terça-feira, 25 de novembro de 2014

Com arrecadação em queda, ajuste se impõe



Fugir de um ajuste fiscal ficou mais difícil com a arrecadação caindo, como aconteceu em outubro. Foram recolhidos R$ 106,2 bi, queda real de 1,33% em relação ao mesmo mês de 2013. Nos meses anteriores, o resultado vinha sempre próximo de zero. De janeiro a outubro, a arrecadação alcançou R$ 968 bi, aumento real de 0,45% na comparação com igual período do ano passado. Os gastos — como os R$ 84,4 bilhões com desonerações no ano — sobem mais rápido do que isso e não estão fazendo a economia crescer.

— A recuperação da arrecadação acontece com a retomada econômica. Como ela não vai ser rápida, os ajustes se impõem —, resume Felipe Salto, da Tendências Consultoria.

O especialista explica que a situação está tão deteriorada que um ajuste fiscal com corte gastos e aumento de impostos teria que ser feito de forma sofisticada, num horizonte de anos. É preciso que o projeto para resolver o problema seja apresentado de maneira clara por alguém com credibilidade. Essa pessoa poderia ser o ministro da Fazenda do segundo mandato, mas o tempo está sendo perdido com a vaga oficialmente aberta.

O desafio de melhorar a situação fiscal fica muito mais difícil quando o país não cresce. Salto acha que um superávit primário em torno de 2% para 2015 não deverá nem ser buscado, sob o risco de condenar o país a uma recessão. Isso atrasaria o processo, que já está lento demais.



Por Marcelo Loureuro

O problema do déficit externo desse ano é que ele não será financiado



O déficit externo, em si, não é um problema. Mas ele se torna preocupante porque ocorre desde 2008 e vem crescendo num momento ruim para o país. Estamos com o chamado “déficits gêmeos” porque as contas fiscais também estão negativas. Esse ano, inclusive, teremos déficit fiscal antes do pagamento dos juros.

O cenário deteriorado afasta o investidor estrangeiro interessado em aplicar no país. Dessa forma, menos dólares entram no Brasil. É esse dinheiro que financia o nosso déficit em conta corrente. O escândalo de corrupção e o risco de rebaixamento da nota de crédito por força da desordem nas contas públicas tornam mais difícil que o buraco seja coberto pela entrada de capital estrangeiro. Em 2011 e 2012, por exemplo, isso ocorreu. Mas neste ano não vai acontecer.

A nosso favor, temos o alto nível de reservas cambiais, em US$ 376 bi. Mas esse valor é em parte comprometido com as operações com derivativos feitas pelo BC para controlar a cotação do dólar. Após um ano e três meses de ofertas, os swaps cambiais comprometeram cerca de US$ 100 bi das reservas do BC.

A cotação do dólar subiu 15% desde agosto, e o gasto do turista brasileiro no exterior caiu um pouco em outubro, para US$ 2,1 bi. Mas o turista estrangeiro deixou aqui apenas US$ 500 mi.

Com esse cenário, o déficit em conta corrente, agora em US$ 70 bi, deve fechar o ano em US$ 84 bi.



Por Miriam Leitão

Para onde vai a economia brasileira em 2015

"Cobertor é curto" na política macroeconômica brasileira e cenário mais provável é de ajustes mínimos no ano que vem, segundo o banco Itaú



Para o banco, dólar fecha ano em R$ 2,50

Resumo das previsões:

Crescimento do PIB: 0,2% em 2014 e 1,1% em 2015

Desemprego (dezembro): 5,4% em 2014 e 5,7% em 2015

Inflação (IPCA): 6,5% em 2014 e 6,5% em 2015

Juros (Selic): 11,5% em 2014 e 12% em 2015

Superávit primário: 0,2% em 2014 e 1,2% em 2015

Câmbio (dezembro): R$ 2,50 em 2014 e R$ 2,70 em 2015

Déficit em conta corrente: -3,8% em 2014 e -3,6% em 2015


Criação de vagas é fraca, mas desemprego segue baixo

A criação de empregos permanece fraca, mas o desemprego continua baixo. Isso acontece porque diminui a taxa de participação na população economicamente ativa. O banco espera uma "exaustão dessa dinâmica" nos próximos meses. A população ocupada está parada (e em leve queda) já há 3 anos.

Em 2015, fontes de crescimento devem mudar

Em 2015, o banco prevê um crescimento do PIB de 1,1%. O consumo mais fraco e a demanda menor do governo devem ser compensados por dois fatores: investimento parado (ao invés de em queda, como nesse ano) e um aumento das exportações na ordem de 3,6% - mais ou menos no patamar de crescimento da economia mundial e estimuladas por um real mais fraco

Estoques e confiança seguram recuperação (por enquanto)

O que está segurando a recuperação da economia brasileira? Em primeiro lugar, os estoques altos na indústria: todos os 15 setores pesquisados pela FGV tem uma proporção maior de empresas com excesso de estoque do que com estoques insuficientes.

Os índices de confiança e de difusão da atividade (proporção dos indicadores que expandiram no mês) continuam fracos, apesar de algumas melhoras pontuais.

Inflação muda dinâmica, mas deve manter patamar

O banco prevê que a inflação deve continuar mais ou menos no teto da meta (6,5%) em 2015. Os preços administrados pelo governo devem subir e o real mais fraco também tem impacto sobre alguns preços, o que pressiona a inflação para cima. No entanto, o enfraquecimento do mercado de trabalho e dos reajustes de salários causa uma desaceleração na alta dos preços de serviços - o que já está acontecendo e puxa a inflação para baixo.

"Cobertor é curto" na política macroeconômica

O "cobertor é curto" na política macroeconômica, já que aumentos de preços administrados batem na inflação e exigem alta da Selic, que por sua vez diminui a atividade - prejudicando a receita - e pode aumentar o desemprego. Novos impostos contribuem para o ajuste fiscal, mas batem na popularidade.

Banco projeta crescimento de 2% do PIB até final do mandato

O cenário de mínimos ajustes no Brasil significa ajuste fiscal pequeno com alta do CIDE e alguns impostos, continuidade do controle de preços, intervenção intensa no câmbio, com mais concessões mas sem grandes reformas. Os resultados: evita o rebaixamento da nota, mas com menor fluxo de capitais, câmbio mais depreciado, crescimento do PIB de 2% no final do mandato.

Enfraquecimento é generalizado na América Latina

A América Latina vive uma "depreciação generalizada" de suas moedas - resultado de juros mais elevados nos EUA, queda do preço das commodities e políticas monetárias frouxas.

Em termos de crescimento, a atividade está menos dinâmica em todos os países, então "é legítimo dizer que há um fator comum". O Peru deixou de ser um "tigre asiático, talvez um gatinho". Alguns estão em situação pior - caso da Argentina, já em recessão, e do Brasil, que chegou a crescimento quase zero.

Commodities em queda atrapalham América Latina

Para o banco, a desaceleração chinesa está acontecendo, mas sem pouso forçado. O que importa para a América Latina, no final das contas, são as commodities - muito influenciadas pela demanda chinesa, mas também pelas expectativas em relação ao crescimento global. E nos últimos tempos, elas estão caindo - caso do minério, do petróleo e das agrícolas.

Cenário mais provável é de "pequenos ajustes"

Nos últimos dias, estamos "flertando" com um cenário em que o mercado acredita que não haverão nem ajustes mínimos, segundo Ilan. Ele está precificando uma maior probabilidade de um cenário sem ajustes - ainda que este ainda não seja o mais provável.

Para o banco, o cenário básico é de pequenos ajustes, já que há um "incentivo claro" do governo para evitar uma situação pior. Ele acredita que um pacote de ajuste fiscal deve ser anunciado nas próximas duas semanas, além da equipe econômica.

Ajustes mínimos "evitam deterioração", mas são insuficientes

Para Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú, o cenário para o Brasil pós-eleição é intermediário: ajustes mínimos, que "evitam a deterioração, mas são insuficientes para fazer a economia crescer de uma forma robusta".

Um ajuste fiscal "gradual" deve evitar a perda de grau de investimento, mas leva a um cenário "bem médio". A projeção é de crescimento do PIB de 0,2% em 2014 e 1,1% em 2015.



Conjuntura Econômica e Perspectivas de 2014 a 2018
Gustavo Loyola - Fundação Itaú Unibanco - Outubro/2013

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Economia da corrupção


“O governo funciona como nas capitanias hereditárias”, disse o executivo de uma grande empreiteira com quem conversei longamente nos últimos dias. Em cada área do governo que uma empresa vai, para discutir projetos, ela é enviada para falar com um político. Num dos negócios que fez, há dois anos, o executivo teve que conversar com Paulo Maluf. Ministros da presidente Dilma sabiam do encontro.

Os detalhes das abordagens são sempre espantosos. Meu interlocutor nega pagamento de propina, mas conta que às vezes fala-se abertamente que a área “pertence” a um partido. Há quem apenas diga indiretamente, mas há quem seja franco, como um prefeito de uma cidade de Tocantins, que pediu “luvas” apenas para não revogar negócio já feito na administração anterior. Concessões, mesmo depois de ganhas, passam a ser pontos de chantagem porque a autoridade sempre pode decretar a caducidade do contrato. Ministros do governo admitem nada poder fazer diante do veto de uma pessoa de terceiro escalão, sob o argumento de que aquela é a “área” de outro grupo ou líder político. É uma total inversão da ordem hierárquica. De fato, tudo funciona como nas velhas capitanias.

Nada me convence, no entanto, de que as empreiteiras, principalmente as maiores que têm décadas de comprovada capacidade, atuação no exterior, não tenham o dever de quebrar o pacto de silêncio. Por que se submetem a ouvir de pessoa do segundo ou terceiro escalão do governo, ou de um gerente da Petrobras, que negócios líquidos e certos só poderão ser feitos se eles pagarem?

Portanto, elas não são vítimas. Se ficam em silêncio, pagando ou não, são cúmplices, são parte da mesma tragédia que se abate sobre o Brasil.

A pessoa com quem conversei sobre as entranhas dos negócios com o setor público brasileiro, e outros executivos com quem tenho falado, não tem dúvidas em dizer que a corrupção, evidentemente, não é coisa nova, mas a escala a que se chegou nos governos do PT não tem precedentes. E justifica o bordão do ex-presidente para louvar seus feitos: “Nunca antes na história deste país."

— Quando o sub do sub se dispõe a devolver US$ 100 milhões, como é caso de Pedro Barusco, é porque a escala do roubo é grande demais — disse o empresário.

A explicação dele é que os governos do PT abriram ao mesmo tempo várias frentes de obras, depois de um período de paralisia dos investimentos no governo Fernando Henrique. Na Petrobras, por exemplo, que não fazia refinaria há 20 anos, foram iniciadas quatro. Ele acha que isso explica a escalada da corrupção. Isso não explica, no entanto, os vários casos de sobrepreço em cada contrato de importação, fretamento de navio, cada operação de compra da empresa. Tudo era pretexto para se armar a cena em que o empresário é enviado ao “operador” de um dos partidos da base.

A justificativa inicial é que o partido precisa de financiamento, mas, quando se oferecem doações legais, em geral eles ouvem que não é o suficiente. Nos últimos tempos, ficou claro para os empresários que era também para enriquecimento pessoal.

Há empresas que cresceram rapidamente da noite para o dia, sempre à sombra dos seus protetores, verdadeiros fidalgos da corrupção e que têm o poder de abrir a torneira de recursos públicos, ou garantir a vitória em licitação mesmo com todas as evidências de que não estão tecnicamente preparadas.

O dirigente de uma empresa fornecedora de serviços procurou um ministro influente do governo Dilma e explicou que era possível apenas com bom gerenciamento melhorar muito um setor no qual o Brasil tem deficiência crônica. “Parem de gastar dinheiro”, disse o executivo, e mostrou como era possível. Em vez de fazer novas obras, usar a eficiência no que já fora construído para elevar a qualidade do serviço. Foi despachado do gabinete com a afirmação de que não era isso que se procurava.

A presidente Dilma está se comportando como se a operação Lava-Jato fosse patrocinada por ela. A operação é sim uma oportunidade para o país, mas é seu governo que está no meio do turbilhão. Há fios soltos demais que, se puxados, levarão a decisões e negócios feitos nos últimos quatro anos, ou nos últimos 12 anos, no setor de energia, que sempre esteve sob seu controle.




Por Miriam Leitão

Samurai ou Gueixa? Quem não reage rasteja...



As atitudes legalistas e legítimas do juiz Sérgio Fernando Moro, da 13a Vara Federal em Curitiba, estão lavando (a jato) a honra dos brasileiros de bem, honestos, que trabalham, produzem, e cansaram de ser vítimas da governança do crime organizado. Ainda bem que existem outros magistrados e membros do ministério público pensando e agindo como Moro. Já passou da hora de se quebrar a blindagem dos corruptos e corruptores.

O Brasil precisa de quem tenha coragem e honra para dar bons exemplos no exercício de sua função pública. O procurador do Núcleo de Tutela Coletiva da Procuradoria da República em Goiás, Ailton Benedito de Souza, cumpriu seu dever legal de agir contra a informação de que o venezuelano Elías Jaua, vice-presidente setorial do Desenvolvimento do Socialismo Territorial da Venezuela e titular do Ministério das Comunas, desde 2011, leva crianças e adolescentes brasileiros para a Venezuela, para lhes ensinar como instaurar a “revolução comunobolivariana” no Brasil.

O procurador Ailton de Souza, em 17 de novembro, mandou instaurar inquérito civil, para apurar ações ou omissões ilícitas da União, relativamente às condutas praticadas pelo governo venezuelano, ao levar, desde 2011, crianças e adolescentes brasileiros à Venezuela, com o fim de transmitir conhecimentos relativos à “revolução bolivariana”, formando “Brigadas Populares de Comunicação”. Sua Portaria 315 bota para andar o processo 1.18.000.004122/2014-99. O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot Monteiro de Barros, não tem o direito de se omitir contra a gravidade de tal fato.

O diligente Ailton de Souza ressalta que "as Brigadas Populares de Comunicação são grupos de crianças e adolescentes com o objetivo de transmitir, através de vários meios, as conquistas e progressos de crianças e adolescentes revolucionários, bem como treiná-los como futuros jornalistas para servir o país" (conforme informações do sítio do governo bolivariano da Venezuela). Tais “Brigadas Populares de Comunicação” contam com a participação de 26 crianças e adolescentes da comunidade do Brasil, no estado venezuelano de Sucre, com função de transmitir avanços relacionados à “revolução bolivariana”.

O procurador também pediu ao Procurador-Geral da República que encaminhe ao Ministério das Relações Exteriores, para conhecimento, cópia da notícia que deu origem a este feito e requisitando-lhe, no prazo de 10 (dez) dias, as seguintes informações:

1) relação nominal das crianças e adolescentes brasileiros levados para a Venezuela, para fins de serem doutrinados com conhecimentos relacionados à “revolução comunobolivariana” e formação de “Brigadas Populares de Comunicação”, em curso naquele país.

2) Que ações estão sendo desenvolvidas por esse Ministério para esclarecer a forma, os meios, os responsáveis, nacionais e estrangeiros, pelo tráfico dessas essas crianças e adolescentes brasileiros para a Venezuela?

3) Qual o período de permanência dessas crianças e adolescentes naquele país?

4) Quais as atividades desenvolvidas por essas crianças e adolescentes naquele país, durante o tempo que lá permaneceram?

5) Que órgão público, entidade estatal, organização social e pessoas responsáveis por essas crianças e adolescentes durante o tempo que estiveram naquela país?

6) Qual o nome e qualificação dos pais ou responsáveis por essas crianças e adolescentes levados à Venezuela? Onde residem?

7) Ainda há crianças e adolescentes brasileiros na Venezuela, nas referidas condições?

8) Houve tráfico de crianças e adolescentes àquele país, em outras ocasiões, nas mesmas condições apontadas nos itens acima?

Felizmente, no Brasil, temos servidor público que cumpre seu dever - como é o caso do procurador Ailton de Souza. O caso é tão grave que até o Chanceler brasileiro Luiz Alberto Figueiredo já manifestou, publicamente, seu mal estar com as viagens, sem aviso, de Elías Jaua ao Brasil. O venezuelano faz acordos e dá palestras para o MST. Viaja com a família, para baixo e para cima, nos aviões da PDVSA. Para piorar, a "babá" de Jaua acabou presa, em São Paulo, porque levava um revólver na bagagem...

O procurador reagiu. Por que as Forças Armadas do Brasil não têm reação semelhante? A resposta é: Porque não querem... Quem não tem coragem e honra de cumprir a lei que manda cassar medalhas dadas a mensaleiros condenados, por acaso, terá disposição para reagir contra o avanço bolivariano contra nossas crianças e jovens?

Nada custa lembrar: Quem não reage rasteja... Covarde parado é alvo abatido... Quem não demonstra honra samurai logo entra para a História como gueixa prostituída... A História costuma ser cruel com os omissos e lenientes com o crime... Depois, não reclama de ganhar, no peito, a Ordem do Mérito da Meretriz... da Melancia... do Meliante... ou do Militante...



Por Jorge Serrão

Os limites da ação do estado

                                                                                                    Humboldt

“Difícil é promulgar apenas as leis necessárias, permanecer para sempre fiel a esse princípio constitucional da sociedade, precaver-se da fúria de governar – a mais perniciosa doença dos governos modernos.” (Mirebeau)

Qual deve ser o papel do Estado na vida dos cidadãos? Quais devem ser os limites de sua ação? Objetivando responder tais perguntas, Wilhelm von Humboldt escreveu em 1791 seu clássico livro Os Limites da Ação do Estado, que foi publicado apenas após sua morte, em 1850. O prisma principal do autor é a noção de que a liberdade individual garante a espontaneidade das pessoas, fundamental para a criação e para o florescimento da confiança social. Hayek classificou Humboldt como “o maior filósofo da liberdade”, e Lord Acton se referiu a ele como a “figura mais importante da Alemanha”. John Stuart Mill também foi bastante influenciado por Humboldt. Vamos navegar pelas principais idéias desse eminente defensor da liberdade.

Para Humboldt, a verdadeira finalidade do homem, prescrita pelos ditames eternos e imutáveis da razão, e não apenas sugerida por desejos vagos e transientes, “consiste no mais alto e harmonioso desenvolvimento de seus poderes em direção a um todo completo e coerente”. Tal visão já descarta de imediato o estreito foco materialista, comum aos marxistas. Para ele, qualquer coisa que não emirja do livre-arbítrio do homem ou que constitua apenas o resultado da instrução ou orientação não ingressará em seu verdadeiro ser e permanecerá estranho à sua verdadeira natureza. Isso elimina a idéia positivista de Augusto Comte, negando o princípio de que homens devem ser moldados e controlados. Somente a liberdade faz florescer as individualidades do ser humano, justificando este como homem, e não uma simples máquina.

Partindo dessas premissas, Humboldt conclui que qualquer interferência do Estado em assuntos particulares, em que não ocorra qualquer violência aos direitos individuais, deveria ser absolutamente condenada. Os resultados perniciosos de ação extensamente solícita por parte do Estado são ainda mais notavelmente demonstrados na supressão de toda energia criativa e na deterioração necessária do caráter moral. O moral hazard gerado pelo excesso de intervenção estatal é mortal no longo prazo, solapando o genuíno espírito humano, transformando os homens em seguidores autômatos do Estado. Justificando essas interferências pela ótica estritamente utilitarista de conforto material, mesmo que os resultados cheguem perto da intenção, o Estado aniquila as principais características que possibilitam o verdadeiro engrandecimento humano.

Humboldt fala de sua opinião sobre religião e moral no livro. Para ele, “a religião é inteiramente subjetiva e depende exclusivamente da concepção única que cada um tem dela”. Sobre a moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, “não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela”. Investigar, e a convicção que emerge do livre investigar, é espontaneidade; crença, por outro lado, é dependência de algum poder externo, de alguma perfeição externa, moral ou intelectual. É por isso que “existem mais autoconfiança e firmeza no pensador que investiga e mais fraqueza e indolência no crente que confia”. A dúvida é, portanto, tortura apenas para o crente, “mas não para o homem que segue os resultados de sua própria investigação”. Em sua opinião, “investigar e criar são os eixos em torno dos quais mais ou menos diretamente giram todas as buscas humanas”.

A idéia de liberdade negativa, onde é a ausência de coerção humana que caracteriza a liberdade de alguém, está presente na obra de Humboldt também. Escravidão, portanto, seria apenas o uso de coerção física – ou sua ameaça, sendo que através de trocas voluntárias não faria sentido falar em algoz e escravo. Humboldt deixa isso claro quando diz: “O direito nunca é infringido a não ser quando alguém se encontra destituído de uma parte daquilo que apropriadamente lhe pertença, ou de sua liberdade pessoal, sem o seu consentimento ou contra a sua vontade”.

Todos devem ser livres, contanto que tal liberdade não invada a do outro. Justamente por isso deve existir o Estado, garantindo a segurança dos indivíduos, possibilitando assim a manutenção dessa liberdade. Mas o Estado, segundo Humboldt, deve abster-se de todo esforço por interferência positiva no bem-estar dos cidadãos, e não dar nenhum passo além do necessário para garantir-lhes a segurança mútua e a proteção contra inimigos externos. Em suas palavras, “contra-atacar o mal que surge do desejo que o homem tem em transgredir seus próprios limites, e a discórdia produzida por tal apropriação indevida dos direitos dos outros, constitui o objetivo principal da criação do Estado”.



Por Rodrigo Constantino

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

Noruega ou Venezuela? As consequências do escândalo da Petrobras


O programa Painel, da Globo News, recebeu os economistas Bolívar Lamounier, José Roberto Mendonça de Barros e Eduardo Giannetti, para falar sobre as consequências do escândalo na Petrobras. O jornalista que os entrevistou foi Ernesto Paglia. Recomendo aos leitores que assistam na íntegra.

Os três tocaram nos principais pontos, em minha opinião, e souberam mostrar como se trata de um caso peculiar, não de “apenas” mais um escândalo de corrupção. O jornalista tentou com frequência fazer o papel de advogado do diabo, literalmente, ao procurar aliviar para o lado do PT, como se fosse algo antigo, ou fruto do financiamento privado de campanha, que necessitaria de uma reforma política, leia-se financiamento público, para ser combatido ou mitigado.

Lamounier deixou claro não ser o caso, até porque o esquema de desvio nas estatais já usa o financiamento ilegal de campanha, e nada mudaria ao se proibir empresas privadas de bancar as milionárias campanhas eleitorais. Esse discurso insistente em reforma política e financiamento público de campanha é cortina de fumaça para ludibriar o leigo, para fazê-lo pensar que, com ele, o esquema na Petrobras não teria ocorrido. Teria, pois foi uma quadrilha que se instalou na estatal, e faria isso do mesmo jeito se as empreiteiras não pudessem doar por dentro para os partidos, pois doariam por fora.

Os três economistas deixaram claro o risco que isso tudo representa para nossa maior empresa estatal. Seu programa de investimentos é gigantesco, e vai faltar caixa. Giannetti previu que será inevitável um aumento de capital na empresa, ou seja, o Estado terá que usar recursos públicos para injetar mais dinheiro na empresa, que já tem uma das maiores dívidas do mundo. Falou-se abertamente em destruição da Petrobras, que estaria em curso.

Mendonça de Barros chamou a atenção para o que isso representa para toda uma cadeia produtiva, que envolve várias empresas fornecedoras indiretas da Petrobras. O impacto poderá ser grande. Criticou ainda o foco excessivo do governo em “soldar casco de navio” como se fosse um grande avanço para o país, enquanto o mundo vive na era da informação e do conhecimento, e que o verdadeiro valor agregado está em outras áreas, como a de serviços, que conta com dezenas de empresas internacionais atuando no país.

Por fim, Giannetti resumiu muito bem o que está em jogo, uma escolha entre Noruega ou Venezuela, dizendo que tentou fomentar esse debate durante a campanha eleitoral, uma vez que foi assessor de Marina Silva, mas sem muito êxito. Na Venezuela, os ganhos do petróleo foram direto para o orçamento estatal, a garantia de uso irresponsável, populista e demagogo. Na Noruega, o próprio Parlamento blindou os recursos por meio de um fundo soberano que não pode ser tocado pelos políticos.

Claro que o Brasil sob o PT optou pelo caminho venezuelano, e o pré-sal entrou diretamente no orçamento do governo, até mesmo aquilo que ainda nem foi produzido. Mesmo que se fale em carimbar o dinheiro para a educação, não é isso o ideal. Giannetti pergunta: será que é bom para o país alguém como Garotinho, por exemplo, ter acesso a essa montanha de recursos para “investir” em educação? A Noruega fez algo muito mais inteligente, mas todos concordaram que era quase impossível o Brasil resistir à tentação e seguir na mesma linha.

O pessimismo com o futuro da Petrobras e seu impacto em nossa economia, portanto, foi grande. Ninguém ali acha que Dilma aprenderá importantes lições a ponto de alterar completamente os rumos atuais. Mesmo com a provocação “poliana” do entrevistador, o tom foi sombrio, de alerta total. Vem chumbo grosso aí…

Link para a entrevista: http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-painel/videos/t/globonews-painel/v/painel-o-escandalo-de-corrupcao-na-petrobras-e-suas-consequencias/3784504/




Por Rodrigo Constantino