terça-feira, 28 de outubro de 2014

''Lula, o filho do Brasil''

Um ensaio crítico a partir do trinômio criação-queda-redenção do messianismo lulo-petista presente no filme de Fábio Barreto


Lula, o filho do Brasil, é um filme de 2009 produzido e dirigido por Fábio Barreto tendo como base o livro homônimo de Denise Paraná,1 editado em 2003 pela Fundação Perseu Abramo. Em princípio, o livro de Paraná foi sua tese de doutorado escrita em 1995, na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

O filme, diferentemente do livro, foi produzido e lançado (pré-estreia e sessões especiais) em um período de transição no governo brasileiro. Após dois mandatos, Luiz Inácio estava prestes a deixar presidência da república tendo todo o seu apoio colocado sobre a candidata Dilma Rousseff. Muitos críticos tomaram o lançamento do filme como uma jogada política. Segundo reportagem do Jornal Zero Hora de 13 de janeiro de 2010, houve certa expectativa por parte dos governistas de que o filme Lula, o filho do Brasil, ajudasse a fortalecer a campanha de Dilma Rousseff à presidência. Com os números de plateia bem abaixo do esperado por causa da pré-estreia em novembro de 2009 e as várias sessões antes do lançamento comercial em janeiro de 2010, Pedro Butcher destacou que as críticas ao filme foram muito negativas, tendo em vista o forte caráter eleitoreiro no entorno da obra.

A seguir, faço uma síntese da vida de Luiz Inácio baseada no filme que conta sua história,ao mesmo tempo que, apresento como o trinômio criação-queda-redenção acompanha a cosmovisão lulopetistapresente na obra e na esperança de boa parte dos brasileiros.

Síntese e cosmovisão subjacente ao filme Lula, o filho do Brasil
O filme começa sob uma perspectiva de miséria, carência e desesperança— características de muitas áreas do Brasil. Luiz Inácio da Silva nasceu em Caetés, Pernambuco, no dia 27 de outubro de 1945. O início do filme retrata todo o cenário de sofrimento, excesso de trabalho, falta de estrutura e infraestrutura presentes naquela região. Em meio a muitos gemidos e sofrimento, as crianças são apresentadas em um cenário sub-humano.

Logo após tais cenas, junto de sua mãe, Luiz Inácio e seus irmãos vão para São Paulo depois de uma controvertida carta escrita por seu irmão mais velho. No caminho, o cenário supervaloriza o choro, a morte de animais e de passageiros do caminhão que os leva para São Paulo. É enfatizada a gravidez precoce, a pobreza, a falta de trabalho, de educação e de vida. Após treze dias de viagem em cima do caminhão, chegam a Santos-SP.

O primeiro ponto que considero significativo quanto à cosmovisão da autora, é seu compromisso para mostrar Luiz Inácio da Silva como uma espécie de messias dentro de um contexto de caos quase absoluto, do qual ele emerge.

O cenário de morte e caos, presente em cenários dos quais emergem os “messias”da humanidade, está presente fortemente no início do filme. Muito choro, animais mortos, uma criança morta no caminhão , entre outras cenas já mencionadas acima, dão o pano de fundo de onde Luiz Inácio surgiria.

Lula, o Filho do Brasil, é uma obra muito consistente com a aparente cosmovisão existencialista e ateísta da autora, Denise Paraná. Desde o início, transparece a compreensão de que não há providência divina, mas fatos históricos que acontecem livremente, de acordo com o arbítrio dos homens e do contexto em que vivem.

Desde pequeno, Luiz Inácio é apresentado como um bom menino: educado e trabalhador, no ofício de engraxate. Seu pai, um homem rude, o priva de brincadeiras para que, desde cedo, trabalhe.

Numa fatídica situação em que Luiz Inácio aparece cercado de uma aura de grande sabedoria e coragem precoces, ele se apresenta como um salvador de sua própria família. A cena é a seguinte –primeiramente, seus irmãos mais velhos começam a apanhar do pai embriagado. Em seguida, o pai passa a bater em dona Lindu, mãe de Luiz Inácio. Nesse momento, mesmo bem pequeno, Luiz Inácio aparece para defender sua mãe, e acaba levando uma tapa de seu pai. A cena termina com Luiz Inácio dizendo: “Homem não bate em mulher”.

Como é comum na construção de um homem-messias, Luiz Inácio é retratado desde cedo como alguém que defende os que sofrem. Isso ocorre quando enfrenta seu pai embriagado que batia nos irmãos e na mãe.

Após se mudar para São Paulo, com seus irmãos e mãe, Luiz Inácio passa por momentos de alegria no futebol e no cinema, bem como por situações de grande sofrimento, como a inundação de sua casa em virtude de uma fortíssima chuva. Em meio a tudo isso, Luiz Inácio é levado por sua mãe ao SENAI de São Paulo, onde é inscrito no curso de torneiro mecânico.

Tendo aprendido a profissão, recebe seu certificado de torneiro em 1961. Em 1963, em São Bernardo do Campo, participa (pela primeira vez) de uma greve na empresa em que trabalhava. No filme, Luiz Inácio não éo idealizador, muito menos o incentivador da greve. É mostrado apenas como um espectador daquele horror, cheio de vandalismo e assassinatos hediondos.

Luiz Inácio foge da greve, sendo perseguido por seu irmão Ziza. Após discutir sobre o assassinato de dois colegas de trabalho que, aparentemente, não aderiram à greve, as cenas do filme mudam para um momento de alegria em um bar. Após a noite no bar, Luiz Inácio chega bêbado em casa.

Em primeiro de abril de 1964, o filme retrata como Luiz Inácio passou pelos dias de grande tensão na nação. É em meio a isso que o acidente no torno acontece, no qual perde um dedo de sua mão. Em meio à grande crise de trabalho (e agora sem um dedo), passa a procurar emprego em várias instituições, porém, sem sucesso. Após muito tempo, é empregado em uma metalúrgica.

Depois de uma fase de sofrimento e dor, as cenas mudam, mais uma vez, para momentos de grande alegria, tratando da paixão de Luiz por Lurdes, irmã de um amigo de infância.

Em meio a tudo isso, no meio do filme, Luiz Inácio é convidado a entrar para o Sindicato dos Metalúrgicos, o que aceita depois de relutar bastante. No sindicato, Luiz Inácio se encanta com as propostas e ideais do movimento. Neste período, casa com Lourdes e, após um tempo de alegria e da gravidez de Lourdes, perde, no mesmo dia, seu filho recém-nascido e sua esposa, com hepatite. Neste tempo, Luiz Inácio é eleito diretor do sindicato.

Depois do ano de 1975, intensifica seus discursos e chega à presidência do sindicato, tornando-se muito popular ao apresentar a visão de um novo sindicato. Neste, Luiz Inácio começa a desenvolver suas futuras e reconhecidas habilidades políticas, unindo lados opostos dentro do próprio sindicato. Um de seus chavões é: “Ninguém aqui é de esquerda e nem de direita, mas de suas famílias”.

Em seu talento para articular com lideranças de diversas posições ideológicas, Luiz Inácio é retratado como um líder unificador, à semelhança daqueles que ocupam posições de liderança religiosa, que centralizam, unificam o povo e pregam o que será vivido piamente pelos seguidores. É exatamente este quadro que o filme transmite. É aqui que o Partido dos Trabalhadores é criado, tendo Luiz Inácio como um tipo de redentor de toda a classe operária e trabalhadora.

No fatídico evento com o estádio lotado gritando seu apelido, futuramente ligado ao seu próprio nome, uma multidão de dezenas de milhares de pessoas o toma nos braços e o carrega sobre o povo. Luiz Inácio se torna uma figura unificadora. Suas palavras tornam-se um guia para os trabalhadores com ele envolvidos.

Após forte opressão militar que interditou o estádio em que se reuniam, Luiz Inácio encerra a greve, atraindo o descontentamento de seus companheiros. Neste momento, eles começam a se reunir em igrejas. E é dentro de uma igreja que Luiz Inácio faz um de seus discursos mais emocionados, quando recebe o apoio que havia, praticamente, perdido quando decidiu encerrar a greve.

Toda a áurea de religiosidade envolvida no lulopetismo, termo cunhado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, articulista da Revista VEJA, fica clara na aparição e prédica de Luiz Inácio dentro de uma igreja acerca dos valores pelos quais ficaria conhecido na política nacional. Nesta prédica, emocionada e ovacionada pela multidão que o ouvia, Luiz Inácio é tratado pela autora como um verdadeiro messias, preenchendo as esperanças e expectativas de seu povo.

Nesse período, Luiz Inácio é preso e levado ao DOPS, em São Paulo. Após 31 dias, durante os quais sua mãe falece, Luiz Inácio é solto. O filme termina com um breve relato das últimas três décadas na vida de Luiz Inácio da Silva. Relata que, de 1989 a 1998, Luiz Inácio foi candidato à presidência da república por três vezes, não sendo eleito em nenhuma das três. Todavia, no dia primeiro de janeiro de 2003, Luiz Inácio, após eleito, é empossado Presidente da República Federativa do Brasil. O filme termina com Luiz Inácio dedicando o diploma de presidente da república à sua mãe, Dona Lindu.

Tanto o livro quanto o filme retratam bem o espírito de seu tempo. Numa época extremamente pessimista quanto aos rumos da política nacional, em que grande parcela da sociedade cria seus próprios ídolos fora da arena política, como fuga da realidade, Luiz Inácio surge como a única esperança para esta grande parcela da sociedade.

Na ausência de um verdadeiro Messias, eles criam um messias à imagem e semelhança do próprio povo; na ausência de um Redentor, criam alguém que os redima e salve da situação em que vivem. Luiz Inácio é fruto da expectativa do coração do homem sem Deus, sem esperança e sem vida.

Luiz Inácio, voluntária ou involuntariamente, torna-se o ídolo desta geração que, com ele, alcançou um pouco mais de confortos materiais; contudo, sem a verdadeira salvação e paz que advém do único Messias— ainda desconhecido por muitos que depositam na centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda—toda sua esperança de mudança para nossa nação.

O filme retrata verdadeiramente o cenário de caos presente em muitas regiões do Brasil e a dura peregrinação de muitos nordestinos ao sudeste em busca de novas oportunidades de trabalho, comida e habitação. Retrata, igualmente, os anseios do coração humano em busca de esperança e redenção.

Tudo isso é apenas uma constatação daquilo que as Escrituras compreendem no trinômio Criação-Queda-Redenção. Como seres que aguardam sua redenção, homens e mulheres vivenciam este anseio sem saber ou reconhecer que só há um que pode cumprir o papel de Redentor.

Respostas críticas e cristãs ao filme Lula, o filho do Brasil
Lula, o Filho do Brasil,carece de informações que, uma vez percebidas, eliminariam a exposição do caráter messiânico exposto sobre Luiz Inácio. As Escrituras Sagradas relatam a trajetória humana sobre estas três bases: Criação, Queda e Redenção. Em um estado de perfeição —como o que houve antes da Queda — há um governo perfeito, um trabalho prazeroso, justo e sem sofrimento, há saúde, vida e paz. Tudo isso foi perdido com a Queda.

Desde então, os seres humanos têm criado seus ídolos que possam redimi-los desta escravidão à qual o pecado os trouxe. Buscam ídolos que possam livrá-los do governo corrupto, do trabalho injusto, da insegurança e da enfermidade. Contudo, toda e qualquer materialização da Redenção na figura de um homem ou mulher igualmente afetado pela Queda é em vão. É por isso que Luiz Inácio, ao final de seu mandato, contava com uma parcela da população brasileira, ainda que pequena, descontente com seu governo. Muitos frustrados com suas escolhas e omissões.

O lulopetismo foi uma completa frustração para aqueles que esperavam dele certa redenção de características “opressivas” do capitalismo ocidental do século XX (segundo o discurso deles próprios). Esta frustração foi evidenciada na dificuldade que o Partido dos Trabalhadores teve para eleger uma presidente que sucedesse Luiz Inácio.

O lulopetismo não respondeu, nem poderá responder aos anseios mais profundos do coração do homem. Poderá, como o fez, prover e alimentar certos ídolos igualmente presentes e compartilhados pela sociedade brasileira de menor renda. Contudo, será uma mera distração.

Além disso, as Escrituras Sagradas apresentam um aspecto redentivo que vai além das esferas das necessidades mais básicas dos seres humanos. O propósito de Deus dentro da Redenção da humanidade transcende os aspectos meramente humanos (relacionados ao coração) e atinge todo o cosmos. As Escrituras dizem que o verdadeiro Redentor, em sua redenção, alcançará redentivamente toda a criação (visível e invisível) que, de acordo com a Epístola de Paulo aos Romanos 8.22-23, aguarda com gemidos a completa Redenção.

Nenhum homem pode oferecê-la, pois é, igualmente, por ela necessitado. Toda tentativa de colocar em uma pessoa a esperança de “salvador da pátria” reflete o estado da alma daquele que construiu tal expectativa. É possível que a tese, o livro e, indiretamente, o filme, sejam resultados dos anseios do coração da autora da biografia (e inspiradora do filme), e que não é diferente dos anseios do coração de tantos brasileiros que seguem depositando no lulopetismo, nos ideais da esquerda, do governo de forma geral, no emprego, no dinheiro, enfim, em tudo que não seja o Redentor, sua esperança.

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1PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil (São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003).


Fontes bibliográficas
BARRIONUEVO, Alexei. “New Film May Sway Brazil’s Vote on President”, em The New York Times, acesso em 2 de setembro de 2011.
NOBLAT, Ricardo. “Lula, o filho ‘perfeito’ do Brasil?”, em O Globo. Acesso em 2 de setembro de 2011: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/18/lula-filho-perfeito-do-brasil-242184.asp.
NOBLAT, Ricardo. “Suspeitas pairam sobre os patrocinadores do filme”, em O Globo, acesso em 2 de setembro de 2011: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/25/oposicao-contra-lula-filho-do-brasil-244493.asp.
PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perceu Abramo, 2003.
PARANÁ, Denise. A História de Lula, o filho do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009.
SILVA, Lurian C. Lula da.“Letter: A Film Portrayal of Lula, My Dad”, em The New York Times, acesso em 2 de setembro de 2011:http://www.nytimes.com/2010/01/27/opinion/lweb27lula.html?scp=1&sq=Lurian%20Cordeiro%20&st=cse.





Por Wilson Porte Jr.

Corrupção: aspectos sociais, bíblicos e teológicos



No Brasil, até um tempo atrás, corrupção era vista como coisa normal; não havia tanta tensão sobre o assunto. Alguns aceitavam de forma pragmática; o suborno sendo visto como um pouco mais do que 'um jeito diferente de fazer negócios'. Outros apenas faziam 'vista grossa'.

Existe, é verdade, essa cultura do 'jeitinho', da 'malandragem' como parte da maneira de ser do brasileiro, quase que uma 'exaltação' dessa habilidade da nossa gente de encontrar formas 'criativas' para resolver problemas. A corrupção, como ela se manifesta em nosso país, entra também por meio dessa 'validação cultural' e quase que 'institucionaliza' a sua prática.

Com o desenvolvimento econômico do país, a indignação contra a corrupção, de alguma forma, se dilui.

Alexandro Salas, diretor para as Américas da Transparência Internacional diz o seguinte:

"Quando um país começa a ter uma economia mais sólida, é mais fácil ver um cidadão comum perdoando atos corruptos, porque ele não faz um vínculo direto de como a corrupção o afeta. Se agora ele tem um bom trabalho, um carro e se o ministro rouba, ele fica irritado, claro, mas acha que isso não o atinge diretamente."

No ranking de Percepção da Corrupção da ONG em 2011, o Brasil ocupou a 73ª posição, entre 183 países. Já no que lista o grau de proprinas pagas, o país ficou no 14º lugar - foram 28 países analisados.

O Promotor de Justiça Jairo da Cruz Moreira aponta os dez atos de corrupção mais presentes no dia a dia do cidadão comum:
- Não dar nota fiscal
- Não declarar Imposto de Renda
- Tentar subornar o guarda para evitar multas
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado
- Roubar TV a cabo
- Furar fila
- Comprar produtos falsificados
- No trabalho, bater ponto pelo colega
- Falsificar assinaturas


"Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções", afirma o promotor. "Seguindo esse raciocínio, seria algo como um menino que hoje não vê problema em colar na prova ser mais propenso a, mais pra frente, subornar um guarda sem achar que isso é corrupção."

O antropólogo Roberto DaMatta defende que essa prática sistêmica é uma forte razão pela qual o brasileiro é complacente com a corrupção na política, por exemplo. Nas palavras dele, 'uma sociedade de rabo preso não pode ser uma sociedade de protesto'.

O ex-secretário geral da Nações Unidas, Kofi Annan, certa vez disse:

"A corrupção é uma praga insidiosa que tem um largo espectro de efeitos corrosivos nas sociedades. Ela sabota a democracia e o texto da lei, leva a violações dos direitos humanos, distorce os mercados, corrói a qualidade de vida e facilita o crime organizado, terrorismo e outras ameaças ao florescimento da segurança da humanidade. A corrupção fere o pobre desproporcionalmente através dos desvios de fundos que deveriam ir para o desenvolvimento, compromete a habilidade do governo em prover serviços básicos, alimenta a desigualdade e a injustiça, além de desencorajar a ajuda e o investimento externo. Corrupção é o elemento chave no mau desempenhos das economias e o principal obstáculo ao desenvolvimento e ao combate à pobreza". (Kofi Anan)

Chico Buarque escreveu uma 'letra' em que homenageia o malandro às avessas; aquele que tem família, trabalha, que deixou a criminalidade. Penso que ela retrata bem essa mudança na maneira de enxergar o questão da corrupção no contexto brasileiro, apontando que há algo problemático com essa 'ética do jeitinho'.

Homenagem ao Malandro (Chico Buarque)

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central



De que corrupção nós estamos falando?

A Bíblia trata do tema da corrupção da raça humana e do plano redentor de Deus, do Gênesis ao Apocalipse; a corrupção lato sensu (o pecado, de uma forma geral), que se desdobra em corrupções strito sensu (manifestações específicas da rebelião humana).

Nosso foco é na corrupção como ferramenta de opressão econômica, afronta ao pobre; a negação do acesso do outro aos direitos básicos pela malversação de dinheiro público, pagamentos de propinas, superfaturamentos, etc...

Bryan R. Evans, da Tearfund, em sua livro 'O custo da corrupção', circunscreve o entendimento de corrupção à fraude, apropriação indébita e suborno que podem ocorrer através do abuso de poder, formação de cartel ou negócios escusos/nebulosos; além disso ele categoriza a corrupção em três tipos: a incidental, a sistemática e a sistêmica.

O fato é que 'corrupção' andará sempre de mãos dadas com a pobreza e, por esse motivo, ela é uma questão de ordem moral e de direitos humanos.
Vejamos alguns efeitos práticos da corrupção: o alto custo do acesso aos serviços de saúde e educação; padrões de saúde e segurança públicas precárias, riscos ambientais, violação dos direitos humanos, precariedade do acesso à justiça. Além das mulheres e das crianças, os portadores de deficiência, pessoas com vírus HIV, idosos e os refugiados estão entre os que mais sofrem as consequências da corrupção.

O que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto? E, ao refletirmos sobre e as Escrituras, o que se espera que seja a nossa práxis como igreja de Cristo.

"E criou Deus o homem à Sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gn 1:27)

"E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto" (Gn 1:31)


A desobediência da criatura humana abre as portas para toda a cultura de violência e morte que vai descaracterizar a imagem de Deus no homem.

"A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra." (Gn 6:11-12)

A corrupção, como a conhecemos e a tratamos hoje, é talvez a violência em sua forma mais cruel. Não é possível dissociarmos a ideia de corrupção daquilo que entendemos como violência à dignidade humana, seja pela precarização dos serviços públicos, seja pela facilitação do crime ou pelo aumento da miséria.

A corrupção aflige a terra desde a Queda. Não é surpresa, portanto, que muitos a vejam como algo normal, inevitável; um mal necessário na condução dos negócios e a forma como o rico e o poderoso levam sempre vantagem sobre o pobre e o fraco.

Porém as Escrituras deixam claro que a corrupção é uma injustiça e, mais do que isso, elas nos chamam a um posicionamento contra a corrupção.
O relato de corrupção, propina ou suborno mais conhecido da história está na Bíblia. Foram as 30 moedas de prata dadas pelos sacerdotes judeus a Judas Iscariotes para que ele os levassem até o Jardim do Getsemani, onde Jesus e os discípulos passavam a noite. Lá Judas mostrou a eles através do beijo da traição quem era Jesus. Judas era ganancioso e o dinheiro significava para ele, muito mais do que lealdade ou amor. Ele foi motivado por ganância e ganho pessoal. Quando ele se deu conta do mal feito e das consequências da sua traição, jogou as moedas no pátio do templo e cometeu suicídio (Mt 26 e 27; Mc 14; Lc 22).

Corrupção em forma de propina ou suborno é condenada ao longo de toda a Escritura Sagrada.
Samuel foi o primeiro dos profetas do Antigo Testamento e um grande líder em Israel. Porém, mais tarde em sua vida, em sua casa, ele acusou os seus filhos de não andarem em seus caminhos. Foram avarentos, aceitaram subornos, torceram a lei (I Sm8:3). A distorção da justiça é uma das piores consequências do suborno porque permite que o rico explore o pobre. Na despedida que Samuel fez junto ao seu povo na coroação do rei Saul, ele perguntou: "...diga-me de quem recebi suborno e com ele encobri meus olhos, e eu vo-lo restituirei?" (I Sm 12:3). Ele teve uma vida exemplar e a multidão não hesitou em responder: "em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem recebeste coisa alguma da mão de ninguém." (I Sm 12:4)

Davi, rei de Israel, fez uma pergunta retórica no Salmo 24: "Quem subirá ao monte do Senhor ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração. Que não entrega a sua alma à vaidade e nem jura enganosamente." No Salmo 26, porém, ele apresenta o homem que tem a mão direita cheia de subornos em contraste com o outro homem do Salmo 15:5 que "não empresta o seu dinheiro visando lucro e nem aceita suborno contra o inocente."

O profeta Isaías elogia "...aquele cuja mão não aceita suborno." (Is 33:15). E o profeta Amós denuncia "vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais." (Amós 5:12)

Em seu artigo 'O que a Bíblia diz sobre corrupção', Hermes C. Fernandes apresenta textos bíblicos categorizados em modos distintos de fraude financeira nas esferas pública e privada, mostrando a corrupção como algo inaceitável diante de Deus:

Advertência contra a corrupção no funcionalismo público

"Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado". Lucas 3:12-13

Advertência contra a corrupção policial

"Então uns soldados o interrogaram: E nós, o que faremos? Ele lhes disse: A ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo". Lucas 3:14

Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário

"Não torcerás a justiça, nem farás acepção de pessoas. Não tomarás subornos, pois o soborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. Segue a justiça, e só a justiça, para que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te dá". Deuteronômio 16:19-20
"Também suborno não aceitarás, pois o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos".Êxodo 23:8
"O ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça". Provérbios 17:23
"Ai dos que...justificam o ímpio por suborno, e ao justo negam justiça". Isaías 5:22a,23
"Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas". Salmos 82:2-5a
"Não farás injustiça no juízo; não favorecerás ao pobre, nem serás complacente com o poderoso, mas com justiça julgarás o teu próximo". Levítico 19:15

Independência entre os poderes

"Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores". Miquéias7:2-3

Advertência contra a corrupção no Poder Executivo

"Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas". Isaías 1:23
"Pela justiça o rei estabelece a terra, mas o amigo de subornos a transtorna"
. Provérbios 29:4
"Abominação é para os reis o praticarem a impiedade, pois com justiça se estabelece o trono". Provérbios 16:12

Advertência acerca dos assessores corruptos

"Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça". Provérbios 25:5

Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo

"Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas, e roubando os órfãos! Mas que fareis no dia da visitação, e da assolação, que há de vir de longe? A quem recorrereis para obter socorro, e onde deixareis a vossa glória, sem que cada um se abata entre os presos, e caia entre os mortos?" Isaías 10:1-4

Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial

"No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes..." Ezequiel 22:12-13a
"Melhor é o pouco, com justiça, do que grandes rendas, com injustiça". Provérbios 16:8
"O que oprime ao pobre para aumentar o seu lucro, ou o que dá ao rico, certamente empobrecerá"
. Provérbios 22:16

Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro

"O que aumenta a sua fazenda com juros e usura, ajunta-a para o que se compadece do pobre". Provérbios 28:8
"Sendo o homem justo, e fazendo juízo e justiça (...) não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor o seu penhor, não roubando, dando o seu pão ao faminto, e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, e guardando os meus juízos, para proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá, diz o Senhor Deus". Ezequiel 18:5,7-9
"Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre, que está contigo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros". Êxodo 22:25
"Aos retos até das trevas nasce a luz, pois é compassivo, compassivo e justo. Bem irá ao que se compadece e empresta, que conduz os seus negócios com justiça. (...) É liberal, dá aos pobres, a sua retidão permanece para sempre; a sua força se exaltará em glória". Salmos 112:4-5,9

Advertência acerca dos Direitos trabalhistas

"Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando contendiam comigo, então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia?" Jó 31:13-14
"Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos". Malaquias 3:5
"Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e eqüidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus". Colossenses 4:1
"Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte". Levítico 19:13

Advertência contra lucros desonestos

"O mercador tem balança enganadora em sua mão; ele ama a opressão". Oséias 12:7
"Não terás dois pesos na tua bolsa, um grande e um pequeno. Não terás duas medidas em tua casa, uma grande uma pequena. Terás somente pesos exatos e justos, e medidas exatas e justas, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Pois o Senhor teu Deus abomina todo aquele que pratica tal injustiça". Deuteronômio 25:13-16

"Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer". Provérbios 11:1
"O peso e a balança justos são do Senhor; obra sua são todos os pesos da bolsa". Provérbios 16:11
"Poderei eu inocentar balanças falsas, com um saco de pesos enganosos?" Miquéias 6:11
"Não cometereis injustiça nos julgamentos, nas medidas de comprimento, de peso ou de capacidade. Balanças justas, pesos justos, efa justo, e justo him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito."Levítico 19:35-36.

No primeiro século depois de Cristo, o apóstolo Paulo se recusou pagar suborno ao governador romano Félix. O governador admitiu que Paulo não havia feito nada de errado. Mas ele ainda assim o manteve na prisão porque "esperava que Paulo oferecesse a ele algum dinheiro" (At 24:26). Paulo não pagou o suborno e como resultado ele permaneceu preso. Esse tempo na prisão poderia ser gasto em visitas e encorajamento às igrejas que ele havia fundado ou, quem sabe, fazendo a tão sonhada viagem missionária à Espanha. Porém ele escolheu não pagar essa quantia em dinheiro que poderia ser facilmente arrecadada entre os cristãos ricos. Nenhuma 'justificativa' para o suborno poderia ser maior do que essa que o apóstolo teve; mas ele se recusou a faze-lo. Ao invés de visitar as igrejas, ele escreveu cartas para elas. Cartas que nós lemos hoje. O nosso sofrimento pelo evangelho não se perde dentro da providência divina.

Essas passagens nos mostram que, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o suborno é entendido como um pecado contra Deus. Uma perversão da justiça que permite que o rico explore o pobre; e dentre os pobres, mulheres e crianças são os que mais sofrem. Abusos de poder que só satisfazem a ganância.

A corrupção não é apenas moralmente errada. Ela mina o desenvolvimento econômico, distorce a lisura na tomada de decisões e destrói a coesão social.

A corrupção mata! A corrupção é desonra a Deus e, por isso, é a antítese do amor ao próximo.

No episódio de Caim e Abel, em Gênesis 4, vemos Caim buscando 'comprar' o reconhecimento do Senhor e para tanto, Caim decide tirar a vida do seu irmão. O Senhor Deus questiona a Caim sobre o paradeiro de seu irmão. Caim responde com uma pergunta que tenta justificar a sua independência arrogante: "Acaso sou eu o guardador do meu irmão?" (vs 9). Somos, ou deveríamos ser, os guardadores do nosso próximo; promotores de conciliações, construtores de pontes e não agentes de violência e morte.

Como vimos no texto de Gn 6 "... a terra estava corrompida aos olhos de Deus e cheia de violência."
Considerando que a corrupção, na perspectiva que estamos tratando-a hoje, é um dos maiores, se não o maior, ato de violência direta ou indireta do homem contra o seu semelhante e contra a criação, o que, então, nós, discípulos de Jesus, podemos fazer? Que contribuição podemos dar na luta contra a corrupção?

Considerando que toda lei de Deus converge em Cristo nos conclamando ao amor a Deus e ao próximo (Mt 22:36-38), e ele é a expressão perfeita da vontade do Pai para o homem, penso que o próprio Cristo nos aponta o caminho a seguir.

1. Jesus nos apresenta o modelo da não-violência

Na noite em que foi preso, quando um soldado veio na direção de Jesus, o Mestre advertiu Pedro que já estava pronto pra briga: "Ponha a espada de volta...o que vive pela espada, morrerá por ela" (Mt 26:52). Os valores do reino de Deus são outros. Nosso poder é poder para ser e para servir; não para revidar na mesma moeda. O modelo de combate do cristão não passa pela reprodução da violência.

2. Jesus apresenta a fonte da violência

"E, chamando outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei.
Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem.
Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios,
Os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.
Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem." 
Marcos 7:14-23

Ainda que a violência em forma de corrupção possa ser manifestada através de sistemas, esquemas e estratagemas, sabemos que a fonte será sempre o coração corrupto do homem. E é muito bom entendermos isso porque nos ajuda a colocar as coisas em perspectiva e a compreendermos pelo menos duas coisas:
Primeiro que, potencialmente, todos nós estamos sujeitos à corrupção e precisamos ser cuidadosos em como vivemos a vida.
Segundo, ajuda-nos a entender que a corrupção é uma questão de escolha pessoal, e não o fruto de um sistema sem rosto. Para cada escolha, uma responsabilidade.

3. Jesus nos encoraja a enfrentarmos a violência com bravura

Jesus ensinou que o mundo é um lugar perigoso de se viver. Mas ele desafiou seus seguidores a não terem medo. "Não temam aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma." (Mt10:28)
Ele também disse: "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo". João 16:33
Tenham ânimo! A tradução para o inglês é 'sejam bravos!'
Que tipo de bravura é essa que Jesus pede dos seus seguidores?

4. Jesus exige de nós uma resposta à violência

Penso que é no sermão do monte onde vamos encontrar aquilo que Jesus deseja que façamos em relação à corrupção e a qualquer forma de violência. As palavras de Jesus tratam dos desafios da vida real. É quando ele diz: "Felizes os pacificadores pois eles serão chamados filhos de Deus." (Mt 5:9). Fazer a paz dá trabalho, trabalho duro, trabalho frustrante, muitas vezes inconveniente. Felizes aqueles que gastam as suas vidas a serviço da reconciliação e da shalom.

Em seu livro, O Custo do Discipulado, Dietrich Bonhoeffer diz:"Os seguidores de Jesus foram chamados para a paz. Quando ele os chamou, eles encontraram sua paz, porque ele é a sua paz...Mas a eles foi dito que deveriam não apenas ter paz, mas fazer a paz."

John Stott, em seu comentário do sermão do monte diz, "Agora pacificação é uma obra divina. Por paz entenda-se reconciliação, e Deus é o autor de toda paz e reconciliação."

Pacificadores, portanto, são construtores de pontes num mundo de relações corrompidas.
Pacificadores agem em nome de Jesus, na base dos valores do reino de Deus, promovendo diálogos para a reconciliação.
Pacificadores enfrentam a corrupção de forma pacífica, inteligente e criativa, tendo sempre a justiça do Reino como referência para a Shalom.
Pacificadores vão às ruas e clamam pela paz; articulam-se com outros grupos que tenham interesse comum para fazerem trabalho conjunto; promovem campanhas; mobilizam igrejas na ação contra o mal em forma de violência e corrupção;
Pacificadores acompanham as decisões políticas e buscam incidência pública objetivando a implementação de mecanismos de controle social e transparência;
Pacificadores dão voz aos sem-voz.
Pacificadores buscam diálogos possíveis e quando não é possível, falam sozinhos.
Pacificadores são o sal que preserva o mundo da corrupção do mal.
Pacificadores são a luz que traz às claras aquilo que se esconde na escuridão.
Pacificadores bem-aventurados; que têm fome e sede da justiça de Deus.

Corrupção é uma questão de caráter. Não se garante transformação de caráter através de controle social e transparência na administração pública. Caráter, nós sabemos, só quem transforma é Deus.

Há, portanto, dois níveis de ação da igreja nesse terreno.

O primeiro é de fazer um chamado à própria igreja a um posicionamento ético que identifique os frutos de justiça produzidos pela ação do Espírito Santo na vida daqueles que se dizem nova criação. Ou seja, precisamos admitir que somos parte do problema desse país. Uma igreja corrompida e corruptora não tem o que dizer em matéria de ética na governança pública.

O outro nível de ação nos move na direção de uma maior incidência pública para a garantia do cumprimento das leis, ou a criação de novas leis, que contribuam para a construção de um ambiente social onde se garanta um mínimo de justiça.

Aqui eu quero citar o Pr Carlos Queiroz, para argumentar em favor de um engajamento da igreja nas questões de justiça e paz no mundo dos homens:

"A justiça de Deus é bem maior que o conceito de justiça do ser humano. É baseada em valores como mansidão, sensibilidade, misericórdia e amor. Mas isso não quer dizer que a justiça de Deus é menor do que o mínimo exigido pela justiça humana, como o direito à habitação, alimentação, saúde, educação, lazer, liberdade de exercer a vocação humana."

"Uma igreja socialmente responsável se utilizará dos instrumentos democráticos para que a sua espiritualidade em missão tenha incidência nas políticas públicas, nos direitos do cidadão e nos testemunhos de boas obras e prática da justiça."

Deus quer vida; a corrupção destrói a vida.
Deus quer justiça; a corrupção oprime o pobre roubando-lhe os direitos.
Deus quer riqueza honesta; a corrupção cria obstáculos ao desempenho econômico.
Deus quer comunidade; a corrupção destrói a confiança e a segurança.
Deus quer dignidade; a corrupção destrói a dignidade e a credibilidade.
Deus quer paz; a corrupção fortalece a violência e os aparatos militares.

A luta contra a corrupção, portanto, faz todo o sentido para aqueles que dizem conhecer o Deus incorruptível e almejam viver para servi-lo, refletindo na vida o Seu caráter santo. A revelação de Deus na Sua Palavra nos confronta, nos transforma e nos move à missão. A missão se dá no solo real de um mundo corrompido e fraturado. Sempre que a igreja busca se envolver na justa causa contra a corrupção estará respondendo à Deus de forma diferente de Caim:
'Eu sei, sim, onde está o meu irmão, porque sou responsável por ele. Sua vida me diz respeito. Como posso servi-lo?'




Por Daniel de A e S Junior

O que a Bíblia diz sobre corrupção




Há quem pense que a corrupção seja um fenômeno recente na sociedade. Se o fosse, não haveria tantas advertências bíblicas contra ela.

“O que anda em justiça, e o que fala com retidão, que arremessa para longe de si o ganho de opressões, e que sacode das suas mãos todo suborno, que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de sangue, e fecha os olhos para não ver o mal; este habitará nas alturas, e as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio. O seu pão lhe será dado, e as suas águas serão certas”. Isaías 33:15-16

“Verdadeiramente a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno corrompe o coração”. Eclesiastes 7:7

Advertência contra a corrupção no funcionalismo público

“Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado”. Lucas 3:12-13

Advertência contra a corrupção policial

“Então uns soldados o interrogaram: E nós, o que faremos? Ele lhes disse: A ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo”.Lucas 3:14

Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário

“Não torcerás a justiça, nem farás acepção de pessoas. Não tomarás subornos, pois o soborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. Segue a justiça, e só a justiça, para que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te dá”.Deuteronômio 16:19-20

“Também suborno não aceitarás, pois o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos”. Êxodo 23:8

“O ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça”.Provérbios 17:23

“Ai dos que...justificam o ímpio por suborno, e ao justo negam justiça”. Isaías 5:22a,23

“Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas”. Salmos 82:2-5a

“Não farás injustiça no juízo; não favorecerás ao pobre, nem serás complacente com o poderoso, mas com justiça julgarás o teu próximo”. Levítico 19:15

Independência entre os poderes

“Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores”.
Miquéias 7:2-3

Advertência contra a corrupção no Poder Executivo

“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas”. Isaías 1:23

“Pela justiça o rei estabelece a terra, mas o amigo de subornos a transtorna”.Provérbios 29:4

“Abominação é para os reis o praticarem a impiedade, pois com justiça se estabelece o trono”. Provérbios 16:12

Advertência acerca dos acessores corruptos

“Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça”. Provérbios 25:5

Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo

“Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas, e roubando os órfãos! Mas que fareis no dia da visitação, e da assolação, que há de vir de longe? A quem recorrereis para obter socorro, e onde deixareis a vossa glória, sem que cada um se abata entre os presos, e caia entre os mortos?” Isaías 10:1-4

Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial

“No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes...” Ezequiel 22:12-13a

“Melhor é o pouco, com justiça, do que grandes rendas, com injustiça”. Provérbios 16:8

“O que oprime ao pobre para aumentar o seu lucro, ou o que dá ao rico, certamente empobrecerá”. Provérbios 22:16

Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro

“O que aumenta a sua fazenda com juros e usura, ajunta-a para o que se compadece do pobre”. Provérbios 28:8

“Sendo o homem justo, e fazendo juízo e justiça (...) não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor o seu penhor, não roubando, dando o seu pão ao faminto, e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, e guardando os meus juízos, para proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá, diz o Senhor Deus”. Ezequiel 18:5,7-9

“Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre, que está contigo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros”. Êxodo 22:25

“Aos retos até das trevas nasce a luz, pois é compassivo, compassivo e justo. Bem irá ao que se compadece e empresta, que conduz os seus negócios com justiça. (...) É liberal, dá aos pobres, a sua retidão permanece para sempre; a sua força se exaltará em glória”.
Salmos 112:4-5,9

Advertência acerca dos Direitos trabalhistas

“Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando contendiam comigo, então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia?” Jó 31:13-14

“Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos”. Malaquias 3:5

“Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e eqüidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus”. Colossenses 4:1

“Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte”. Levítico 19:13

Advertência contra lucros desonestos

“O mercador tem balança enganadora em sua mão; ele ama a opressão”. Oséias 12:7

“Não terás dois pesos na tua bolsa, um grande e um pequeno. Não terás duas medidas em tua casa, uma grande uma pequena. Terás somente pesos exatos e justos, e medidas exatas e justas, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Pois o Senhor teu Deus abomina todo aquele que pratica tal injustiça”. Deuteronômio 25:13-16

“Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer”.Provérbios 11:1

“O peso e a balança justos são do Senhor; obra sua são todos os pesos da bolsa”.Provérbios 16:11

“Poderei eu inocentar balanças falsas, com um saco de pesos enganosos?” Miquéias 6:11

“Não cometereis injustiça nos julgamentos, nas medidas de comprimento, de peso ou de capacidade. Balanças justas, pesos justos, efa justo, e justo him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito.” Levítico 19:35-36.

Imagine se nossos políticos e a sociedade tivessem a Bíblia como livro de cabeceira, em vez de "O Príncipe" de Maquiavel. Veriam que a corrupção não compensa.




Por Hermes C. Fernandes

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O efeito Cinderella (na igreja)



Não há consenso sobre a origem do Conto de Fadas mais arrebatador da humanidade: “Cinderella”. A versão mais popular dá conta de que ele é produto do famoso escritor francês Charles Perrault e teria sido escrito em 1697.

Decerto, Cinderella é uma história maravilhosa. De suas muitas nuances, uma me chamou particularmente a atenção nestes dias: a magia que transforma, momentaneamente, a garota rejeitada e descuidada em uma princesa estonteante.

Mas tudo na vida tem um custo... Aquele encantamento, que abria possibilidades e entretecia sonhos, tragicamente, tinha prazo de validade – dia, hora e lugar para acabar. E foi assim que, no bom da festa, Cinderella teve de correr para não se transfigurar na frente de todos e do príncipe, numa “gata borralheira”.

Como pregador e pensador deste tempo, percebo um fenômeno que vem acontecendo entre aqueles que dizem seguir a Jesus e ao Evangelho: o “Efeito Cinderella”. Trata-se de um tipo de prática religiosa que acaba por tornar o sujeito um refém da agenda do sagrado.

O Efeito Cinderella é a crença confinada ao ambiente, a espiritualidade de ocasião que consagra o personagem, a religião com hora marcada. Neste tipo de profissão de fé, o indivíduo pensa e age como crente apenas quando está conectado ao calendário da igreja, num culto, num movimento ou numa vigília de oração. Nestas circunstâncias, muda o olhar, a fala, os gestos, os atos, as convicções. Passa a seguir ritos, acredita em mitos, fala sério, torna-se ético no proceder e ascético quanto ao pecado.

Contudo, findo o “efeito mágico”, alterado o ambiente e as ambiências, a pessoa fica livre para viver conforme sua própria conveniência, entregue a tórridas concupiscências, dessensibilizado de consciência, amargurado de alma e petrificado de coração. No fundo, é como se a fé estivesse condicionada ao acionamento de um botão on/off , que liga e desliga conforme a ocasião e as circunstâncias.

Com tristeza, encontro maridos exemplares no Templo, mas que são adúlteros contumazes no escritório. Vejo gente sincera trabalhando em movimentos, mas mentindo descaradamente na sala de aula, pudica na EBD e depravada na mesa do bar. Para nossa vergonha, é a consagração do estelionato espiritual, a bipolaridade existencial, a dialética religiosa sem síntese, nem tem propósitos, nem se desdobra de forma consequente.

Bem dizia a canção consagrada na voz imortal da Elis Regina: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Sim, “nossos pais” adoravam no Templo, por isso tornamo-nos devotos de espaços pseudo-sacralizados, de geografias espirituais, batemos no peito diante do altar, mas ignoramos o necessitado agonizante em nosso caminho, somos sacerdotes que ofertam o ideal no altar da conveniência.

Mas não esqueçamos que no grande banquete que nos aguarda, onde estaremos diante do Rei, não adiantará encantamentos. Naquele dia, não haverá como esconder a fratura exposta de nossa consciência, atrofiada por práticas refratárias ao amor. Ali, ou você se revestirá de vestes de louvor ou trajará trapos de imundice.

Ainda é tempo de lembrar que Jesus nos desafiou a encarnar um tipo de espiritualidade que se projeta de ambientes para as dinâmicas do cotidiano. “Nem neste Templo e nem no Monte”, disse a Samaritana, mas andando em Espírito e em Verdade! Deus continua buscando gente que não se satisfaça com rotinas religiosas e que não se torne prisioneiro de catedrais. Sim, para estes, Ele ainda continua a dizer: “Vem e Segue-me!”.





Por Carlos Moreira

Armadilhas do vocabulário político



O filólogo Victor Klemperer (1881-1960) foi um dos judeus alemães que sobreviveram ao regime nacional-socialista. Ele não só deixou registros históricos e pessoais valiosos, como seus Diários, mas também, conjugando seu conhecimento acadêmico à experiência existencial de viver constantemente perseguido e marginalizado por um governo totalitário, elaborou uma análise do uso da linguagem pelo Estado nessas condições: A linguagem do Terceiro Reich, publicada em 1947.1 Klemperer era um homem sensível e um observador arguto. Acredito que poucos conheceram como ele, por vias teóricas ou práticas, os usos perversos da linguagem posta a serviço da política.2 Eis um homem que tem autoridade para falar sobre as relações entre linguagem e mentira. Por isso, à primeira vista talvez pareça estranho que seu juízo tenha sido este: “A linguagem revela. Por vezes, alguém procura esconder a verdade por meio da linguagem. Mas a linguagem não mente.” 3

Há nessas palavras uma dimensão teológica oculta da qual o próprio Klemperer, como judeu convertido a um protestantismo teologicamente liberal e comprometido com o iluminismo, pode muito bem ter deixado de perceber: a linguagem foi criada por Deus para expressar a verdade, de modo que a mentira é um parasita pernicioso, mas nunca de todo bem-sucedido.

Ninguém ignora que o terreno do debate político é pródigo de mentiras completas, meias-verdades, confusões e ambiguidades, tanto propositais quanto inconscientes. É importante que o cristão aprenda a evitar tais armadilhas. Diante disso, a sentença de Klemperer se relaciona de várias maneiras ao espírito do presente ensaio, cujo propósito não vai além de uma introdução à tarefa de combater alguns equívocos cometidos com frequência na reflexão política. O método consiste em problematizar, a título de exemplo, dois pares de palavras-chave potencialmente enganadoras, mostrando de que modos podem ser (e são) usadas para ocultar a verdade ao invés de esclarecê-la. Ao mesmo tempo, pretendo mostrar como tais usos podem revelar algumas verdades que são, em geral, pouco notadas.

1. Direita e esquerda

As palavras “direita” e “esquerda” são muito utilizadas para definir a posição política de indivíduos, partidos, governos e movimentos. Existem outros modos de descrição, é claro, mas muitas vezes essa referência direcional proporciona um bom ponto de partida e ajuda a economizar palavras. Porém, todos sabem que não existem só duas posições políticas no mundo. E, embora haja quem creia que toda a diversidade existente é redutível a apenas duas atitudes ou lealdades fundamentais, em geral se admite ao menos a possibilidade de gradações: há posições moderadas e posições radicais, que a convenção dominante situa perto ou longe do centro, respectivamente. É assim que surgem a extrema-direita, a centro-esquerda etc.

Tais considerações, no entanto, são estritamente formais. Passemos agora ao conteúdo. O uso mais difundido dos termos costuma situar na esquerda as visões que priorizam a igualdade econômica dos cidadãos, e na direita as que adotam outras ênfases. É costume também situar no centro as posições comprometidas com a democracia, enquanto as vertentes autoritárias ou totalitárias são empurradas para as extremidades. Assim, indo da esquerda para a direita, teríamos: comunistas, socialdemocratas, liberais, conservadores e fascistas.

Esse esquema representa aproximadamente bem o sentido mais comum que os termos “direita” e “esquerda”, com suas respectivas gradações, costumam ter na mente da maioria das pessoas . Tal uso tem suas vantagens, como já afirmei. Por outro lado, essas palavras são perigosas, pois podem nos levar a severas incompreensões na medida em que esquecemos que são meros atalhos, incapazes de dar conta da complexa realidade das posições políticas. Na presente seção, discorrerei sobre dois grandes perigos associados a esse uso, começando pelo próprio fato do excesso de simplificação.

1.1. Toda classificação com base em um critério único simplifica demais a realidade

A divisão entre direita e esquerda é unidimensional, e não são poucos os que se incomodam com isso. O site The Political Compass,5 por exemplo, apresenta um método de classificação em que a posição política é uma grandeza vetorial, com duas dimensões. Cada visitante pode preencher um questionário com algumas dezenas de perguntas, expressando seu grau de acordo com certas afirmações (como “O inimigo do meu inimigo é meu amigo” ou “Quanto mais livre for o mercado, mais livre será o povo”); com base nas respostas, o visitante é classificado simultaneamente como direitista ou esquerdista, segundo a escala econômica, e como autoritário ou libertário, segundo a escala social.6 Embora não isenta de falhas, a proposta merece menção porque o problema que os autores do método estão tentando superar é real e importante: quando só há uma dimensão, apenas um critério pode ser usado, e isso acarreta distorções que podem se revelar muito graves.

Uma ilustração simples das incongruências a que isso leva pode ser obtida se considerarmos o caso do anarquismo clássico. Sem dúvida é uma posição de esquerda; mas onde devemos colocá-lo, exatamente? Situá-lo à direita da social-democracia dará a impressão de que se trata de uma posição menos radical que esta; se colocado entre a social-democracia e o comunismo, parecerá que é uma posição intermediária entre ambos; e, se for posto à esquerda do comunismo, alguns pensarão que este é apenas um anarquismo mais moderado. Todas essas alternativas são falsas, pois o anarquismo tem peculiaridades que não foram levadas em conta pela classificação convencional.

Muitos aspectos precisam ser levados em conta na descrição de uma posição política. A classificação unidimensional privilegia um deles como o único importante, relegando à obscuridade todas as demais semelhanças e diferenças que possam existir entre duas posições quaisquer. Desse modo, basta mudar o critério, e a classificação muda completamente. Suponhamos, por exemplo, que o critério fundamental escolhido seja o grau de poder dado ao Estado. Nesse caso teríamos, bem perto um do outro, o nazismo e o comunismo7 (que na classificação convencional estão em extremos opostos), ao passo que, na outra ponta, estariam os anarquistas lado a lado com os liberais mais extremados, os assim chamados anarco-capitalistas. Duas ideologias quaisquer podem estar muito perto ou muito longe uma da outra, dependendo do critério adotado. Esse é um dos problemas de se ter um critério só.

As dificuldades que inviabilizam a pretensão unidimensional são muitas, mas citarei de passagem apenas mais dois exemplos. Se abandonássemos a classificação mais popular em prol de outra, baseada na oposição entre posturas coletivistas e individualistas, tudo aquilo que se convencionou chamar de extrema-direita estaria do lado coletivista, mais perto da esquerda, e não mais poderia ser visto como uma vertente radical do liberalismo ou do conservadorismo. Se isso parece um mero sofisma para alguns, devo lembrar que a pré-história dos movimentos fascistas está emaranhada de modo inextricável com a história do socialismo; não seria um grande exagero afirmar que aqueles nasceram como uma dissidência deste. Quando o cientista político russo Aleksandr Dugin conclama o mundo a uma guerra contra a globalização inspirando-se indistintamente em autores nazistas, fascistas e comunistas,8 não está criando ex nihilouma conexão sem fundamento histórico, e sim seguindo certas tendências reais e antigas que, por motivos diversos, deixaram de ser enfatizadas ao longo do século XX.9

Aproveitando que acabo de falar em globalização, o último exemplo citado será o caráter nacionalista ou internacionalista das propostas políticas. Nesse caso, teríamos reunidos do lado internacionalista os seguintes elementos: comunistas e socialistas em geral, para os quais o foco fundamental da lealdade é de natureza classista, transcendendo, portanto, as fronteiras nacionais; os globalistas adeptos da social-democracia cujo sonho é transformar a ONU em um governo mundial; os defensores mais extremados do liberalismo econômico, para os quais as fronteiras nacionais constituem barreiras ao livre comércio e, portanto, à prosperidade dos povos; diversos movimentos políticos islâmicos, que buscam implantar o sonho já bem antigo de um califado mundial; e mesmo alguns segmentos conservadores que atribuem ao Ocidente (ou a alguma nação em especial) a missão de civilizar e democratizar o mundo. O regime nacional-socialista alemão propagava a ideia de que as democracias capitalistas ocidentais eram aliadas naturais do comunismo, visto que ambos os lados eram internacionalistas e, supostamente, controlados por judeus. Sem dúvida há uma boa medida de paranoia nisso, mas não se pode negar que os nazistas estavam enxergando uma semelhança real e sendo coerentes com sua própria valorização exacerbada do nacionalismo.

Todas essas considerações e exemplos apontam para a dificuldade insuperável que qualquer método unidimensional de classificação do espectro político tem de enfrentar. Tal método necessariamente trará simplificações que podem ser fatais uma vez que seu caráter simplificador seja esquecido. Creio que isso pode ser reconhecido por representantes de qualquer posição política; ou seja, não é necessário ter opiniões semelhantes às minhas sobre qual é o melhor sistema para perceber o caráter potencialmente nocivo desse modo de classificação. Minha primeira objeção à classificação tradicional é, na verdade, uma objeção a qualquer classificação unidimensional.

1.2. A classificação convencional não privilegia o que é mais importante

Não existe método de representação do espectro político isento de desvantagens. Todos eles colocam em evidência certas verdades sobre a realidade política e tornam invisíveis algumas outras. Dessa forma, mesmo uma classificação unidimensional pode ter certo grau de utilidade, desde que estejamos certos de que aquilo que ela ressalta é mais importante que aquilo que ela oculta. Mas essa consideração traz à tona outro possível risco. Afinal, quem garante que uma dada classificação de fato privilegia o mais importante? Se não o fizer, ela conduzirá a enormes equívocos. Baseia-se nisso a minha segunda objeção ao esquema convencional. Essa objeção possui duas características que a diferenciam da primeira: ela não é universal, mas sim dirigida de modo específico a esse modelo; e não independe da posição política adotada pelo observador, pois essa posição influencia os critérios que ele adota para se classificar entre seus antagonistas, já que diz respeito de modo direto às prioridades que cada um tem em vista.

A classificação convencional presume que de cada lado há um acordo razoável sobre os fins, restando apenas combater os que desejam o fim oposto, assim como em uma partida de futebol o objetivo de cada time (ganhar o jogo) é logicamente sinônimo de derrotar o time adversário. Podem existir, é claro, diferenças severas em cada time sobre o melhor meio de ganhar o jogo, e é provável que essa divergência sempre ocorra na ausência de um técnico ao qual todos obedeçam. Os jogadores de um mesmo time podem, inclusive, brigar entre si e não colaborar uns com os outros, o que reduz suas chances de vitória. Apesar disso, todos estão de acordo quanto ao objetivo do jogo. Uma das inconveniências capitais do esquema tradicional é que ele aponta direita e esquerda como lados simetricamente opostos, retratando o jogo político como algo mais semelhante ao futebol do que de fato é. E não poderia ser de outro modo, pois a definição de um único critério de classificação tem naturalmente esse efeito.

A premissa da simetria entre direita e esquerda é falsa. Pode-se dizer, sem dúvida, que a erradicação da desigualdade econômica é uma meta consensual de todas as esquerdas existentes, a despeito de não ser tão unânime a expectativa concreta de como seria o socialismo ideal. Na verdade, as divergências internas da esquerda quanto a isso já foram bem maiores do que são hoje,10 de modo que a descrição pode ser quase acurada dependendo da época a que se refira. Porém, a unidade do lado oposto é muito menor; na verdade, quase nula. Não há um objetivo comum, por mais vago que seja, a todas as direitas que existem. Há quem veja essa unidade em uma defesa comum do “capitalismo”. Na seção 2 falarei mais sobre os problemas dessa ideia. Por ora, é suficiente destacar o fato amplamente ignorado de que, a rigor, apenas os liberais e parte dos conservadores defendem (e com graus variados de entusiasmo) algo que pode ser chamado de capitalismo. A assim chamada extrema-direita foi quase sempre avessa a ele, e muitas vezes com argumentos semelhantes aos da esquerda.

O achatamento de todas essas diferenças em um critério unidimensional é um dos responsáveis pela negligência desses fatos, levando à falsa ideia de que o liberal e o conservador são apenas nazistas moderados. É necessário entender que, dada a ausência de unidade de fins na direita, não pode haver simetria entre direita e esquerda. Enquanto nesta há uma unidade positiva, naquela há apenas uma unidade negativa: o que há em comum entre todas as direitas é apenas o fato de que se opõem à esquerda; mas o fazem pelas razões mais díspares e incongruentes entre si. O liberal se opõe à esquerda por ver nela um atentado ao valor supremo da liberdade individual; o conservador se opõe à esquerda por ver aí uma tentativa de subversão da ordem moral (ou espiritual) da sociedade; os fascismos se opõem à esquerda por verem nela um atentado ao espírito nacional ou racial em prol de uma ordem que transcende a da nação. Além disso, cada um desses motivos pode ser (e é), com o mesmo grau de coerência, apontado por seus respectivos defensores, não só contra a esquerda, mas também contra as demais direitas. Por conseguinte, ainda que adotemos a classificação convencional para dizer quem é direitista, não é justo nem sensato atribuir à direita uma unidade; o que existe é uma irredutível pluralidade de direitas.

Se não há, porém, unidade positiva alguma entre as direitas, resta explicar por que tantos têm dificuldade de perceber isso. Se a classificação convencional faz parecer que existe uma unidade que não existe, ela só pode ser uma ficção ideológica. Nesse caso, tudo se explica uma vez que tenhamos descoberto a quem convém tal ficção. Os fatos expostos no parágrafo anterior deixam claro que não há, para as várias direitas, nenhum interesse em atribuir a si mesmas uma unidade que seus próprios posicionamentos impedem de reconhecer como legítima. Portanto, a resposta é que a atribuição de uma unidade positiva a todas as direitas convém à esquerda.

Os motivos dessa conveniência são de fácil compreensão. Antes de tudo, é uma postura internamente coerente para um esquerdista: a igualdade econômica é, para ele, uma motivação central da luta política. Com base nessa prioridade, faz sentido que ele considere todos os que se opõem à sua meta como estando unidos de um mesmo lado, a saber, o lado de lá, o outro time. Daí a ver nesse outro time uma unidade de interesses escusos e uma defesa (aberta ou velada, consciente ou não) do inimigo supremo – o rico, o burguês, o capitalista etc. – a distância a ser percorrida é bem pequena.

Além disso, e em grande parte por causa disso, quase todas as ideologias de esquerda incluem alguma forma de teoria de luta de classes, para a qual é indispensável que os interesses econômicos e os conflitos construídos a partir deles ocupem o primeiro plano. É por isso que Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) dão início ao seu Manifesto comunista declarando que “A história de todas as sociedades, até os nossos dias, tem sido a história das lutas de classes”.11 Ao menos em seus momentos mais retóricos, quase todo esquerdismo tende a reducionismos desse tipo. Por conseguinte, a negação da unidade positiva das direitas é fatal à consistência interna de quase todas as ideologias de esquerda, e psicologicamente constrangedora para as poucas restantes. Sem essa unidade, a primazia da luta de classes fica bastante abalada, bem como a própria imagem que a esquerda faz do mundo e de seu próprio papel nele.

Esse fato sugere que não há possibilidade de um pensamento de esquerda que não seja inelutavelmente reducionista. Se há uma esquerda menos reducionista, ela o é à custa de sua coerência interna. Contudo, é necessário esclarecer que o reducionismo não é de modo algum uma exclusividade da esquerda. A tentação de ver o mundo como algo semelhante a um jogo de futebol se apresenta, sob diferentes formas, a toda posição política concebível. Afinal, como disse o filósofo Paul Ricoeur (1913-2005), “toda ideologia é simplificadora e esquemática”.12

Na política, como fora dela, o simplismo é inimigo da verdade. Reconhecer suas manifestações em cada caso e se precaver contra elas é um dos desafios do cristão que busca compreender a dimensão política da realidade. A polarização convencional entre direita e esquerda é uma das manifestações mais amplamente difundidas do simplismo posto a serviço de uma agenda política apóstata. A popularidade de tais simplificações é um indício da dificuldade envolvida na tarefa de superá-las, e a popularidade desse esquema específico é um indício da onipresente força cultural da esquerda.

2. Capitalismo e socialismo

Na seção anterior, utilizei os termos “capitalismo” e “socialismo”, que também são bastante presentes nos debates políticos, geralmente designando os dois polos de uma oposição tão fundamental quanto “direita” e “esquerda”. Dada a importância dessas palavras e seu enorme potencial para gerar confusões e mistificações, convém discuti-las de modo mais aprofundado.

Costumo dizer que o capitalismo não existe. Naturalmente, não é uma negação a ser levada a sério de modo absoluto. No entanto, ao enunciá-la eu pretendo dizer algo verdadeiro, em contraposição a alguns usos equivocados do termo que se fazem com muita frequência. Nesta seção levantarei quatro ressalvas a eles. Ao criticá-los, os usos equivocados correlatos do termo “socialismo” também deverão ficar claros, embora a explicação nesses casos possa ser menos desenvolvida.

2.1. O falso pressuposto de que vivemos em um mundo capitalista

Convém iniciar essa discussão pelo senso comum, como já foi feito na primeira seção. A Wikipédia anglófona define o capitalismo nos seguintes termos:

O capitalismo é um sistema econômico em que o comércio, a indústria e os meios de produção são controlados por proprietários privados com o objetivo de obter lucros em uma economia de mercado. As características centrais do capitalismo incluem acumulação de capital, mercados competitivos e trabalho assalariado. Em uma economia capitalista, tipicamente os preços mediante os quais se oferecem ativos, mercadorias e serviços são determinados pelas partes envolvidas em uma transação.13

Essa definição está bastante próxima do conceito mais difundido de capitalismo: indústria, comércio e meios de produção são possuídos e controlados por indivíduos que pretendem lucrar com isso, competem entre si, pagam seus empregados e acumulam dinheiro sem restrições. E os preços das coisas são determinados pelas partes envolvidas nas transações – em outras palavras, por vendedores e compradores. Está claramente implicado nessa descrição um papel nulo ou bastante limitado para o Estado na esfera econômica, seja como regulador ou produtor. Na verdade, o artigo acrescenta já no parágrafo seguinte: “O grau de competição, os papéis da intervenção e da regulação e o escopo da propriedade pública variam entre os diferentes modelos de capitalismo.” Entretanto, é fácil ver que, se o papel do Estado for significativo, a definição dada no início já não vale mais. Dizendo de outro modo, a participação do Estado na economia deve ser reduzida o suficiente para que sua omissão não prejudique a pertinência da definição fornecida.

A questão posta por essas considerações é a seguinte: podemos dizer que capitalismo é sinônimo de liberalismo econômico? Se a resposta for negativa, fica mais difícil dizer a que se refere o termo, pois essa identificação parece natural tanto para os detratores do livre mercado quanto para muitos de seus mais ardorosos defensores. Ela pode ser problematizada, sem dúvida, mas ainda não encontrei um autointitulado anticapitalista que simpatize com o liberalismo econômico, nem um crítico deste último que aceite a pecha de amigo do capitalismo. Esse fato precisa ser levado em conta por qualquer análise que pretenda dissociar as duas ideias. Embora o termo seja, em teoria, passível de outras definições, essa associação é mais forte que tais artifícios. Parece, portanto, que devemos nos inclinar a uma resposta afirmativa à pergunta do início do parágrafo.

Contudo, isso levanta outro problema. Ignora-se quase sempre que a palavra “capitalismo” foi cunhada pela esquerda do século XIX para designar o sistema governado por seus inimigos. A imensa popularização do termo, que se perpetuou sem nenhuma distorção significativa em relação ao seu sentido original, é mais um grande indicativo da força cultural da esquerda no Brasil e no Ocidente em geral. Assim como o próprio esquema convencional de classificação das ideologias, discutido na seção anterior, a conceituação de capitalismo sempre serviu ao modo esquerdista de ver o mundo. Ao mesmo tempo, quem fala em socialismo quase sempre tem em mente uma situação ausente que, quando muito, se concretizará no futuro e da qual só se podem ver agora exemplos imperfeitos em alguns países. A realidade concreta, ao contrário, é vista como capitalista, já que, por definição, o capitalismo é o que existe nos regimes modernos onde o socialismo não triunfou.

Essa maneira de pensar é bastante comum na esquerda, conquanto haja exceções históricas notáveis. Apesar disso, ela não é compatível com a ideia do capitalismo como sinônimo de (ou inevitavelmente associado a) liberdade econômica. Olhando em volta, é fácil ver que nos países considerados capitalistas há graus muito discrepantes de liberdade econômica, efetiva ou pretendida. E as variações não ocorrem apenas entre países, mas também entre gestões e entre programas partidários. Não há motivo para surpresa nisso, pois existem visões políticas de quase todos os tipos militando em cada país democrático, e as disputas de poder político repercutem na orientação econômica de um país. O mesmo ocorre, aliás, em regimes socialistas, dos quais o caso chinês é o mais óbvio.14 Em parte alguma há um exemplo de perfeito liberalismo econômico, nem de perfeito controle estatal da economia.

Por conseguinte, a lógica da associação entre capitalismo e liberalismo econômico (e entre socialismo e controle estatal ou “social” da economia) deveria levar à conclusão de que estamos em um mundo de economia mista, no qual cada lado luta para fazer prevalecer seu ideal, mas raramente com alto grau de sucesso. Em especial, o Brasil de hoje passaria a ser visto como uma espécie de meio-termo entre capitalismo e socialismo.15 Essa concepção faz justiça à realidade, mas cria problemas para quem está confortavelmente habituado a reclamar de todos os males do país e do mundo como resultantes do capitalismo. Afinal, um dos maiores álibis do socialismo nas disputas retóricas é sua inexistência concreta: ele não veio, ou então foi implantado de modo tão distorcido que se tornou irreconhecível. Uma visão mais realista do assunto evitará o falso pressuposto de que o status quo é capitalista. É o primeiro erro a que leva o mau uso do termo, e que todos fariam bem em evitar.

2.2. A primazia imerecida da economia

O segundo erro é mais fundamental que o primeiro, e se relaciona a algo que foi mencionado na seção 1: afirmei ali, limitando-me a registrar o fato, que nem todo opositor da esquerda o é por amor ao capitalismo. Para avançar na discussão, é necessário entender esse fato.

A palavra “capitalismo” surgiu vários séculos mais tarde que o termo “capitalista”, e foi criada para designar o sistema governado pelo burguês. Esse uso do termo pressupõe um modo específico de enxergar e interpretar a sociedade, evidenciando que seu autor atribui ao aspecto econômico uma importância fundamental. Há nisso uma lição a ser aprendida. Se o termo “capitalismo” foi inventado pela esquerda para descrever aquilo a que ela se opõe, o “direitista” que se proclama defensor do capitalismo está aceitando os termos do adversário e, de certa forma, vestindo a carapuça. Sempre que o usuário da palavra não tiver consciência da carga semântica embutida nela, as distorções intrínsecas às cosmovisões esquerdistas poderão se manifestar em seu próprio discurso, a despeito de sua intenção de se opor a elas.

Uma das convicções centrais que dão sentido ao termo “capitalismo” é a do primado do aspecto econômico. Essa absolutização indevida da economia é um dos traços mais amplamente difundidos dos posicionamentos políticos de esquerda, e se reflete com frequência em suas prioridades práticas. Diante disso, é natural que a defesa entusiasmada do capitalismo (seja lá o que for que se queira dizer com isso) se manifeste entre aqueles que não são antiesquerdistas o bastante, isto é, os que compartilham em algum grau dessa mesma absolutização. Os opositores mais radicais e autoconscientes da esquerda se negarão com muita naturalidade a se enquadrar nos critérios que ela usa para definir a luta política.

Por isso, os liberais tendem a ser defensores mais empolgados do capitalismo que os conservadores: em comparação com aqueles, estes últimos se preocupam mais com problemas morais e culturais, que veem (com razão, creio eu) como mais básicos que os puramente econômicos. Para os liberais, como para os esquerdistas, a economia tende a ocupar o primeiro plano, e uma consequência disso é que tanto uns quanto outros deixam de ver as amplas afinidades que têm entre si fora do âmbito estritamente econômico. Elas começam em um berço comum na Revolução Francesa e na adesão ao secularismo e terminam com frequência em itens bastante específicos como a legalização do aborto e das drogas ou as boas-vindas a um eventual governo mundial.

Sendo assim, minha segunda objeção é que o conceito de capitalismo, sobretudo quando visto em oposição fundamental ao socialismo, coloca o aspecto econômico em primeiro plano e tende a varrer para debaixo do tapete todos os outros elementos envolvidos na disputa política, muitos dos quais revelariam afinidades impressionantes entre supostos inimigos mortais.

2.3. A exacerbação da luta de classes

Em parte pelo que acabo de explicar, o uso da palavra “capitalismo” para designar o mundo ocidental de hoje acarreta uma unidimensionalização perniciosa da realidade. Essa tendência serve a um propósito retórico e ideológico específico que não ajuda a entender melhor o mundo. Em especial, há usos do termo “capitalismo” que só fazem sentido à luz da ideia da luta de classes.

Devo reconhecer que essa conexão não é onipresente, embora seja comum o bastante para merecer menção neste ensaio. Como afirmei em 2.2, muitos que defendem o liberalismo econômico não hesitam em chamá-lo de capitalismo, e um dos meios pelos quais fazem essa defesa passa justamente pela negação de um conflito fundamental entre os interesses dos patrões e os dos empregados – ou seja, a negação da luta de classes.16 Além disso, o significado preciso e as implicações da luta de classes nem sempre foram consenso na própria esquerda, havendo casos extremos de pensadores de forte influência marxista, como o francês Jean Jaurès (1859-1914),17 para os quais esse conceito nunca teve grande importância prática. Uma das grandes divergências internas do marxismo nas primeiras décadas do século XX girou em torno disso, com os assim chamados “revisionistas” sendo acusados pelos “ortodoxos” de negar, na teoria ou na prática, a importância da luta de classes.

Os atenuantes que acabo de citar provam duas coisas. A primeira é que, embora a palavra “capitalismo” seja usada quase sempre para expressar uma visão de mundo em que a luta de classes tem um papel proeminente, não é impossível usá-la com outras acepções, como fazem os liberais. A segunda é que as tensões históricas do marxismo em torno da questão só mostram que nem as ideologias mais polarizadoras podem deixar de fazer concessões à realidade. A esquerda nunca conseguiu definir de modo claro, sem contradições nem reducionismos, a relação entre os valores de classe e os valores humanos universais. De qualquer modo, as versões mais polarizadoras do marxismo e seus descendentes são agora mais fortes do que naquele tempo, e hoje há muitas pessoas que não conseguem pensar fora do velho mantra da luta de classes.

Não pretendo negar que sejam comuns os conflitos de interesse entre patrões e empregados. Mas nego que o motor da história consista nisso. Afinal, também podem existir (e existem) conflitos de interesse entre quaisquer dois grupos de seres humanos postos em relação mútua – pais e filhos, homens e mulheres, governantes e governados, comerciantes e clientes, mestres e alunos, gerentes e subalternos, sindicalistas e funcionários não-sindicalizados, etc. Nada prova que alguma dessas categorias de conflitos seja mais fundamental que as demais, e tampouco que os conflitos sejam mais fundamentais que outras formas de relacionamento social.18 A absolutização indevida de uma categoria específica traz duas consequências danosas à apreensão da realidade social: a perda de vista dos interesses em comum entre as classes e a falsa oposição entre os interesses dos revolucionários e os da elite econômica.

2.3.1. A perda de vista dos interesses em comum entre as classes

O discurso da luta de classes ignora todos os interesses em comum que possam existir entre ricos e pobres. Tal comunidade começa pelo fato de que todos os envolvidos em uma empresa, do patrão ao faxineiro, têm interesse no sucesso dela, e prossegue em muitas outras áreas mais ou menos alheias às relações econômicas, nas quais todos têm interesses em comum na qualidade de cidadãos, de pais de família etc.

Uma das reclamações mais recorrentes ao longo da história dos movimentos socialistas, em especial os de orientação marxista, é que os proletários cujos interesses eles julgam representar não têm “consciência de classe”, ou seja, não sabem o que é melhor para si mesmos e se apegam à ilusão de que têm interesses em comum com seus patrões. Decorre daí a importância da educação (ou doutrinação) no marxismo, que nisso mantém uma tradição herdada do iluminismo. Porém, não se deve excluir sumariamente a possibilidade de os “proletários” terem bons motivos para pensar assim, embora isso leve à conjectura (muito mais plausível) de que o marxismo é que vive de colocar os homens uns contra os outros. Uma vez assumido que o direito de decidir o que é melhor para o povo cabe a um punhado de indivíduos ideologicamente iluminados e reunidos sob um determinado partido, não há meios consistentes de evitar a justificação de qualquer tipo de barbaridade.19

2.3.2. A falsa oposição entre os interesses dos revolucionários e os da elite econômica

A segunda consequência é que, uma vez assumido o primado da luta de classes, é fácil inferir daí uma suposta oposição entre os interesses da classe econômica mais privilegiada e os de qualquer um que reivindique para si a posição de representante dos interesses do povo. A ligação das duas ideias é, aliás, parte essencial da invariavelmente autolisonjeira cosmovisão do militante de esquerda. Trata-se, porém, de uma falsa associação. Mais de cem anos atrás, o escritor inglês G. K. Chesterton (1874-1936) expressou isso muito bem em um de seus romances, durante uma conversa sobre um levante anarquista:

Você fala de multidões e classes operárias como se elas fossem o nó da questão. Está contaminado por uma ideia eterna e idiota: se a anarquia vier, virá dos pobres. Por quê? Os pobres foram rebeldes, mas anarquistas, nunca! Mais do que os outros, têm interesses em que haja um governo decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico, não; pode embarcar num iate para a Nova Guiné. Algumas vezes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas.20

O trecho acima é manifestamente literário e talvez um pouco chocante; não é à toa que seu autor é considerado o mestre do paradoxo. Mas seu cerne não é mera pantomima literária: há aí mais verdade do que pode parecer à primeira vista. O economista austríaco Rudolf Hilferding (1877-1941), um dos pensadores mais interessantes da história do marxismo, percebeu muito bem o quanto os interesses do “capital financeiro” são contrários ao liberalismo econômico21 e favoráveis a um Estado forte e monopolizador. Em consequência disso, Hilferding também viu que o triunfo dessa modalidade de “capitalismo” tornaria mais fácil a transição para o socialismo. Ele só não extraiu daí a conclusão de que é perfeitamente legítima e lógica a aliança (ainda que parcial e provisória) entre os grandes banqueiros e empresários e os socialistas, pois isso seria fatal à coerência interna de sua ideologia. Mas não há boas razões para rejeitar essa hipótese a priori.

Quando começamos a prestar atenção nessa possibilidade, alguns fatos começam a fazer sentido. Por exemplo, em 1981 foi realizada a Third International Conference of Institutions for Christian Higher Education,22 evento que tratou do marxismo de uma perspectiva cristã e acadêmica, e à qual compareceram palestrantes com graus bastante variados de afinidade por ele. Mais tarde, foi publicado um livro com as participações do evento.23 O autor mais simpático ao socialismo é John Perkins, partidário da teologia da libertação e envolvido com “teologia negra”. Seu texto, que é intelectualmente o mais fraco do livro, possui sete páginas,24 das quais um total de duas linhas é dedicado a críticas ao comunismo e quase todo o restante ataca o “capitalismo”. Mas o importante para o presente contexto é que Perkins era também o único participante do evento que contava com o apoio oficial da Fundação Ford.25

Esse é apenas um exemplo dentre muitos que apontam para o interesse dos “grandes capitalistas” em apoiar e financiar aqueles que, segundo sua própria teoria, são seus maiores inimigos. E isso ajuda a entender outro fato pertinente e pouco conhecido: quem acessar sites e blogs mantidos por conservadores americanos descobrirá que eles não se consideram defensores dos interesses dos ricos, e que seus maiores inimigos não são os comunistas, e muito menos os pobres, mas sim indivíduos e entidades bilionários que gravitam em torno de governos e organismos internacionais. Esses inimigos costumam apoiar não só o intervencionismo estatal na economia, mas também vários programas muito caros à nova esquerda, como os movimentos gays, a legalização do aborto e das drogas, as ações afirmativas, etc.

O uso da palavra “capitalismo” sem a consciência da frequente comunhão de interesses entre os grandes ricos e a militância socialista traz consigo o sumiço de todo um lado da realidade política. Uma das vítimas locais de tais compreensões é Demétrio Magnoli, um esquerdista moderado e bastante sensato em vários de seus posicionamentos, mas que viu na implementação das cotas raciais pelo governo Lula a prova de uma “crise do pensamento de esquerda”26 no Brasil, com base em parte no argumento de que as cotas são apoiadas pela Fundação Ford.27 E tudo isso porque lhe parece inverossímil que os grandes ricos apoiem algum programa de esquerda.

2.4. A confusão de categorias econômicas, políticas e culturais

A quarta objeção que faço ao uso da palavra “capitalismo” é que ela leva com facilidade à confusão quanto à relação entre economia, política e cultura. O termo é usado algumas vezes para descrever tão somente uma determinada configuração econômica, ou os traços essenciais a um conjunto delas. Em outras situações, porém, ele pode adquirir um sentido bem mais amplo, designando instituições políticas e sociais, bem como valores morais e culturais vigentes em uma sociedade cuja economia é considerada capitalista. É assim que muitos pretendem, por exemplo, que palavras como “consumismo”, “individualismo” ou “democracia” designem qualidades intrínsecas ao “capitalismo”.

Tais associações não são sempre problemáticas, mas passam a sê-lo quando envolvem reducionismo. A ideia marxiana da superestrutura, por exemplo, destina-se a fazer crer que as condições econômicas de uma sociedade determinam, de algum modo, a configuração de todo o resto. Há sempre uma tendência reducionista, com graus diversos de concretização, no discurso e na reflexão teórica de escolas, partidos e doutrinas comprometidos com a absolutização da economia. Esse é um vício compartilhado pelos setores majoritários do socialismo e do liberalismo político. O pressuposto por trás disso é, em última análise, materialista. Quem não se dispõe a enveredar por esse caminho faz bem em questionar a validade desse pressuposto.

Contudo, o reducionismo, já abordado na seção 2.2, não é o único problema. Afinal, é possível combater conscientemente o economicismo e ainda endossar os erros de categoria ligados ao conceito de “capitalismo”, seja para combatê-lo, seja para defendê-lo. D. A. Carson observa28 que muitas vezes falta sutileza nas discussões sobre democracia, ignorando-se as mutações do conceito e da realidade ao longo da história e suas variantes nos diversos países. Um cuidado semelhante deveria existir com relação ao conceito de “capitalismo”. Se essa recomendação fosse seguida, as discussões em torno do tema seriam bem menos retóricas. Em especial, muitas das falsas associações entre categorias políticas, culturais e econômicas seriam prontamente vistas como falaciosas, e seria também mais fácil fazer justiça aos momentos de verdade restantes nas associações mais corriqueiras.

Não há espaço aqui para discorrer de modo amplo sobre as razões pelas quais convém evitar essa confusão de categorias, mas exporei a que julgo a mais importante. É natural que ideologias que supervalorizam a economia vejam tudo o mais como decorrente dela. Em consequência disso, seus adeptos não verão sua própria missão como uma simples reforma econômica, e sim como uma transformação integral da realidade humana. Além disso, verão tudo aquilo que reprovam na sociedade atual como efeito do sistema econômico que combatem. Em especial, o próprio fato de terem menos poder do que gostariam será interpretado como uma consequência das injustiças do presente sistema. Daí à rejeição das limitações que esse sistema impõe ao seu poder a distância é muito pequena. Combinado com uma ênfase coletivista, esse fator leva com demasiada facilidade ao radicalismo político e a diversas modalidades de violência.

Dizendo de outro modo, a busca de uma unidade fundada no aspecto econômico, uma vez refletida no vocabulário, leva a uma confusão conceitual entre categorias econômicas e políticas que, por sua vez, abre as portas para a legitimação do combate à democracia e ao estado de direito.29 Afinal, se o esquerdista radical defende a instauração de uma “ditadura do proletariado”, só pode ser porque vê a democracia representativa e o estado de direito como facetas um tanto hipócritas do “sistema capitalista”, os quais ajudam a perpetuar a opressão econômica e, portanto, não merecem sua lealdade.

Brota daí a ambiguidade muitas vezes presente no discurso político de esquerda, mesmo nos casos menos radicais: o mesmo termo “capitalismo” é usado para designar, ora uma configuração econômica tida como liberal (em geral, aliás, de modo equivocado), ora as instituições políticas, sociais e culturais vigentes. Sem dúvida há casos em que esse uso das palavras revela simples confusão mental de indivíduos honestos. Contudo, há também casos em que a confusão é promovida de modo intencional, e serve ao propósito de ocultar projetos de poder que não receberiam o mesmo apoio se fossem declarados sem disfarces.

A aceitação irrefletida do uso corrente do termo “capitalismo” para descrever nossa sociedade nos priva da capacidade de resistir de modo firme a tais artifícios, e assim, inadvertidamente, nos leva a colaborar com o triunfo cultural e político de ideologias com as quais muitos de nós de fato não desejamos compactuar. Esse erro basilar deve ser resistido se não quisermos correr o risco de, no intento de denunciar abusos do poder financeiro, ajudar alguns a corroer as bases da própria democracia. O termo “capitalismo” presta-se com demasiada facilidade ao papel de alimentar bodes expiatórios.

3. Esclarecimentos e considerações finais

Se o espaço permitisse, haveria mais a ser dito sobre outros termos que padecem de maus usos semelhantes, como democracia, ideologia, progresso, reação, revolução, justiça social, conservadorismo, liberalismo, individualismo, coletivismo, totalitarismo, laicismo etc. Contudo, não devo encerrar esta exposição sem fazer um esclarecimento ao leitor sobre o que pretendo e o que não pretendo promover com a argumentação das seções precedentes. Um bom atalho para isso consiste em refletir de modo breve sobre as seguintes palavras do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), dado o forte paralelo entre as minhas intenções e as dele:

A obra intelectual aspira, frequentemente em vão, a esclarecer um pouco as coisas, enquanto a do político, ao contrário, geralmente consiste em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia moral. Além disso, a existência desses qualificativos contribui muito para falsificar mais ainda a “realidade” do presente, já falsa por si só, porque as experiências políticas a que cada uma corresponde giraram cento e oitenta graus, como demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias.30

Existem duas maneiras de entender essas declarações. Como frequentemente acontece, a mais fácil é a errada: equivocar-se-á quem tomá-las como um incentivo à insurreição contra todas as definições, todos os posicionamentos e todos os compromissos. No contexto do presente ensaio, convém combater os rótulos de modo a que ninguém se deixe enganar por eles. Mas, ao fazer isso, não pretendo dar munição aos que se comprazem em fugir das definições firmes. Todos conhecem os velhos chavões comuns no meio evangélico, como “não sou de direita nem de esquerda, e sim de Cristo”. Há certo valor em tal postura, mas é fácil ver que, por trás de uma máscara de equilíbrio, caráter conciliador e superioridade intelectual ou espiritual, ela pode ocultar (e muitas vezes oculta) um simples desejo covarde de não desagradar ninguém ou, pelo menos, um desinteresse oriundo da pura ignorância.

Diante disso, é necessário enfatizar duas verdades. A primeira é que posturas evasivas desse tipo, ao contrário do que proclamam seus possuidores, não eliminam os dualismos. Apenas substituem os existentes por outros: entre equilibrados e desequilibrados, entre os tolos que aceitam rótulos e os sábios que os rejeitam. E, como em outros casos analisados neste ensaio, os novos dualismos também servem ao propósito de elogiar implicitamente seus adeptos. A segunda é que nada garante a utilidade de tais posturas na compreensão da realidade política. Quem se põe acima de todas as definições e correntes políticas pode muito bem continuar não entendendo nada de algumas delas, ou mesmo de todas. Assim, não há razões sérias para promover um agnosticismo em matéria de conceituação política, e tampouco uma imparcialidade absoluta em termos de posicionamento político. É nessa perspectiva que devem ser entendidos tanto a citação de Ortega transcrita acima quanto o espírito deste ensaio.

Há um sentido em que a postura do cristão precisa, de fato, fugir às categorias impostas por correntes políticas alheias às verdades do cristianismo. Afinal, os critérios e prioridades dessas correntes estão sempre, de alguma forma, apoiados em uma cosmovisão fundamentalmente equivocada. Da mesma forma, se recusamos um posicionamento ao lado dos sunitas ou dos xiitas, ninguém pode reclamar que estamos em cima do muro. A distinção entre sunitas e xiitas é uma divisão interna do islamismo, e não faz sentido para quem não é muçulmano. Os cristãos podem ter razões para considerar um desses grupos melhor que o outro sob algum critério, mas jamais poderão se identificar com ele em um sentido absoluto sem que deixem de ter uma cosmovisão autenticamente cristã.

Esse princípio também se aplica no terreno da política, tanto na luta concreta quanto na epistemologia. É importante que saibamos evitar a tirania das palavras, não necessariamente deixando de usá-las,31 mas usando-as de modo que expressem a verdade de modo consciente e intencional. Devemos lembrar que o problema último não está nas palavras, e sim no coração do homem, que é mais enganoso que todas as coisas (Jeremias 17.9). Por isso, não é saudável supor que nos livraremos do risco de errar apenas porque evitamos certos termos, e tampouco que a invenção de termos novos é suficiente para nos aproximar da verdade. Basta que saibamos que os termos usados colocam em evidência certos fatos e relações ao mesmo tempo em que ocultam certos outros. Usá-los sem ter consciência do que se faz é um meio seguro de ficar aquém da verdade. Ao cair nessa armadilha verbal, tornamo-nos portadores de uma ideologia falsa por excesso de simplificação.

As palavras são úteis quando as dominamos, e deixam de sê-lo quando elas nos dominam – ou, o que é ainda pior, quando alguém nos domina através delas. De um modo ou de outro, isso é o que acontece quando (e na medida em que) não submetemos nossa compreensão da realidade ao senhorio de Cristo. O reconhecimento de Deus como Criador e Soberano da dimensão política da realidade e de suas leis é o único caminho seguro para nos levar à verdade sobre o assunto, pois qualquer outra coisa será idolatria. A mudança em nosso uso das palavras só pode ser proveitosa se ocorrer como consequência desse compromisso fundamental.

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1A obra foi lançada no Brasil pela editora Contraponto (Rio de Janeiro, 2010).
2Como se pode ver, há várias semelhanças entre Klemperer e seu contemporâneo inglês George Orwell (1903-1950), escritor bem mais famoso e também interessado na relação entre linguagem e totalitarismo.
3KLEMPERER, Victor, Os diários de Victor Klemperer: testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista, 1933-1945 (São Paulo: Companhia das Letras, 1999), p. 442.
4Esse é o motivo pelo qual dedico algum espaço a esse esquema no presente ensaio, embora haja também acadêmicos que o endossam; cf., por exemplo, Norberto BOBBIO, Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (São Paulo: Unesp, 1995), p. 119. Por isso, passo a me referir a ele usando a expressão “classificação convencional”, ou outras equivalentes.
5Disponível em http://www.politicalcompass.org/. Acesso em 2 de março de 2014.
6Um esquema bidimensional semelhante, embora não idêntico, é apresentado por Franklin FERREIRA no artigo “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho” (Teologia Brasileira, n. 29, 2014). Dsponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392. Acesso em 8 de julho de 2014.
7A pertinência dessa semelhança também é ressaltada e defendida por FERREIRA, op. cit.
8Cf. o estudo de Marlene LARUELLE, Aleksandr Dugin: A Russian Version of the European Radical Right?, disponível em http://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/OP294.pdf. Acesso em 4 de abril de 2014.
9Cf. o pungente testemunho pessoal prestado por Gustavo Corção (1896-1978) em seu livro A descoberta do outro (São Paulo: Agir, 1944) sobre os círculos revolucionários que frequentou na década de 30, antes de sua conversão ao catolicismo: “Fiquei então convencido, nesse tempo, de que o mundo estava torto, intencionalmente torto, por malícia humana, para benefício exclusivo da detestada classe burguesa. [...] Encontrei amigos velhos e conheci novos. [...] Formamos logo um grupo conspirador onde havia um pouco de tudo o que fosse revolucionário: leninistas, trotskistas e fascistas. [...] De excitação em excitação, e certos de que todo o mal estava na direção burguesa baseada ou na mais-valia ou na mentira vital, a maior parte do grupo não fazia questão da doutrina. A mim, devo confessar que o materialismo histórico nunca me pareceu suficientemente claro. Dessa displicência surgiam discussões porque os outros não podiam suportar essa espécie de agnosticismo revolucionário, e três ou quatro rostos ansiosos de catequese viravam-se para mim. E lá vinha o Manifesto, a sociedade sem classes e tudo mais. Mas pouco se me dava o materialismo histórico: o que eu queria era o fígado do burguês. Nesse ponto havia uma instantânea concordância. E assim ficávamos, até altas horas, espancando esse judas ausente, com entremeios de anedotas inéditas.” O capítulo “O viúvo viu a ave”, que contém esses trechos, está disponível em http://permanencia.org.br/drupal/node/86. Acesso em 8 de julho de 2014.
10Tal conclusão brota naturalmente, por exemplo, da leitura de The Founders, o primeiro volume da trilogiaMain Currents of Marxism, de Leszek KOLAKOWSKI (Oxford: Clarendon Press, 1978), focado sobretudo no século XIX; cf. especialmente o capítulo X, “Socialist ideas in the first half of the nineteenth century as compared to Marxian socialism” (p. 150-191).
11MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Cátedra, 1987, p. 27.
12Citado por Jonas MADUREIRA em Afinal, o que é “totalitarismo”? Disponível em http://jonasmadureira.com/2009/12/07/afinal-o-que-e-totalitarismo/. Acesso em 30 de maio de 2014.
13Capitalism, disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Capitalism. Acesso em 7 de junho de 2014. Tradução minha.
14Sobre o funcionamento do Estado chinês e alguns efeitos de suas disputas internas de poder, ver CHAO, Jonathan, “Function and the role of the state: the place of religion and education (a case study: China)”, in VANDER STELT (org.), John C., The Challenge of Marxist and Neo-Marxist Ideologies for Christian Scholarship (Sioux Center: Dordt College Press, 1982, p. 187-209). Gary NORTH, em Marx’s Religion of Revolution: Regeneration through Chaos (Tyler: Institute for Christian Economics, 1989, p. 200-231), fornece um interessante exemplo adicional ao tratar do histórico das oscilações no grau de liberdade econômica da União Soviética.
15Convém acrescentar, nesse contexto, que o Brasil não tem nenhuma tradição forte de liberalismo econômico, e esse é apenas um dos motivos pelos quais é tremendamente impróprio associar a assim chamada “direita” brasileira às vertentes clássicas do conservadorismo ou do liberalismo político. Em nosso país, via de regra, a visão da “direita” sobre economia não é muito menos estatista que a da esquerda.
16Um exemplo disso pode ser encontrado em vários momentos da obra pública de Rodrigo Constantino, um dos mais famosos economistas liberais da imprensa brasileira atual.
17Um bom resumo de seu pensamento e sua relação com outras correntes marxistas pode ser encontrado no volume 2 (The Golden Age) de KOLAKOWSKI, op. cit., p. 447-467.
18O filósofo neocalvinista holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977) expressou a mesma ideia ao criticar o conceito de classes sociais vigente no socialismo do século XIX: para ele, as relações sociais “podem exibir um caráter de mútua neutralidade, de confronto, livre cooperação, antagonismo, competição ou luta” Cf. A New Critique of Theoretical Thought, vol. 3 (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1957), p. 177, citado em DOOYEWEERD, Herman, Roots of Western Culture: Pagan, Secular, and Christian Options(Toronto: Wedge, 1979), p. 201-202.
19A doutrina leninista da “vanguarda do proletariado” é um exemplo histórico bastante típico, tanto no discurso quanto nas consequências mais concretas, do que esse elitismo igualitário pode fazer. Vladimir Lênin (1870-1924) também foi o pensador marxista mais explícito em sua denúncia do caráter burguês da “ideologia” dos operários não submetidos ao Partido.
20CHESTERTON, G. K., O homem que foi Quinta-feira: um pesadelo (São Paulo: Círculo do Livro, 1976), p. 132.
21Por essa razão, entre outras, o uso do termo “neoliberalismo” para descrever a economia globalizada promovida por esses ricos é outro dos grandes equívocos que convém evitar.
22Ocorrida em Sioux Center, Iowa, de 13 a 20 de agosto de 1981.
23VANDER STELT, John C. (org.), op. cit.
24Ibid., p. 104-110.
25Ibid., p. 264.
26MAGNOLI, Demétrio, O grande jogo: política, cultura e ideias em tempo de barbárie. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, p. 247.
27“A política de cotas raciais surgiu nos Estados Unidos como reação conservadora aos movimentos pelos direitos civis e propagou-se, entre ativistas negros, sob o patrocínio de instituições do establishmentcomo a Fundação Ford” (ibid., p. 244).
28Cf. a discussão em CARSON, D. A., Cristo e cultura: uma releitura (São Paulo: Cultura Cristã, 2012), p. 111-116.
29É importante deixar claro que não estou dizendo que todos os absolutizadores da economia fazem isso, e sim que, uma vez assumidos seus pressupostos, não há meios coerentes de manter as portas bem fechadas contra essa possibilidade.
30ORTEGA Y GASSET, José, A rebelião das massas (São Paulo: Martins Fontes, 2007), p. 25-26. Essas palavras foram escritas originalmente em 1937.
31Em especial, as palavras discutidas aqui podem ser (e têm sido) usadas com sentidos descritivos e científicos bem definidos, conquanto não isentos de divergências interpretativas. Não é meu objetivo impugnar os debates sérios nessa área. O propósito deste ensaio é denunciar usos que ocultam a verdade em vez de revelá-la, e isso acontecerá com tanto maior frequência quanto mais retóricos e ideológicos forem. Um esforço autenticamente científico envolvendo esses termos não ignorará as questões levantadas aqui.




Por André Venâncio