sexta-feira, 6 de março de 2015

Crises gêmeas


A crise política fez crescer a crise econômica. O país está com um enorme rombo nas contas públicas e precisa da aprovação de medidas amargas no Congresso. A fraqueza política da presidente Dilma neste início de mandato está provocando dispersão da base parlamentar. Por temperamento, estilo, e pelo que disse no passado, Dilma não consegue convencer nem o seu partido.

A equipe econômica já tem uma missão difícil. Transformar um déficit primário de 0,6% em um superávit de 1,2% do PIB, mesmo estando em uma conjuntura recessiva, que, normalmente, reduz as receitas do governo. Um ajuste de quase 2% do PIB já seria difícil conseguir com o país crescendo, com a redução do nível de atividade, será mais difícil.

A inflação de fevereiro deve ficar acima de 1%, o que manterá a taxa em 12 meses acima do teto da meta. A alta dos juros para 12,75%, ontem, significará mais pressão sobre as contas públicas, porque eleva o custo da dívida, que já subiu muito nos últimos quatro anos.

Os analistas das agências de risco, como os da Standard & Poor’s que estão em Brasília avaliando os dados brasileiros, costumam olhar os indicadores atuais e a dinâmica futura. Quanto é a dívida pública bruta e qual é o seu provável crescimento. Como o país está com quase 7% de déficit nominal, a conclusão clara é que o endividamento tende a crescer.

Os argumentos da equipe econômica são de que algumas sangrias foram estancadas. As transferências ao BNDES não vão mais acontecer. Elas provocaram nos últimos anos quase R$ 500 bilhões de aumento do endividamento. Além disso, os ministros têm a mostrar que já anunciaram várias medidas para reduzir o desequilíbrio primário entre despesas e receitas. O problema é que parte dessas medidas depende da aprovação do Congresso, e ele está conflagrado.

Os petistas rejeitam a mudança no acesso ao benefício do seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte. Acham que isso fere direitos. Até a pensão por morte, que tem gritantes distorções, eles não querem sequer ouvir os argumentos da equipe econômica. O ministro Joaquim Levy teve que cancelar o jantar com a bancada do PT. No começo do governo Lula, o então ministro Antonio Palocci teve um jantar indigesto assim com a bancada do PT, mas acabou convencendo a maioria a manter o apoio à política econômica, que repetia a do governo anterior. Desta vez, não há clima nem para o jantar.

E se o PT não apoiar as medidas, por que o PMDB o faria, se também reclama de não estar sendo ouvido sobre elas e tem duas das suas principais lideranças, os presidentes da Câmara e do Senado, prestes a enfrentarem a turbulência de estarem na lista do Janot?

Hoje, as poucas boas notícias vêm das más notícias. O governo fez a seguinte conta: se a recessão for de 1,5%, o país escapará do racionamento de energia, para alegria da presidente Dilma, que aceita qualquer coisa menos repetir a decisão tomada pelo ex-presidente Fernando Henrique. Alertada por uma autoridade do setor elétrico de que os técnicos do governo acham que as medidas restritivas têm que acontecer, ela respondeu: “falemos nisso em abril.” Até lá, torcerá pela chuva e pela recessão.

Houve no passado momentos de crise que exigiram a aprovação de pacotes de medidas amargas, mas, normalmente, isso foi conseguido pela união da base parlamentar em torno do executivo. Desta vez, o poder de atração da chefe do governo está se desfazendo rapidamente. O que eleva a incerteza sobre o destino das medidas, em geral.

A decisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, de devolver a MP das desonerações, criou um efeito concreto. Mesmo se o projeto de lei enviado pelo Planalto for aprovado, o governo perderá vários meses de arrecadação com a qual contava para o ajuste fiscal. Haverá resistência também à aprovação da correção da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física por 4,5%, com a inflação em 12 meses batendo em 7,5%.

Essas duas crises não são boas companheiras. Realizar um ajuste fiscal no meio de desentendimentos políticos é muito difícil. O governo precisará passar para a sua base o sentimento de urgência. O problema foi o que a presidente fez e falou no passado. Ela disse que não havia crise, não faria tarifaço, não havia necessidade de ajuste fiscal e que medida impopular é contra o povo. Terá que dizer: “esqueçam o que eu disse”.





Por Miriam Leitão

Petrobrás à venda


Quem é mesmo que anunciou que a Petrobrás está sendo fatiada e vendida? O governo do PT?!!! Isso só pode ser brincadeira, quem sabe uma "barriga" (informação errada) da imprensa.

Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff usaram e abusaram, durante as campanhas de 2006 e de 2010, da versão de que o PSDB privatizaria a Petrobrás. Até engenheiros da própria companhia acreditaram, ou quiseram acreditar, na balela. 

E quem não se lembra de Lula metido num macacão cor de abóbora da Petrobrás, com a mão manchada de petróleo, passando a imagem subliminar de que ele próprio, qual um deus das profundezas do oceano, havia criado o pré-sal? Ambos, macacão e presidente, tão fotogênicos, a dias das eleições. 

O mundo realmente dá voltas. Hoje, é a Petrobrás de Dilma, Lula e PT que, exaurida, machucada e vilipendiada, anuncia a venda de R$ 39 bilhões em ativos para tentar amortizar uma dívida que vai crescendo e se tornando impagável.

A venda tem, assim, um viés político e outro econômico. O político é que, tal como Dilma disse que não mexeria nos direitos trabalhistas nem que "a vaca 'tussisse'", as campanhas petistas trataram da privatização da Petrobrás como algo absurdo, nefasto, coisa do demônio. E tanto a vaca "tussiu" quanto o governo do PT se converteu à crença do mal.

Ah!, sim, privatização é uma coisa, venda de ativos é outra. Ou melhor: privatização de adversários é privatização, mas privatização "cumpanheira" é só "venda de ativos"?

É assim que o PT, um dos maiores e mais importantes partidos da redemocratização, vai perdendo o encanto, as bandeiras, os líderes e até a credibilidade. Se, sistematicamente, diz uma coisa na campanha e faz outra depois de eleito, resta pouco para acreditar. A magia do marqueteiro João Santana está se esgotando.

Quanto ao viés econômico: o sindicalista José Sérgio Gabrielli deixou a Petrobrás com um buraco imenso e sua sucessora Graça Foster não melhorou muito as coisas. Assumiu a presidência com uma dívida de R$ 181 bilhões. Foi para a casa deixando uma de R$ 332 bilhões. A Petrobrás é a empresa mais endividada do mundo!

Faz todo o sentido - para o mercado, para quem é do ramo e para quem consegue enxergar além da ideologia - passar adiante áreas que não são essenciais ao objetivo fim da Petrobrás. Exemplo: as fábricas de fertilizantes.

Mas a grande dúvida é se vender R$ 39 bilhões em ativos (o Brasil e no exterior) e cancelar investimentos de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões neste ano vão resolver o problema. Façam as contas...

E, espreme daqui, espreme dali, não sobra muito para sair vendendo. A lista já inclui termelétricas, gasodutos, refinarias, dutos, rede de postos de gasolina e... campos de petróleo e gás. Daqui a pouco, vão querer vender o pré-sal e até o macacão cor de abóbora do Lula.

Por um desses detalhes cruéis da história, o anúncio da venda de ativos da Petrobrás passou praticamente em branco no mundo político, distraído com uma lista muito diferente da lista de ativos à venda na Petrobrás: a lista dos políticos enrolados na Operação Lava Jato. Mas uma coisa está diretamente vinculada à outra.

A Petrobrás só chegou no fundo do poço e o PT só teve de engolir a venda de ativos goela abaixo porque, nos governos Lula e Dilma, o PT se sentiu dono da maior empresa do País e fez dela gato e sapato. Não apenas participou dos esquemas de desvios como represou tarifas politicamente e escamoteou informações devidas à opinião pública. Chegamos aonde chegamos. Ou melhor, chegaram aonde chegaram

E, por falar em lista de políticos enrolados: depois de comer o pão que o diabo amassou com Eduardo Cunha na Câmara, Dilma vai ter que digerir um Renan Calheiros cheio de espinhos no Senado, rejeitando a medida provisória que aumentaria os impostos das empresas e reduziria as dívidas do governo.

Mas a gente já sabe como é: a culpa não é de Lula, Dilma, Cunha e Renan; é do ministro da Fazenda, Joaquim Levy!





Por Eliane Cantanhêde

quinta-feira, 5 de março de 2015

Como parei de inventar desculpas e finalmente libertei minha mente


É com bastante frequência que recebo as seguintes perguntas: "Quando foi que você percebeu que não era necessário haver um estado?", "Quando foi que você deixou de defender a existência de um estado?", ou até mesmo "Como foi que você percebeu que era incoerente ser pró-liberdade e ao mesmo defender o monopólio da violência para uma instituição política?". E há também a pergunta que resume tudo: "Quando foi que você se tornou um anarcocapitalista?"

Não é uma pergunta fácil de ser respondida. Mudanças profundas na perspectiva intelectual de uma pessoa não ocorrem da noite para o dia. Primeiro, você cogita a ideia. Em seguida, você avalia sua plausibilidade. Você pode até abraçar completamente a ideia, mas apenas de forma abstrata. A verdadeira mudança intelectual ocorre apenas quando você se torna capaz de ver a ideia funcionando no mundo real — até mesmo em sua vida cotidiana. É aí que a confiança em uma ideia se impõe.

É justamente por esta razão que nunca entendi como é possível alguém se tornar socialista. É algo que vai totalmente contra a lógica. O socialismo é a ideia menos plausível que pode ser imaginada. Bens escassos não podem ser propriedade de todos. Não é uma questão de ideologia, mas sim de lógica pura. Tente socializar seu notebook, ou seus sapatos, seu carro ou qualquer bem de capital ou de consumo. Duas pessoas não podem ser proprietárias de forma simultânea e integral do mesmo bem. O socialismo inevitavelmente sempre terminará em controle estatal total. É por isso que o socialismo gera desastres humanitários sempre que é integralmente implementado. Socialistas genuínos ou não entendem essa lógica ou simplesmente querem viver no perpétuo autoengano.

A primeira vez em que ouvi falar em anarcocapitalismo — ou 'anarquismo baseado na propriedade privada' — foi quando vi o livro de Murray Rothbard Man, Economy and State na estante de livros de um professor. Só o título [Homem, Economia e Estado] já abordava diretamente alguns problemas que vinham me atormentando à época. Perguntei ao professor sobre aquele livro e ele ficou alarmado, como se eu houvesse visto algo que não podia ver. Ele rapidamente me alertou que eu não deveria ler o livro. "Rothbard é um anarquista", disse ele de forma soturna. É claro que, por causa desta antipropaganda, eu imediatamente quis ler aquela obra (mas não podia porque não havia dela na biblioteca da escola e eu não consegui bolar uma maneira de pegar furtivamente o livro da estante do professor).

Tive de deixar este objetivo temporariamente de lado, mas passei a me dedicar mais profundamente à leitura de livros pró-livre mercado. Quanto mais eu lia, mais eu me impressionava. Milton Friedman estava certo. Henry Hazlitt estava certo. Ludwig von Mises estava certo. F.A. Hayek estava certo. Leonard Read estava certo. Toda esta tradição, que remetia a Adam Smith, apresentava uma lógica de raciocínio espetacular. O mundo estava tentando gerenciar suas economias por meio de decretos estatais, mas tudo estava dando errado. Com essas leituras, aprendi que somente a liberdade e a propriedade privada são genuinamente produtivas, criativas e evolutivas, e somente elas realmente dão poder para as pessoas comuns da sociedade.

E, ainda assim, cada um desses pensadores, por algum motivo que me escapava, não levava essas ideias ao seu extremo lógico. Eles não chegavam ao ponto de dizer que nós realmente não precisamos de um estado. Todos eles pareciam concordar que o estado era necessário para manter a paz; que o estado é realmente tudo o que se interpõe entre nós e o caos total. Sem o estado, não seríamos capazes nem mesmo de dar aquele primeiro passo rumo à ordem social. Não haveria como usufruir aquela segurança que tomávamos como natural. Bens e serviços essenciais não poderiam ser ofertados. Não haveria tribunais, serviços de segurança e defesa, e talvez nem mesmo estradas. O estado fornece coisas que o mercado não pode fornecer — ou pelo menos era o que dizia tal raciocínio.

Com o passar do tempo, e com minhas leituras, estas ilusões foram sendo destroçadas uma por uma. Descobri que estradas, correios, comunicações e até mesmo aqueles lendários 'bens públicos' como faróis de navegação marítima foram, de uma perspectiva puramente histórica, todos ofertados pelo livre mercado. Só depois é que o governo monopolizou estes serviços. Tribunais? Na década de 1980, as cortes estatais já estavam tão cheias e eram tão ineficientes, que empresas e indivíduos não queriam utilizá-las. A arbitragem privada era uma opção muito melhor. Mesmo nos empreendimentos cotidianos, contratos eram formulados de modo que contendas fossem resolvidas em tribunais privados. Para mim, tudo aquilo significava que mesmo estes serviços não eram algo exclusivo do governo; eles poderiam ser ofertados exclusivamente pelo livre mercado. O mesmo se aplicava à segurança. Não é o estado o que nos dá segurança diariamente, mas sim nossas próprias precauções e medidas preventivas, como fechaduras, armas e a contratação de serviços de segurança privados.

E vale ressaltar que toda essa transformação estava ocorrendo em minha mente durante os anos finais da Guerra Fria. Um holocausto nuclear era uma ameaça real e diária. Inimigos estrangeiros nos rodeavam. Os comunistas queriam destruir nosso modo de vida. Falar sobre isso atualmente parece uma grande tolice, principalmente quando se descobriu, após 1989, o quão inacreditavelmente pobres e patéticos eram todos os países do bloco soviético. Porém, naquela época, tudo era amedrontador. Não poderíamos abrir mão de nossas armas nucleares porque isso colocaria em risco nosso modo de vida.

Aprofundando meus estudos de história, comecei a descobrir coisas interessantes. Ocorre que a Ameaça Vermelha era algo recorrente na história dos EUA. As pessoas tinham tanto pavor dos comunistas na década de 1920 quanto na década de 1980. Neste ínterim, no entanto, houve aquele estranho período em que os líderes americanos e soviéticos eram considerados aliados próximos na batalha contra os japoneses e os alemães. Com efeito, os EUA fizeram de tudo para manter o regime soviético intacto, e, após a Segunda Guerra Mundial, os próprios EUA ajudaram a entregar o Leste Europeu ao jugo soviético. Após isso, os soviéticos repentinamente se tornaram novamente o inimigo. Foi para chamar a atenção para esse absurdo que George Orwell escreveu 1984. (O título faz um trocadilho com 1948. O livro foi publicado em 1949).

Estes fatos começaram a complicar o cenário. Não é necessário relatar todo o revisionismo histórico aqui; basta dizer que as guerras em que os EUA se meteram no século XX se tornaram bem menos claras e muito mais confusas para mim do que aparentavam ser para a mídia ideologicamente polarizada. A Guerra Fria não era uma história de anjos e demônios, não obstante os impulsos nacionalistas para se torcer por seus respectivos governos. A Guerra Fria foi uma batalha entre estados, ambos os quais estavam perfeitamente dispostos a mentir para seus cidadãos, a explorar sua população e a preferir o conflito à paz. Era também impossível não perceber que, quanto mais os EUA elevavam o tom belicista contra o comunismo, mais o próprio governo americano se tornava uma ameaça às liberdades dos cidadãos. A guerra, como descobri, nunca foi uma aliada da liberdade.

Enquanto isso, comecei a perceber que, se os EUA realmente fossem invadidos por um inimigo estrangeiro, os governos federal, estaduais e municipais poderiam até ajudar, mas a maior probabilidade é que atrapalhassem impondo leis marciais, estatizando a indústria e confiscando nossas armas — como todos os governos tendem a fazer em qualquer emergência. Na prática, na iminência de uma invasão, os cidadãos e os mercados é que serão decisivos para combater e derrotar os invasores utilizando meios privados: nossas próprias armas, nosso aparato de segurança, nossas redes de amizade, e nossos esforços individuais e comunitários. Quanto mais eu pensava sobre isso, mais ridícula se tornava a ideia de que deveríamos depender do governo para toda a nossa proteção. Tomando-se por base a experiência, governos podem agravar ainda mais os malefícios, simplesmente porque eles tendem a usar situações de emergência em proveito próprio — e em benefício daqueles que lhes garantem poder (os grupos de interesse e os lobistas). O que é ainda pior: pessoas com poder tendem a estimular ou até mesmo a criar emergências quando têm o poder para tal.

Esta foi a evolução do meu progresso intelectual durante um período de aproximadamente cinco anos. Finalmente, em um belo dia, parei para refletir melhor e me fiz a seguinte pergunta: existe alguma coisa que o governo faz, que tem de ser feita e que não pode ser efetuada de maneira mais eficiente e mais completa pela livre e voluntária associação entre indivíduos?

Fiquei revirando esta pergunta em minha mente. Não conseguia pensar em outra resposta senão a de que não há absolutamente nada de essencial que o governo faça que não possa ser mais bem efetuado pela livre iniciativa e pela livre associação entre as pessoas. Confesso que foi um pensamento amedrontador. Será que eu estava me tornando um anarquista? Será que esse pensamento iria mudar minha vida? Se eu seguisse nessa direção, estaria eu fazendo algo terrivelmente irresponsável? Encontrei consolo na possibilidade de que talvez eu não houvesse raciocinado corretamente; de que talvez houvesse algo de errado na maneira em que eu havia formulado a pergunta. Tentei confortar-me na hipótese de que eu havia desconsiderado alguma pequena característica positiva do governo, característica essa que eu poderia defender de modo a não ter de me considerar um maluco.

Foi no saguão de um hotel em que Murray Rothbard estava hospedado que eu finalmente fiz a ele esta pergunta. Formulei de maneira bem direta. Se eu respondesse 'não' àquela pergunta acima, seria eu um anarquista? Murray disse que sim. Assustado, tentei esclarecer melhor: se eu cheguei à conclusão de que o estado não contribui com absolutamente nada de valor para a ordem social, e de que ele não pode trazer nenhum aprimoramento para aquilo que criamos com nosso próprio esforço, seria eu um anarquista? Ele novamente disse que sim. E eu respondi: bom, então acho que sou um. E ele então soltou uma gargalhada efusiva, apertou vigorosamente minha mão, e me congratulou de forma exuberante, tudo naquele seu bem conhecido estilo jubiloso. Uau. O feito havia sido consumado, pensei.

E, ainda assim, eu estava enganado. O feito intelectual havia sido consumado, mas ainda era muito fácil manter esta ideia como uma abstração, como algo que não afetava em nada meu trabalho diário ou minha vida. Uma coisa é você enxergar a luz lá longe; outra bem diferente é ver essa luz ao seu redor constantemente. Este passo me tomou vários outros anos de meditação acerca de questões específicas como direitos humanos, serviços de mercado, a maneira como a liberdade funciona, a maneira como o estado se portou ao longo da história, e a maneira como ele funciona hoje. Os últimos estágios desse processo de pensamento levaram vários anos para serem processados.

O que eu fui descobrindo de maneira gradual em minha rotina diária é que o anarquismo está inteiramente ao nosso redor. O estado não nos acorda de manhã, não arruma nossa cama, não tece nossos lençóis, não constrói nossas casas, não faz nossos carros funcionarem, não prepara nossa comida, não nos faz trabalhar com mais afinco e dedicação, não produz os livros que lemos, não gerencia nossas igrejas, não nos dá roupas, não escolhe nossas amizades e nossos amores, não toca a música de que gostamos, não produz os filmes a que assistimos, não cuida de nossos filhos, não cuida de nossos pais, não escolhe onde passamos férias, não dita o assunto de nossas conversas, não torna nossos feriados mais bonitos e alegres, não cria nada de positivo para nós.

Tudo isso são coisas que fazemos por conta própria. Nós moldamos o nosso próprio mundo. Por meio da prática da vontade humana, todos nós trabalhamos para fazer com que o mundo à nossa volta seja ordeiro. Isso é o que toda a população mundial faz. Todos nós trabalhamos motivados pelo nosso interesse próprio com o intuito de encontrar maneiras de ter uma vida melhor. Mais ainda: todos nós nos esforçamos para trabalhar com terceiros em um arranjo que seja mutuamente benéfico, de modo que o aprimoramento de nossa vida não ocorra à custa dos direitos e das liberdades de terceiros. A liberdade está onde são geradas as coisas bonitas de nossas vidas. E isso é válido em todos os cantos do mundo. Sempre foi. Uma bela anarquia é a principal fonte da própria civilização.

Qual o papel do estado? Ele interfere. Ele confisca nossa propriedade e reduz nossa riqueza individual. Ele bloqueia oportunidades por meio de suas regulamentações e subsequentes criações de cartéis. Na verdade, ele faz ainda pior: ele busca desculpas para iniciar guerras, ele se intromete em nossas famílias, ele pune o comportamento pacífico que não prejudica ninguém — em suma, ele obstrui o progresso de variadas formas. O estado é o grande forasteiro. Ele é exógeno à própria sociedade. A maior parte do mundo ainda funciona, e a civilização ainda prospera, porque as pessoas se esforçam para ignorar o estado o máximo possível. E se ele desaparecesse? Eu realmente não consigo ver nenhuma consequência negativa neste fenômeno. Mas vejo várias positivas.

E ainda assim há aqueles que alertam para o iminente apocalipse caso o estado desapareça. A maioria das pessoas que acreditam em um governo limitado ("minarquistas") nutre essa ideia. Mesmo grandes pensadores como Ludwig von Mises e Henry Hazlitt acreditavam nisso. Todos eles aceitavam alguma versão do pesadelo imaginado por Thomas Hobbes: na ausência do estado, a vida seria sórdida, solitária, bestial e curta. Mas o fato é que ele escreveu isso durante uma época de turbulência política, uma época em que tribos religiosas guerreavam para controlar o estado. A vida sem o estado teria sido exatamente daquela maneira — mas exatamente por causa da presença do estado que todos queriam controlar, e não por sua ausência.

Não irei aqui analisar todas as distorções já feitas em relação a esta ideia, e nem irei utilizar este espaço para tentar refutar todas as justificativas já apresentadas em defesa do estado. Irei apenas mencionar uma intuição bastante comum que muitas pessoas têm. As pessoas dizem que não faz muito sentido eliminar o estado porque outras pessoas irão simplesmente criar outro em seu lugar. Não duvido que esta afirmação seja verdadeira. As pessoas de fato têm a ilusão de que o estado contribui com algo de positivo e importante para a sociedade. Elas querem líderes que governem desde lá de cima, ainda que elas próprias estejam aqui em baixo.

Pense em Samuel, do Velho Testamento. As pessoas vinham até ele implorando por um rei. Ele advertiu que um rei confiscaria suas propriedades, colocaria seus filhos em servidão, iniciaria guerras terríveis e, no final, escravizaria a todos. Não importava. Elas queriam um rei de qualquer maneira.

Este é exatamente o comportamento das pessoas de hoje. Nada mudou. Elas continuam implorando por sua própria escravidão. Pior ainda: temem viver em liberdade. É por isso que o estado continua se reinventando. Aqueles que ao menos entendem que o estado deve ser limitado caso tenha de existir merecem alguns créditos. Mas o problema é que tais limites nunca de fato funcionaram. É por isso que é melhor simplesmente deixar a sociedade prosperar sem o jugo de um estado. O grande projeto da liberdade é fazer as pessoas entenderem que elas não devem abraçar a ilusão de que um estado — qualquer estado — pode ser um aliado e um benfeitor da liberdade humana. Foi isso que a revolução liberal que ocorreu no final da Idade Média até o Iluminismo pregou. É imprescindível entender a real beleza da liberdade para se poder alcançá-la.

Desde o início da era digital, estamos tendo o privilégio de observar em primeira mão o atordoante poder criativo da volição humana. A cada bilionésimo de segundo, indivíduos ao redor de todo o mundo estão trabalhando para criar novos tipos de associações, instituições, capital e meios de prosperidade. Estamos vendo se desenrolar perante nossos olhos coisas que até a década passada eram tidas como impossíveis. E tudo está apenas começando. Estamos ainda nos primórdios de coisas como impressoras 3-D, moedas alternativas, e civilizações com bases digitais capazes de nos ofertar mais filmes, mais livros, mais arte e mais sabedoria do que qualquer ser humano de épocas passadas seria capaz de obter durante várias vidas. Este mundo recém-surgido está transformando nossa existência. Tome nota: nenhum estado foi responsável por isso, nenhum estado criou isso, nenhum estado aprovou isso e nenhum estado está administrando tudo isso.

Por fim, deixe-me admitir aqui que meu anarquismo é provavelmente de ordem mais prática do que ideológica — o que é exatamente o oposto da postura dos mais bem conhecidos pensadores anarquistas da história. Vejo a regularidade e a harmonia da ação e da volição humana ao meu redor o tempo todo. Acho tudo isso totalmente inspirador. É algo que liberta a minha mente e me permite entender o que é realmente importante na vida. Essa capacidade de observação me permite ver a realidade como ela é. Não é uma ideologia inalcançável o que me deixa ansioso por um mundo sem estado, mas sim o fato de eu saber do que é capaz o ser humano quando tem liberdade para melhorar este mundo por meio de seus próprios esforços. Somente seres humanos podem superar a irremediável realidade da escassez que o mundo impôs sobre nós. Até onde sei, o estado é, na melhor das hipóteses, o grande distúrbio que retarda esse poderoso projeto de construção da civilização.



Por Jeffrey Tucker

CEO do Liberty.Me

A guerra de todos contra todos


No planalto a podridão é de tal monta e o cheiro, de tal forma insuportável que urubu voa de costas com o nariz tapado.

Foi deflagrada a guerra. No dizer de um velho humorista-profeta: “Ou se restabelece a moralidade ou todos nos locupletamos!”

A teoria do dominó nos ensina que uma peça derruba a seguinte e assim sucessivamente até tombarem todas.

A semelhança com o naufrágio do Titanic é brutal.

Colidindo com o iceberg, o rombo no casco foi de tal monta, que o seu destino estava traçado.

A arrogância dos comandantes que acreditavam ser a nave “insubmergível”, levou-os a cometer um erro atrás de outro.

Uma parte das”zelite” achava que nada ia acontecer; outra se recusava a entrar no bote salvavidas junto com passageiros da segunda classe.

O desfecho depende da vontade divina (ou do acaso, para os não crentes).

Todos os sobreviventes tiveram suas vidas mudadas para sempre.




Por Carlos Maurício Mantiqueira

EUA restringem empresários brazucas que negociam com governos, temendo bolivarianismo no Brasil


O governo dos Estados Unidos da América intimou ontem brasileiros que têm empresas abertas na Flórida. A determinação é que só vai permitir a continuidade dos negócios se as empresas comprovarem que não fazem negócios, envolvendo corrupção, com o governo federal ou com "estatais" brasileiras. A ordem ameaça até retirar o Green Card (visto permanente) do empreendedor brazuca que não conseguir comprovar, através de documentos, contratos e extratos bancários, que está limpo e puro, em um prazo de 72 horas. A Águia aperta o cerco contra os corruptos tupiniquins..
A medida de restrição norte-americana apertando o certo de fiscalização a empresários brasileiros que investem por lá é interpretada não só como um rigor anti-corrupção, mas principalmente como uma advertência de que os EUA enxergam o alto risco de uma "escalada bolivariana" no Brasil, parecida com a da Venezuela, da Bolívia e da Argentina. O Departamento de Justiça dos EUA, que acompanha ações judiciais movidas contra a Petrobras na Corte de Nova York, teme a eclosão de uma grave crise no Brasil, a partir do impasse institucional gerado pelos desdobramentos da Operação Lava Jato, que afetam a nossa economia: inflação sobe, dólar vai junto com os juros, e ontem até circulou o boato no mercado de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, jogaria a toalha.

Os norte-americanos também viram um grave indício de como o "bolivarianismo" começa a se manifestar, concretamente, no Brasil. Não foi vista com bons olhos por colaboradores norte-americanos anti-corrupção a decisão unânime do Supremo Tribunal Federal em conceder perdão judicial ao ex-deputado José Genoíno, ilustre condenado no processo do mensalão, justamente no delicado momento em que o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao STF a abertura de 28 inquéritos para investigar 54 políticos com foro privilegiado, suspeitos de envolvimento no escândalo do "Petrolão". A turma do Tio Sam lembra que, na Venezuela, na Argentina e na Bolívia, o primeiro passo revolucionário do governo foi influenciar decisões do judiciário, em uma clara quebra do equilíbrio entre os poderes, a fim de legitimar medidas de força ou para aliviar a barra de aliados com problemas na Justiça.

Nem precisa ser norte-americano para constatar que a falta de sintonia entre o judiciário e os anseios da sociedade ficou patente no perdão que o STF deu a Genoíno. Depois de construir uma maioria no Supremo, graças à perigosa indicação política de ministros nomeados para a mais alta corte do País, o desgoverno Dilma, acuado com os perigosos desdobramentos do Petrolão, deu uma demonstração simbólica de que, com o tempo, mesmo os que forem eventualmente denunciados agora, para serem ou não condenados em data ainda incerta, podem ter uma esperança muito forte de que não ficarão muito tempo na cadeia - igualzinho a Genoíno e vários outros "mensaleiros".

Simbolicamente, a decisão do STF serviu de péssimo exemplo para aqueles réus da Lava Jato que negociam delação premiada com o juiz Sérgio Fernando Moro, da 13a Vara Federal em Curitiba. Agora, vários ilustres enrolados no Petrolão terão a chance de seguir o "conselho" dado pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que não embarquem nos acordos de "colaboração premiada", preferindo aguardar pelos acordos de leniência que o governo pretende incentivar, via Advocacia Geral da União, Controladoria Geral da União, e Tribunal de Contas da União, dando um drible no Ministério Público e no judiciário.

Preso em 15 de novembro de 2013, Genoíno foi logo transferido para a prisão domiciliar, por alegados problemas de saúde. Em maio do ano passado, voltou para a prisão, onde permaneceu por apenas três meses. Em agosto, Genoino recebeu autorização do ministro Luis Roberto Barroso para cumprir o restante da pena em casa, pois já havia cumprido um sexto da pena total. Hoje, ele está em uma casa em um condomínio fechado de Brasília. No regime domiciliar, ele era obrigado a se recolher em casa à noite e nos finais de semana. Agora, oficialmente livre da pena, poderá circular livremente. Com certeza, vai rir muito da cara dos otários...






Por Jorge Serrão

Comparação infeliz



Pela bagunça geral da casa e pela ressaca dos convidados, dá para ver que o primeiro mandato da presidente Dilma foi uma festa de arromba, com a irresponsabilidade como norma. Hora de contabilizar os prejuízos, recolher copos e pratos quebrados, limpar a sujeira, ajeitar os móveis e endireitar os quadros tortos na parede da sala. Precisamos urgentemente rearrumar essa casa chamada Brasil e encontrar um remédio eficaz para as dores de cabeça causadas pelos excessos e inconsequências do PT no governo.

Não vai ser fácil. Em vez de aliviar a ressaca moral e econômica gerada pelo aparelhamento do Estado, pela institucionalização da corrupção e pelo desarranjo das contas públicas, o arrocho fiscal anunciado pelo governo só vem agravando o mal estar dos brasileiros, castigados pelo corte de benefícios sociais e trabalhistas, pelo aumento de impostos, da conta de luz, dos combustíveis e dos preços em geral.

As notícias negativas se multiplicam, aumentando as incertezas sobre os rumos da economia. A inflação de janeiro bateu em 1,24%, a mais alta para o mês em 12 anos; a expectativa é que a escalada de preços supere os 7,3% em 2015. O PIB, por sua vez, deve encolher quase 0,6% este ano, na previsão do mercado, que também estima retração de 0,72% na produção industrial.

O déficit da balança comercial em fevereiro foi recorde – US$ 2,84 bilhões, o pior para o mês desde o início da série histórica, em 1980. O superávit primário do governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social) também teve resultado desanimador em janeiro: R$ 10,4 bilhões, o mais baixo para o mês desde 2009, auge da crise financeira internacional.

Nesse cenário de recessão, o fantasma do desemprego já é cada vez mais presente na vida do trabalhador – uma realidade que nem as taxas oficiais conseguem mais esconder, apesar da metodologia distorcida da PME (Pesquisa Mensal de Emprego), que infla o número de empregados e subestima o de desempregados.

A presidente Dilma tem tentado, em vão, justificar o injustificável. Ao defender as medidas de ajuste fiscal promovidas pela equipe econômica, ela disse, recentemente, que está agindo como qualquer mãe e dona de casa agiria para ajustar o orçamento doméstico.

Comparação infeliz. Uma boa dona de casa administra com zelo as contas do lar. Dilma quebrou as finanças do Brasil e trouxe a inflação de volta ao país. Basta dizer que o déficit nominal das contas públicas mais do que dobrou entre 2013 e 2014 (de – 3,25% para -6,7%, um dos maiores do mundo).

Uma mãe responsável e atenta assegura que a casa funcione em ordem, sem nada deixar faltar à sua família. Dilma falhou em administrar o PAC, não conseguiu deslanchar as obras de infraestrutura necessárias ao país nem assegurar oferta e qualidade no abastecimento de energia elétrica. Os seus supostos filhos terão de cobrir um rombo de R$ 23 bilhões na conta de desenvolvimento energético e de amargar um aumento médio de cerca de 50% na conta de luz este ano.

Aliás, mãe que é mãe não estimula os filhos a consumirem algo que pode vir a faltar em breve, como Dilma fez em 2013 quando anunciou em cadeia nacional de rádio e TV a redução das tarifas de energia elétrica.

Mais que isso. Uma boa mãe nunca é complacente quando um filho chega em casa com algo que não lhe pertence. Exige explicações e sabe ser rigorosa ao cobrar a reparação de eventuais erros. Dilma no mínimo fez vista grossa diante dos desvios bilionários na Petrobras. Sob os seus olhos e a sua guarda, como presidente do conselho de administração da estatal, foi arquitetado e colocado em ação o maior escândalo de corrupção da história nacional.

Mãe que acompanha o esforço e suor diário dos seus filhos não permite que o patrimônio da família seja colocado em risco. A Petrobras, até bem pouco tempo, era um dos maiores patrimônios do povo brasileiro. Afundada em dívidas e escândalos, viu seu valor de mercado cair pela metade em menos de um ano.

Mãe também sabe ser imparcial e justa ao distribuir funções e tarefas domésticas. Mas Dilma tem deixado méritos profissionais de lado e insistido no aparelhamento partidário do Estado, de olho em interesses políticos pontuais e muitas vezes escusos. Do ponto de vista da boa gestão da máquina pública, as consequências têm sido desastrosas.

Mãe que de fato ama seus filhos investe na melhor educação para eles. Dilma, que apostou no slogan Brasil, Pátria Educadora, dificultou repasse de valores para as bolsas do FIES, cortou R$ 7 bilhões no orçamento do Ministério da Educação e bloqueou um terço dos repasses para as universidades federais. Ela também permite o desperdício de recursos do Pronatec, que tem taxa de evasão de até 60%.

Zelar ao máximo pela saúde do filho é uma das maiores preocupações de qualquer mãe. Não é segredo para ninguém que a saúde pública está em frangalhos e que a promessa de ampliar e melhorar o sistema não passa, até agora, de palavras ao vento.

Uma mãe faz tudo para proteger os filhos nos momentos mais difíceis. Dilma aumenta impostos e corta benefícios sociais e trabalhistas num período de recessão econômica e inflação em alta. A conta da sua desastrada política econômica recai, mais uma vez, sobre a população.

Não, ela não é mãe do povo brasileiro. A presidente Dilma pode ser, quando muito, uma daquelas madrastas de contos infantis.





Por Ataídes Oliveira

Abandonada por todos


Para cada lado que Dilma se volte, encontra um adversário, até um inimigo. Raras vezes um governante enfrentou situação assim. Faltando quase quatro anos para o fim de seu mandato, a pergunta é se vai aguentar, se vai mudar ou se vai sair.

Madame comprou briga com os presidentes da Câmara e do Senado. Renan Calheiros e Eduardo Cunha dispõem de meios para tornar a vida e a administração dela um inferno. Importa menos se a recíproca for verdadeira, mas a verdade é que os comandantes do Congresso estão em guerra aberta e declarada contra Dilma. Da devolução da medida provisória da desoneração das folhas de pagamento à ausência num jantar no Alvorada e à recusa de atender telefonema da presidente, Renan demonstra uma intransigência óbvia quando declara aos jornalistas estar farto da desconsideração do Planalto para com o Senado. Cunha já deixou clara a disposição de rejeitar projetos do governo. O grave é que ambos contam com o apoio maciço das respectivas bancadas, com gente até do PT.

Quanto aos partidos, os da oposição deitam e rolam sem qualquer aceno de entendimento com Dilma, mas salta aos olhos que ela perdeu o PMDB e penduricalhos de sua base na votação de qualquer iniciativa do ajuste econômico. Nesse particular, não conta com o PT inteiro e só por milagre deixará de ser derrotada.

O empresariado rejeita até mesmo as medidas que poderiam favorecê-lo. Imagine-se a reação diante da extinção da desoneração das folhas de pagamento e do anunciado imposto sobre grandes fortunas. Paulo Skaf acaba de pôr a Fiesp em armas e as empreiteiras, se não receberem alguns bilhões do BNDES, ampliarão denuncias premiadas e poderão envolver mais companheiros e até seus mentores.

As centrais sindicais, inclusive a CUT, levantaram-se contra a redução de direitos trabalhistas proposta dias atrás, já ocuparam e mais ocuparão os páteos das indústrias para defender o salário desemprego e as pensões das viúvas. Se convocados para apoiar o governo, não aparecerão.

Dos estudantes nem haverá que falar. O desemprego os atinge na moleira e a manifestação prevista para o dia 15 em todo o país não deixará ninguém mentir. Será essencialmente um protesto contra Dilma. A previsão é de milhões de pessoas na rua, nas capitais e principais cidades.

O Procurador Geral da República não quer conversa com a presidente desde que se negou a antecipar-lhe a lista de envolvidos no escândalo da Petrobras. O conceito de persona non grata vale para os dois lados.

No Supremo Tribunal Federal, aumenta o número de ministros que não poupam Dilma por deixar de indicar, desde julho do ano passado, o sucessor de Joaquim Barbosa. Ela vem sendo acusada de desídia e de manobras pouco éticas para permanecer desfalcada uma das Turmas da corte. Se espera contar com os ministros que nomeou, fica a hipótese cada vez mais remota.

Mesmo no seu quintal, a chefe do governo não parece à vontade. Ministros se engalfinham, assim como ministros saltam de banda, deixando claro não se conformarem com as recentes mudanças na estratégia oficial, que era e não é mais de beneficiar os trabalhadores e os pobres. A última paulada nos assalariados menos favorecidos foi o corte no subsídio de luz para cinco milhões de famílias. Nem o vice-presidente Michel Temer pode concordar com tamanha maldade. Se comparecer a conciliábulos palacianos, será para ficar calado.

Falta referir outro personagem, dentro da casa da Dilma, que ao contrário de suas aparições públicas, mais a vem censurando nas últimas semanas: o Lula. Nem é preciso demonstrar o desgaste de um afastamento que, faz pouco, tornou-se ostensivo.

Em suma, a presidente encontra-se cada vez mais sozinha. Se a poeira não baixar, ninguém garante que mantenha o poder até 2018. Está abandonada por todos. Ou terá sido ela que os abandonou?





Por Carlos Chagas