quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Presidente do PT confessa tentativa de golpe de estado enquanto os republicanos dormem



Enquanto uma boa parte dos republicanos está perdendo tempo discutindo coisas que não vão acontecer (como impugnação dessas eleições), o PT resolveu focar no que é mais importante para eles: dar o golpe bolivariano.

Não há nada de especulação nisso, mas a confissão do presidente do PT, Rui Falcão, conforme matéria da Folha. Veja o trecho abaixo:

Nesta segunda, o presidente do PT, Rui Falcão, reconheceu as dificuldades para aprovar uma reforma política.

“Só vamos obter reforma política através de plebiscito com essas mobilizações [de movimentos sociais]. Só pelo Congresso, seja com a atual configuração, seja na futura, é praticamente impossível”. Segundo ele, a reforma política e regulação dos meios de comunicação são prioridades.


Como se preocupam com o Brasil esses petistas, não?

O país vivendo uma fuga de investimentos, queda na Bolsa, um PIB ridículo e o avanço do desemprego (não aquele indicador de 4,9% do IBGE, que vira pó perto dos números do DIEESE, que apontam o dobro), e o PT diz quais são suas prioridades: censurar a mídia e arrumar um pretexto para abrir uma assembléia constituinte.

E Rui Falcão é bem claro ao dizer que é golpe ao retirar a autoridade do Congresso nas decisões. Preste atenção quando ele diz: “[...] pelo Congresso, seja com a atual configuração, seja na futura, é praticamente impossível”. Que nome damos para tentativas de se burlar as decisões do Congresso legitimamente eleito? Ou seja, ele confessa que os congressistas eleitos pelo povo não devem apitar mais, mas serem monitorados pelos coletivos não-eleitos escolhidos pelo partido.

Me perguntaram o que fazer diante disso.

A primeira coisa é tratar tudo isso nos termos adequados: é golpe e traição à pátria, além de um cuspe na cara dos eleitores, tenham eles votado no PT ou não.

É óbvio que essa picaretagem de “plebiscito para constituinte” foi criada pelo PT e seus coletivos não-eleitos. Será exagero? Então basta clicar na lista em anexo, do site Plebiscito Constituinte e veja quais grupos nós encontramos lá.

Você se sente representado por essa gente? Você elegeu essa gente? Claro que não. E são esses que o PT define como “movimentos sociais”.

Na turminha, encontramos até a UJS (União da Juventude Socialista), que fez um atentado à sede da Editora Abril na última sexta-feira, dia 24/10, apenas por causa da publicação de uma edição mostrando a delação de Alberto Youssef afirmando que Lula e Dilma sabiam de tudo quanto ao Petrolão. Na Bolívia, esse tipo de grupo ameaçou chicotear quem não votasse em Evo Morales. Bela “sociedade civil”, não?

Assim que passarmos a tratar todos os projetos prioritários do PT nos termos adequados (golpe), precisamos começar a contatar deputados, incluindo aqueles da base aliada que não sejam bolivarianos. Estes partidos mais civilizados incluem PMDB e PP, por exemplo. A lista de deputados eleitos está aqui.

Mostrem esse texto para eles e foquem nas declarações de Rui Falcão. Depois exija o comprometimento desses deputados em relação à barrar essas tentativas de golpe.

Mas isso é só para começar, pois será preciso de muito mais organização para derrubar os projetos bolivarianos dessa gente.

A princípio, uma dica se faz urgente: aquilo que é prioritário para o PT deve ser combatido. E foi o próprio Rui Falcão que confessou suas prioridades.





Por Luciano Henrique

A perigosa constituinte do PT



A presidente Dilma anunciou, no seu discurso da vitória, que a reforma política será a grande prioridade do seu novo mandato. A necessidade de uma reforma política é quase uma unanimidade, especialmente em virtude dos altíssimos custos de campanha, do sistema de financiamento dessas campanhas, do excesso de partidos e da falta de conteúdo ideológico dos mesmos. O problema está na forma e no conteúdo da reforma política que está sendo desenhada pelo PT.

Quanto à forma, o PT argumenta ser necessária uma “mini-Assembleia Constituinte” para produzir os efeitos necessários, com sua decisão de instalação a cargo de um plebiscito. Isso é uma completa falácia. A Constituição brasileira é bastante flexível quanto à sua organização política, e o sistema político-eleitoral pode ser reformado por emenda constitucional sem maiores problemas. Só haveria necessidade de uma Assembleia Constituinte caso o PT quisesse acabar com alguma das cláusulas pétreas da Constituição, que são a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; e os direitos e garantias individuais. Uma reforma política que acabasse com qualquer um desses direitos e garantias seria necessariamente uma reforma de cunho ditatorial.

No conteúdo, o PT pretende acabar com o financiamento privado de campanhas por empresas, criar cláusula de barreira, adotar lista fechada de candidatos com cotas para mulheres e negros e a criação de comitês populares. O financiamento privado de campanhas é um problema, pois as grandes empresas nacionais investem em candidaturas para exigir favores e contratos públicos posteriormente. A atual legislação é bastante restritiva, sendo essa burocracia a criadora do famoso “caixa dois”, ou, no dizer do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, “recursos não contabilizados”. O financiamento público exclusivo não resolveria esse problema, pois as doações privadas continuariam existindo, só que agora totalmente irregulares, com 100% de doações em “caixa dois”, sem contar que os partidos maiores receberiam mais recursos, criando eleições injustas. Além disso, seria muito triste ver recursos que deveriam ser destinados para educação, saúde e segurança pública indo parar nas campanhas de políticos com cujas ideias não concordamos.

A cláusula de barreira restringe a pluralidade democrática e só é necessária porque hoje existe Fundo Partidário e tempo de tevê gratuito. Por que não atacar a raiz do problema, acabando com esse desvio legalizado de recursos públicos para políticos?

A proposta de lista fechada defendida pelo PT retira do eleitor o direito de escolher seu representante e o entrega para o diretório do partido votado. Se esse mecanismo já não fosse antidemocrático por natureza, criar cotas sexuais e raciais para esse fim gerará a total alienação do cidadão brasileiro do processo eleitoral. A nossa representação deve ser escolhida pelo povo de maneira livre, e não por políticos profissionais. A criação de comitês populares, já vislumbrada pelo Decreto 8.243/14, retira competência dos representantes democraticamente eleitos pelo povo e a entrega para militantes profissionais e grupos de interesse que não receberam nenhum voto de ninguém.

Tudo exposto, com todos os seus graves problemas, pelo menos o atual sistema é democrático, o que não se pode dizer da proposta petista. Se é para mudar assim, melhor ficar com o velho.

A maneira petista de conciliar



Sempre que o PT não tem o que dizer a respeito de seja lá o que for, responde que o problema só será resolvido com uma reforma política. Foi assim em 2005, quando estourou o mensalão, e em junho de 2013, quando o partido assustou-se com o povo na rua. Naquela ocasião, propuseram uma Constituinte exclusiva e um plebiscito. A ideia foi detonada numa simples conversa do vice-presidente Michel Temer com a doutora e não se falou mais no assunto.

O programa petista avisou que a ideia continuava no forno, e no primeiro debate Aécio Neves perguntou à doutora até que ponto a proposta ecoava as práticas bolivarianas. Dilma respondeu comparando os plebiscitos que se realizam durante eleições estaduais americanas com as modalidades chavistas. Se nessa altura da vida a doutora não percebeu a diferença entre os dois regimes, paciência.

No discurso em que agradeceu sua reeleição, ela anunciou que pretende fazer reformas e “a primeira, a mais importante deve ser a reforma política”, uma “responsabilidade constitucional do Congresso”, que “deve mobilizar a sociedade num plebiscito por meio da consulta popular”.

Desconte-se o fato de que ela estava exausta e um microfone enguiçado levou-a a se tornar a primeira governante a impacientar-se (duas vezes) com uma plateia que festejava sua vitória. Mesmo assim, o que ela disse não faz sentido. Uma reforma política, ou qualquer outra, não é uma “responsabilidade” do Congresso. É uma atribuição. Ele pode fazê-la, ou não. É sempre bom lembrar que o atual mandato do Congresso é tão legítimo quanto o dela.

Se a doutora tem um projeto de reforma política, a primeira coisa que deve fazer é apresentá-lo. A primeira vez que o PT falou nisso oferecia um sistema de voto por lista. Nele o cidadão perde o direito de escolher o candidato em quem decide votar. (No atual, pode-se votar num candidato e acabar elegendo outro, mas é indiscutível que o eleitor escolheu em quem votou.) Na versão original as listas seriam feitas pelas caciquias partidárias. O PT também quer o financiamento público das campanhas. (Tiririca se candidata e você paga.) Na abertura de sua fala, Dilma saudou os presidentes do PR (o partido de Tiririca), do PC do B e do PROS. Se o Supremo Tribunal Federal não tivesse derrubado a cláusula de desempenho, alguns deles não existiriam e, com isso, perderiam o acesso às arcas do Fundo Partidário.

A proposta de se fazer uma reforma com plebiscito obrigaria à construção de uma cédula com perguntas complexas. (Com ou sem cláusula de desempenho? Sistema proporcional? Distrital Simples? Misto? Com lista fechada ou aberta? Quantos distritos por estado? Financiamento público? Quanto custará?) Isso não é coisa que se resolve por plebiscito. É atribuição do Parlamento. Fora disso, a doutora quer conciliar atropelando o Legislativo. Há 50 anos, chamava-se “reformas de base”.

Coube a Renan Calheiros, presidente do Senado, colocar o debate nos trilhos. Deve-se discutir e aprovar o assunto no Congresso, seguindo seus ritos. Depois, se assim quiserem, o resultado pode ser submetido a um referendo, no qual a população vota “sim” ou “não”. Fez-se assim com o artigo da lei do desarmamento que proibia a venda de armas no Brasil e o povo mandou-o ao lixo.



Por Elio Gaspari

A armadilha do plebiscito



O PT está com pressa. Sabe que ganhou esta eleição presidencial por pouco e não quer correr o risco de receber o bilhete azul na próxima. Urge, portanto, "aperfeiçoar" o sistema representativo de modo a garantir um futuro sem surpresas desagradáveis nas urnas. É essa a razão pela qual Dilma Rousseff enfatizou, em seu discurso de vitória, a prioridade com que se dedicará doravante, entre todas as reformas que há muito tempo o País reclama, à reforma política. Com um detalhe que faz toda a diferença: uma reforma política cujo conteúdo será definido por plebiscito.

Não é de hoje que o PT questiona, à sua maneira, o sistema representativo em vigor no País, pelo qual o povo elege representantes que têm a responsabilidade de propor e aprovar as leis que regem a vida em sociedade, além de fiscalizar as ações do Poder Executivo. Assim, uma reforma política, que depende de novas leis, é responsabilidade constitucional do Congresso Nacional, como Dilma teve a prudência de observar em seu discurso.

Para o PT, esse sistema representativo não funciona. O presidente do partido, Rui Falcão, manifestou claramente essa convicção no dia seguinte ao da eleição, ao comentar o discurso de Dilma e a relação de suas propostas com as manifestações de rua do ano passado: "Nós, como partido que tem relações com os movimentos sociais, só vamos obter a reforma política com essas mobilizações. Pelo Congresso Nacional, seja na atual configuração, seja na futura, é praticamente impossível". Impossível é ser mais claro. Para o PT, o que funciona é a "democracia direta", aquela em que os donos do poder cuidam para que as pessoas não façam as escolhas erradas.

A Constituição brasileira prevê duas formas de consulta popular: o plebiscito e o referendo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) define clara e sucintamente em seu site o que significam um e outro: "Plebiscito e referendo são consultas ao povo para decidir sobre matéria de relevância para a nação em questões de natureza constitucional, legislativa ou administrativa. A principal distinção entre eles é a de que o plebiscito é convocado previamente à criação do ato legislativo ou administrativo que trate do assunto em pauta, e o referendo é convocado posteriormente, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta".

O PT insiste no plebiscito, claro, porque quer exercer sua influência como partido do governo para definir previamente o que deverá ser submetido ao escrutínio público. É importante lembrar que, quando, em resposta às manifestações de junho de 2013, Dilma propôs cinco itens prioritários para a reforma política, o primeiro deles era a reforma do sistema eleitoral. E o debate dessa proposta no meio político resultou em seu engavetamento, com o apoio dos aliados do governo, especialmente o PMDB, pela razão óbvia de que o PT a concebera na medida exata de suas próprias conveniências.

É natural, portanto, que mais uma vez Dilma Rousseff volte a propor, agora sob o impacto de sua reeleição, o uso desse instrumento: "Com o instrumento dessa consulta, o plebiscito, nós vamos encontrar a força e a legitimidade exigidas neste momento de transformação para levarmos à frente a reforma política".

Falta agora o PT combinar o jogo com seus aliados. Não será tarefa fácil, principalmente porque o mais importante deles, o PMDB, está muito satisfeito com o espaço que ocupa e não cogita de colocá-lo em risco. No ano passado, o vice-presidente Michel Temer, peemedebista, teve um papel decisivo na tarefa de fazer Dilma recuar na ideia do plebiscito. E outro importante líder do partido aliado e presidente do Senado, Renan Calheiros, já adiantou a opinião de que seria melhor pensar, talvez, num referendo.

Uma coisa é certa: a reforma política é necessária e urgente para corrigir as distorções que comprometem o sistema representativo e aperfeiçoá-lo em benefício da democracia brasileira. Mas é preciso evitar que essa reforma seja maliciosamente colocada a serviço do projeto de poder do lulopetismo. Este é um dos desafios que se colocam para a liderança oposicionista cuja responsabilidade será doravante cobrada por mais de 51 milhões de brasileiros.




Fonte: O Estado de SP (editorial)

"Há o risco de uma tempestade perfeita"

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,intelectuais-inorganicos-imp-,1584686Gramsci foi, sem dúvida, uma figura importante do pensamento e da filosofia da
Época entrevista Christopher Garman (Por Guilherme Evelin)

O consultor político vê uma combinação perigosa em 2015: uma presidente politicamente fraca, sem a confiança dos investidores, num cenário externo difícil


A especialidade da consultoria internacional Eurasia, onde o cientista político Christopher Garman trabalha como diretor para mercados emergentes, é antecipar cenários de risco político para seus clientes: instituições financeiras, corporações multinacionais, governos. De Washington, nos Estados Unidos, onde trabalha, Garman vê um campo minado adiante da presidente Dilma Rousseff em seu próximo mandato. Garman tem dupla cidadania, americana e brasileira, fala fluentemente português e vem com frequência ao Brasil, onde morou por muitos anos. Nesta entrevista, analisa o cenário com a reeleição de Dilma, em cuja vitória ele sempre apostou.

ÉPOCA – O que esperar de um segundo governo Dilma?
Christopher Garman – O segundo mandato dela será o oposto do primeiro. O primeiro mandato foi um governo em que a figura dela, politicamente, foi muito forte. Ela fez uma espécie de ativismo industrial, testou os limites da política econômica em favor da indústria. Isso se traduziu em políticas de conteúdo nacional e em políticas setoriais com metas de governo. No segundo mandato, teremos um ambiente econômico mais difícil. Isso empurrará o governo para uma política econômica um pouco mais amigável ao mercado. Dilma será politicamente muito mais fraca.

ÉPOCA – Por que será um governo fraco?
Garman – Ela entrará em seu segundo mandato com uma quebra em seus índices de aprovação. Nos últimos meses, sua aprovação subiu quase 10 pontos percentuais. Mas isso foi puro efeito de campanha. Isso tende a ir embora quando a campanha terminar. Estamos em recessão técnica. Haverá ajustes no mercado de trabalho, e a renda real poderá cair. Se isso ocorrer, a popularidade dela cairá. Mesmo porque ela terá de honrar compromissos com seus aliados, que pressionam por mais gastos. Ela tentará melhorar a gestão macroeconômica, mas essas melhoras não serão fortes o suficiente para superar o deficit de credibilidade do governo. Ela tentará fazer um ajuste fiscal incremental, como o repasse gradual de preços. Num momento em que o contexto internacional econômico piora para o Brasil, isso dificilmente dará ânimo aos investidores privados, de modo a facilitar um ciclo maior de investimentos.

ÉPOCA – O senhor não crê no êxito de um ajuste gradual?
Garman – Entendo o diagnóstico da corrente econômica dela, que argumenta contra ajustes fiscais rigorosos. Dilma diz que, se houver um choque fiscal muito profundo, o quadro de recessão se agravará e impactará a capacidade de arrecadação e a credibilidade na solvência fiscal. O problema dela é subestimar a importância da credibilidade no mercado financeiro, fundamental para promover um ajuste fiscal gradual. Se você minou essa credibilidade, inflou artificialmente suas contas fiscais, e depois anuncia um ajuste gradual, os agentes do mercado não acreditarão. Isso dificulta o trabalho de ancorar as expectativas de inflação e diminuir o custo de endividamento. Até acredito que o novo ministro da Fazenda fará pressão para que os agentes de mercado acreditem num ajuste fiscal gradual. Mas dificilmente será bem-sucedido.

ÉPOCA – Como ela poderia reconquistar essa credibilidade?
Garman – O principal meio seria nomear um ministro da Fazenda com um nome forte no mercado e reputação de responsabilidade fiscal, para tornar o ajuste gradual crível.

ÉPOCA – Entre os nomes cogitados para o Ministério da Fazenda, como Aloizio Mercadante, Luciano Coutinho, Nelson Barbosa, Alexandre Tombini ou Josué Alencar, o senhor vê algum com capital político para angariar essa confiança?
Garman – Há diferenças entre esses nomes. Tanto Nelson Barbosa quanto Luciano Coutinho são nomes com reputação fiscal boa. Mercadante seria visto como uma aposta em dobro do modelo atual. E Josué é uma incógnita, porque ele vem da indústria. Não se sabe se tem uma visão de cenário macroeconômico. Melhorariam a situação atual, mas não atenderiam à expectativa de credibilidade do mercado financeiro, porque seria a escolha de alguém que já está em casa e é ligado à presidente. Isso será entendido como um sinal de que ela continuará a controlar a política econômica, não corresponde a um sentimento de mudança. De qualquer forma, nenhum nome conquistará de imediato a confiança do mercado financeiro. Isso significa que essa confiança deverá ser construída, com o anúncio dos nomes do restante do time do Ministério da Fazenda.

ÉPOCA – O próximo Congresso será mais fragmentado que nunca, com 28 partidos na Câmara dos Deputados. Como ela lidará com essa pulverização no Legislativo?
Garman – Certamente, formar coalizões será mais difícil. Além do problema da queda na popularidade, Dilma terá uma crise política possivelmente “contratada” para 2015, as investigações em torno da Petrobras. É difícil saber como isso se desenrolará. Mas a probabilidade de o tema ganhar fôlego é grande, à medida que depoimentos forem revelados e integrantes do governo e do PT acabarem comprometidos. Será um calcanhar de aquiles, porque ela estará particularmente fraca, num momento de dificuldades econômicas. Estamos também de olho no relacionamento dela com a velha guarda do PT e com Lula.

ÉPOCA – Como deverá ficar a relação de Dilma com Lula?
Garman – É uma relação em que um depende do outro. Tem sido marcada por algumas tensões no meio do caminho. A crise da Petrobras tem o potencial de estremecer a relação entre os dois. Se o escândalo da Petrobras jogar luz sobre integrantes do governo, sua forma de agir será decisiva. Se ela virar as costas para a velha guarda do PT, isso poderá estremecer sua relação com Lula. Será uma situação difícil para ela navegar. Ela terá de lidar com uma crise econômica e com uma crise política capaz de dificultar sua relação com o próprio PT. Em 2005, Lula enfrentou a crise política do mensalão, mas a economia crescia, e ele trouxe para seu lado o PMDB. Hoje, Dilma não conta com isso. Há dois caminhos possíveis nessa investigação do petrolão. Ou o escândalo se aproximará mais dela, ou se aproximará mais de Lula. Tudo dependerá muito desses desdobramentos.

ÉPOCA – Mesmo perdendo, a oposição sai da eleição fortalecida. Como deverá ser seu comportamento?
Garman – A oposição sai desta eleição com uma perspectiva muito forte de vitória em 2018, porque teremos o segundo mandato de uma presidente politicamente fraca, com baixa capacidade de imprimir uma agenda positiva. Temos também de levar em consideração o surgimento de uma segunda oposição, representada por Marina Silva. O fato de ela ter conseguido quase o mesmo número de votos de 2010 é significativo. Se ela conseguir manejar o capital político que conseguiu e deixar de ser uma candidata de protesto para se tornar uma candidata de propostas, ela permanecerá uma força política.

ÉPOCA – O senhor descarta totalmente a hipótese de que Dilma dobre a aposta na política econômica?
Garman – Ela não é totalmente descartada. Mas é improvável. Alguns dizem: se Dilma é reeleita depois do que fez ao longo dos últimos quatro anos, por que mudaria? Falar que ela dobrará a aposta significa dizer que Dilma não se preocupa com inflação. Isso não é verdade. Temos de nos lembrar que a gênese do sucesso econômico do governo Lula foi fazer um ajuste fiscal e domar a inflação. O Planalto pode até aceitar uma inflação entre 6% e 6,5%. Mas fica preocupado quando a coisa passa disso. No ano passado, uma corrente no mercado acreditava que o Banco Central não tinha liberdade de aumentar os juros em dois dígitos. Aumentou. Portanto, à medida que a situação aperta, o governo reage. O que vemos no Palácio do Planalto não é um governo que quer dobrar sua aposta, mas que quer ampliar as concessões e abrir mais espaço para investimentos privados, principalmente nos setores de logística, infraestrutura e energia. A noção de que ela caminhará para uma política como da Argentina ou da Venezuela é pouco provável.

ÉPOCA – O cenário externo complicado para o Brasil também será um constrangimento, não?
Garman – O Brasil terá de lidar, provavelmente, com um aperto monetário do FED (o Banco Central americano), que reduzirá a liquidez nos mercados emergentes, num contexto em que a China terá um crescimento menor, e os preços de commodities estarão em baixa, como já mostra o preço do barril do petróleo. Poderemos ter, em 2015, a combinação de um governo Dilma com baixa credibilidade perante o mercado, pequena sustentação política, um escândalo da Petrobras já “contratado” e um cenário econômico externo complicado. Essa, sim, pode ser uma tempestade perfeita. Não é uma certeza, mas é um risco.práxis (imperativo da atividade humana prática) marxista do início do século
passado, cuja influência se estende até hoje na vida acadêmica, aqui e alhures. Foi
um pensador que ousou apontar erros de Marx em sua visão da História. Não
acreditava em leis históricas inexoráveis que levariam automaticamente a classe
trabalhadora ao poder. Também discordava de Lenin, que via no econômico o
fator determinante da mudança e a cultura como peça ancilar do processo que
levaria ao comunismo na etapa final.
Nessa linha, desenvolveu o famoso conceito de hegemonia orgânica, a ser
construída por intelectuais devidamente treinados oriundos da classe
trabalhadora. O poder da burguesia, segundo ele, não emanava apenas do
dinheiro, mas do poder das ideias embutido na cultura dominante. Não seria
suficiente controlar os instrumentos de poder da sociedade política: a polícia, o
exército, o sistema legal, etc. Era preciso ir além e se assenhorear, primeiro, dos
pilares em que se assenta a sociedade civil: a família, o sistema educacional, os
sindicatos, etc.
A primeira é o reino da força e a segunda, do consentimento. Feita a cabeça da
população, a conquista da sociedade política estaria naturalmente validada. Esse
trabalho de conquistar mentes e corações caberia aos intelectuais, ditos orgânicos
por Gramsci, em contraposição aos tradicionais, que estariam por ora no manejo
dos cordões que perpetuam, via cultura, a manutenção do regime capitalista.
Parece-me que o melhor modo de entender a questão de fundo envolvida nesse
processo é a tese desenvolvida por Hannah Arendt em seu brilhante livro A
Promessa da Política. Ali ela nos fala da ilustre tradição de liberdade política,
nascida com Platão e Aristóteles, de respeito ao outro como Homo politicus. Ela
nos chama a atenção para a praça pública grega, berço da democracia ocidental,
onde as diferentes opiniões eram livremente debatidas e as decisões eram tomadas
pelo voto igualitário dos cidadãos livres.
Também nos relembra a atitude do Império Romano, a despeito da força das
armas, em relação aos povos conquistados. A Pax Romana conseguia abrir espaço
para uma convivência relativamente pacífica, em que a eliminação física dos povos
sob o domínio de Roma nunca se constituiu num objetivo sistemático do império,
salvo em alguns casos excepcionais, como o de Cartago.
Pois bem, essa ilustre tradição da vida política ocidental perdurou por 2 mil anos
até que pensadores como Hegel e Marx abriram as portas, no plano filosófico, para
as trágicas experiências totalitárias que se materializaram com o nazismo e o
comunismo. Em última instância, o que aconteceu é que suprimiram, na prática, o
espaço de manifestação do outro, aquele que discorda de nós. É nessa vertente que

É preciso entender Gramsci para compreender o PT


Lenin queria uma revolução comunista pelas armas, para impor a “ditadura do proletário” (na verdade, da elite em nome do proletário). Mas Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, acreditava que essa tática belicosa não daria certo no Ocidente. Era preciso comer pelas beiradas, dominar a cultura, destruir a democracia de dentro dela.

Muitos repetem hoje a frase do marqueteiro de Bill Clinton, alegando que “é a economia, estúpido”. Mas será que é mesmo? A economia esse ano simplesmente não cresceu nada, e a inflação seguiu em alta. Mesmo assim Dilma venceu. Podemos considerar uma possível fraude e o voto de cabresto, mas mesmo assim ela teve milhões de votos Brasil afora. Por quê?

De forma bem resumida: Gramsci. O empresário Gastão Reis Rodrigues Pereira publicou um excelente artigo hoje, 29, no Estadão resumindo o que pregava o ideólogo comunista. Dá uma boa ideia de como chegamos até aqui. Isso foi abordado em meu livro Esquerda Caviar também, tamanha a importância que dou ao assunto. Segue um trecho:

Onde as ditaduras socialistas não vingaram, restou a opção da tomada de baixo para cima desses veículos. A revolução de Gramsci, o comunista italiano que arquitetou a estratégia de poder por meio da própria democracia, poderia dispensar as armas se fosse bem-sucedida na infiltração em escolas, universidades, redações, igreja e televisão. Sua revolução cultural seria mais silenciosa e, portanto, mais perigosa, pois menos perceptível.

Vale a pena dedicar alguns parágrafos a esta figura sombria, uma vez que as estratégias traçadas em seus Cadernos do cárcere têm tudo a ver com a postura da esquerda caviar atualmente, e com esse viés da imprensa.

Nascido na Itália em 1891, Antônio Gramsci foi um marxista intelectual membro do Partido Socialista Italiano. Gramsci era um simpatizante da revolução bolchevique de 1917, e foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Preso pelo regime fascista de Mussolini, começou a escrever notas na prisão.

O tema central de seus escritos consistiria na formulação de uma estratégia de tomada do poder, distinta do modelo leninista. Para Gramsci, o “assalto ao poder” de Lênin não seria o método adequado nos países ocidentais. A estratégia gramscista de transição para o socialismo contaria com aspectos mais graduais, infiltrando-se e influindo na cultura, e alterando-a para permitir a conquista final do poder pelas classes subalternas. Esta tem sido a receita praticada na América Latina nas últimas décadas, com resultados claramente positivos do ponto de vista dos marxistas.

O general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, já falecido, escreveu o livro A revolução gramscista no ocidente, que faz um didático resumo da concepção revolucionária de Gramsci. Nela, o grupo dirigente seria justamente aquele que tem a hegemonia, ou seja, “que tem capacidade de influir e de orientar a ação política, sem uso da coerção”. O que torna a estratégia gramscista tão perigosa é exatamente o fato de trabalhar por apodrecer os pilares democráticos de dentro da própria democracia, subvertendo seus valores e corroendo esses fundamentos.

Os gramscistas falam em “democracia radical” ou “radicalismo democrático” para se referir a tal modelo. Essa deturpação da ideia de democracia é útil para a causa socialista, pois permite que se fale em “socialismo democrático”, distanciando-se, no imaginário popular, do regime ditatorial adotado na União Soviética. Isso garante o respaldo de legalidade, evitando assim eventuais resistências e reações da sociedade.

Na estratégia gramscista, o papel dos intelectuais orgânicos é crucial. O novo intelectual não é apenas um orador eloquente, mas um dirigente que orienta, influencia e conscientiza as massas. O grupo de luta deve também batalhar pela assimilação e conquista ideológica dos intelectuais tradicionais. Estes terão participação consciente ou inconsciente, podendo assumir o papel de intelectual orgânico por convencimento e adesão, ou por ingenuidade, acomodação ou até capitulação.

Para Gramsci, todos os membros do partido, em todos os níveis, são intelectuais. Devem realizar na sociedade civil uma profunda transformação política e cultural, “amestrando” as classes burguesas também, levando-as a aceitar as mudanças intelectuais e morais como parte de uma natural e moderna evolução. Para tanto, contam com o apoio dos organismos privados, como sindicatos e organizações não-governamentais. E da imprensa, claro.


Portanto, caros leitores, se desejamos nos livrar de vez do PT e do bolivarianismo – e toda gente decente deseja isso – será preciso lutar no campo cultural. Sem mudar a mentalidade das pessoas e sem impedir o avanço dos “intelectuais orgânicos”, essa cambada de doutrinadores que desde a escola já manipula as frágeis cabeças das crianças, não será possível superar e enterrar essa seita esquerdista, colocando-a em seu devido lugar, que é o lixo da história.



Rodrigo Constantino

Reforma política: a tentação bolivariana de Dilma



O PT conseguiu quatro mandatos com a Constituição que aí está. Ficará, se Dilma conseguir encerrar o próximo período, 16 anos no poder. E se prepara, um tanto alheio à realidade, para fazer uma reforma que busque eternizá-lo no poder. Não vai conseguir.

Mesmo com o país dividido, mesmo tendo obtido apenas 38% dos votos, com uma abstenção recorde; mesmo estando quase exilado às faixas de renda do país hoje mais dependentes dos benefícios estatais, os petistas se acham na condição de liderar uma reforma política contra o Congresso. Que os peemedebistas não duvidem um só segundo: o partido, embora o principal aliado do petismo, é o principal alvo das tentações totalitárias dos companheiros.

Em seu discurso, Dilma afirmou que pretende encaminhar a reforma política via plebiscito, que é como colocar o carro adiante dos bois; que é como fazer o rabo abanar o cachorro. Repetiu a sua intenção nas duas entrevistas concedidas até agora. No seu modelo ideal, fazem-se um plebiscito e uma constituinte exclusiva para a reforma. Em favor da tese, alega ter recebido uma petição de movimentos sociais com oito milhões de assinaturas. Ocorre que mais de 80 milhões deixaram de votar na represidenta. Perceberam a desproporção?

Fazer uma constituinte exclusiva corresponde a montar uma assembleia só com a finalidade de fazer a reforma, que será, obviamente, distorcida pelos ditos movimentos sociais, que nada mais são do que braços do PT. Pior: se os constituintes podem elaborar o texto e ir para casa, não terão compromisso nenhum com os seus efeitos.

É claro que, desse processo, resultaria um modelo tendente a fortalecer os fortes e a enfraquecer os fracos. O partido quer, por exemplo, financiamento público de campanha. Ora, como seria distribuído esse dinheiro? Teria de obedecer necessariamente aos votos obtidos na eleição anterior. Vale dizer: quem hoje dispõe de uma vantagem tenderia a carregá-la para o futuro. O PT tem também especial predileção pelo voto em lista. Quer encher o Congresso com os seus burocratas sem rosto.

Se propostas como essas vencem um plebiscito, os congressistas estariam obrigados a aceitá-las. “Ah, mas se é a vontade da maioria…” Bem, propostas as mais asquerosas e fascistoides podem contar com o apoio da maioria sem que a democracia saia ganhando com isso, não é mesmo? Proponha pena de morte e mutilações para bandidos perigosos, e isso tende a contar com a anuência popular. Quem disse que é bom?

O PMDB resiste à tentação totalitária da senhora Dilma Rousseff e faz muito bem! Até porque a legenda está na mira dos companheiros. Eles sabem que o partido dificilmente deixará de ter um candidato próprio nas próximas eleições.

A única forma decente de conciliar uma participação mais direta com os pressupostos da democracia representativa é fazer a reforma com o auxílio de referendo. Aí, sim: o Congresso vota uma reforma, e a população diz se aceita ou não a mudança.

Fora desse modelo, o que se tem é tentação golpista. O golpismo das urnas, que substituiu os tanques no neoautoritarismo em curso em vários países da América Latina. Dilma que não venha posar de bolivariana. A gente nem sabe se ela termina o mandato, certo? A Venezuela, a Bolívia e o Equador não são aqui.



Por Reinaldo Azevedo