terça-feira, 4 de novembro de 2014

A ditadura da militância



O PT, cuja essência é autoritária sempre requereu para si o monopólio do poder, da virtude e da verdade. Logrou ascender ao cargo mais alto da República na quarta vez depois da escalada persistente de Luís Inácio da Silva, cuja imagem cuidadosamente construída simbolizou o proletário para estar de acordo com a teoria de classes de Karl Marx. Ele nunca foi um proletário – homem pobre com família numerosa que só tem por bens sua prole – e sim, por breve tempo, esteve entre os metalúrgicos que compõem a elite do operariado.

Conquistado o poder o PT se desfez do monopólio da virtude, pois se no Brasil a corrupção é histórica e endêmica, a militância petista dos altos cargos transformou seu partido no mais corrupto de toda nossa história.

Quanto ao monopólio da verdade evidenciou-se na prática ao contrário, ou seja, da propaganda enganosa às contabilidades criativas o governo do PT fez da mentira sua arma de sustentação e manutenção no poder. Nesta linha de conduta os petistas abusaram do contraditório, contradizendo o que antes afirmavam como o próprio Luís Inácio que se disse uma metamorfose ambulante.

Além do mais, petistas nunca erram sendo os outros são sempre os culpados. Em outra estratégia o governo dividiu para governar estimulando o ódio entre ricos e pobres e, num esdrúxulo recorte da luta de classes promoveu o embate entre brancos e negros, heterossexuais e homossexuais.

Na recente campanha que terminou com uma pequena diferença a favor de Rousseff a exacerbação da mentira teve contornos sórdidos e logrou transformar primeiro, Marina, depois Aécio, em monstros perniciosos que ao lado dos banqueiros matariam os coitadinhos dos pobres de fome e lhes tiraria todos os benefícios presenteados pelo pai Lula. Marina seria a vacilante, a homofóbica. Aécio o bêbado que batia em mulher. Essas e outras sandices eram difundidas incessantemente na propaganda eleitoral gratuita, em palanques onde Rousseff “fez o diabo” e Luís Inácio parecia necessitado de um exorcismo. Conforme a revista Veja, odiada por Lula e demais companheiros: “o PT distorceu fatos, falsificou a história e manipulou eleitoralmente a divulgação de informações, jogando o nível da disputa na lama”.

No seu discurso após ser reeleita, Rousseff lançou Luís Inácio ao chamá-lo duas vezes de presidente. Portanto, nem bem terminou uma campanha outra já começou como demonstração do projeto que visa á continuidade do PT no poder. Contudo, seria interessante considerar alguns fatos:

1º - Luís Inácio perdeu feio no seu berço político, São Paulo, onde não logrou eleger o terceiro poste. Perdeu no Rio de Janeiro, no Sul e em vários Estados. Seu partido, ainda que continue forte, perdeu deputados, senadores, governadores.

2º - O primeiro mandato da criatura, arrasador para a economia, tende a piorar neste segundo com aumento da inflação, da inadimplência, da queda da renda, do desemprego e do crescimento zero.

3º - O PT tanto utilizou o ódio como ferramenta de divisão social que conseguiu implantar esse sentimento na sociedade. Isto apareceu de modo inequívoco no comportamento antipetista que se alastrou praticamente pela metade dos eleitores durante a campanha, de modo nunca havido e que tende a continuar.

4º - O projeto golpista do governo de criação de comitês populares ou sovietes foi derrubado na Câmara, enquanto vai se armando no Congresso uma oposição que inclui parte do PMDB.

6º - Partidos estão se engalfinhando por ministérios e demais cargos e vai ser difícil contentar a todos, a menos que Rousseff acrescente mais ministérios aos 39 já existentes com as devidas repercussões negativas para os cofres públicos.


Disto se deduz que Luís Inácio e seu partido nunca enfrentaram tantas dificuldades. Entretanto, não se pode subestimar poderio petista. Para enfrentá-lo seria necessário o surgimento lideranças parlamentares de fato oposicionistas e a manutenção da lucidez antipetista na sociedade

Se tal não acontecer e o governo dominar o STF nos moldes bolivarianos, domesticar o Congresso e a sociedade não reagir, a ditadura da militância se instalará de vez através de uma constituição feita à sua imagem e semelhança, da censura aos meios de comunicação, de outras medidas autoritárias que implantem a sonhada democracia de massas. Ainda é tempo de não virarmos uma Venezuela e sistemas congêneres da América Latina. Todavia o perigo existe porque os embriões da falsa democracia já estão plantados no Brasil.



Por Maria Lucia Victor Barbosa

Alerta geral! O PT pirou de vez!



O PT, finalmente, fala a verdade — pode não ser toda ela, mas é parte dela ao menos. Nesta segunda, a Comissão Executiva Nacional do partido divulgou uma resolução espantosa (clique aqui para ler a íntegra). Trata-se de um dos textos mais rancorosos e esquerdopatas desde que o partido chegou ao poder, em janeiro de 2003. Vale dizer: 12 anos no comando do país, com chance de chegar a 16, não aplacaram, como diria o poeta, a fúria do algoz. Ao contrário. O texto tem, reitero, ao menos a virtude da sinceridade:

a: deixa claro que a disposição para o diálogo do governo Dilma é uma farsa;
b: confessa que seu objetivo é promover o que chama “revolução cultural” para construir a “hegemonia”;
c: evidencia que o objetivo da reforma política é mesmo aniquilar ou subordinar as demais vozes da sociedade.


Eu nunca tive dúvida a respeito desses propósitos. Mas havia quem tivesse. Agora, não precisa ter mais. Os petistas o confessam.

Entre outras barbaridades, pode-se ler no documento: “A oposição, encabeçada por Aécio Neves, além de representar o retrocesso neoliberal, incorreu nas piores práticas políticas: o machismo, o racismo, o preconceito, o ódio, a intolerância, a nostalgia da ditadura militar”. Uma única mentira constrange; uma borrasca delas assume certo tom de comicidade. Note-se que não vai acima o perfil de um partido adversário, mas o de uma força que tem de ser eliminada.

Esse é o partido que terá o comando do governo, ao qual pertence a presidente Dilma Rousseff, que diz querer o “diálogo” com a oposição. Mais: Aécio obteve 48,36% dos votos — 51.041.155. Quer dizer que metade do eleitorado votou no racismo, no machismo, no ódio, na intolerância e na nostalgia da ditadura? Um texto como esse é um acinte e um disparate. Essa gente está no comando do país, o que explica muita coisa.

Reitero, no entanto, que não falta à resolução ao menos a virtude da sinceridade. O texto confessa: “É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia”.

O leitor pouco familiarizado com alguns termos próprios da política pode não identificar, mas o PT está se referindo à “revolução gramsciana”, numa referência ao teórico comunista italiano Antonio Gramsci. Na mesma resolução, o partido deixa claro: “Para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural”.

O que é “hegemonia”? É a ditadura perfeita. Prefiro citar o próprio Gramsci, que a definiu como ninguém. Para que você entenda a referência, é preciso saber que ele chamava o partido que comandaria a sociedade como o “Moderno Príncipe”. Leiam o que escreveu:
“O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o seu poder ou para opor-se a ele. O Moderno Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.

Entenderam? A revolução cultural gramsciana, que conduz à hegemonia, esta que o PT agora diz abertamente querer, faz do “partido” a única verdade possível. Desaparecem os valores e a moral. Será crime o que o partido definir que é crime. Será virtude o que o partido definir que é virtude. Toda ação, diz Gramsci, deve ser analisada apenas segundo um critério: ela serve para aumentar o poder do partido ou para combatê-lo? Se servir para aumentar, não importa o que seja, é bom; se servir para combatê-lo, não importa o que seja, é ruim.

Mensalão, aloprados, roubalheira na Petrobras??? Aumentam o poder do partido? Então são virtudes.

E o PT dá o caminho da sua busca pela ditadura perfeita. Está lá na resolução:
- reforma política, precedida de um plebiscito, através de uma Constituinte exclusiva;
- democracia na comunicação, com uma Lei da Mídia Democrática — isso quer dizer “censura”;
- retomada do projeto que entrega a administração federal a conselhos populares.

A resolução do PT retira a máscara do segundo governo Dilma e deixa claro que aqueles que embarcarem nessa conversa estarão pondo a corda no próprio pescoço. Assim, tudo o que os políticos comprometidos com a democracia representativa puderem fazer para que os petistas não assumam o comando da Câmara deve ser feito.

Para encerrar, observo: não se iludam os líderes do PMDB. O partido está na mira da “revolução cultural” petista, cuja hegemonia, obviamente, só poderia ser conseguida com a destruição da legenda aliada.

Espalhem o texto. Agora não há mais disfarce. É projeto ditatorial mesmo! Mas não vão conseguir.

PS: Aí o idiota diz: “O Reinaldo acha que o PT é comunista!”. Não! Eu não acho! Quando vejo Lula e Zé Dirceu, penso em outros tipos… Em comunistas, não! Nunca disse que o PT é comunista (*). Digo que é autoritário com pretensões totalitárias. Isso, eu digo.


Por Reinaldo Azevedo


(*) Eu digo: o PT é comunista

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Deus no banco dos réus



O mundo caminha a passos largos para o secularismo ateu. Cresce o número daqueles que não acreditam em Deus e também daqueles que odeiam a Deus. A fé cristã tem sido perseguida em todo o mundo como se fosse uma ameaça à humanidade. Cristãos têm sido presos, torturados e mortos pela sua fé. Outros têm sido escarnecidos nos meios acadêmicos como se a fé cristã fosse um parentesco da ignorância e um aliado do obscurantismo intelectual. A fé cristã e os valores cristãos têm sido tripudiados nas casas de leis, nas cortes dos governantes, na imprensa, na mídia e nas ruas. Vivemos um tempo de apostasia e de resistência à verdade.

Os filhos de Coré, no seu tempo, já enfrentavam esse ataque implacável. Assim, o salmista expressa: “Esmigalham-se-me os ossos, quando os meus adversários me insultam, dizendo e dizendo: O teu Deus, onde está?” (Sl 42.10). Os filhos de Coré, quando escreveram este salmo estavam encurralados por circunstâncias medonhas e seus adversários os colocavam contra a parede, o melhor, colocavam o seu Deus no banco dos réus. A providência era carrancuda. Os inimigos eram muitos. Os perigos ameaçadores. O livramento parecia impossível. Para agravar a situação, os adversários ainda os insultavam com uma pergunta insolente e perturbadora: Onde está o seu Deus? Por que ele não age? Por que não vem em seu socorro? Esta é a pergunta que os ímpios ainda fazem, para nos acuar. Onde está Deus num mundo onde prevalece a mentira, a falsidade, a injustiça, a violência, a opressão, a maldade, a promiscuidade e a falência dos valores morais? Se Deus existe, por que ele não se manifesta? Se ele é Todo-poderoso por que não prevalece contra essa torrente de maldade que assola a humanidade? Se ele é amor, por que permite que os justos sofram? Se Deus é real, por que não põe um fim nessa confusão mundial?

O Salmista responde a essas afrontas, afirmando sua confiança em Deus, apesar das circunstâncias adversas. Reconhece que Deus é soberano e não pode ser domesticado pelo homem. Sabe que Deus age não conforme a pressão dos homens, mas conforme a seu propósito e conselho eterno. Longe de se enfraquecer com o escárnio dos adversários, o salmista reafirma seu apego a Deus, quando diz: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42.1,2). Longe de perder sua confiança em Deus, o salmista reafirma que Deus é seu auxílio. Num solilóquio profundo, ele diz: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu (Sl 42.5). Longe de se afastar de Deus, chocado com as mazelas do mundo e com as acusações sofridas, reafirma sua confiança na infinita misericórdia de Deus. Assim ele escreve: “Contudo, o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia” (Sl 42.8). Longe de ceder aos ataques dos adversários e admitir que Deus perdeu o poder, reafirma, confiantemente, que Deus é a sua rocha. Diz o salmista: “Digo a Deus, minha rocha: Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos?” (Sl 42.9). Longe de capitular-se à amargura contra Deus, reafirmou que Deus é o motivo do seu louvor: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl 42.11). O salmista está consciente de que o mal nem sempre é julgado na hora que é cometido. Os ímpios que escapam dos tribunais da terra terão que comparecer perante o tribunal de Deus, onde serão julgados retamente. Quanto aos justos, ainda que sofram agora, desfrutarão de bem-aventurança eterna. A verdade incontestável é: não é Deus quem está no banco dos réus; o homem é que terá que prestar contas da sua vida a Deus, o Juiz de vivos e de mortos.




Por Hernandes Dias Lopes

Agentes da extinção: bárbaros socialistas no poder



Lendo o livro Extinção, de Thomas Bernhard, deparo com as seguintes passagens que, trocando o lugar e a época (a Áustria pós-Segunda Guerra), muito se parecem com aquilo que certo povo enfrenta nos dias de hoje, abaixo da linha do Equador em um belo país tropical:

Uma natureza sem par e pessoas tão desinteressadas nessa natureza. Uma cultura outrora tão elevada, disse, e hoje uma falta de cultura tão bárbara, uma incultura avassaladora. Para não falar da deprimente situação política. Que criaturas abomináveis hoje detêm o poder nessa Áustria! Os mais baixos agora estão por cima. Os mais repulsivos e os mais sórdidos têm tudo nas mãos e estão prestes a destruir tudo o que seja de valia. Destruidores apaixonados estão em ação, exploradores implacáveis, envoltos no manto do socialismo.

[...]

Como em geral é espezinhado tudo o que há de belo. E tudo em nome do socialismo, com a hipocrisia mais repugnante que se possa imaginar. Tudo o que tenha a mais remota ligação com a cultura é visto com suspeita e posto em dúvida, até que se extinga. Estão em ação os assassinos, os agentes da extinção. Estamos às voltas com agentes da extinção e assassinos, por todo canto eles levam a cabo sua empresa assassina.

[...]

Que tipo de pessoas elas eram, ainda faz poucos anos, e que tipo de pessoas são hoje! Em cada um a falta de caráter arraigou-se como uma doença fatal, a cobiça, a impiedade, a infâmia, a mentira, a hipocrisia, a abjeção. Hoje essas pessoas fazem de tudo para impor sua abjeção com a maior impiedade.

[...]

A alma de meus conterrâneos está arruinada, disse, seu caráter se tornou rasteiro e sórdido, agora reina por todo o lado somente uma atmosfera maligna, aonde que você vá é confrontado com esse caráter maligno e sórdido. Você crê falar com uma pessoa boa, como antes, e constata que se trata da mais sórdida, da mais baixa, pois a pessoa boa de antes, segundo a viravolta geral de caráter, se tornou nesse meio tempo sórdida e baixa, que em cada detalhe dá a entender sua sordidez e baixeza, nem sequer reprime essa sordidez e baixeza, antes a ostenta abertamente.

[...]

Até agora sempre pensara que esse dito socialismo fosse uma inofensiva e passageira doença nervosa da política, dissera a Gambetti, mas na verdade e de fato ele é letal. [...] Hoje não temos um socialismo verdadeiro, em nenhum lugar do mundo, só esse socialismo fingido, hipócrita, simulado, você deve saber. Como também os socialistas de hoje não são verdadeiros, mas hipócritas, fingidos, simulados. [...] Aqueles que pensaram o verdadeiro socialismo e nele acreditaram e acreditaram que o houvessem instituído para a eternidade se revolveriam no túmulo se pudessem ver o que seus repugnantes sucessores fizeram dele. Se revolveriam no túmulo se pudessem abrir novamente os olhos e ver isso tudo que hoje, sob a palavra de honra do socialismo, é mercadejado e difundido entre o povo.

O que acrescentar? Os bufões latino-americanos, seguidores de Hugo Chávez, são realmente os agentes da extinção de tudo aquilo que é elevado, que presta, que é cultura, liberdade, criação. São bárbaros no poder, sedentos por destruição. Que a força dos defensores da cultura seja maior e consiga resistir ao avanço dos bárbaros…




Por Rodrigo Constantino

Sanar contas públicas exigirá de Dilma os ajustes que tanto criticou na era FHC

Após histórico déficit fiscal — diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta –, a presidente se encontra em encruzilhada: ou adota políticas antiinflacionárias, ou país poderá assistir a fuga de investidores



Em sua campanha para a reeleição, a presidente Dilma fez uso de inúmeras armas de propaganda contra o candidato tucano Aécio Neves.

Um dos temas preferidos da presidente era a comparação com os anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Em debates e vídeos veiculados na TV e na internet, Dilma pintava que a gestão do ex-presidente havia sido marcada por desemprego, juros altos e arrocho salarial, além de ajustes econômicos que, segundo ela, nada faziam além de prejudicar o consumo.

Menos de uma semana depois de ser reeleita, a situação que se desenha na economia brasileira mostra números piores que os previstos. Diante deles, o governo não terá alternativa além de fazer aquilo que tanto criticou no adversário: subir juros e colocar em prática políticas de ajuste fiscal — duro corte de gastos e medidas impopulares, como aumento de impostos.

O aumento dos juros foi anunciado pelo Banco Central na quarta-feira, apenas três dias depois das eleições.

Já o resultado das contas públicas de setembro dá conta da gravidade da situação: a diferença entre os gastos e a arrecadação federal ficou negativa em 20,4 bilhões de reais.

No acumulado do ano, mesmo sem contar o pagamento dos caríssimos juros, o resultado está 15,7 bilhões de reais no vermelho — o pior rombo da história. Isso significa que, no apagar das luzes de 2014, nada sobrará para o pagamento dos juros da dívida pública, que custa mais de 40 bilhões de reais POR MÊS. A Fundação Getulio Vargas prevê que o resultado fiscal fique negativo em 0,5% do Produto Interno Bruto.

Ou seja, o país terá de aumentar seu endividamento para conseguir honrar o pagamento dos juros. “Chegamos a um ponto lastimável. Isso é ruim do ponto de vista de controle de inflação, de credibilidade de política econômica e de sustentabilidade de dívida pública”, afirma Silvia Matos, economista do Ibre, da FGV.

Para financiar o déficit, o governo pode lançar mão de recursos de mercado, como a caderneta de poupança, que tecnicamente deveriam ser direcionados ao setor produtivo.

Ao obter financiamento via poupança interna, o governo reduz o capital disponível para investimentos, por exemplo. “Se a dívida aumenta, também sobe a necessidade de o governo se financiar. Em uma situação dessa natureza, aumenta a dependência do país em relação ao capital estrangeiro”, afirma o professor de Economia do Insper (Instituto de Estudos e Pesquisas), Otto Nogami.

O problema mora justamente aí. Tivesse o Brasil uma poupança interna infindável, como ocorre de certa forma na China, o governo da presidente Dilma até poderia continuar abusando da irresponsabilidade fiscal, praticando desonerações de impostos mal planejadas e gastando recursos públicos sem qualquer critério.

Mas, ao ser dependente do capital externo para investir, o país precisa obter o aval de agências de classificação de risco, como Moody’s, Standard and Poor’s e Fitch.

A nota emitida pelas agências é uma forma de comprovar que um determinado país é destino seguro para investimentos. E é justamente essa chancela que o Brasil corre o risco de perder. Duas das três agências cortaram a nota do Brasil e rebaixaram a perspectiva para o campo negativo. Isso indica que, se reformas não forem feitas, poderão tirar o grau de investimento do país.

Com isso, muitos fundos de pensão estrangeiros multibilionários, por exemplo, terão de tirar seus recursos do Brasil por não poderem aplicar a poupança de aposentados em países com pouca solidez fiscal, ou “especulativos”.

O que as contas de setembro mostram é que não é mais possível postergar pagamentos, como o governo vinha fazendo no período pré-eleitoral.




Por Luís Lima e Ana Clara Costa

Democracia



A ágora de Atenas reunia, no máximo, 5 mil homens adultos, nativos, não escravos. Ali se faziam as leis, os julgamentos (a exemplo do de Sócrates) e se atribuíam a indivíduos deveres similares ao dos prefeitos modernos e também os militares.

O júri contava com participação de 10% do total de cidadãos, pois era impossível a todos acompanhar os debates que se prolongavam por dias a fio. Os prefeitos e os generais conduziam suas tarefas e prestavam contas a comitês – raramente à composição plena da praça, reunindo todos os cidadãos.

A democracia direta também atuava por representação. Quero dizer com isso que a dificuldade de manter 5 mil pessoas continuamente mobilizadas em debates, fiscalizações e operações era superada pela delegação a grupos menores ou a pessoas individualmente.

Quando Péricles dirigia a cidade de Atenas, o fazia como representante dos cidadãos. Na voz dele falava a legião de milhares. Ao representar, ele tornava presentes os ausentes.

Esse período democrático ateniense durou uns 100 anos e depois sucumbiu às pestes e invasões. Passou para a história de modo mítico, como se não fosse verdade. Faz uns 300 anos que trabalhos arqueológicos começaram a dar veracidade às narrativas escritas que remanesceram.

Nenhuma outra democracia vicejou até que o Reino Unido se estabilizou depois da Gloriosa Revolução no fim do século 17. À inglesa, fizeram paulatinamente instituições que, na somatória, são democráticas porque protegem o indivíduo do excesso de poder do Estado e propiciam a participação na formação da vontade estatal por meio de representação no Parlamento.

Do empirismo inglês brotaram outras democracias, com nuances peculiares a cada povo, mas, na essência, assegurando a livre participação política e garantindo a incolumidade do indivíduo perante o Leviatã. Porém, essa construção institucional sempre em aprimoramento foi objeto de demolição por ideologia decorrente da visão bipolar das relações sociais entre opressores capitalistas e oprimidos trabalhadores.

Prócer da percepção binária do mundo, Lênin dizia não existir democracia pura, sem adjetivos, apenas democracia burguesa a ser sucedida pela democracia proletária, ainda que no caminho fosse imperioso usar métodos ditatoriais da vanguarda da classe operária. Para ele, os sovietes (coletivos sociais) organizam as massas exploradas para participar da administração do Estado. As eleições indiretas dos sovietes, prossegue, facilitam os congressos dos conselhos de trabalhadores e tornam todo o sistema mais barato e ágil. A burocracia, as regras, Justiça Eleitoral, comícios, debates, eleições diretas com milhões de eleitores, são, para Lênin, entulho da democracia burguesa destinado a afastar os trabalhadores da administração do Estado.

A União Soviética (leia-se a união dos conselhos populares – sovietes) faliu e sumiu do mapa em 1991. Será que se tenta, aqui, repetir a história? Farsa burlesca ao estilo Chávez ou a sério, o meio e o fim sempre são trágicos.

O Decreto 8.243/14 da Presidência da República, instituidor da Política Nacional de Participação Social, hauriu inspiração nos sovietes. Felizmente a Câmara dos Deputados, instância da democracia, aprovou a suspensão dos efeitos desse decreto.





Por Friedmann Wendpap

A verdade é teimosa



Foi só fechar as urnas e o que era negado passou a ser anunciado. Ontem foi o dia de o governo comunicar as contas públicas de setembro. Todos sabiam que os dados seriam ruins e que a divulgação estava sendo adiada. A verdade foi pior do que os cálculos: pelo quinto mês, o resultado é negativo. No ano, o país tem déficit primário, e o governo vai pedir ao Congresso licença para não cumprir a lei orçamentária.

A presidente Dilma disse enfaticamente que o país não precisava de ajuste fiscal. Mas tudo isso pertence ao mundo que acabou no domingo. As urnas marcam a fronteira entre a fantasia e os fatos. O que o governo disse antes do fechamento da votação está sendo demolido em bases diárias. Quem acreditou no governo tem razões para o desapontamento; quem avaliava com objetividade os dados econômicos sabia da realidade.

Não é surpresa que as contas públicas em setembro seriam ruins, mas poucos podiam imaginar um rombo de R$ 20 bilhões, o déficit no governo central. No setor público consolidado, o buraco é de R$ 25 bilhões. O déficit primário no ano chegou a R$ 15 bilhões; a meta para 2014 era economizar R$ 80,8 bilhões. O secretário do Tesouro Arno Augustin, sabedor de que nada tão grande pode sair da sua sempre frutífera cartola, admitiu que o governo pedirá ao Congresso autorização para descumprir a lei orçamentária.

A alta dos juros foi outra das medidas que o choque de realidade começa a apresentar. Um país cuja inflação está acima do teto da meta precisa mesmo fazer algo. Ajuste fiscal ou aperto monetário, ou ambos. Quando Marina Silva e Aécio Neves falavam disso, a presidente Dilma fulminava tudo dizendo que era preciso traduzir o que isso significava. Os insertes publicitários faziam o resto do trabalho.

Agora se prepara o aumento da gasolina que, pelo menos, teve a vantagem de não ser negado. O ministro Guido Mantega disse várias vezes que o preço sobe todo ano e não seria diferente em 2014. A única mudança foi a data, marcada para depois das urnas.

Fala-se da volta da Cide. O imposto dos combustíveis arrecadaria, se estivesse sendo cobrado, perto de R$ 10 bilhões anuais. Esse dinheiro seria destinado a investimento em infraestrutura de transportes. É esse valor que o governo abre mão para incentivar o uso dos combustíveis fósseis. A renúncia fiscal produz efeitos colaterais: aumenta a poluição, desorganiza o setor de etanol e piora a conta petróleo do comércio exterior, que no ano passado teve um déficit de US$ 20 bilhões. Em resumo, é uma péssima medida. O Brasil precisa de redução da carga tributária, mas retirar ou reduzir impostos tem que obedecer a um projeto. Aumentar o consumo de gasolina não é objetivo que se busque.

Há outras verdades inconvenientes esperando a sua vez para serem anunciadas. O aumento do desmatamento da Amazônia nos últimos meses é um exemplo. Outro é a crise energética, antes de tudo o mais vasto e perigoso desequilíbrio financeiro nas empresas do setor. A Conta de Desenvolvimento Energético acumula um rombo de R$ 8 bi. As distribuidoras têm uma dívida de R$ 28 bi para passar ao consumidor nos próximos três anos. As geradoras apresentam um buraco ainda não medido e não têm para quem passar. Tudo isso foi alertado por analistas e negado pelo governo.

A verdade é teimosa. Ela pode ser escondida temporariamente, mas aparece sempre. O que deve ser discutido são os limites éticos de um governo disputando reeleição. Até que ponto os órgãos públicos podem escamotear, esconder ou adiar as verdades que os eleitores e contribuintes têm o direito de saber? Isso poderia não alterar o voto, mas certamente elevaria a qualidade da democracia.




Por Míriam Leitão e Marcelo Loureiro