segunda-feira, 30 de março de 2015

Karl Marx e a diferença entre comunismo e socialismo


No dia 10 de setembro de 1990, o multimilionário escritor, economista e socialista Robert Heilbroner publicou um artigo na revista The New Yorker intitulado "Após o Comunismo". A URSS já estava em avançado processo de colapso.

Neste artigo, Heilbroner recontou a história de como Ludwig von Mises, ainda em 1920, havia provado que o socialismo não poderia funcionar como sistema econômico. Neste artigo, Heilbroner disse essas três palavras: "Mises estava certo".

Mas aí vem a dúvida: qual a diferença entre comunismo e socialismo? Mises havia concluído que o socialismo não poderia funcionar, mas o que realmente entrou em colapso foi um sistema rotulado comunismo. Há alguma diferença?

História

Quando Karl Marx e Friedrich Engels começaram a escrever conjuntamente, no ano de 1843, Marx era a figura dominante. Engels era um melhor escritor, e era ele quem sustentava Marx financeiramente.

Marx passou toda a sua carreira se opondo àquilo que ele chamou de "socialismo utópico". Ele nunca interagiu com nenhum grande economista ou teórico social. Você pode procurar, mas jamais encontrará qualquer refutação sistemática feita por Marx a Adam Smith, por exemplo. Marx gastou suas energias criticando verbalmente vários autores de esquerda, cujos escritos praticamente não tiveram nenhuma influência sobre a Europa em geral.

Dado que ele estava constantemente atacando autores socialistas, Marx criou uma teoria própria sobre o comunismo. Ele chamou essa sua teoria sobre o comunismo de "socialismo científico". Marx argumentou que, inerente ao desenvolvimento da história, há uma inevitável série de etapas. Isso significa que ele era um determinista econômico. Ele acreditava que o modo de produção é fundamental em uma sociedade e que o socialismo seria historicamente inevitável porque haveria uma inevitável transformação do modo de produção da sociedade.

Todos os aspectos culturais da sociedade, sua filosofia e sua literatura formariam, segundo Marx, a superestrutura da sociedade. Já a subestrutura — ou seja, seus fundamentos — seria o modo de produção.

Segundo Marx, sua análise econômica revelava uma inevitável linearidade dos vários modos de produção. O comunismo primitivo levou ao feudalismo. O feudalismo levou ao capitalismo. O capitalismo levará a uma bem-sucedida revolução do proletariado. O proletariado irá impor o socialismo. E, do socialismo, surgirá o comunismo.

Esse processo linear fecha o círculo. Tudo começou com o comunismo primitivo, e tudo levará ao comunismo supremo. Com o comunismo supremo, toda a evolução histórica estará completa.

Só que Marx nunca explicou por que a evolução das etapas seria dessa maneira. Ele nunca explicou por que não haveria outra revolução após a chegada do comunismo supremo, a qual levaria a um modo de produção maior que o comunismo. Era mais conveniente apenas finalizar esse processo linear no comunismo.

A União Soviética jamais alegou ter chegado ao estágio comunista do modo de produção. Ela sempre se disse socialista. O nome do país era União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os líderes supremos da União Soviética jamais alegaram que a URSS havia alcançado a etapa final do modo de produção. Stalin promoveu o conceito de socialismo em apenas um país. Ele diferia de Trotsky nesse quesito. Trotsky queria uma revolução do proletariado em nível global. Stalin era mais esperto. Ele queria o poder e, sendo assim, ele sabia que, antes de tudo, teria de consolidar o poder em um país.

Logo, Trotsky teve de fugir do país, e Stalin enviou o agente Ramón Mercader, do Comissariado do Povo para Assuntos Internos, para matá-lo na Cidade do México. O agente matou Trotsky com um golpe de picareta em seu crânio. Foi um ato cheio de simbolismo. A picareta havia sido um dos ícones da história da Rússia.

O socialismo é a propriedade estatal dos meios de produção. Mas Marx profetizou que o estado desapareceria sob o comunismo. Ele nunca explicou como ou por que isso iria acontecer. Sua teoria era bizarra. Ele dizia que, para abolir o estado, era necessário antes maximizá-lo. A ideia era que, quando tudo fosse do estado, não haveria mais um estado como entidade distinta da sociedade; se tudo se tornasse propriedade do estado, então não haveria mais um estado propriamente dito, pois sociedade e estado teriam virado a mesma coisa, uma só entidade — e, assim, todos estariam livres do estado.

O raciocínio é totalmente sem sentido. Por essa lógica, se o estado dominar completamente tudo o que pertence aos indivíduos, dominando inclusive seu corpo e seus pensamentos, então os indivíduos estarão completamente livres, pois não mais terão qualquer noção de liberdade — afinal, é exatamente a ausência de qualquer noção de liberdade que o fará se sentir livre.

Igualmente, Marx nunca mostrou como o sistema de produção poderia ser organizado nessa etapa suprema do comunismo, na qual não haveria nem um livre mercado e nem um planejamento centralizado pelo estado. Ele nunca forneceu qualquer detalhe sobre como seria uma sociedade comunista, exceto em uma breve passagem que foi publicada em um livro escrito conjuntamente com Engels e com o homem que os havia apresentado em 1843, Moses Hess. O livro foi intitulado A Ideologia Alemã (1845). Só foi publicado em 1932. Hess jamais ganhou créditos por sua co-autoria, mas parte do manuscrito aparece em sua coletânea de escritos.

Eis a descrição do comunismo:

Assim que a distribuição do trabalho passa a existir, cada homem tem um círculo de atividade determinado e exclusivo que lhe é imposto e do qual não pode sair; será caçador, pescador, pastor ou um crítico, e terá de continuar a sê-lo se não quiser perder os meios de subsistência

Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar da manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.

Esta fixação da atividade social, esta petrificação do nosso próprio trabalho num poder objetivo que nos domina e escapa ao nosso controlo contrariando a nossa expectativa e destruindo os nossos cálculos, é um dos fatores principais no desenvolvimento histórico até aos nossos dias.


Não obstante o fato de que há aproximadamente 70 volumes das obras de Marx e Engels, essa é a passagem mais longa que descreve o funcionamento de uma sociedade comunista e de como seria a vida sob esse arranjo.

Conclusão

Socialismo foi o sistema que realmente foi colocado em prática. Comunismo pleno nunca existiu e não passa de uma utopia cujo funcionamento jamais foi explicitado em trechos maiores do que um parágrafo.

Sem uma economia monetária — ou seja, sem uma economia em que os cálculos de lucros e prejuízos são possibilitados pelo dinheiro — é impossível haver uma ampla divisão do trabalho.

E sem um livre mercado para todos os bens, mais especificamente para bens de capital, é impossível haver um planejamento econômico racional.

A propriedade comunal dos meios de produção (por exemplo, das fábricas) impede a existência de mercados para bens de capital (por exemplo, máquinas). Se não há propriedade privada sobre os meios de produção, não há um genuíno mercado entre eles. Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos. Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo de preços. E sem esse cálculo de preços, é impossível haver qualquer racionalidade econômica — o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada.

Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens da capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível.

Em contraste, a propriedade privada sobre o capital em conjunto com a liberdade de trocas resulta na formação de preços (bem como salários e juros), os quais permitem que o capital seja direcionado para as aplicações mais urgentes. Ao mesmo tempo, o julgamento empreendedorial tem de lidar constantemente com as contínuas mudanças nos desejos dos consumidores.

O arranjo socialista simplesmente impede que esse mecanismo ocorra. Foi por isso que Mises argumentou, ainda em 1920, que qualquer passo rumo ao socialismo é um passo rumo à irracionalidade econômica.

E foi a isso que Heilbroner se referiu quando ele disse que "Mises estava certo".






Autores:

Hans F. Sennholz, 1922-2007, foi o primeiro aluno Ph.D de Mises nos Estados Unidos. Ele lecionou economia no Grove City College, de 1956 a 1992, tendo sido contratado assim que chegou. Após ter se aposentado, tornou-se presidente da Foundation for Economic Education, 1992-1997. Foi um scholar adjunto do Mises Institute e, em outubro de 2004, ganhou prêmio Gary G. Schlarbaum por sua defesa vitalícia da liberdade.

David Gordon, membro sênior do Mises Institute, analisa livros recém-lançados sobre economia, política, filosofia e direito. É também o autor de The Essential Rothbard.

Gary North, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história.

Leandro Roque, editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

Raça e Etnia

Ao se falar de raça e etnia muitas pessoas demonstram total falta de base teórica ou então idéias distorcidas sobre a questão, hoje é sabido que do ponto de vista biológico todas as idéias de racialização humana caíram por terra, não existem raças humanas, mas apenas a espécie (raça humana), porém a construção social feita a partir destas idéias permanece no imaginário popular e principalmente os efeitos nefastos de todas estas hoje sabidamente equivocadas idéias na vida de milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo, em especial nos reportamos ao Brasil. Para eliminar os efeitos destas idéias equivocadas é preciso porém antes, conhecer como foi realmente montada a idéia de raça e seus conceitos. Hoje nos remetemos as questões étnicas ( povos), a discussão de raça não faz mais sentido a não ser do ponto de vista dos seus efeitos na construção social.

RAÇA

A primeira classificação dos homens em raças foi a “Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races qui l'habitent” ("Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam") de François Bernier, publicada em 1684.

Carolus Linnaeus (1758) inventor da taxinomia e criador da classificação Homo Sapiens, reconheceu quatro variedades do homem - Americano (Homo sapiens americanus: vermelho, mau temperamento, subjugável), Europeu (europaeus : branco, sério, forte), Asiatico (Homo sapiens asiaticus: Amarelo, melancólico, ganancioso), e Africano (Homo sapiens afer : preto, impassivel, preguiçoso). Linnaeus reconheceu também uma quinta raça não-geográficamente definida , a Monstruosa (Homo sapiens monstrosus), compreendida por uma diversidade de tipos reais (por exemplo, Patagônios da America do Sul, Flatheads canadenses) e outros imaginados que não caberiam em nenhuma das quatro categorias "normais" (segundo a visão racista de Linnaeus que não apenas criou a classificação como atribuiu a cada uma características físicas e morais, o individuos mestiçados poderiam talvez ser então classificados nesta última categoria) .

O sucessor de Linnaeus', J. F. Blumenbach, primeiramente em 1775 reconheceu "quatro variedades da humanidade:" 1) Europa, Ásia ocidental, e parte de America do Norte; 2) Ásia do leste e Austrália; 3) África; e 4) o resto do novo mundo. A visão de Blumenbach continuo a evoluir, em 1795 dando origem a cinco variedades, Caucasiano, Mongol, Etíope, Americano, e Malaio, diferindo do agrupamento anterior onde os esquimós passaram a ser classificados com os Asiaticos do leste.

Neste sentido, as coisas ficaram estáticas até 1962, o ano em Carleton Coon publicou "A origem das raças". Lá Coon, um antropólogo físico, dividiu a humanidade em cinco raças (ou subspecies): Caucasoide, Mongoloide, Australoide, Congoide (Negroide), e Capoide(Africa Meridional até filipinas).

Segundo Dobzhansky (1970), esta visão conduziu à absurdos como quando os siblings (pessoas com síndrome de Down) foram categorizados em tipo racial (mongolóide) diferentes de ambos seus pais . De uma perspectiva social, este problema (indivíduos surgidos da mistura de raças) foi resolvido tipicamente empregando o conceito de Marvin Harris a hipodescendencia, isto é, a criança de tal união pertence a raça biológica ou socialmente inferior: "o cruzamento entre um branco e um indio é um indio; o cruzamento entre um branco e um negro é um negro; o cruzamento entre um branco e um hindu é um hindu; e o cruzamento entre alguém de raça européia e um judeu é um judeu." (Grant, The Passing of the Great Race, 1916). Em algumas países, uma regra de 1/8 ou 1/16 foi estabelecida a fim determinar a identidade racial apropriada de indivíduos oriundos de mistura de raças. Sob estas regras, se o indivíduo for, pelas linhas da descendência, 1/8 ou somente 1/16 de negro (preto uniforme) , o indivíduo é também negro.


ETNIA

Uma etnia ou grupo étnico é em um sentido amplo uma comunidade humana definida por afinidades linguísticas, culturais e genéticas. Estas comunidades comumente reclamam para sí uma estrutura social, política e um território. Etnia se usa a vêzes erroneamente como un eufemismo para raça, ou como um sinônimo para grupo minoritário.

Raça é um conceito que tem sido associado ao de etnia. Porém etnia compreende os fatores culturais (nacionalidade, afiliacão tribal, religiosa,língua ou tradições) e biológicos de um grupo humano, raça específicamente alude aos fatores morfológicos distintivos desses grupos humanos (cor de pele, compleição física, estatura, traço faciais, etc.) desenvolvidos em seu processo de adaptacão a determinado espaço geográfico e ecossistema (clima, altitude, flora, fauna, etc.) ao largo de várias gerações.

Históricamente, a palavra "etnia" significa "gentio", proveniente do adjetivo grego "ethnikos." O adjetivo se deriva do substantivo ethnos, que significa gente ou nacão estrangeira. O sustantivo deixou de estar relacionado com “Pagão” em princípios do sec. XVIII. O uso do moderno sentido da palavra começou na metade do sec. XX.

A Língua

A língua tem sido utilizada como primero fator classificador dos grupos étnicos, sem dúvida esta ferramenta não tem estado estado isenta de manipulacão política ou erro. Se deve assinalar que existe grande número de línguas multi-étnicas e determinadas etnias são multi-língues

A Cultura

A delimitacão cultural de um grupo étnico com respeito aos grupos culturais de fronteira, se faz dificultosa para o etnólogo em especial no tocante a grupos humanos altamente comunicados com grupos vizinhos. Elie Kedourie é talvez o autor que mais tenha aprofundado a análise das diferenças entre etnias e culturas . Geralmente se percebe que os grupos étnicos compartilham uma origem comum , e exibem uma continuidade no tempo, apresentam uma nocão de história em comum e projetam um futuro como povo. Isto se alcança através da transmissão de geração em geração de uma linguagem comum, intituições, valores e algumas tradicões. Se bem que em determinadas culturas se mesclam os fatores étnicos e os políticos, não é imprescindível que um grupo étnico conte com instituições próprias de governo para ser considerada como tal. A soberania portanto não é definidora da etnia, mas se admite a necessidade de uma certa projeção social comum.

A Genética

É importante considerar a genética dos grupos étnicos se devemos distingui-los de um grupo de individuos que compartilham únicamente características culturais. As etnias geralmente se remetem a mitos de fundacão que revelam uma nocão de parentesco mais ou menos remoto entre seus membros. A genética atual tende a verificar a existencia dessa relacão genética, porém as provas estão sujeitas a discussão, refrência é Lucca Cavalli-Sforza.

Grupos étnicos

Os membros de grupos étnicos costumam conceber a sua identidade como algo que está fora da história do estado-nação – quer como alternativa histórica, quer em termos não-históricos, quer em termos de uma ligação a outro estado-nação. Esta identidade expressa-se muitas vezes através de "tradições" variadas que, embora sejam frequentemente invenções recentes, apelam a uma certa noção de passado.







Por Juarez C. da Silva Jr.

O socialismo real e o socialismo fantasiado para enganar trouxas


Um amigo me disse: “Luciano, que absurdo o que aconteceu na USP. Um grupo de militantes do movimento negro invadiu a sala, chamou a professora de racista e mandou que todos os brancos se calassem. Como eles podem fazer isso enquanto afirmam defender oprimidos?”

No que eu disse: “Absurdo é você ter se surpreendido com isso. Absurdo é, ainda mais, você achar que eles agiriam de maneira diferente. Absurdo seria se eles agissem de maneira diferente, de acordo com o que defendem”.

Acontece aqui que meu amigo acha que o socialismo fantasiado para enganar trouxas é algo para existir na prática, e não apenas uma propaganda enganosa criada para obter o benefício que essa propaganda traz.

Mas precisamos ser adultos. O socialismo precisa ser julgado pelo que de fato é, não pelo que os socialistas dizem deles próprios. Se fôssemos adotar este padrão de crer na propaganda, nenhum bandido poderia ser preso, nenhum vendedor de bilhete premiado poderia ser punido por fraude, nenhuma adúltera poderia ser considerada como tal. Isto por que todo bandido se declara inocente, todo adúltero/a diz que “não é isso que (x) está pensando”, e todo vendedor de bilhete falso diz que o bilhete é verdadeiro. Se não caímos nos truques destes três, por que ainda tem gente que cai no truque de acreditar na definição do socialismo por eles próprios?

Este é o colapso mental sofrido pelo meu amigo. Essas fissuras na estrutura mental impedem que ele perceba o socialismo como ele realmente é. Por isso, não entenderá qualquer grupo adepto do marxismo cultural como eles realmente são.

Olhando de forma adulta e consciente para o socialismo, veremos que ele foi projetado desde o início para ser assim. Caso contrário, Marx não teria definido uma “ditadura do proletariado” como transição para a prometida “sociedade sem classes” (o bilhete premiado vendido pelo fraudulento). Que outro nome damos para a ditadura do proletariado que não um método para conseguir oprimir os outros a partir do uso de um discurso fingido no qual o artista da dissimulação convence os outros de “lutar por oprimidos, contra opressores”?

O que aconteceu na sala de aula foi exatamente isso. A simulação de um discurso dizendo “sou oprimido” para poder oprimir. Como eu disse, seria surpreendente se agissem de maneira diferente.








Por Luciano Henrique

O mito da democracia racial e o mito das cotas


Para quem quiser assistir, o vídeo está lá no YouTube. 


Representantes do movimento negro interrompem uma aula para discutir o regime de cotas na Universidade de São Paulo (USP). Um dos alunos, autor da filmagem, começa a debater com eles. Provocativamente, diz que ninguém proíbe ninguém de entrar na faculdade, basta estudar e passar no vestibular. Num tom sereno, mas que beira o sarcasmo, pede que a aula comece. Ofendidos, os representantes do movimento negro reagem. Não é nada fácil, diz uma representante num tom de voz elevado, entrar na USP tendo estudado em escola pública, na periferia, num ambiente de pobreza, violência e perseguição policial. A discussão esquenta. Lá pelas tantas, o aluno que filma e quer ter aula desfere seu argumento definitivo:

– Eu me considero igual a você.

Ao que ela responde:

– Você já sofreu racismo? Nunca! Então, você não é igual a mim.

Repousa aí, nessa singela troca de gentilezas, o nó da questão que hoje divide não só a USP, mas as demais universidades brasileiras, órgãos públicos, empresas privadas ou lugares onde vigoram – ou se discutem – as políticas de reserva de vagas para negros, como compensação pelas chagas históricas da escravidão e do racismo. Ao afirmar que todos são iguais perante a lei, o aluno da USP repete o ideal iluminista, gravado como cláusula pétrea na Constituição: não deve haver discriminação nenhuma com base em cor, raça, sexo, religião, situação econômica e coisas do tipo. Ao dizer que não, não somos todos iguais, a representante do movimento negro lembra que, aonde quer que se vá neste país, negros ocupam predominantemente papéis subalternos na sociedade e são vítimas de preconceito. Nada mais justo, segundo a visão dela, que o Estado tente reparar essa injustiça histórica lhes dando preferência em concursos e cargos, com base no mesmo critério dos racistas – as “raças”.

E repousa aí, nesse singelo raciocínio, toda a dificuldade: raças não existem na humanidade, são um conceito cientificamente furado, como demonstra um sem-número de estudos genéticos. Em seu livro Uma gota de sangue – História do pensamento racial, o sociólogo Demétrio Magnoli mostra que, se é verdade que não somos todos iguais, a diferença entre indivíduos jamais poderá ser caracterizada por meio de grupos de “raças” ou de quaisquer categorias de inspiração racial, como a cor da pele. Decidir que dois indivíduos pertencem à mesma “raça” apenas pelo aspecto físico é incorrer, diz ele, no mesmo erro dos racistas. Seu livro demonstra que adotar critérios raciais, positivos ou negativos, como política de Estado sempre gerou mais problemas do que resolveu. Das ações afirmativas nos Estados Unidos à política de castas da Índia – passando por Malásia, África do Sul, Quênia, Ruanda, pela Alemanha nazista e por vários outros exemplos –, Magnoli disseca pacientemente, em minúcias, a história das políticas raciais. Não adota um tom militante, embora seja conhecido como um dos mais veementes oponentes das cotas raciais no Brasil. Trata-se, essencialmente, de um livro de história, em que mesmo os mais ferrenhos defensores dessas políticas – chamadas por Magnoli de “racialistas” – terão algo a aprender.

Há no Brasil, diz ele, uma característica singular: a mestiçagem, presente já no mito nacional que considera o povo brasileiro como “fusão de três raças”. O próprio censo, em que pese a fragilidade de suas categorias, registra que os brasileiros, mesmo os mais pobres, se identificam mais como “pardos” que como “pretos”, dois grupos evidentemente artificiais. De acordo com Magnoli, a mestiçagem não elimina o racismo, nem implica que tenhamos atingido o grau mítico da “democracia racial”, idealizada pelo sociólogo Gilberto Freyre. Mas ela é uma dificuldade, até de ordem prática, para as novas políticas raciais. A sociedade brasileira não se vê dividida binariamente entre “negros” e “brancos”, como ocorre em outros países. Nos Estados Unidos, vigora a regra que dá título ao livro: basta alguém ter um único ancestral negro – ou “uma gota de sangue negro”, como nas antigas leis racistas – para ser considerado negro. Magnoli argumenta que, ao reunir os “pretos” e “pardos” numa única categoria para formar o grupo dos “negros”, as leis de cotas contribuem para importar a lógica americana – e seus conflitos entre “negros” e “brancos” – para o Brasil. Não há solução simples para o racismo, para a herança nefasta da escravidão ou para a pobreza. Pelo menos, diz Magnoli, o “mito da democracia racial conduz a atitudes antirracistas; é uma plataforma inigualável se a meta for edificar uma democracia cega para a cor da pele dos cidadãos”. As políticas racialistas, ao contrário, exacerbam o contraste e aumentam a tensão. Pelo tom da discussão entre o aluno da USP e a representante do movimento negro, é provável que até contribuam para amplificar o racismo.







Por Helio Gurovitz

sábado, 28 de março de 2015

FAQ ministerial: as perguntas frequentes dos ministros de Dilma


Parabéns!

Você acaba de ser nomeado ministro da República Federativa do Brasil. Com a ajuda da presidenta, montamos uma lista de perguntas frequentes para auxiliá-lo nesta importante função. As respostas abaixo certamente ajudarão V. Ex. a evitar sermões, demissões repentinas e outras dificuldades que alguns de seus colegas estão enfrentando. Boa sorte!



1. Não sei exatamente qual a função da minha pasta. Pra ser sincero, acho que ninguém notaria se o meu ministério fosse extinto. Como devo proceder?

Fique tranquilo! Nesta fase da carreira, é normal que surjam inquietações e um sentimento de inutilidade profissional. Você não está sozinho: dezenas de ministros sofrem desse problema. Para enfrentá-lo, o principal é comunicar a imagem oposta à imprensa e aos eleitores. Na TV, mostre que você está cheio de projetos, decore estatísticas e frases de ênfase. Com o tempo, até você vai acreditar que sabe do que está falando.

2. Preciso ir trabalhar na segunda-feira?

Sim.

3. Preciso ir trabalhar na sexta-feira?

Sim.

4. Ah, tá de sacanagem. Até na sexta-feira?

Bem, sempre é possível agendar reuniões com a base ou discutir regras mais rígidas para o setor em Fernando de Noronha. Mas fique de olho na imprensa do fim de semana: se houver alguma reportagem sobre você, nem precisa voltar a Brasília.

5. Estou com vontade de dar um soco no Eduardo Cunha. Como devo proceder?

A presidência não recomenda a prática de violência entre os políticos da base aliada. Ainda mais se o alvo for um político do PMDB. Jamais fale grosso ou encare um político do PMDB. Se algum político do PMDB encrencar com você, não teremos alternativa senão dar razão ao político do PMDB. A não ser, é claro, se você também for do PMDB. Nesse caso, podem se matar à vontade.

6. Como devo comunicar as ações do meu ministério?

Esta é uma questão importantíssima. A presidente costuma gostar dos ministros que comunicam exatamente o contrário do que fazem. Por exemplo: se você vai rever as regras do seguro-desemprego, não vá dizer por aí que “o seguro-desemprego está ultrapassado”. Faça o contrário: diga que “estamos muito preocupados com o seguro-desemprego”.

Se você prevê que não haverá aumento real ao salário mínimo em 2015, obedeça a presidenta e diga que “vamos propor uma nova regra para 2016 e 2019 para garantir aumento real do salário mínimo”.

E, por favor, não vá escrever um relatório contando que pagamos blogueiros para adular o governo. Em vez disso, diga que “este governo está comprometido com a autonomia da imprensa”. O povo vai lembrar do que você disse, não tanto do que você fez.

7. Acho que vou ser citado nas denúncias da Lava Jato. Como devo proceder?

O governo federal não se responsabiliza pelo histórico de seus ministros e recomenda que eles respondam a acusações de corrupção de forma honesta e democrática.

8. Estou desesperado: fui citado nas denúncias da Lava Jato. Como devo proceder?

Bem, neste caso, é preferível ignorar a resposta anterior e marcar uma reunião com o José Eduardo Cardozo. (Aqui entre nós, ele tem uns conhecidos que podem facilitar a coisa pra você.)

9. O cãozinho da minha mulher está doente. Posso levá-lo de jatinho ao veterinário em Ribeirão Preto?

Não.

10. Mas ele não simpatiza com nenhum veterinário aqui de Brasília…

Não.

11. Mas ele está tão doentinho…

Ok, sendo assim, pode. Mas vale a mesma dica da pergunta 4: arranje algum motivo oficial para a viagem. Uma reunião com empresários para discutir as Olimpíadas, a dívida dos estados, as regras mais rígidas para o setor. O povo adora regras mais rígidas para qualquer setor.

12. Um homem estranho passou aqui no gabinete e disse que foi indicado pelo Lula para a diretoria de licitações do meu ministério. Como devo proceder?

Os autores deste FAQ manifestam que não têm e nunca tiveram conhecimento de desvios de verba ou recebimentos de propina por funcionários do ministério em questão.

13. Peraí, não foi essa a minha pergunta. Deixo o homem trabalhar aqui ou não?

Os funcionários do ministério devem ser escolhidos por critérios técnicos e aspectos políticos, além do histórico de comprometimento com as lideranças e com os apoiadores do partido. Deu pra entender, né?




Por Leandro Narloch

O indivíduo comum como o único agente da história


“A ideia do herói revolucionário não é, de forma alguma, nova. Na realidade, é um dos mais interessantes paradoxos do marxismo que este tenha combinado uma teoria da história que nega a eficácia da liderança com uma prática revolucionária que depende inteiramente da liderança para seu sucesso, e que foi capaz de consolidar-se no poder somente por estabelecer hábitos de adoração ao herói revolucionário”.

A passagem, de Roger Scruton sobre Gramsci, traz um ponto muito interessante sobre uma das maiores – entre tantas – contradições do marxismo: a crença no determinismo histórico concomitante ao culto do líder revolucionário. As “forças históricas” são produzidas pela luta de classes, segundo os marxistas, e do feudalismo passamos ao capitalismo que, inexoravelmente, chegará ao socialismo.

A crença em qualquer fatalismo deveria levar à inação. Ora, se tais acontecimentos independem da volição das pessoas, até mesmo da ação de indivíduos, então por que lutar tanto? Para “acelerar” o processo histórico inevitável? Claro que não faz o menor sentido, e o classismo marxista, esse abjeto coletivismo que só enxerga classes abstratas e nunca indivíduos de carne e osso como os protagonistas da história, não passa de uma forma de tornar o violento revolucionário mais insensível ao dano que causa às pessoas.

Somente quando a “burguesia” é o alvo, o grande inimigo, que revolucionários podem dar vazão à sede de violência eliminando os kulaks, os pequenos proprietários russos de terras. Somente quando os seguidores de Pol-Pot enxergam nada além de “classes dominantes” é que um terço da população do Camboja pode ser exterminada sem tanto peso na consciência dos revolucionários. Não matavam pessoas, pais e mães, gente de carne e osso, mas uma “classe”. O mesmo com os nacional-socialistas na Alemanha, exterminando “ratos judeus”, e não seres humanos como você e eu.

Não perceber que são indivíduos os verdadeiros agentes da história, cuja trajetória é sempre indefinida, é um equívoco primário que o marxismo comete, e que possibilita todo tipo de prática nefasta por parte dos revolucionários – eles mesmos indivíduos também, seguindo seus instintos mais do que sua razão, e agindo impunemente e com paz na consciência, pois se sentem agindo como uma “classe” oprimida, nunca como pessoas responsáveis por seus atos.

Toda essa longa explanação foi para chegar na realidade brasileira atual. Os petistas, herdeiros tupiniquins do marxismo, julgavam-se os “protagonistas da história” como representantes da “classe oprimida”, enquanto os demais, mesmo os esquerdistas tucanos, eram da “elite”, da “classe opressora”, e portanto “reacionários”. A mobilização das massas nas ruas era monopólio do PT, pois somente ele agia em prol do avanço da história rumo ao seu destino inevitável: o socialismo.

Muitos realmente acreditaram e acreditam nessa baboseira. É por isso que olham perplexos, com um sentimento doloroso de dissonância cognitiva, para milhões nas ruas contra o PT. Precisam ser acusados de “classe golpista”, de “elite”, mesmo que sejam pessoas comuns, da classe média, um misto de tudo, de trabalhadores, de profissionais liberais, de aposentados, de jovens estudantes, de empresários grandes, médios ou pequenos. Todos viram um monolítico grupo de “reacionários golpistas”, pois se colocam contra o “progressismo” petista, aquele que fala em nome dos pobres e de seu futuro brilhante.

Reinaldo Azevedo falou algo similar em sua coluna de hoje na Folha, mostrando, com o próprio Marx, como alguns podem ser vítimas de sua própria visão de mundo. O PT está em crise grave, definhando, murchando, e antigos aliados pulam fora do barco que afunda. O partido pode até mesmo ser totalmente destruído. Mas esquerdistas históricos se recusam a ver o que acontece. Escreve Reinaldo, usando o petista Andre Singer como exemplo:

Tentei achar nos seus textos onde estão os sujeitos que fazem história fora das hostes da esquerda. Não há. Ou os homens que disputam as narrativas estão engajados num movimento que traz em si o germe da mudança necessária ou estão articulando as forças da reação, o que levaria o mundo a andar pra trás.

É impressionante que mesmo os esquerdistas que leram mais de três livros ignorem que os valores do homem médio –que, no fim das contas, asseguram a estabilidade disso que entendemos como civilização– também podem ser afirmativos, não apenas reativos ou derivados da mobilização esquerdista. Bakunin, numa crítica pela esquerda, apontava “a falta de simpatia” de Marx pela raça humana. A crítica era pertinente. O furunculoso nunca se interessou pelo homem que há, aquele que realmente faz história, mas sempre pelo homem a haver, que existe como projeto.

O petismo perdeu o bonde. Também perdeu a rua, como ficará claro, de novo!, no dia 12 de abril. O petismo já morreu. Tornou-se vítima de sua própria concepção de mundo.

Amém! Mas não chega a ser uma declaração de fé, e sim uma conclusão lógica derivada da análise fria dos fatos, algo que os petistas jamais foram capazes de fazer. Eles eram o “motor da história”, e isso era tudo que bastava para sua arrogância e seu ataque virulento aos opositores, tratados por eles como inimigos, como obstáculos ao futuro radiante de sua utopia.

É o que dá essa mania de enxergar somente coletivos abstratos, e nunca o indivíduo de carne e osso, o único agente verdadeiro da história, sempre imprevista. Para os liberais, o indivíduo sempre faz a diferença – para o bem e para o mal.



Por Rodrigo Constantino

O crescimento do PIB e os falsos defensores dos pobres


Por que nenhum blogueiro progressista, nenhum colunista que se diz a favor dos pobres repercute e lamenta o crescimento mixuruca do PIB?

Sempre que o IBGE divulga os números, eu fico atento para ver se eles comentam, mas nada: tratam como se o dado fosse relevante somente para economistas, e não a pior notícia que os pobres poderiam ouvir.

PIB patinando ou em queda significa menos vagas de trabalho e menor concorrência entre patrões por empregados. O camarada que se sente explorado pelo patrão fica sem a possibilidade de encontrar um emprego melhor e dar adeus ao chefe. O garçom e o vendedor de carros vão para casa com menos comissões do bolso, pois ninguém vai ao restaurante, ninguém compra carros.

Do contrário, PIB em alta é uma festa. Patrões concorrem entre si por empregados, oferecendo salário melhor, carteira assinada, menor carga horária e até alguns mimos (em 2010, construtoras ofereciam massagista para os pedreiros).

Por que, então, os blogueiros progressistas não lamentam a tragédia do PIB em baixa?

Minha razão preferida é esta: intelectuais de esquerda gostam de explicar a pobreza de uns pela riqueza de outros. A mensagem que mais lhes rende adeptos é a que culpa os ricos pela miséria do país.

Defender a alta do PIB não se encaixa nessa visão de luta de classes. Significa admitir que pobres e ricos estão no mesmo barco: todos se beneficiam com o crescimento da economia. O número de milionários dá um salto enquanto massas de miseráveis chegam à classe média.

Concordar com a importância do PIB também significa admitir que a melhor ajuda que se pode dar aos pobres é desimpedir o crescimento da economia: diminuir a burocracia nas contratações e na abertura de empresas. E intelectuais de esquerda jamais vão admitir que estar do lado dos pobres equivale a estar do lado dos homens de negócio.





Por Leandro Narloch