quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Há o risco de uma tempestade perfeita"

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,intelectuais-inorganicos-imp-,1584686Gramsci foi, sem dúvida, uma figura importante do pensamento e da filosofia da
Época entrevista Christopher Garman (Por Guilherme Evelin)

O consultor político vê uma combinação perigosa em 2015: uma presidente politicamente fraca, sem a confiança dos investidores, num cenário externo difícil


A especialidade da consultoria internacional Eurasia, onde o cientista político Christopher Garman trabalha como diretor para mercados emergentes, é antecipar cenários de risco político para seus clientes: instituições financeiras, corporações multinacionais, governos. De Washington, nos Estados Unidos, onde trabalha, Garman vê um campo minado adiante da presidente Dilma Rousseff em seu próximo mandato. Garman tem dupla cidadania, americana e brasileira, fala fluentemente português e vem com frequência ao Brasil, onde morou por muitos anos. Nesta entrevista, analisa o cenário com a reeleição de Dilma, em cuja vitória ele sempre apostou.

ÉPOCA – O que esperar de um segundo governo Dilma?
Christopher Garman – O segundo mandato dela será o oposto do primeiro. O primeiro mandato foi um governo em que a figura dela, politicamente, foi muito forte. Ela fez uma espécie de ativismo industrial, testou os limites da política econômica em favor da indústria. Isso se traduziu em políticas de conteúdo nacional e em políticas setoriais com metas de governo. No segundo mandato, teremos um ambiente econômico mais difícil. Isso empurrará o governo para uma política econômica um pouco mais amigável ao mercado. Dilma será politicamente muito mais fraca.

ÉPOCA – Por que será um governo fraco?
Garman – Ela entrará em seu segundo mandato com uma quebra em seus índices de aprovação. Nos últimos meses, sua aprovação subiu quase 10 pontos percentuais. Mas isso foi puro efeito de campanha. Isso tende a ir embora quando a campanha terminar. Estamos em recessão técnica. Haverá ajustes no mercado de trabalho, e a renda real poderá cair. Se isso ocorrer, a popularidade dela cairá. Mesmo porque ela terá de honrar compromissos com seus aliados, que pressionam por mais gastos. Ela tentará melhorar a gestão macroeconômica, mas essas melhoras não serão fortes o suficiente para superar o deficit de credibilidade do governo. Ela tentará fazer um ajuste fiscal incremental, como o repasse gradual de preços. Num momento em que o contexto internacional econômico piora para o Brasil, isso dificilmente dará ânimo aos investidores privados, de modo a facilitar um ciclo maior de investimentos.

ÉPOCA – O senhor não crê no êxito de um ajuste gradual?
Garman – Entendo o diagnóstico da corrente econômica dela, que argumenta contra ajustes fiscais rigorosos. Dilma diz que, se houver um choque fiscal muito profundo, o quadro de recessão se agravará e impactará a capacidade de arrecadação e a credibilidade na solvência fiscal. O problema dela é subestimar a importância da credibilidade no mercado financeiro, fundamental para promover um ajuste fiscal gradual. Se você minou essa credibilidade, inflou artificialmente suas contas fiscais, e depois anuncia um ajuste gradual, os agentes do mercado não acreditarão. Isso dificulta o trabalho de ancorar as expectativas de inflação e diminuir o custo de endividamento. Até acredito que o novo ministro da Fazenda fará pressão para que os agentes de mercado acreditem num ajuste fiscal gradual. Mas dificilmente será bem-sucedido.

ÉPOCA – Como ela poderia reconquistar essa credibilidade?
Garman – O principal meio seria nomear um ministro da Fazenda com um nome forte no mercado e reputação de responsabilidade fiscal, para tornar o ajuste gradual crível.

ÉPOCA – Entre os nomes cogitados para o Ministério da Fazenda, como Aloizio Mercadante, Luciano Coutinho, Nelson Barbosa, Alexandre Tombini ou Josué Alencar, o senhor vê algum com capital político para angariar essa confiança?
Garman – Há diferenças entre esses nomes. Tanto Nelson Barbosa quanto Luciano Coutinho são nomes com reputação fiscal boa. Mercadante seria visto como uma aposta em dobro do modelo atual. E Josué é uma incógnita, porque ele vem da indústria. Não se sabe se tem uma visão de cenário macroeconômico. Melhorariam a situação atual, mas não atenderiam à expectativa de credibilidade do mercado financeiro, porque seria a escolha de alguém que já está em casa e é ligado à presidente. Isso será entendido como um sinal de que ela continuará a controlar a política econômica, não corresponde a um sentimento de mudança. De qualquer forma, nenhum nome conquistará de imediato a confiança do mercado financeiro. Isso significa que essa confiança deverá ser construída, com o anúncio dos nomes do restante do time do Ministério da Fazenda.

ÉPOCA – O próximo Congresso será mais fragmentado que nunca, com 28 partidos na Câmara dos Deputados. Como ela lidará com essa pulverização no Legislativo?
Garman – Certamente, formar coalizões será mais difícil. Além do problema da queda na popularidade, Dilma terá uma crise política possivelmente “contratada” para 2015, as investigações em torno da Petrobras. É difícil saber como isso se desenrolará. Mas a probabilidade de o tema ganhar fôlego é grande, à medida que depoimentos forem revelados e integrantes do governo e do PT acabarem comprometidos. Será um calcanhar de aquiles, porque ela estará particularmente fraca, num momento de dificuldades econômicas. Estamos também de olho no relacionamento dela com a velha guarda do PT e com Lula.

ÉPOCA – Como deverá ficar a relação de Dilma com Lula?
Garman – É uma relação em que um depende do outro. Tem sido marcada por algumas tensões no meio do caminho. A crise da Petrobras tem o potencial de estremecer a relação entre os dois. Se o escândalo da Petrobras jogar luz sobre integrantes do governo, sua forma de agir será decisiva. Se ela virar as costas para a velha guarda do PT, isso poderá estremecer sua relação com Lula. Será uma situação difícil para ela navegar. Ela terá de lidar com uma crise econômica e com uma crise política capaz de dificultar sua relação com o próprio PT. Em 2005, Lula enfrentou a crise política do mensalão, mas a economia crescia, e ele trouxe para seu lado o PMDB. Hoje, Dilma não conta com isso. Há dois caminhos possíveis nessa investigação do petrolão. Ou o escândalo se aproximará mais dela, ou se aproximará mais de Lula. Tudo dependerá muito desses desdobramentos.

ÉPOCA – Mesmo perdendo, a oposição sai da eleição fortalecida. Como deverá ser seu comportamento?
Garman – A oposição sai desta eleição com uma perspectiva muito forte de vitória em 2018, porque teremos o segundo mandato de uma presidente politicamente fraca, com baixa capacidade de imprimir uma agenda positiva. Temos também de levar em consideração o surgimento de uma segunda oposição, representada por Marina Silva. O fato de ela ter conseguido quase o mesmo número de votos de 2010 é significativo. Se ela conseguir manejar o capital político que conseguiu e deixar de ser uma candidata de protesto para se tornar uma candidata de propostas, ela permanecerá uma força política.

ÉPOCA – O senhor descarta totalmente a hipótese de que Dilma dobre a aposta na política econômica?
Garman – Ela não é totalmente descartada. Mas é improvável. Alguns dizem: se Dilma é reeleita depois do que fez ao longo dos últimos quatro anos, por que mudaria? Falar que ela dobrará a aposta significa dizer que Dilma não se preocupa com inflação. Isso não é verdade. Temos de nos lembrar que a gênese do sucesso econômico do governo Lula foi fazer um ajuste fiscal e domar a inflação. O Planalto pode até aceitar uma inflação entre 6% e 6,5%. Mas fica preocupado quando a coisa passa disso. No ano passado, uma corrente no mercado acreditava que o Banco Central não tinha liberdade de aumentar os juros em dois dígitos. Aumentou. Portanto, à medida que a situação aperta, o governo reage. O que vemos no Palácio do Planalto não é um governo que quer dobrar sua aposta, mas que quer ampliar as concessões e abrir mais espaço para investimentos privados, principalmente nos setores de logística, infraestrutura e energia. A noção de que ela caminhará para uma política como da Argentina ou da Venezuela é pouco provável.

ÉPOCA – O cenário externo complicado para o Brasil também será um constrangimento, não?
Garman – O Brasil terá de lidar, provavelmente, com um aperto monetário do FED (o Banco Central americano), que reduzirá a liquidez nos mercados emergentes, num contexto em que a China terá um crescimento menor, e os preços de commodities estarão em baixa, como já mostra o preço do barril do petróleo. Poderemos ter, em 2015, a combinação de um governo Dilma com baixa credibilidade perante o mercado, pequena sustentação política, um escândalo da Petrobras já “contratado” e um cenário econômico externo complicado. Essa, sim, pode ser uma tempestade perfeita. Não é uma certeza, mas é um risco.práxis (imperativo da atividade humana prática) marxista do início do século
passado, cuja influência se estende até hoje na vida acadêmica, aqui e alhures. Foi
um pensador que ousou apontar erros de Marx em sua visão da História. Não
acreditava em leis históricas inexoráveis que levariam automaticamente a classe
trabalhadora ao poder. Também discordava de Lenin, que via no econômico o
fator determinante da mudança e a cultura como peça ancilar do processo que
levaria ao comunismo na etapa final.
Nessa linha, desenvolveu o famoso conceito de hegemonia orgânica, a ser
construída por intelectuais devidamente treinados oriundos da classe
trabalhadora. O poder da burguesia, segundo ele, não emanava apenas do
dinheiro, mas do poder das ideias embutido na cultura dominante. Não seria
suficiente controlar os instrumentos de poder da sociedade política: a polícia, o
exército, o sistema legal, etc. Era preciso ir além e se assenhorear, primeiro, dos
pilares em que se assenta a sociedade civil: a família, o sistema educacional, os
sindicatos, etc.
A primeira é o reino da força e a segunda, do consentimento. Feita a cabeça da
população, a conquista da sociedade política estaria naturalmente validada. Esse
trabalho de conquistar mentes e corações caberia aos intelectuais, ditos orgânicos
por Gramsci, em contraposição aos tradicionais, que estariam por ora no manejo
dos cordões que perpetuam, via cultura, a manutenção do regime capitalista.
Parece-me que o melhor modo de entender a questão de fundo envolvida nesse
processo é a tese desenvolvida por Hannah Arendt em seu brilhante livro A
Promessa da Política. Ali ela nos fala da ilustre tradição de liberdade política,
nascida com Platão e Aristóteles, de respeito ao outro como Homo politicus. Ela
nos chama a atenção para a praça pública grega, berço da democracia ocidental,
onde as diferentes opiniões eram livremente debatidas e as decisões eram tomadas
pelo voto igualitário dos cidadãos livres.
Também nos relembra a atitude do Império Romano, a despeito da força das
armas, em relação aos povos conquistados. A Pax Romana conseguia abrir espaço
para uma convivência relativamente pacífica, em que a eliminação física dos povos
sob o domínio de Roma nunca se constituiu num objetivo sistemático do império,
salvo em alguns casos excepcionais, como o de Cartago.
Pois bem, essa ilustre tradição da vida política ocidental perdurou por 2 mil anos
até que pensadores como Hegel e Marx abriram as portas, no plano filosófico, para
as trágicas experiências totalitárias que se materializaram com o nazismo e o
comunismo. Em última instância, o que aconteceu é que suprimiram, na prática, o
espaço de manifestação do outro, aquele que discorda de nós. É nessa vertente que

É preciso entender Gramsci para compreender o PT


Lenin queria uma revolução comunista pelas armas, para impor a “ditadura do proletário” (na verdade, da elite em nome do proletário). Mas Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, acreditava que essa tática belicosa não daria certo no Ocidente. Era preciso comer pelas beiradas, dominar a cultura, destruir a democracia de dentro dela.

Muitos repetem hoje a frase do marqueteiro de Bill Clinton, alegando que “é a economia, estúpido”. Mas será que é mesmo? A economia esse ano simplesmente não cresceu nada, e a inflação seguiu em alta. Mesmo assim Dilma venceu. Podemos considerar uma possível fraude e o voto de cabresto, mas mesmo assim ela teve milhões de votos Brasil afora. Por quê?

De forma bem resumida: Gramsci. O empresário Gastão Reis Rodrigues Pereira publicou um excelente artigo hoje, 29, no Estadão resumindo o que pregava o ideólogo comunista. Dá uma boa ideia de como chegamos até aqui. Isso foi abordado em meu livro Esquerda Caviar também, tamanha a importância que dou ao assunto. Segue um trecho:

Onde as ditaduras socialistas não vingaram, restou a opção da tomada de baixo para cima desses veículos. A revolução de Gramsci, o comunista italiano que arquitetou a estratégia de poder por meio da própria democracia, poderia dispensar as armas se fosse bem-sucedida na infiltração em escolas, universidades, redações, igreja e televisão. Sua revolução cultural seria mais silenciosa e, portanto, mais perigosa, pois menos perceptível.

Vale a pena dedicar alguns parágrafos a esta figura sombria, uma vez que as estratégias traçadas em seus Cadernos do cárcere têm tudo a ver com a postura da esquerda caviar atualmente, e com esse viés da imprensa.

Nascido na Itália em 1891, Antônio Gramsci foi um marxista intelectual membro do Partido Socialista Italiano. Gramsci era um simpatizante da revolução bolchevique de 1917, e foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Preso pelo regime fascista de Mussolini, começou a escrever notas na prisão.

O tema central de seus escritos consistiria na formulação de uma estratégia de tomada do poder, distinta do modelo leninista. Para Gramsci, o “assalto ao poder” de Lênin não seria o método adequado nos países ocidentais. A estratégia gramscista de transição para o socialismo contaria com aspectos mais graduais, infiltrando-se e influindo na cultura, e alterando-a para permitir a conquista final do poder pelas classes subalternas. Esta tem sido a receita praticada na América Latina nas últimas décadas, com resultados claramente positivos do ponto de vista dos marxistas.

O general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, já falecido, escreveu o livro A revolução gramscista no ocidente, que faz um didático resumo da concepção revolucionária de Gramsci. Nela, o grupo dirigente seria justamente aquele que tem a hegemonia, ou seja, “que tem capacidade de influir e de orientar a ação política, sem uso da coerção”. O que torna a estratégia gramscista tão perigosa é exatamente o fato de trabalhar por apodrecer os pilares democráticos de dentro da própria democracia, subvertendo seus valores e corroendo esses fundamentos.

Os gramscistas falam em “democracia radical” ou “radicalismo democrático” para se referir a tal modelo. Essa deturpação da ideia de democracia é útil para a causa socialista, pois permite que se fale em “socialismo democrático”, distanciando-se, no imaginário popular, do regime ditatorial adotado na União Soviética. Isso garante o respaldo de legalidade, evitando assim eventuais resistências e reações da sociedade.

Na estratégia gramscista, o papel dos intelectuais orgânicos é crucial. O novo intelectual não é apenas um orador eloquente, mas um dirigente que orienta, influencia e conscientiza as massas. O grupo de luta deve também batalhar pela assimilação e conquista ideológica dos intelectuais tradicionais. Estes terão participação consciente ou inconsciente, podendo assumir o papel de intelectual orgânico por convencimento e adesão, ou por ingenuidade, acomodação ou até capitulação.

Para Gramsci, todos os membros do partido, em todos os níveis, são intelectuais. Devem realizar na sociedade civil uma profunda transformação política e cultural, “amestrando” as classes burguesas também, levando-as a aceitar as mudanças intelectuais e morais como parte de uma natural e moderna evolução. Para tanto, contam com o apoio dos organismos privados, como sindicatos e organizações não-governamentais. E da imprensa, claro.


Portanto, caros leitores, se desejamos nos livrar de vez do PT e do bolivarianismo – e toda gente decente deseja isso – será preciso lutar no campo cultural. Sem mudar a mentalidade das pessoas e sem impedir o avanço dos “intelectuais orgânicos”, essa cambada de doutrinadores que desde a escola já manipula as frágeis cabeças das crianças, não será possível superar e enterrar essa seita esquerdista, colocando-a em seu devido lugar, que é o lixo da história.



Rodrigo Constantino

Reforma política: a tentação bolivariana de Dilma



O PT conseguiu quatro mandatos com a Constituição que aí está. Ficará, se Dilma conseguir encerrar o próximo período, 16 anos no poder. E se prepara, um tanto alheio à realidade, para fazer uma reforma que busque eternizá-lo no poder. Não vai conseguir.

Mesmo com o país dividido, mesmo tendo obtido apenas 38% dos votos, com uma abstenção recorde; mesmo estando quase exilado às faixas de renda do país hoje mais dependentes dos benefícios estatais, os petistas se acham na condição de liderar uma reforma política contra o Congresso. Que os peemedebistas não duvidem um só segundo: o partido, embora o principal aliado do petismo, é o principal alvo das tentações totalitárias dos companheiros.

Em seu discurso, Dilma afirmou que pretende encaminhar a reforma política via plebiscito, que é como colocar o carro adiante dos bois; que é como fazer o rabo abanar o cachorro. Repetiu a sua intenção nas duas entrevistas concedidas até agora. No seu modelo ideal, fazem-se um plebiscito e uma constituinte exclusiva para a reforma. Em favor da tese, alega ter recebido uma petição de movimentos sociais com oito milhões de assinaturas. Ocorre que mais de 80 milhões deixaram de votar na represidenta. Perceberam a desproporção?

Fazer uma constituinte exclusiva corresponde a montar uma assembleia só com a finalidade de fazer a reforma, que será, obviamente, distorcida pelos ditos movimentos sociais, que nada mais são do que braços do PT. Pior: se os constituintes podem elaborar o texto e ir para casa, não terão compromisso nenhum com os seus efeitos.

É claro que, desse processo, resultaria um modelo tendente a fortalecer os fortes e a enfraquecer os fracos. O partido quer, por exemplo, financiamento público de campanha. Ora, como seria distribuído esse dinheiro? Teria de obedecer necessariamente aos votos obtidos na eleição anterior. Vale dizer: quem hoje dispõe de uma vantagem tenderia a carregá-la para o futuro. O PT tem também especial predileção pelo voto em lista. Quer encher o Congresso com os seus burocratas sem rosto.

Se propostas como essas vencem um plebiscito, os congressistas estariam obrigados a aceitá-las. “Ah, mas se é a vontade da maioria…” Bem, propostas as mais asquerosas e fascistoides podem contar com o apoio da maioria sem que a democracia saia ganhando com isso, não é mesmo? Proponha pena de morte e mutilações para bandidos perigosos, e isso tende a contar com a anuência popular. Quem disse que é bom?

O PMDB resiste à tentação totalitária da senhora Dilma Rousseff e faz muito bem! Até porque a legenda está na mira dos companheiros. Eles sabem que o partido dificilmente deixará de ter um candidato próprio nas próximas eleições.

A única forma decente de conciliar uma participação mais direta com os pressupostos da democracia representativa é fazer a reforma com o auxílio de referendo. Aí, sim: o Congresso vota uma reforma, e a população diz se aceita ou não a mudança.

Fora desse modelo, o que se tem é tentação golpista. O golpismo das urnas, que substituiu os tanques no neoautoritarismo em curso em vários países da América Latina. Dilma que não venha posar de bolivariana. A gente nem sabe se ela termina o mandato, certo? A Venezuela, a Bolívia e o Equador não são aqui.



Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 28 de outubro de 2014

''Lula, o filho do Brasil''

Um ensaio crítico a partir do trinômio criação-queda-redenção do messianismo lulo-petista presente no filme de Fábio Barreto


Lula, o filho do Brasil, é um filme de 2009 produzido e dirigido por Fábio Barreto tendo como base o livro homônimo de Denise Paraná,1 editado em 2003 pela Fundação Perseu Abramo. Em princípio, o livro de Paraná foi sua tese de doutorado escrita em 1995, na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

O filme, diferentemente do livro, foi produzido e lançado (pré-estreia e sessões especiais) em um período de transição no governo brasileiro. Após dois mandatos, Luiz Inácio estava prestes a deixar presidência da república tendo todo o seu apoio colocado sobre a candidata Dilma Rousseff. Muitos críticos tomaram o lançamento do filme como uma jogada política. Segundo reportagem do Jornal Zero Hora de 13 de janeiro de 2010, houve certa expectativa por parte dos governistas de que o filme Lula, o filho do Brasil, ajudasse a fortalecer a campanha de Dilma Rousseff à presidência. Com os números de plateia bem abaixo do esperado por causa da pré-estreia em novembro de 2009 e as várias sessões antes do lançamento comercial em janeiro de 2010, Pedro Butcher destacou que as críticas ao filme foram muito negativas, tendo em vista o forte caráter eleitoreiro no entorno da obra.

A seguir, faço uma síntese da vida de Luiz Inácio baseada no filme que conta sua história,ao mesmo tempo que, apresento como o trinômio criação-queda-redenção acompanha a cosmovisão lulopetistapresente na obra e na esperança de boa parte dos brasileiros.

Síntese e cosmovisão subjacente ao filme Lula, o filho do Brasil
O filme começa sob uma perspectiva de miséria, carência e desesperança— características de muitas áreas do Brasil. Luiz Inácio da Silva nasceu em Caetés, Pernambuco, no dia 27 de outubro de 1945. O início do filme retrata todo o cenário de sofrimento, excesso de trabalho, falta de estrutura e infraestrutura presentes naquela região. Em meio a muitos gemidos e sofrimento, as crianças são apresentadas em um cenário sub-humano.

Logo após tais cenas, junto de sua mãe, Luiz Inácio e seus irmãos vão para São Paulo depois de uma controvertida carta escrita por seu irmão mais velho. No caminho, o cenário supervaloriza o choro, a morte de animais e de passageiros do caminhão que os leva para São Paulo. É enfatizada a gravidez precoce, a pobreza, a falta de trabalho, de educação e de vida. Após treze dias de viagem em cima do caminhão, chegam a Santos-SP.

O primeiro ponto que considero significativo quanto à cosmovisão da autora, é seu compromisso para mostrar Luiz Inácio da Silva como uma espécie de messias dentro de um contexto de caos quase absoluto, do qual ele emerge.

O cenário de morte e caos, presente em cenários dos quais emergem os “messias”da humanidade, está presente fortemente no início do filme. Muito choro, animais mortos, uma criança morta no caminhão , entre outras cenas já mencionadas acima, dão o pano de fundo de onde Luiz Inácio surgiria.

Lula, o Filho do Brasil, é uma obra muito consistente com a aparente cosmovisão existencialista e ateísta da autora, Denise Paraná. Desde o início, transparece a compreensão de que não há providência divina, mas fatos históricos que acontecem livremente, de acordo com o arbítrio dos homens e do contexto em que vivem.

Desde pequeno, Luiz Inácio é apresentado como um bom menino: educado e trabalhador, no ofício de engraxate. Seu pai, um homem rude, o priva de brincadeiras para que, desde cedo, trabalhe.

Numa fatídica situação em que Luiz Inácio aparece cercado de uma aura de grande sabedoria e coragem precoces, ele se apresenta como um salvador de sua própria família. A cena é a seguinte –primeiramente, seus irmãos mais velhos começam a apanhar do pai embriagado. Em seguida, o pai passa a bater em dona Lindu, mãe de Luiz Inácio. Nesse momento, mesmo bem pequeno, Luiz Inácio aparece para defender sua mãe, e acaba levando uma tapa de seu pai. A cena termina com Luiz Inácio dizendo: “Homem não bate em mulher”.

Como é comum na construção de um homem-messias, Luiz Inácio é retratado desde cedo como alguém que defende os que sofrem. Isso ocorre quando enfrenta seu pai embriagado que batia nos irmãos e na mãe.

Após se mudar para São Paulo, com seus irmãos e mãe, Luiz Inácio passa por momentos de alegria no futebol e no cinema, bem como por situações de grande sofrimento, como a inundação de sua casa em virtude de uma fortíssima chuva. Em meio a tudo isso, Luiz Inácio é levado por sua mãe ao SENAI de São Paulo, onde é inscrito no curso de torneiro mecânico.

Tendo aprendido a profissão, recebe seu certificado de torneiro em 1961. Em 1963, em São Bernardo do Campo, participa (pela primeira vez) de uma greve na empresa em que trabalhava. No filme, Luiz Inácio não éo idealizador, muito menos o incentivador da greve. É mostrado apenas como um espectador daquele horror, cheio de vandalismo e assassinatos hediondos.

Luiz Inácio foge da greve, sendo perseguido por seu irmão Ziza. Após discutir sobre o assassinato de dois colegas de trabalho que, aparentemente, não aderiram à greve, as cenas do filme mudam para um momento de alegria em um bar. Após a noite no bar, Luiz Inácio chega bêbado em casa.

Em primeiro de abril de 1964, o filme retrata como Luiz Inácio passou pelos dias de grande tensão na nação. É em meio a isso que o acidente no torno acontece, no qual perde um dedo de sua mão. Em meio à grande crise de trabalho (e agora sem um dedo), passa a procurar emprego em várias instituições, porém, sem sucesso. Após muito tempo, é empregado em uma metalúrgica.

Depois de uma fase de sofrimento e dor, as cenas mudam, mais uma vez, para momentos de grande alegria, tratando da paixão de Luiz por Lurdes, irmã de um amigo de infância.

Em meio a tudo isso, no meio do filme, Luiz Inácio é convidado a entrar para o Sindicato dos Metalúrgicos, o que aceita depois de relutar bastante. No sindicato, Luiz Inácio se encanta com as propostas e ideais do movimento. Neste período, casa com Lourdes e, após um tempo de alegria e da gravidez de Lourdes, perde, no mesmo dia, seu filho recém-nascido e sua esposa, com hepatite. Neste tempo, Luiz Inácio é eleito diretor do sindicato.

Depois do ano de 1975, intensifica seus discursos e chega à presidência do sindicato, tornando-se muito popular ao apresentar a visão de um novo sindicato. Neste, Luiz Inácio começa a desenvolver suas futuras e reconhecidas habilidades políticas, unindo lados opostos dentro do próprio sindicato. Um de seus chavões é: “Ninguém aqui é de esquerda e nem de direita, mas de suas famílias”.

Em seu talento para articular com lideranças de diversas posições ideológicas, Luiz Inácio é retratado como um líder unificador, à semelhança daqueles que ocupam posições de liderança religiosa, que centralizam, unificam o povo e pregam o que será vivido piamente pelos seguidores. É exatamente este quadro que o filme transmite. É aqui que o Partido dos Trabalhadores é criado, tendo Luiz Inácio como um tipo de redentor de toda a classe operária e trabalhadora.

No fatídico evento com o estádio lotado gritando seu apelido, futuramente ligado ao seu próprio nome, uma multidão de dezenas de milhares de pessoas o toma nos braços e o carrega sobre o povo. Luiz Inácio se torna uma figura unificadora. Suas palavras tornam-se um guia para os trabalhadores com ele envolvidos.

Após forte opressão militar que interditou o estádio em que se reuniam, Luiz Inácio encerra a greve, atraindo o descontentamento de seus companheiros. Neste momento, eles começam a se reunir em igrejas. E é dentro de uma igreja que Luiz Inácio faz um de seus discursos mais emocionados, quando recebe o apoio que havia, praticamente, perdido quando decidiu encerrar a greve.

Toda a áurea de religiosidade envolvida no lulopetismo, termo cunhado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, articulista da Revista VEJA, fica clara na aparição e prédica de Luiz Inácio dentro de uma igreja acerca dos valores pelos quais ficaria conhecido na política nacional. Nesta prédica, emocionada e ovacionada pela multidão que o ouvia, Luiz Inácio é tratado pela autora como um verdadeiro messias, preenchendo as esperanças e expectativas de seu povo.

Nesse período, Luiz Inácio é preso e levado ao DOPS, em São Paulo. Após 31 dias, durante os quais sua mãe falece, Luiz Inácio é solto. O filme termina com um breve relato das últimas três décadas na vida de Luiz Inácio da Silva. Relata que, de 1989 a 1998, Luiz Inácio foi candidato à presidência da república por três vezes, não sendo eleito em nenhuma das três. Todavia, no dia primeiro de janeiro de 2003, Luiz Inácio, após eleito, é empossado Presidente da República Federativa do Brasil. O filme termina com Luiz Inácio dedicando o diploma de presidente da república à sua mãe, Dona Lindu.

Tanto o livro quanto o filme retratam bem o espírito de seu tempo. Numa época extremamente pessimista quanto aos rumos da política nacional, em que grande parcela da sociedade cria seus próprios ídolos fora da arena política, como fuga da realidade, Luiz Inácio surge como a única esperança para esta grande parcela da sociedade.

Na ausência de um verdadeiro Messias, eles criam um messias à imagem e semelhança do próprio povo; na ausência de um Redentor, criam alguém que os redima e salve da situação em que vivem. Luiz Inácio é fruto da expectativa do coração do homem sem Deus, sem esperança e sem vida.

Luiz Inácio, voluntária ou involuntariamente, torna-se o ídolo desta geração que, com ele, alcançou um pouco mais de confortos materiais; contudo, sem a verdadeira salvação e paz que advém do único Messias— ainda desconhecido por muitos que depositam na centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda—toda sua esperança de mudança para nossa nação.

O filme retrata verdadeiramente o cenário de caos presente em muitas regiões do Brasil e a dura peregrinação de muitos nordestinos ao sudeste em busca de novas oportunidades de trabalho, comida e habitação. Retrata, igualmente, os anseios do coração humano em busca de esperança e redenção.

Tudo isso é apenas uma constatação daquilo que as Escrituras compreendem no trinômio Criação-Queda-Redenção. Como seres que aguardam sua redenção, homens e mulheres vivenciam este anseio sem saber ou reconhecer que só há um que pode cumprir o papel de Redentor.

Respostas críticas e cristãs ao filme Lula, o filho do Brasil
Lula, o Filho do Brasil,carece de informações que, uma vez percebidas, eliminariam a exposição do caráter messiânico exposto sobre Luiz Inácio. As Escrituras Sagradas relatam a trajetória humana sobre estas três bases: Criação, Queda e Redenção. Em um estado de perfeição —como o que houve antes da Queda — há um governo perfeito, um trabalho prazeroso, justo e sem sofrimento, há saúde, vida e paz. Tudo isso foi perdido com a Queda.

Desde então, os seres humanos têm criado seus ídolos que possam redimi-los desta escravidão à qual o pecado os trouxe. Buscam ídolos que possam livrá-los do governo corrupto, do trabalho injusto, da insegurança e da enfermidade. Contudo, toda e qualquer materialização da Redenção na figura de um homem ou mulher igualmente afetado pela Queda é em vão. É por isso que Luiz Inácio, ao final de seu mandato, contava com uma parcela da população brasileira, ainda que pequena, descontente com seu governo. Muitos frustrados com suas escolhas e omissões.

O lulopetismo foi uma completa frustração para aqueles que esperavam dele certa redenção de características “opressivas” do capitalismo ocidental do século XX (segundo o discurso deles próprios). Esta frustração foi evidenciada na dificuldade que o Partido dos Trabalhadores teve para eleger uma presidente que sucedesse Luiz Inácio.

O lulopetismo não respondeu, nem poderá responder aos anseios mais profundos do coração do homem. Poderá, como o fez, prover e alimentar certos ídolos igualmente presentes e compartilhados pela sociedade brasileira de menor renda. Contudo, será uma mera distração.

Além disso, as Escrituras Sagradas apresentam um aspecto redentivo que vai além das esferas das necessidades mais básicas dos seres humanos. O propósito de Deus dentro da Redenção da humanidade transcende os aspectos meramente humanos (relacionados ao coração) e atinge todo o cosmos. As Escrituras dizem que o verdadeiro Redentor, em sua redenção, alcançará redentivamente toda a criação (visível e invisível) que, de acordo com a Epístola de Paulo aos Romanos 8.22-23, aguarda com gemidos a completa Redenção.

Nenhum homem pode oferecê-la, pois é, igualmente, por ela necessitado. Toda tentativa de colocar em uma pessoa a esperança de “salvador da pátria” reflete o estado da alma daquele que construiu tal expectativa. É possível que a tese, o livro e, indiretamente, o filme, sejam resultados dos anseios do coração da autora da biografia (e inspiradora do filme), e que não é diferente dos anseios do coração de tantos brasileiros que seguem depositando no lulopetismo, nos ideais da esquerda, do governo de forma geral, no emprego, no dinheiro, enfim, em tudo que não seja o Redentor, sua esperança.

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1PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil (São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003).


Fontes bibliográficas
BARRIONUEVO, Alexei. “New Film May Sway Brazil’s Vote on President”, em The New York Times, acesso em 2 de setembro de 2011.
NOBLAT, Ricardo. “Lula, o filho ‘perfeito’ do Brasil?”, em O Globo. Acesso em 2 de setembro de 2011: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/18/lula-filho-perfeito-do-brasil-242184.asp.
NOBLAT, Ricardo. “Suspeitas pairam sobre os patrocinadores do filme”, em O Globo, acesso em 2 de setembro de 2011: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/25/oposicao-contra-lula-filho-do-brasil-244493.asp.
PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003.
PARANÁ, Denise. A História de Lula, o filho do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009.
SILVA, Lurian C. Lula da.“Letter: A Film Portrayal of Lula, My Dad”, em The New York Times, acesso em 2 de setembro de 2011:http://www.nytimes.com/2010/01/27/opinion/lweb27lula.html?scp=1&sq=Lurian%20Cordeiro%20&st=cse.





Por Wilson Porte Jr.

Corrupção: aspectos sociais, bíblicos e teológicos



No Brasil, até um tempo atrás, corrupção era vista como coisa normal; não havia tanta tensão sobre o assunto. Alguns aceitavam de forma pragmática; o suborno sendo visto como um pouco mais do que 'um jeito diferente de fazer negócios'. Outros apenas faziam 'vista grossa'.

Existe, é verdade, essa cultura do 'jeitinho', da 'malandragem' como parte da maneira de ser do brasileiro, quase que uma 'exaltação' dessa habilidade da nossa gente de encontrar formas 'criativas' para resolver problemas. A corrupção, como ela se manifesta em nosso país, entra também por meio dessa 'validação cultural' e quase que 'institucionaliza' a sua prática.

Com o desenvolvimento econômico do país, a indignação contra a corrupção, de alguma forma, se dilui.

Alexandro Salas, diretor para as Américas da Transparência Internacional diz o seguinte:

"Quando um país começa a ter uma economia mais sólida, é mais fácil ver um cidadão comum perdoando atos corruptos, porque ele não faz um vínculo direto de como a corrupção o afeta. Se agora ele tem um bom trabalho, um carro e se o ministro rouba, ele fica irritado, claro, mas acha que isso não o atinge diretamente."

No ranking de Percepção da Corrupção da ONG em 2011, o Brasil ocupou a 73ª posição, entre 183 países. Já no que lista o grau de proprinas pagas, o país ficou no 14º lugar - foram 28 países analisados.

O Promotor de Justiça Jairo da Cruz Moreira aponta os dez atos de corrupção mais presentes no dia a dia do cidadão comum:
- Não dar nota fiscal
- Não declarar Imposto de Renda
- Tentar subornar o guarda para evitar multas
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado
- Roubar TV a cabo
- Furar fila
- Comprar produtos falsificados
- No trabalho, bater ponto pelo colega
- Falsificar assinaturas


"Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções", afirma o promotor. "Seguindo esse raciocínio, seria algo como um menino que hoje não vê problema em colar na prova ser mais propenso a, mais pra frente, subornar um guarda sem achar que isso é corrupção."

O antropólogo Roberto DaMatta defende que essa prática sistêmica é uma forte razão pela qual o brasileiro é complacente com a corrupção na política, por exemplo. Nas palavras dele, 'uma sociedade de rabo preso não pode ser uma sociedade de protesto'.

O ex-secretário geral da Nações Unidas, Kofi Annan, certa vez disse:

"A corrupção é uma praga insidiosa que tem um largo espectro de efeitos corrosivos nas sociedades. Ela sabota a democracia e o texto da lei, leva a violações dos direitos humanos, distorce os mercados, corrói a qualidade de vida e facilita o crime organizado, terrorismo e outras ameaças ao florescimento da segurança da humanidade. A corrupção fere o pobre desproporcionalmente através dos desvios de fundos que deveriam ir para o desenvolvimento, compromete a habilidade do governo em prover serviços básicos, alimenta a desigualdade e a injustiça, além de desencorajar a ajuda e o investimento externo. Corrupção é o elemento chave no mau desempenhos das economias e o principal obstáculo ao desenvolvimento e ao combate à pobreza". (Kofi Anan)

Chico Buarque escreveu uma 'letra' em que homenageia o malandro às avessas; aquele que tem família, trabalha, que deixou a criminalidade. Penso que ela retrata bem essa mudança na maneira de enxergar o questão da corrupção no contexto brasileiro, apontando que há algo problemático com essa 'ética do jeitinho'.

Homenagem ao Malandro (Chico Buarque)

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central



De que corrupção nós estamos falando?

A Bíblia trata do tema da corrupção da raça humana e do plano redentor de Deus, do Gênesis ao Apocalipse; a corrupção lato sensu (o pecado, de uma forma geral), que se desdobra em corrupções strito sensu (manifestações específicas da rebelião humana).

Nosso foco é na corrupção como ferramenta de opressão econômica, afronta ao pobre; a negação do acesso do outro aos direitos básicos pela malversação de dinheiro público, pagamentos de propinas, superfaturamentos, etc...

Bryan R. Evans, da Tearfund, em sua livro 'O custo da corrupção', circunscreve o entendimento de corrupção à fraude, apropriação indébita e suborno que podem ocorrer através do abuso de poder, formação de cartel ou negócios escusos/nebulosos; além disso ele categoriza a corrupção em três tipos: a incidental, a sistemática e a sistêmica.

O fato é que 'corrupção' andará sempre de mãos dadas com a pobreza e, por esse motivo, ela é uma questão de ordem moral e de direitos humanos.
Vejamos alguns efeitos práticos da corrupção: o alto custo do acesso aos serviços de saúde e educação; padrões de saúde e segurança públicas precárias, riscos ambientais, violação dos direitos humanos, precariedade do acesso à justiça. Além das mulheres e das crianças, os portadores de deficiência, pessoas com vírus HIV, idosos e os refugiados estão entre os que mais sofrem as consequências da corrupção.

O que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto? E, ao refletirmos sobre e as Escrituras, o que se espera que seja a nossa práxis como igreja de Cristo.

"E criou Deus o homem à Sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gn 1:27)

"E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto" (Gn 1:31)


A desobediência da criatura humana abre as portas para toda a cultura de violência e morte que vai descaracterizar a imagem de Deus no homem.

"A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra." (Gn 6:11-12)

A corrupção, como a conhecemos e a tratamos hoje, é talvez a violência em sua forma mais cruel. Não é possível dissociarmos a ideia de corrupção daquilo que entendemos como violência à dignidade humana, seja pela precarização dos serviços públicos, seja pela facilitação do crime ou pelo aumento da miséria.

A corrupção aflige a terra desde a Queda. Não é surpresa, portanto, que muitos a vejam como algo normal, inevitável; um mal necessário na condução dos negócios e a forma como o rico e o poderoso levam sempre vantagem sobre o pobre e o fraco.

Porém as Escrituras deixam claro que a corrupção é uma injustiça e, mais do que isso, elas nos chamam a um posicionamento contra a corrupção.
O relato de corrupção, propina ou suborno mais conhecido da história está na Bíblia. Foram as 30 moedas de prata dadas pelos sacerdotes judeus a Judas Iscariotes para que ele os levassem até o Jardim do Getsemani, onde Jesus e os discípulos passavam a noite. Lá Judas mostrou a eles através do beijo da traição quem era Jesus. Judas era ganancioso e o dinheiro significava para ele, muito mais do que lealdade ou amor. Ele foi motivado por ganância e ganho pessoal. Quando ele se deu conta do mal feito e das consequências da sua traição, jogou as moedas no pátio do templo e cometeu suicídio (Mt 26 e 27; Mc 14; Lc 22).

Corrupção em forma de propina ou suborno é condenada ao longo de toda a Escritura Sagrada.
Samuel foi o primeiro dos profetas do Antigo Testamento e um grande líder em Israel. Porém, mais tarde em sua vida, em sua casa, ele acusou os seus filhos de não andarem em seus caminhos. Foram avarentos, aceitaram subornos, torceram a lei (I Sm8:3). A distorção da justiça é uma das piores consequências do suborno porque permite que o rico explore o pobre. Na despedida que Samuel fez junto ao seu povo na coroação do rei Saul, ele perguntou: "...diga-me de quem recebi suborno e com ele encobri meus olhos, e eu vo-lo restituirei?" (I Sm 12:3). Ele teve uma vida exemplar e a multidão não hesitou em responder: "em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem recebeste coisa alguma da mão de ninguém." (I Sm 12:4)

Davi, rei de Israel, fez uma pergunta retórica no Salmo 24: "Quem subirá ao monte do Senhor ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração. Que não entrega a sua alma à vaidade e nem jura enganosamente." No Salmo 26, porém, ele apresenta o homem que tem a mão direita cheia de subornos em contraste com o outro homem do Salmo 15:5 que "não empresta o seu dinheiro visando lucro e nem aceita suborno contra o inocente."

O profeta Isaías elogia "...aquele cuja mão não aceita suborno." (Is 33:15). E o profeta Amós denuncia "vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais." (Amós 5:12)

Em seu artigo 'O que a Bíblia diz sobre corrupção', Hermes C. Fernandes apresenta textos bíblicos categorizados em modos distintos de fraude financeira nas esferas pública e privada, mostrando a corrupção como algo inaceitável diante de Deus:

Advertência contra a corrupção no funcionalismo público

"Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado". Lucas 3:12-13

Advertência contra a corrupção policial

"Então uns soldados o interrogaram: E nós, o que faremos? Ele lhes disse: A ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo". Lucas 3:14

Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário

"Não torcerás a justiça, nem farás acepção de pessoas. Não tomarás subornos, pois o soborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. Segue a justiça, e só a justiça, para que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te dá". Deuteronômio 16:19-20
"Também suborno não aceitarás, pois o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos".Êxodo 23:8
"O ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça". Provérbios 17:23
"Ai dos que...justificam o ímpio por suborno, e ao justo negam justiça". Isaías 5:22a,23
"Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas". Salmos 82:2-5a
"Não farás injustiça no juízo; não favorecerás ao pobre, nem serás complacente com o poderoso, mas com justiça julgarás o teu próximo". Levítico 19:15

Independência entre os poderes

"Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores". Miquéias7:2-3

Advertência contra a corrupção no Poder Executivo

"Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas". Isaías 1:23
"Pela justiça o rei estabelece a terra, mas o amigo de subornos a transtorna"
. Provérbios 29:4
"Abominação é para os reis o praticarem a impiedade, pois com justiça se estabelece o trono". Provérbios 16:12

Advertência acerca dos assessores corruptos

"Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça". Provérbios 25:5

Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo

"Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas, e roubando os órfãos! Mas que fareis no dia da visitação, e da assolação, que há de vir de longe? A quem recorrereis para obter socorro, e onde deixareis a vossa glória, sem que cada um se abata entre os presos, e caia entre os mortos?" Isaías 10:1-4

Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial

"No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes..." Ezequiel 22:12-13a
"Melhor é o pouco, com justiça, do que grandes rendas, com injustiça". Provérbios 16:8
"O que oprime ao pobre para aumentar o seu lucro, ou o que dá ao rico, certamente empobrecerá"
. Provérbios 22:16

Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro

"O que aumenta a sua fazenda com juros e usura, ajunta-a para o que se compadece do pobre". Provérbios 28:8
"Sendo o homem justo, e fazendo juízo e justiça (...) não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor o seu penhor, não roubando, dando o seu pão ao faminto, e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, e guardando os meus juízos, para proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá, diz o Senhor Deus". Ezequiel 18:5,7-9
"Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre, que está contigo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros". Êxodo 22:25
"Aos retos até das trevas nasce a luz, pois é compassivo, compassivo e justo. Bem irá ao que se compadece e empresta, que conduz os seus negócios com justiça. (...) É liberal, dá aos pobres, a sua retidão permanece para sempre; a sua força se exaltará em glória". Salmos 112:4-5,9

Advertência acerca dos Direitos trabalhistas

"Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando contendiam comigo, então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia?" Jó 31:13-14
"Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos". Malaquias 3:5
"Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e eqüidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus". Colossenses 4:1
"Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte". Levítico 19:13

Advertência contra lucros desonestos

"O mercador tem balança enganadora em sua mão; ele ama a opressão". Oséias 12:7
"Não terás dois pesos na tua bolsa, um grande e um pequeno. Não terás duas medidas em tua casa, uma grande uma pequena. Terás somente pesos exatos e justos, e medidas exatas e justas, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Pois o Senhor teu Deus abomina todo aquele que pratica tal injustiça". Deuteronômio 25:13-16

"Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer". Provérbios 11:1
"O peso e a balança justos são do Senhor; obra sua são todos os pesos da bolsa". Provérbios 16:11
"Poderei eu inocentar balanças falsas, com um saco de pesos enganosos?" Miquéias 6:11
"Não cometereis injustiça nos julgamentos, nas medidas de comprimento, de peso ou de capacidade. Balanças justas, pesos justos, efa justo, e justo him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito."Levítico 19:35-36.

No primeiro século depois de Cristo, o apóstolo Paulo se recusou pagar suborno ao governador romano Félix. O governador admitiu que Paulo não havia feito nada de errado. Mas ele ainda assim o manteve na prisão porque "esperava que Paulo oferecesse a ele algum dinheiro" (At 24:26). Paulo não pagou o suborno e como resultado ele permaneceu preso. Esse tempo na prisão poderia ser gasto em visitas e encorajamento às igrejas que ele havia fundado ou, quem sabe, fazendo a tão sonhada viagem missionária à Espanha. Porém ele escolheu não pagar essa quantia em dinheiro que poderia ser facilmente arrecadada entre os cristãos ricos. Nenhuma 'justificativa' para o suborno poderia ser maior do que essa que o apóstolo teve; mas ele se recusou a faze-lo. Ao invés de visitar as igrejas, ele escreveu cartas para elas. Cartas que nós lemos hoje. O nosso sofrimento pelo evangelho não se perde dentro da providência divina.

Essas passagens nos mostram que, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o suborno é entendido como um pecado contra Deus. Uma perversão da justiça que permite que o rico explore o pobre; e dentre os pobres, mulheres e crianças são os que mais sofrem. Abusos de poder que só satisfazem a ganância.

A corrupção não é apenas moralmente errada. Ela mina o desenvolvimento econômico, distorce a lisura na tomada de decisões e destrói a coesão social.

A corrupção mata! A corrupção é desonra a Deus e, por isso, é a antítese do amor ao próximo.

No episódio de Caim e Abel, em Gênesis 4, vemos Caim buscando 'comprar' o reconhecimento do Senhor e para tanto, Caim decide tirar a vida do seu irmão. O Senhor Deus questiona a Caim sobre o paradeiro de seu irmão. Caim responde com uma pergunta que tenta justificar a sua independência arrogante: "Acaso sou eu o guardador do meu irmão?" (vs 9). Somos, ou deveríamos ser, os guardadores do nosso próximo; promotores de conciliações, construtores de pontes e não agentes de violência e morte.

Como vimos no texto de Gn 6 "... a terra estava corrompida aos olhos de Deus e cheia de violência."
Considerando que a corrupção, na perspectiva que estamos tratando-a hoje, é um dos maiores, se não o maior, ato de violência direta ou indireta do homem contra o seu semelhante e contra a criação, o que, então, nós, discípulos de Jesus, podemos fazer? Que contribuição podemos dar na luta contra a corrupção?

Considerando que toda lei de Deus converge em Cristo nos conclamando ao amor a Deus e ao próximo (Mt 22:36-38), e ele é a expressão perfeita da vontade do Pai para o homem, penso que o próprio Cristo nos aponta o caminho a seguir.

1. Jesus nos apresenta o modelo da não-violência

Na noite em que foi preso, quando um soldado veio na direção de Jesus, o Mestre advertiu Pedro que já estava pronto pra briga: "Ponha a espada de volta...o que vive pela espada, morrerá por ela" (Mt 26:52). Os valores do reino de Deus são outros. Nosso poder é poder para ser e para servir; não para revidar na mesma moeda. O modelo de combate do cristão não passa pela reprodução da violência.

2. Jesus apresenta a fonte da violência

"E, chamando outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei.
Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem.
Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios,
Os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.
Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem." 
Marcos 7:14-23

Ainda que a violência em forma de corrupção possa ser manifestada através de sistemas, esquemas e estratagemas, sabemos que a fonte será sempre o coração corrupto do homem. E é muito bom entendermos isso porque nos ajuda a colocar as coisas em perspectiva e a compreendermos pelo menos duas coisas:
Primeiro que, potencialmente, todos nós estamos sujeitos à corrupção e precisamos ser cuidadosos em como vivemos a vida.
Segundo, ajuda-nos a entender que a corrupção é uma questão de escolha pessoal, e não o fruto de um sistema sem rosto. Para cada escolha, uma responsabilidade.

3. Jesus nos encoraja a enfrentarmos a violência com bravura

Jesus ensinou que o mundo é um lugar perigoso de se viver. Mas ele desafiou seus seguidores a não terem medo. "Não temam aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma." (Mt10:28)
Ele também disse: "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". João 16:33
Tenham ânimo! A tradução para o inglês é 'sejam bravos!'
Que tipo de bravura é essa que Jesus pede dos seus seguidores?

4. Jesus exige de nós uma resposta à violência

Penso que é no sermão do monte onde vamos encontrar aquilo que Jesus deseja que façamos em relação à corrupção e a qualquer forma de violência. As palavras de Jesus tratam dos desafios da vida real. É quando ele diz: "Felizes os pacificadores pois eles serão chamados filhos de Deus." (Mt 5:9). Fazer a paz dá trabalho, trabalho duro, trabalho frustrante, muitas vezes inconveniente. Felizes aqueles que gastam as suas vidas a serviço da reconciliação e da shalom.

Em seu livro, O Custo do Discipulado, Dietrich Bonhoeffer diz:"Os seguidores de Jesus foram chamados para a paz. Quando ele os chamou, eles encontraram sua paz, porque ele é a sua paz...Mas a eles foi dito que deveriam não apenas ter paz, mas fazer a paz."

John Stott, em seu comentário do sermão do monte diz, "Agora pacificação é uma obra divina. Por paz entenda-se reconciliação, e Deus é o autor de toda paz e reconciliação."

Pacificadores, portanto, são construtores de pontes num mundo de relações corrompidas.
Pacificadores agem em nome de Jesus, na base dos valores do reino de Deus, promovendo diálogos para a reconciliação.
Pacificadores enfrentam a corrupção de forma pacífica, inteligente e criativa, tendo sempre a justiça do Reino como referência para a Shalom.
Pacificadores vão às ruas e clamam pela paz; articulam-se com outros grupos que tenham interesse comum para fazerem trabalho conjunto; promovem campanhas; mobilizam igrejas na ação contra o mal em forma de violência e corrupção;
Pacificadores acompanham as decisões políticas e buscam incidência pública objetivando a implementação de mecanismos de controle social e transparência;
Pacificadores dão voz aos sem-voz.
Pacificadores buscam diálogos possíveis e quando não é possível, falam sozinhos.
Pacificadores são o sal que preserva o mundo da corrupção do mal.
Pacificadores são a luz que traz às claras aquilo que se esconde na escuridão.
Pacificadores bem-aventurados; que têm fome e sede da justiça de Deus.

Corrupção é uma questão de caráter. Não se garante transformação de caráter através de controle social e transparência na administração pública. Caráter, nós sabemos, só quem transforma é Deus.

Há, portanto, dois níveis de ação da igreja nesse terreno.

O primeiro é de fazer um chamado à própria igreja a um posicionamento ético que identifique os frutos de justiça produzidos pela ação do Espírito Santo na vida daqueles que se dizem nova criação. Ou seja, precisamos admitir que somos parte do problema desse país. Uma igreja corrompida e corruptora não tem o que dizer em matéria de ética na governança pública.

O outro nível de ação nos move na direção de uma maior incidência pública para a garantia do cumprimento das leis, ou a criação de novas leis, que contribuam para a construção de um ambiente social onde se garanta um mínimo de justiça.

Aqui eu quero citar o Pr Carlos Queiroz, para argumentar em favor de um engajamento da igreja nas questões de justiça e paz no mundo dos homens:

"A justiça de Deus é bem maior que o conceito de justiça do ser humano. É baseada em valores como mansidão, sensibilidade, misericórdia e amor. Mas isso não quer dizer que a justiça de Deus é menor do que o mínimo exigido pela justiça humana, como o direito à habitação, alimentação, saúde, educação, lazer, liberdade de exercer a vocação humana."

"Uma igreja socialmente responsável se utilizará dos instrumentos democráticos para que a sua espiritualidade em missão tenha incidência nas políticas públicas, nos direitos do cidadão e nos testemunhos de boas obras e prática da justiça."

Deus quer vida; a corrupção destrói a vida.
Deus quer justiça; a corrupção oprime o pobre roubando-lhe os direitos.
Deus quer riqueza honesta; a corrupção cria obstáculos ao desempenho econômico.
Deus quer comunidade; a corrupção destrói a confiança e a segurança.
Deus quer dignidade; a corrupção destrói a dignidade e a credibilidade.
Deus quer paz; a corrupção fortalece a violência e os aparatos militares.

A luta contra a corrupção, portanto, faz todo o sentido para aqueles que dizem conhecer o Deus incorruptível e almejam viver para servi-lo, refletindo na vida o Seu caráter santo. A revelação de Deus na Sua Palavra nos confronta, nos transforma e nos move à missão. A missão se dá no solo real de um mundo corrompido e fraturado. Sempre que a igreja busca se envolver na justa causa contra a corrupção estará respondendo à Deus de forma diferente de Caim:
'Eu sei, sim, onde está o meu irmão, porque sou responsável por ele. Sua vida me diz respeito. Como posso servi-lo?'




Por Daniel de A e S Junior

O que a Bíblia diz sobre corrupção




Há quem pense que a corrupção seja um fenômeno recente na sociedade. Se o fosse, não haveria tantas advertências bíblicas contra ela.

“O que anda em justiça, e o que fala com retidão, que arremessa para longe de si o ganho de opressões, e que sacode das suas mãos todo suborno, que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de sangue, e fecha os olhos para não ver o mal; este habitará nas alturas, e as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio. O seu pão lhe será dado, e as suas águas serão certas”. Isaías 33:15-16

“Verdadeiramente a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno corrompe o coração”. Eclesiastes 7:7

Advertência contra a corrupção no funcionalismo público

“Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado”. Lucas 3:12-13

Advertência contra a corrupção policial

“Então uns soldados o interrogaram: E nós, o que faremos? Ele lhes disse: A ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo”.Lucas 3:14

Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário

“Não torcerás a justiça, nem farás acepção de pessoas. Não tomarás subornos, pois o soborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. Segue a justiça, e só a justiça, para que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te dá”.Deuteronômio 16:19-20

“Também suborno não aceitarás, pois o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos”. Êxodo 23:8

“O ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça”.Provérbios 17:23

“Ai dos que...justificam o ímpio por suborno, e ao justo negam justiça”. Isaías 5:22a,23

“Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas”. Salmos 82:2-5a

“Não farás injustiça no juízo; não favorecerás ao pobre, nem serás complacente com o poderoso, mas com justiça julgarás o teu próximo”. Levítico 19:15

Independência entre os poderes

“Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores”.
Miquéias 7:2-3

Advertência contra a corrupção no Poder Executivo

“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas”. Isaías 1:23

“Pela justiça o rei estabelece a terra, mas o amigo de subornos a transtorna”.Provérbios 29:4

“Abominação é para os reis o praticarem a impiedade, pois com justiça se estabelece o trono”. Provérbios 16:12

Advertência acerca dos acessores corruptos

“Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça”. Provérbios 25:5

Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo

“Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas, e roubando os órfãos! Mas que fareis no dia da visitação, e da assolação, que há de vir de longe? A quem recorrereis para obter socorro, e onde deixareis a vossa glória, sem que cada um se abata entre os presos, e caia entre os mortos?” Isaías 10:1-4

Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial

“No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes...” Ezequiel 22:12-13a

“Melhor é o pouco, com justiça, do que grandes rendas, com injustiça”. Provérbios 16:8

“O que oprime ao pobre para aumentar o seu lucro, ou o que dá ao rico, certamente empobrecerá”. Provérbios 22:16

Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro

“O que aumenta a sua fazenda com juros e usura, ajunta-a para o que se compadece do pobre”. Provérbios 28:8

“Sendo o homem justo, e fazendo juízo e justiça (...) não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor o seu penhor, não roubando, dando o seu pão ao faminto, e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, e guardando os meus juízos, para proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá, diz o Senhor Deus”. Ezequiel 18:5,7-9

“Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre, que está contigo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros”. Êxodo 22:25

“Aos retos até das trevas nasce a luz, pois é compassivo, compassivo e justo. Bem irá ao que se compadece e empresta, que conduz os seus negócios com justiça. (...) É liberal, dá aos pobres, a sua retidão permanece para sempre; a sua força se exaltará em glória”.
Salmos 112:4-5,9

Advertência acerca dos Direitos trabalhistas

“Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando contendiam comigo, então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia?” Jó 31:13-14

“Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos”. Malaquias 3:5

“Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e eqüidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus”. Colossenses 4:1

“Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte”. Levítico 19:13

Advertência contra lucros desonestos

“O mercador tem balança enganadora em sua mão; ele ama a opressão”. Oséias 12:7

“Não terás dois pesos na tua bolsa, um grande e um pequeno. Não terás duas medidas em tua casa, uma grande uma pequena. Terás somente pesos exatos e justos, e medidas exatas e justas, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Pois o Senhor teu Deus abomina todo aquele que pratica tal injustiça”. Deuteronômio 25:13-16

“Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer”.Provérbios 11:1

“O peso e a balança justos são do Senhor; obra sua são todos os pesos da bolsa”.Provérbios 16:11

“Poderei eu inocentar balanças falsas, com um saco de pesos enganosos?” Miquéias 6:11

“Não cometereis injustiça nos julgamentos, nas medidas de comprimento, de peso ou de capacidade. Balanças justas, pesos justos, efa justo, e justo him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito.” Levítico 19:35-36.

Imagine se nossos políticos e a sociedade tivessem a Bíblia como livro de cabeceira, em vez de "O Príncipe" de Maquiavel. Veriam que a corrupção não compensa.




Por Hermes C. Fernandes

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O efeito Cinderella (na igreja)



Não há consenso sobre a origem do Conto de Fadas mais arrebatador da humanidade: “Cinderella”. A versão mais popular dá conta de que ele é produto do famoso escritor francês Charles Perrault e teria sido escrito em 1697.

Decerto, Cinderella é uma história maravilhosa. De suas muitas nuances, uma me chamou particularmente a atenção nestes dias: a magia que transforma, momentaneamente, a garota rejeitada e descuidada em uma princesa estonteante.

Mas tudo na vida tem um custo... Aquele encantamento, que abria possibilidades e entretecia sonhos, tragicamente, tinha prazo de validade – dia, hora e lugar para acabar. E foi assim que, no bom da festa, Cinderella teve de correr para não se transfigurar na frente de todos e do príncipe, numa “gata borralheira”.

Como pregador e pensador deste tempo, percebo um fenômeno que vem acontecendo entre aqueles que dizem seguir a Jesus e ao Evangelho: o “Efeito Cinderella”. Trata-se de um tipo de prática religiosa que acaba por tornar o sujeito um refém da agenda do sagrado.

O Efeito Cinderella é a crença confinada ao ambiente, a espiritualidade de ocasião que consagra o personagem, a religião com hora marcada. Neste tipo de profissão de fé, o indivíduo pensa e age como crente apenas quando está conectado ao calendário da igreja, num culto, num movimento ou numa vigília de oração. Nestas circunstâncias, muda o olhar, a fala, os gestos, os atos, as convicções. Passa a seguir ritos, acredita em mitos, fala sério, torna-se ético no proceder e ascético quanto ao pecado.

Contudo, findo o “efeito mágico”, alterado o ambiente e as ambiências, a pessoa fica livre para viver conforme sua própria conveniência, entregue a tórridas concupiscências, dessensibilizado de consciência, amargurado de alma e petrificado de coração. No fundo, é como se a fé estivesse condicionada ao acionamento de um botão on/off , que liga e desliga conforme a ocasião e as circunstâncias.

Com tristeza, encontro maridos exemplares no Templo, mas que são adúlteros contumazes no escritório. Vejo gente sincera trabalhando em movimentos, mas mentindo descaradamente na sala de aula, pudica na EBD e depravada na mesa do bar. Para nossa vergonha, é a consagração do estelionato espiritual, a bipolaridade existencial, a dialética religiosa sem síntese, nem tem propósitos, nem se desdobra de forma consequente.

Bem dizia a canção consagrada na voz imortal da Elis Regina: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Sim, “nossos pais” adoravam no Templo, por isso tornamo-nos devotos de espaços pseudo-sacralizados, de geografias espirituais, batemos no peito diante do altar, mas ignoramos o necessitado agonizante em nosso caminho, somos sacerdotes que ofertam o ideal no altar da conveniência.

Mas não esqueçamos que no grande banquete que nos aguarda, onde estaremos diante do Rei, não adiantará encantamentos. Naquele dia, não haverá como esconder a fratura exposta de nossa consciência, atrofiada por práticas refratárias ao amor. Ali, ou você se revestirá de vestes de louvor ou trajará trapos de imundice.

Ainda é tempo de lembrar que Jesus nos desafiou a encarnar um tipo de espiritualidade que se projeta de ambientes para as dinâmicas do cotidiano. “Nem neste Templo e nem no Monte”, disse a Samaritana, mas andando em Espírito e em Verdade! Deus continua buscando gente que não se satisfaça com rotinas religiosas e que não se torne prisioneiro de catedrais. Sim, para estes, Ele ainda continua a dizer: “Vem e Segue-me!”.





Por Carlos Moreira