois quebrava (o que talvez seja necessário para repensarmos todo o modelo).

Afirmar essa verdade não é proteger quem apela para a informalidade (eufemismo para ilegalidade) ou para o pagamento de suborno para fugir do fisco, e sim admitir que o buraco é mais embaixo e que devemos olhar para onde escorregamos, não onde caímos. Um médico ou um psicanalista que não emite recibo para o paciente está praticando ato da mesma natureza que uma empresa que adota “planejamento fiscal” em zonas cinzentas.

“Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”, disse Stanislaw Ponte Preta, personagem satírico de Sérgio Porto. O pior efeito desse excesso de estado é justamente a perda do respeito pelas regras e leis, o clima de “vale tudo” que percola pelo país, a transformação do “jeitinho” de vício em virtude ou questão de sobrevivência às vezes. Perde-se a clareza dos conceitos de certo e errado em alguns casos.

Converse com amigos empresários, grandes ou pequenos, para compreender melhor o que estou dizendo. São tantas normas burocráticas vagas, tantos tributos, taxas e impostos, tanta arbitrariedade, que um fiscal sozinho tem o poder de praticamente fechar qualquer estabelecimento se assim desejar. A solução, muitas vezes, é pagar o suborno exigido, ou seja, aceitar a chantagem ou fechar as portas.

Agrava o quadro o fato de que, apesar de pagarmos 40% de impostos, não vemos retorno algum deles. Temos que pagar por segurança particular nos condomínios em que moramos, colocamos nossos filhos em escolas particulares e sequer podemos abater dos impostos o que é gasto duplamente, necessitamos de planos de saúde particulares para não dependermos do terrível SUS. O governo é o vilão aqui, pois extorque todos nós sem contrapartida alguma.

O novo escândalo envolvendo a Receita Federal, portanto, deve ser analisado sob esta ótica. O editorial do GLOBO de hoje também seguiu linha de raciocínio semelhante. Repito, pois nunca é demais e porque conhecemos a desonestidade do lado de lá: isso não é o mesmo que defender sonegadores (que devem pagar por seus crimes), e sim tentar atacar o mal em sua raiz. Diz o editorial:

Países com Estados obesos, muito presentes na economia, de estratosféricos custos de manutenção, e, portanto, insaciáveis coletores de impostos, tendem a apresentar elevados índices de corrupção. Pois, quanto maior a ingerência da burocracia estatal na vida da sociedade, seja de forma direta, pela administração central, ou indireta, por meio de companhias públicas, mais amplas são as possibilidades de o dinheiro do contribuinte ser surrupiado. Afinal, enorme poder fica concentrado em um pequeno grupo de servidores, de carreira ou não, sempre a salvo de controles independentes.

Por uma coincidência pedagógica, o Brasil dos dias que correm apresenta exemplos bem-acabados de assaltos ao Erário. No petrolão, desviam-se recursos do Tesouro por um esquema montado na Petrobras, com fins pecuniários privados e para lubrificar finanças partidárias (PT,PP, PMDB) e de políticos. E acaba de surgir, também de uma operação da Polícia Federal — Zelotes, uma espécie de Lava-Jato —, um outro esquema, este construído nada menos do que no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), instância em que são julgados pedidos de suspensão de multas e outras penalidades lavradas por fiscais da Receita Federal junto a contribuintes.


A constatação do jornal é bastante clara: “Num país de carga tributária pesada, como o Brasil, o Erário é um espaço aberto a corruptos e corruptores”. O governo cria as dificuldades legais para vender as facilidades ilegais depois. Quando analisamos a lista de empresas envolvidas no suposto pagamento de propina para se livrar de dívidas enormes com o fisco, percebemos que são tantas, de setores tão diversos, e de renome internacional, que não seria razoável imaginar que estamos lidando com um bando de ladrões.

Mais provável é considerar a possibilidade de que o governo achaca tais empresas, impondo um fardo proibitivo para depois oferecer seus “serviços”. Os conselheiros do Carf devem ser o principal alvo de investigação. Tentar jogar no mesmo saco podre os corruptos e os “corruptores” é um erro, ou uma estratégia deliberada de parte da esquerda que adoraria condenar a priori todos os empresários e pregar ainda mais poder estatal, a causa primária do problema.

O império da lei é fundamental para o progresso de um país, e é uma bandeira muito cara aos liberais. É esse o objetivo: ter leis isonômicas, válidas igualmente para todos, e que sejam cumpridas com rigor. Para tanto, é preciso caminhar na direção de uma drástica redução do estado, e também da criação de regras básicas e simples, mais objetivas e menos arbitrárias. O fardo do governo precisa diminuir. O custo da legalidade não pode ser proibitivo, não pode ser fatal para aqueles que criam riquezas e empregos.




Por Rodrigo Constantino

A farsa das "classes sociais"


Há uma diferença gritante entre o discurso da militância pró-PT e dos partidos ditos “sociais” e o logos dos liberais, dos conservadores e daqueles com uma visão individualista do destino do homem através de suas escolhas.

Os primeiros, quando no poder e se tornando situação, gritam: “Chora, coxinha!”, “aceitem as urnas”, “agora vou rir da classe média tendo horror ao filho do pedreiro viajando de avião” (como se a reclamação de alguma pessoa no país ao PT fosse que ele está deixando os pobres muito ricos e ninguém gosta disso), “agora os reaças vão ter de fugir para Miami”, “Dilma sambou”, “Dilma lacrou”, dentre outros rios de comentários impublicáveis.

Já os liberais, conservadores e defensores da liberdade individual, desatrelando o destino humano de um plano de poder estatal, quando estão no poder, não gritam “chora, pobraiada!”, “vou rir da cara dos meus empregados e botá-los na rua”, “agora os petistas terão de fugir para Cuba” e afins, fora alguns casos isolados de psicopatia.

Isto se dá porque, ao contrário do que nossa educação, nossa imprensa e nossa cultura coletivista fazem crer, os liberais não são inimigos dos pobres – pelo contrário: muitos deles são pobres – e, sobretudo, liberais crêem no poder da iniciativa individual. Se há alguém que sofre com um governo liberal, este alguém é quem está ganhando muito sem produzir hoje – e quem faz isto tomando dos outros é quem vive de política. São os políticos e os parasitas da burocracia, portanto, os únicos de quem os liberais riem quando convencem a sociedade a seguir seu caminho.

Em outras palavras, nenhum trabalhador de fato tem algo a perder com uma aproximação ao liberalismo, ao contrário de toda a propaganda socialista travestida de “isenção” que é vista no país. Os liberais, afinal, querem os pobres se tornando ricos – e não os xingarão quando eles viverem com as próprias pernas, sem mais vender sua necessidade em troca de obediência eleitoral e poder político.

Já o militante da “política social” e seus partidos vermelhos vive de tomar o que outras pessoas produziram com o trabalho delas através de impostos, supostamente para corrigir a desigualdade, e portanto tem um horror visceral a qualquer idéia defendendo que as pessoas trabalhem e fiquem com o fruto de seu trabalho para si, e não nas mãos controladoras dos burocratas e dirigentes da sociedade.

Esta propaganda travestida de análise científica, portanto, falha graças a um de seus pressupostos mais basilares: tem uma fé cega na existência de “classes sociais” que, como já visto na teoria mais famosa da esquerda política, estariam em “luta” – e tal luta não apenas seria freqüente, como seria o próprio motor da história.

Esta teoria que tanto anima a esquerda é radicalíssima em sua essência. Entretanto, hoje fazem crer que ela está ultrapassada e não é mais usada, quando todo o jornalismo (não apenas o oficial), a academia e a cultura a seguem pari passu.

O problema se inicia no auto-reconhecimento. Como fazia sempre o diplomata José Osvaldo de Meira Penna a seus alunos em Brasília, urge primeiro descobrir a que classe a pessoa que afirma tal discurso pertence. Alguém que jura que existam classes sociais, que a análise da história, da sociedade e mesmo da consciência seja dependente de uma “classe” intransponível, deve, no mínimo, saber a que classe ele próprio pertence.

Os alunos de Meira Penna, quando interpelados com esta pergunta facílima, sempre escorregavam – ainda mais tentando macaquear a posteriori o ultrapassadíssimo linguajar do início da esquerda no séc. XIX. Consideravam-se “burgueses”, “aristocratas” ou até mesmo “proletários”, sem perceber que, na taxonomia forçada do criador do pensamento “classista”, eram da burocracia.

Para o pensador pai da esquerda radical, pertencer a uma classe social determina até mesmo nossas sinapses, valendo mais do que qualquer cultura, nacionalidade, criação, valor, vontade, história individual ou educação.

Tudo se resume a uma “consciência de classe” (Klassenbewusstsein) que analisa a inteireza do tecido da realidade pelo prisma de um “interesse de classe” – a classe burguesa tentando “explorar” a classe proletária, que só teria sua própria força de trabalho (e sua prole) para vender ao outro que ficaria com o produto do trabalho sem ter trabalhado.

Restaria então a tal proletário (ou camponês, embora não houvesse a crença no poder de mobilização do trabalhador do campo) retomar sua “consciência de classe” tomada dele pelo mecanismo da “alienação do trabalho”.

Toda a alienação viria da superestrutura e da infraestrutura da sociedade, que confundiriam o proletariado, fazendo-o acreditar que seus interesses são compatíveis com o do burguês capitalista. Para a esquerda, não se pensa sozinho: é a estrutura de uma classe que pensa por nós. É o materialismo histórico-dialético em sua essência.


Não existiria, portanto, o homem, esta entidade una, indivisível, com destino e escolhas próprias, e sim apenas o trabalhador, espoliado de sua natureza original pela aberração da cultura burguesa. Toda a família, a religião, a moral, os valores, os símbolos, a cultura e o pensamento burguês, já que a História é a luta de classes, seriam apenas fingimentos e disfarces para que todo burguês proteja seus interesses egoístas e exploradores e avilte e humilhe o trabalhador com sua iniquidade.

Todos os burgueses seriam estes monstros a serem eliminados pelo socialismo, exceto o burguês que criou a teoria e aqueles que a seguiram, claro.

Este é o chamado “pensamento classista”, tão ensinado por “entidades de classe”, ou seja, sindicatos, ONGs e ferramentas de tomada de poder político que dizem representar não alguém que lhes delegue poder via representação, mas simplesmente toda uma “classe” escolhida a dedo – e falando em nome dela, supostamente.

É o que liberais chamam de “coletivismo”, os seres humanos tratados como um rebanho de figuras anônimas, que apenas seguem a manada de sua “classe” – sem que se perceba que quem declara isso, tentando enxergar “valores de classe média”, “vontade popular” ou outros conceitos radicalíssimos tratados com normalidade, são invariavelmente pessoas que pertencem a uma classe mais abastada, mas que tem empatia com uma classe distinta – todavia, continua pregando que todos os que pertencem a uma “classe” só têm interesse em proteger a sua própria classe, e que apenas ele, por milagre ontológico na nervura do real, acabou escapando à repetição do círculo.

Seriam os velhos radicais, que, segundo a visão corrente da história, copiada por jornalistas, intelectuais e outros bem-pensantes “críticos”, tiveram um papel menor na política nacional e internacional em tempos recentes – justamente quando vários de seus asseclas tomaram o poder nas últimas duas décadas.

Contudo, o pensamento classista hoje deixou de ser coisa de radicais antiquados, sempre chamando genocídios de “outro mundo possível” – ou mesmo de “luta contra a ditadura” e até “democracia”, quando convém.

Hoje, julgar motivações, vontades, interesses, movimentos e até pensamentos de alguém por sua “classe” virou rotina no jornalismo, na academia, no governo. Sobretudo nos últimos anos.

Fala-se em “classe trabalhadora” (visto que “proletário”, além de ter saído de moda, se provou uma palavra datada tentando definir como arauto do fim do capitalismo justamente a classe que o capitalismo tratou de enriquecer e fazer deixar de existir) contraposta à “classe média” – como se esta não trabalhasse – em estudos de sociologia, em discursos presidenciais, em análises jurídicas e econômicas, em qualquer discussão onde se espera uma certa normalidade sem tiroteios amalucados de conceitos maluco-beleza – e não se atina nunca para o fato de que tais vocábulos são, por si, mais extremistas do que o próprio Lenin.

Pior: pela taxonomia biológica, que organiza os seres vivos por características em comum, temos Reinos (Monera, Protista, Fungi, Plantae, Animalia), filos, classes, ordens, famílias, gêneros, espécies (nesta ordem). A comparação iniciada pela esquerda de pensar que existam “classes sociais” faz crer que seres humanos sejam mais capazes de trocar de espécie, de gênero ou de família do que de “classe”. Classe social, então, seria uma condição mais estanque, delimitadora e fatalista do que suas palavras equivalentes fora da taxonomia biológica.

A verdade dura é que ao contrário das sociedades de estamentos, de castas, de escravos ou outras formas de coletivismo inato, o capitalismo foi justamente o sistema econômico que destruiu o conceito de “classe”, tornando-o apenas uma faixa salarial temporária. Esta faixa é tão variável na vida conforme as escolhas do indivíduo que, num país de economia livre como a América, a maioria dos 20% que nascem em uma família da faixa salarial mais baixa pode fazer parte dos 20% mais ricos em uma década, conforme nos informa Thomas Sowell.

Quando falam em “classes” dentro do capitalismo, estão usando o conceito diametralmente oposto à realidade: é o único sistema econômico do mundo em que não há classes estanques, e sim variações salariais.

Tampouco é a classe “burguesa” (ou seja, comercial) a classe média, com a “classe alta” sendo dominada por nobres. Qualquer telespectador de Downtown Abbey sabe que há muito o capitalismo conseguiu tomar o lugar da nobreza, hoje muito mais simbólica e cultural, em países em que ela ainda existe.

Os homens mais ricos do mundo, ao contrário do que é ensinado nas nossas escolas, não são os bem nascidos: são os criadores de ideias, muitos que passaram anos numa garagem, que ganharam muito com seu trabalho inovador. A pobreza (e mesmo a riqueza) no capitalismo não são destino. Em todos os outros sistemas, e sobretudo no socialismo, são a condição fatal e única de toda a vida de um ser humano.

O conceito de classe foi sempre “retrabalhado”, para não soar ridículo, pela esquerda do século XX. Primeiro, invertendo a “superestrutura” com a “infraestrutura” do radical original, criando coisas como a Escola de Frankfurt. No meio do caminho tivemos pensadores como E. P. Thompson, que concluiu ser impossível diferenciar um burguês de um proletário, enquanto repaginadores mais modernos, como Ernesto Laclau, já sabem que apontar um grupo de inimigos escolhido a dedo como uma “classe” e nomeá-lo assim é que faz aquela classe “existir”. Exatamente o que acontece hoje no Brasil.

Quando o conceito de “classes sociais” é exposto em sua história, seus interesses próprios e suas premissas ocultas, soa sempre ultra-radical e ultrapassado – ainda mais atrelado a seus sub-conceitos, como “consciência de classe”, “interesse de classe” etc.

Todavia, ainda é a norma (e tratado, justamente, como normal, como se fosse um fato, tratando como extremista quem o nega) para se fazer análises de temas sociais.

E conceitos coletivistas, deterministas, fatalistas e criados por teóricos que promoveram o maior genocídio da história mundial ainda subsistem mesmo em análises as mais prosaicas.

Ou ninguém conhece hoje a forma como a população urbana julga pessoas com termos “denigritórios” como “coxinha”, analisa movimentos afirmando algo sobre a cor da pele, a faixa salarial ou o local de trabalho das pessoas (até termos como “traição de classe” são encontrados no jornalismo), ou ainda como universitários e intelectuais não enxergam seres humanos com sua dialética própria, mas sim apenas “classes” que, supostamente, deveriam se odiar e se matar para fazer a história andar – e, sempre, sem perceber que fazem parte da mesma classe que estão jurando de morte?

Enquanto o conceito de classe não cair, ainda será tratado como uma normalidade e um fato, simplesmente por pessoas demais repetirem as mesmas palavras. É a crença do vulgo, o novo ópio das massas – e um “intelectual” hoje costuma ser apenas alguém que sabe mover alguém com tais termos, usando-os como chicotes.

No dizer iconoclasta de Nietzsche, “nunca nos livraremos de nossos deuses enquanto não nos livrarmos de nossa gramática”.






Por Flavio Morgenstern

Se você acredita que o financiamento público de campanha vai diminuir a corrupção, fique sabendo que...


1) Países que proíbem doações empresariais estão entre os mais corruptos do mundo

O Paraguai proíbe doações empresariais a campanhas políticas. Isso significa que o Paraguai é um país livre de corrupção? Bem, é o contrário: ele está 150º lugar no índice de percepção da corrupção da Transparência Internacional (o Brasil está bem melhor no índice, em 64º lugar). Doações de empresas também são proibidas no México, Colômbia, Peru e Egito, que também estão pior no ranking que o Brasil.

O Butão, o único país do mundo que adota o modelo proposto pelo PT de financiamento 100% público de campanha, está em 30º lugar. Menos corrupto que o Brasil, é verdade, porém mais corrupto que diversos outros países que autorizam doações privadas.


2) Em países onde a corrupção é pequena, o financiamento privado é permitido

A Suíça é um dos países menos corruptos do mundo – o quinto país com menor percepção de corrupção de acordo com a Transparência Internacional. Financiamento 100% público de campanha? Longe disso. Na verdade, o financiamento da política suíça é completamente privado e sem transparência alguma. Não existe lei federal obrigando os partidos prestarem contas. Apenas dois dos 26 cantões editaram leis sobre o assunto, e apesar de discussões ocorrerem, não existe nenhuma movimentação real para mudar a lei.


3) Doações de empresas a políticos já foram proibidas no Brasil e o resultado foi mais corrupção.

Durante toda a ditadura militar, empresas não poderiam doar a partidos políticos – um claro golpe para asfixiar os movimentos de oposição ao regime. A proibição só caiu depois de 1992, quando ficou óbvio que a regra surtia o efeito contrário, criando incentivos para a realização de caixa 2 e outras práticas corruptas.


4) As pessoas não devem ser obrigadas a doar dinheiro a partidos com os quais não concordam nem ser proibidas a doar aos partidos que preferem.

Quem dá importância à liberdade dos cidadãos concorda que não é correto obrigá-los a financiar partidos – o que na prática acontece quando se impõe um fundo partidário. Um militante comunista não deve ser obrigado a contribuir com um político liberal, e vice-versa.

Do mesmo modo, se as pessoas acham por bem doar seu próprio dinheiro a um partido ou uma organização, não devem ser impedidas a isso numa sociedade que dá importância à liberdade individual. Na Holanda, os partidos colhem assinaturas mensais de seus apoiadores – medida que não seria possível no Brasil se o financiamento privado for proibido.


5) O financiamento 100% público será uma festa para Levy Fidelix.

Quanto mais dinheiro estiver disponível no fundo partidário, maior será o incentivo para a criação de partidos sem ideologia, sem eleitores e sem interesse em vencer eleições. Será a festa de Levy Fidelix e demais políticos que só mantém partidos porque todos os anos ganham uma bolada do fundo partidário. Até que há aí uma boa notícia: o horário político ficará ainda mais bizarro e divertido.











Por Leandro Narloch

O crescimento do PIB e os falsos defensores dos pobres


Por que nenhum blogueiro progressista, nenhum colunista que se diz a favor dos pobres repercute e lamenta o crescimento mixuruca do PIB?

Sempre que o IBGE divulga os números, eu fico atento para ver se eles comentam, mas nada: tratam como se o dado fosse relevante somente para economistas, e não a pior notícia que os pobres poderiam ouvir.

PIB patinando ou em queda significa menos vagas de trabalho e menor concorrência entre patrões por empregados. O camarada que se sente explorado pelo patrão fica sem a possibilidade de encontrar um emprego melhor e dar adeus ao chefe. O garçom e o vendedor de carros vão para casa com menos comissões do bolso, pois ninguém vai ao restaurante, ninguém compra carros.

Do contrário, PIB em alta é uma festa. Patrões concorrem entre si por empregados, oferecendo salário melhor, carteira assinada, menor carga horária e até alguns mimos (em 2010, construtoras ofereciam massagista para os pedreiros).

Por que, então, os blogueiros progressistas não lamentam a tragédia do PIB em baixa?

Minha razão preferida é esta: intelectuais de esquerda gostam de explicar a pobreza de uns pela riqueza de outros. A mensagem que mais lhes rende adeptos é a que culpa os ricos pela miséria do país.

Defender a alta do PIB não se encaixa nessa visão de luta de classes. Significa admitir que pobres e ricos estão no mesmo barco: todos se beneficiam com o crescimento da economia. O número de milionários dá um salto enquanto massas de miseráveis chegam à classe média.

Concordar com a importância do PIB também significa admitir que a melhor ajuda que se pode dar aos pobres é desimpedir o crescimento da economia: diminuir a burocracia nas contratações e na abertura de empresas. E intelectuais de esquerda jamais vão admitir que estar do lado dos pobres equivale a estar do lado dos homens de negócio.






Por Leandro Narloch

Mais do que política, a crise é profundamente moral


Por ser um projeto artificial, a 'Pátria Grande' socialista não tem lastro junto ao povo brasileiro, que rechaça nas ruas tal engodo.

O brado das ruas é "Fora Dilma", Fora PT", "Fora Foro de São Paulo", "fora cubanização" e "fora venezuelanização".


A grave crise política atual expressa uma profunda crise moral, com as danosas consequências decorrentes disso: é a crise da representatividade e da legitimidade, que evidencia a debilidade das instituições, quase todas deficientes ou mesmo destituídas daquilo para as quais foram constituídas, pois a democracia foi erigida como sistema para garantir acima de tudo a ordem e a paz social. Se ambas estão comprometidas, a própria democracia corre o risco de se degenerar, a exemplo do que já ocorreu no passado, em demagogia, abrindo campo para os piores totalitarismos. Se a democracia deve garantir o direito às liberdades individuais e os demais direitos da pessoa humana, tais direitos só serão garantidos com o cumprimento da lei. O papa Pio XII lembrou em sua mensagem radiofônica de Natal, em 1944, que somente com bases morais sólidas a democracia pode se sustentar, por isso se referia ao que ele chamou de "democracia sadia". O que o PT conseguiu nesses trinta anos foi fazer soçobrar as bases morais da democracia, e daí a crise em que nos encontramos.

Quando o Prof. Olavo de Carvalho disse em hangout avaliando as manifestações do dia 15 de março [que reuniu mais de dois milhões nas ruas de todo o País], foi categórico: "Morreu a "Nova República!" Com isso quis dizer que nem mesmo os que dizem ter tanto lutado pela "redemocratização", não estão entendendo bem o que exatamente está acontecendo. Mas as multidões vão às ruas manifestar sua indignação pelo que esses tais que dizem ter lutado tanto pela redemocratização, fizeram com a democracia, aviltando-a e aviltando assim a própria nação brasileira. O povo vai às ruas e age como o coro nas tragédias gregas, a incomodar os atores principais com a verdade, a dizer que a realidade pesa, lembrando a eles que a realidade pesa demais. É como Édipo em busca do culpado, e descobre com horror que é ele mesmo aquele a quem procurava.
O chefe do mensalão continua sendo muito blindado pela imprensa e pelos órgãos aparelhados do Estado e da sociedade, e que continua agindo encarnando Macunaíma com nunca antes outro na história do Brasil. Mas o povo brasileiro nas ruas é um sinal daquilo que Abraham Lincoln proferiu sabiamente: "Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo." Aos que se negam a encarar a realidade dos fatos, as erínias estiveram sempre prontas para agir.

Os próprios dirigentes do PT reconhecem que eles conquistaram em 2002 o "governo", mas não ainda o "poder" na proporção que eles desejam, e para isso querem agora uma reforma política com financiamento público de campanha (encabeçada pela CNBB-OAB), para engessar o sistema eleitoral, as chamadas "reformas estruturais" que os favoreçam ad eternum, como querem, e, em seguida, focarão na reforma urbana, na implantação da agenda gayzista e abortista (eufemisticamente a agenda dos "direitos humanos"), o controle da mídia e enfim, a tão cobiçada desmilitarização das Polícias Militares. Esse é o roteiro deles para consolidar o projeto totalitário da "Pátria Grande" socialista.

Por ser um projeto artificial [como foi o da União das Repúblicas Socialista Soviética e, por isso mesmo soçobrou], a 'Pátria Grande' socialista não tem lastro junto ao povo brasileiro, que rechaça nas ruas tal engodo. O brado das ruas é "Fora Dilma", Fora PT", "Fora Foro de São Paulo", "fora cubanização" e "fora venezuelanização". É fato que os ideológos da Pátria Grande socialista há já algumas décadas (mais ainda após a revolução cubana de 1959), desejam o "bloco regional" latinoamericano (a Celac) para estender por todo o continente, pelo método gramsciano, o socialismo cuja implantação na União Soviética e no leste europeu faliu depois de vitimar a tantos. E pior ainda é que tal projeto artificial e totalitário é revolucionário e anticristão, se volta portanto contra a raiz identidade brasileira, cujo catolicismo atual está impregnado de progressismo equerdizante, que a CNBB e as pastorais sociais (da Juventude e outras) vem disseminando no seio da Igreja, enfraquecendo cada vez mais qualquer legítima expressão de resistência e defesa da sã doutrina católica. Nunca a Igreja esteve numa encruzilhada tão perigosa. Mas cabe lembrar nesse contexto, o quanto é atualíssimo o que disse Pio XI: "O socialismo tem uma concepção da realidade oposta à verdade cristã". Por isso, erra a CNBB em ser cúmplice do PT em seus propósitos bolivarianos.













Por Hermes Rodrigues Nery

Coordenador do Movimento Legislação e Vida

Aborto, a falta de uma visão cristã da política e petismo juvenil: notas


Identificar um idiota é muito fácil. E a situação ideal para isso são as discussões sobre temas políticos ou econômicos.

Acredito que o aborto seja um ato essencialmente covarde, não porque um inocente é morto, mas porque as pessoas não veem o resultado desse ato. É como se logo após apertarmos o gatilho, fechamos os olhos para não ver a bala atingir a vítima. O aborto é uma espécie de "homicídio envergonhado", no qual o ato é separado da visão, porque vê-lo mostraria que há nele algo de profundamente errado.

Se você é um abortista convicto, sugiro que seja coerente até o fim: todos sabem que a diferença entre um feto ou embrião e um bebê é apenas a localização, dentro ou fora do útero. Os "bons motivos" para o aborto são quase todos aplicáveis ao infanticídio. A grande diferença é que no último caso nós vemos a vítima sendo morta. Então, se você quiser ser coerente e minimamente corajoso, advogue também o infanticídio de bebês de até um ano de idade. Por que essa idade? Porque aproximadamente com um ano o bebê adquire consciência de si mesmo e, de certa forma, para a pertencer à espécie Homo Sapiens sapiens, ou seja, aquele que sabe que sabe.

Enquanto isso, pode ir pensando na melhor forma de matar bebês e quem teria esse direito. Para quem defende o aborto, deve ser um exercício e tanto de imaginação...

PS: Isso já foi defendido pelo filósofo australiano Peter Singer no livro Ética Prática. Aliás, já cunharam o termo "aborto pós-nascimento"; se tiver curiosidade, veja: 

http://m.jme.bmj.com/content/early/2012/03/01/medethics-2011-100411.full.

*

Já encontrei inúmeros cristãos sérios no Brasil. Muitos deles têm firmes posições políticas e fazem questão de expressá-las, com bastante contundência até. Estranhamente, quase todos os cristãos têm um modo de entender e expressar a política idêntico ao dos ateus e agnósticos. Quando criticam ou apoiam o governo, quase sempre o fazem por meio de parâmetros comuns de moralidade e eficiência.

Tenho a impressão de que a maioria dos cristãos resumem a sua religião a frequência de igrejas, como se o cristianismo não fosse aplicável fora do "espaço sagrado". A mera frequência a cultos religiosos degrada a religião em um simples hábito, facilmente descartável. Acredito que a rigor o cristão é aquele que interpreta todos os fenômenos do mundo com base na vida e nos ensinamentos de Jesus.

Para essas pessoas, gostaria de fazer uma proposta: que tal começarmos a formar nossas opiniões políticas conscientemente a partir do cristianismo? Que tal iniciarmos uma "análise espiritual" da política, e, porque não, dos candidatos a cargos eletivos?

*

Não é curioso que quase todos os petistas e comunistas tenham aderido a essas ideologias durante a adolescência ou juventude (aproximadamente dos 14 aos 24 anos)? Não me parece ser essa a idade mais madura do ser humano... Pelo contrário, nessa idade quase sempre a grande ambição é ser aceito em determinado grupo social. Na minha geração, quem se interessasse por política não tinha alternativa além de se ajuntar aos grupos de esquerda presentes nas escolas e universidades. Isso era "perfeito": com pouquíssimo ou nenhum estudo de caráter político, emocionalmente imaturos e dependentes, podíamos ter a satisfação de pertencer a um grupo e ao mesmo tempo dar vazão às nossas idealizações pueris.

Isso aconteceu comigo e com milhões de pessoas nas últimas décadas. Boa parte desse contingente reviu suas posições com o passar do tempo e foi, digamos, "virando à direita". Outros simplesmente se tornaram cínicos e procuraram meios de se dar bem nos governos petistas.

Há outros ainda que não se beneficiam do sistema, mas mantém as mesmas posições muitas vezes por orgulho. Não é nada fácil reconhecer que em determinado período da vida você foi um idiota. Porém, cá entre nós: você realmente acha que tinha de ser o cara mais esperto do mundo aos 18 anos?

PS 1: Quando alguém te disser que você não mudou nada nas últimas décadas, desconfie. A não ser que a pessoa se refira à sua aparência física, você está sendo xingado!

PS 2: É inevitável lembrar de Roberto Campos: "Quem não é comunista aos 20, não tem coração. Quem é comunista aos 30 não tem cérebro."

*

Identificar um idiota é muito fácil. E a situação ideal para isso são as discussões sobre temas políticos ou econômicos. O idiota é aquele que depois de ter "estudado" um assunto por, digamos, um minuto, defende apaixonadamente uma posição pelo quíntuplo desse tempo. Durante essa "defesa", o idiota usa uma série de clichés que ele mesmo não entende e, ao final, ainda brada a plenos pulmões algo como: "eu obviamente estou certo".

Não, idiota, a realidade não é óbvia: se fosse, não haveriam divergências entre pessoas inteligentes. Pelo contrário, a realidade somente se dá a conhecer de forma parcial e bastante lenta. E o conhecimento que temos dela é proporcional ao esforço que fazemos nesse sentido. Enfim, a ansiedade em ter uma opinião apenas revela sua necessidade de ser aceito por aqueles que compartilham dessa opinião...

*

Em geral, os brasileiros querem apenas uma vida segura e confortável, sem grandes sobressaltos. A famosa Parábola dos Talentos não passa de uma história bonitinha e inofensiva para a maioria das pessoas. Pouquíssimas pessoas estão interessadas em ser o "sal da terra". Fazer algo de extraordinário soa para quase todos como completamente sem sentido. Para essas pessoas, as qualificações de "fracassado" e "bem-sucedido" são absolutamente inaplicáveis: não há nenhum objetivo a ser alcançado ou não. Não há vitórias nem derrotas: apenas o invencível tédio de uma vida que escolheu não ser vivida.






Por Alexandre Magno Fernandes Moreira