segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Armadilhas do vocabulário político



O filólogo Victor Klemperer (1881-1960) foi um dos judeus alemães que sobreviveram ao regime nacional-socialista. Ele não só deixou registros históricos e pessoais valiosos, como seus Diários, mas também, conjugando seu conhecimento acadêmico à experiência existencial de viver constantemente perseguido e marginalizado por um governo totalitário, elaborou uma análise do uso da linguagem pelo Estado nessas condições: A linguagem do Terceiro Reich, publicada em 1947.1 Klemperer era um homem sensível e um observador arguto. Acredito que poucos conheceram como ele, por vias teóricas ou práticas, os usos perversos da linguagem posta a serviço da política.2 Eis um homem que tem autoridade para falar sobre as relações entre linguagem e mentira. Por isso, à primeira vista talvez pareça estranho que seu juízo tenha sido este: “A linguagem revela. Por vezes, alguém procura esconder a verdade por meio da linguagem. Mas a linguagem não mente.” 3

Há nessas palavras uma dimensão teológica oculta da qual o próprio Klemperer, como judeu convertido a um protestantismo teologicamente liberal e comprometido com o iluminismo, pode muito bem ter deixado de perceber: a linguagem foi criada por Deus para expressar a verdade, de modo que a mentira é um parasita pernicioso, mas nunca de todo bem-sucedido.

Ninguém ignora que o terreno do debate político é pródigo de mentiras completas, meias-verdades, confusões e ambiguidades, tanto propositais quanto inconscientes. É importante que o cristão aprenda a evitar tais armadilhas. Diante disso, a sentença de Klemperer se relaciona de várias maneiras ao espírito do presente ensaio, cujo propósito não vai além de uma introdução à tarefa de combater alguns equívocos cometidos com frequência na reflexão política. O método consiste em problematizar, a título de exemplo, dois pares de palavras-chave potencialmente enganadoras, mostrando de que modos podem ser (e são) usadas para ocultar a verdade ao invés de esclarecê-la. Ao mesmo tempo, pretendo mostrar como tais usos podem revelar algumas verdades que são, em geral, pouco notadas.

1. Direita e esquerda

As palavras “direita” e “esquerda” são muito utilizadas para definir a posição política de indivíduos, partidos, governos e movimentos. Existem outros modos de descrição, é claro, mas muitas vezes essa referência direcional proporciona um bom ponto de partida e ajuda a economizar palavras. Porém, todos sabem que não existem só duas posições políticas no mundo. E, embora haja quem creia que toda a diversidade existente é redutível a apenas duas atitudes ou lealdades fundamentais, em geral se admite ao menos a possibilidade de gradações: há posições moderadas e posições radicais, que a convenção dominante situa perto ou longe do centro, respectivamente. É assim que surgem a extrema-direita, a centro-esquerda etc.

Tais considerações, no entanto, são estritamente formais. Passemos agora ao conteúdo. O uso mais difundido dos termos costuma situar na esquerda as visões que priorizam a igualdade econômica dos cidadãos, e na direita as que adotam outras ênfases. É costume também situar no centro as posições comprometidas com a democracia, enquanto as vertentes autoritárias ou totalitárias são empurradas para as extremidades. Assim, indo da esquerda para a direita, teríamos: comunistas, socialdemocratas, liberais, conservadores e fascistas.

Esse esquema representa aproximadamente bem o sentido mais comum que os termos “direita” e “esquerda”, com suas respectivas gradações, costumam ter na mente da maioria das pessoas . Tal uso tem suas vantagens, como já afirmei. Por outro lado, essas palavras são perigosas, pois podem nos levar a severas incompreensões na medida em que esquecemos que são meros atalhos, incapazes de dar conta da complexa realidade das posições políticas. Na presente seção, discorrerei sobre dois grandes perigos associados a esse uso, começando pelo próprio fato do excesso de simplificação.

1.1. Toda classificação com base em um critério único simplifica demais a realidade

A divisão entre direita e esquerda é unidimensional, e não são poucos os que se incomodam com isso. O site The Political Compass,5 por exemplo, apresenta um método de classificação em que a posição política é uma grandeza vetorial, com duas dimensões. Cada visitante pode preencher um questionário com algumas dezenas de perguntas, expressando seu grau de acordo com certas afirmações (como “O inimigo do meu inimigo é meu amigo” ou “Quanto mais livre for o mercado, mais livre será o povo”); com base nas respostas, o visitante é classificado simultaneamente como direitista ou esquerdista, segundo a escala econômica, e como autoritário ou libertário, segundo a escala social.6 Embora não isenta de falhas, a proposta merece menção porque o problema que os autores do método estão tentando superar é real e importante: quando só há uma dimensão, apenas um critério pode ser usado, e isso acarreta distorções que podem se revelar muito graves.

Uma ilustração simples das incongruências a que isso leva pode ser obtida se considerarmos o caso do anarquismo clássico. Sem dúvida é uma posição de esquerda; mas onde devemos colocá-lo, exatamente? Situá-lo à direita da social-democracia dará a impressão de que se trata de uma posição menos radical que esta; se colocado entre a social-democracia e o comunismo, parecerá que é uma posição intermediária entre ambos; e, se for posto à esquerda do comunismo, alguns pensarão que este é apenas um anarquismo mais moderado. Todas essas alternativas são falsas, pois o anarquismo tem peculiaridades que não foram levadas em conta pela classificação convencional.

Muitos aspectos precisam ser levados em conta na descrição de uma posição política. A classificação unidimensional privilegia um deles como o único importante, relegando à obscuridade todas as demais semelhanças e diferenças que possam existir entre duas posições quaisquer. Desse modo, basta mudar o critério, e a classificação muda completamente. Suponhamos, por exemplo, que o critério fundamental escolhido seja o grau de poder dado ao Estado. Nesse caso teríamos, bem perto um do outro, o nazismo e o comunismo7 (que na classificação convencional estão em extremos opostos), ao passo que, na outra ponta, estariam os anarquistas lado a lado com os liberais mais extremados, os assim chamados anarco-capitalistas. Duas ideologias quaisquer podem estar muito perto ou muito longe uma da outra, dependendo do critério adotado. Esse é um dos problemas de se ter um critério só.

As dificuldades que inviabilizam a pretensão unidimensional são muitas, mas citarei de passagem apenas mais dois exemplos. Se abandonássemos a classificação mais popular em prol de outra, baseada na oposição entre posturas coletivistas e individualistas, tudo aquilo que se convencionou chamar de extrema-direita estaria do lado coletivista, mais perto da esquerda, e não mais poderia ser visto como uma vertente radical do liberalismo ou do conservadorismo. Se isso parece um mero sofisma para alguns, devo lembrar que a pré-história dos movimentos fascistas está emaranhada de modo inextricável com a história do socialismo; não seria um grande exagero afirmar que aqueles nasceram como uma dissidência deste. Quando o cientista político russo Aleksandr Dugin conclama o mundo a uma guerra contra a globalização inspirando-se indistintamente em autores nazistas, fascistas e comunistas,8 não está criando ex nihilouma conexão sem fundamento histórico, e sim seguindo certas tendências reais e antigas que, por motivos diversos, deixaram de ser enfatizadas ao longo do século XX.9

Aproveitando que acabo de falar em globalização, o último exemplo citado será o caráter nacionalista ou internacionalista das propostas políticas. Nesse caso, teríamos reunidos do lado internacionalista os seguintes elementos: comunistas e socialistas em geral, para os quais o foco fundamental da lealdade é de natureza classista, transcendendo, portanto, as fronteiras nacionais; os globalistas adeptos da social-democracia cujo sonho é transformar a ONU em um governo mundial; os defensores mais extremados do liberalismo econômico, para os quais as fronteiras nacionais constituem barreiras ao livre comércio e, portanto, à prosperidade dos povos; diversos movimentos políticos islâmicos, que buscam implantar o sonho já bem antigo de um califado mundial; e mesmo alguns segmentos conservadores que atribuem ao Ocidente (ou a alguma nação em especial) a missão de civilizar e democratizar o mundo. O regime nacional-socialista alemão propagava a ideia de que as democracias capitalistas ocidentais eram aliadas naturais do comunismo, visto que ambos os lados eram internacionalistas e, supostamente, controlados por judeus. Sem dúvida há uma boa medida de paranoia nisso, mas não se pode negar que os nazistas estavam enxergando uma semelhança real e sendo coerentes com sua própria valorização exacerbada do nacionalismo.

Todas essas considerações e exemplos apontam para a dificuldade insuperável que qualquer método unidimensional de classificação do espectro político tem de enfrentar. Tal método necessariamente trará simplificações que podem ser fatais uma vez que seu caráter simplificador seja esquecido. Creio que isso pode ser reconhecido por representantes de qualquer posição política; ou seja, não é necessário ter opiniões semelhantes às minhas sobre qual é o melhor sistema para perceber o caráter potencialmente nocivo desse modo de classificação. Minha primeira objeção à classificação tradicional é, na verdade, uma objeção a qualquer classificação unidimensional.

1.2. A classificação convencional não privilegia o que é mais importante

Não existe método de representação do espectro político isento de desvantagens. Todos eles colocam em evidência certas verdades sobre a realidade política e tornam invisíveis algumas outras. Dessa forma, mesmo uma classificação unidimensional pode ter certo grau de utilidade, desde que estejamos certos de que aquilo que ela ressalta é mais importante que aquilo que ela oculta. Mas essa consideração traz à tona outro possível risco. Afinal, quem garante que uma dada classificação de fato privilegia o mais importante? Se não o fizer, ela conduzirá a enormes equívocos. Baseia-se nisso a minha segunda objeção ao esquema convencional. Essa objeção possui duas características que a diferenciam da primeira: ela não é universal, mas sim dirigida de modo específico a esse modelo; e não independe da posição política adotada pelo observador, pois essa posição influencia os critérios que ele adota para se classificar entre seus antagonistas, já que diz respeito de modo direto às prioridades que cada um tem em vista.

A classificação convencional presume que de cada lado há um acordo razoável sobre os fins, restando apenas combater os que desejam o fim oposto, assim como em uma partida de futebol o objetivo de cada time (ganhar o jogo) é logicamente sinônimo de derrotar o time adversário. Podem existir, é claro, diferenças severas em cada time sobre o melhor meio de ganhar o jogo, e é provável que essa divergência sempre ocorra na ausência de um técnico ao qual todos obedeçam. Os jogadores de um mesmo time podem, inclusive, brigar entre si e não colaborar uns com os outros, o que reduz suas chances de vitória. Apesar disso, todos estão de acordo quanto ao objetivo do jogo. Uma das inconveniências capitais do esquema tradicional é que ele aponta direita e esquerda como lados simetricamente opostos, retratando o jogo político como algo mais semelhante ao futebol do que de fato é. E não poderia ser de outro modo, pois a definição de um único critério de classificação tem naturalmente esse efeito.

A premissa da simetria entre direita e esquerda é falsa. Pode-se dizer, sem dúvida, que a erradicação da desigualdade econômica é uma meta consensual de todas as esquerdas existentes, a despeito de não ser tão unânime a expectativa concreta de como seria o socialismo ideal. Na verdade, as divergências internas da esquerda quanto a isso já foram bem maiores do que são hoje,10 de modo que a descrição pode ser quase acurada dependendo da época a que se refira. Porém, a unidade do lado oposto é muito menor; na verdade, quase nula. Não há um objetivo comum, por mais vago que seja, a todas as direitas que existem. Há quem veja essa unidade em uma defesa comum do “capitalismo”. Na seção 2 falarei mais sobre os problemas dessa ideia. Por ora, é suficiente destacar o fato amplamente ignorado de que, a rigor, apenas os liberais e parte dos conservadores defendem (e com graus variados de entusiasmo) algo que pode ser chamado de capitalismo. A assim chamada extrema-direita foi quase sempre avessa a ele, e muitas vezes com argumentos semelhantes aos da esquerda.

O achatamento de todas essas diferenças em um critério unidimensional é um dos responsáveis pela negligência desses fatos, levando à falsa ideia de que o liberal e o conservador são apenas nazistas moderados. É necessário entender que, dada a ausência de unidade de fins na direita, não pode haver simetria entre direita e esquerda. Enquanto nesta há uma unidade positiva, naquela há apenas uma unidade negativa: o que há em comum entre todas as direitas é apenas o fato de que se opõem à esquerda; mas o fazem pelas razões mais díspares e incongruentes entre si. O liberal se opõe à esquerda por ver nela um atentado ao valor supremo da liberdade individual; o conservador se opõe à esquerda por ver aí uma tentativa de subversão da ordem moral (ou espiritual) da sociedade; os fascismos se opõem à esquerda por verem nela um atentado ao espírito nacional ou racial em prol de uma ordem que transcende a da nação. Além disso, cada um desses motivos pode ser (e é), com o mesmo grau de coerência, apontado por seus respectivos defensores, não só contra a esquerda, mas também contra as demais direitas. Por conseguinte, ainda que adotemos a classificação convencional para dizer quem é direitista, não é justo nem sensato atribuir à direita uma unidade; o que existe é uma irredutível pluralidade de direitas.

Se não há, porém, unidade positiva alguma entre as direitas, resta explicar por que tantos têm dificuldade de perceber isso. Se a classificação convencional faz parecer que existe uma unidade que não existe, ela só pode ser uma ficção ideológica. Nesse caso, tudo se explica uma vez que tenhamos descoberto a quem convém tal ficção. Os fatos expostos no parágrafo anterior deixam claro que não há, para as várias direitas, nenhum interesse em atribuir a si mesmas uma unidade que seus próprios posicionamentos impedem de reconhecer como legítima. Portanto, a resposta é que a atribuição de uma unidade positiva a todas as direitas convém à esquerda.

Os motivos dessa conveniência são de fácil compreensão. Antes de tudo, é uma postura internamente coerente para um esquerdista: a igualdade econômica é, para ele, uma motivação central da luta política. Com base nessa prioridade, faz sentido que ele considere todos os que se opõem à sua meta como estando unidos de um mesmo lado, a saber, o lado de lá, o outro time. Daí a ver nesse outro time uma unidade de interesses escusos e uma defesa (aberta ou velada, consciente ou não) do inimigo supremo – o rico, o burguês, o capitalista etc. – a distância a ser percorrida é bem pequena.

Além disso, e em grande parte por causa disso, quase todas as ideologias de esquerda incluem alguma forma de teoria de luta de classes, para a qual é indispensável que os interesses econômicos e os conflitos construídos a partir deles ocupem o primeiro plano. É por isso que Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) dão início ao seu Manifesto comunista declarando que “A história de todas as sociedades, até os nossos dias, tem sido a história das lutas de classes”.11 Ao menos em seus momentos mais retóricos, quase todo esquerdismo tende a reducionismos desse tipo. Por conseguinte, a negação da unidade positiva das direitas é fatal à consistência interna de quase todas as ideologias de esquerda, e psicologicamente constrangedora para as poucas restantes. Sem essa unidade, a primazia da luta de classes fica bastante abalada, bem como a própria imagem que a esquerda faz do mundo e de seu próprio papel nele.

Esse fato sugere que não há possibilidade de um pensamento de esquerda que não seja inelutavelmente reducionista. Se há uma esquerda menos reducionista, ela o é à custa de sua coerência interna. Contudo, é necessário esclarecer que o reducionismo não é de modo algum uma exclusividade da esquerda. A tentação de ver o mundo como algo semelhante a um jogo de futebol se apresenta, sob diferentes formas, a toda posição política concebível. Afinal, como disse o filósofo Paul Ricoeur (1913-2005), “toda ideologia é simplificadora e esquemática”.12

Na política, como fora dela, o simplismo é inimigo da verdade. Reconhecer suas manifestações em cada caso e se precaver contra elas é um dos desafios do cristão que busca compreender a dimensão política da realidade. A polarização convencional entre direita e esquerda é uma das manifestações mais amplamente difundidas do simplismo posto a serviço de uma agenda política apóstata. A popularidade de tais simplificações é um indício da dificuldade envolvida na tarefa de superá-las, e a popularidade desse esquema específico é um indício da onipresente força cultural da esquerda.

2. Capitalismo e socialismo

Na seção anterior, utilizei os termos “capitalismo” e “socialismo”, que também são bastante presentes nos debates políticos, geralmente designando os dois polos de uma oposição tão fundamental quanto “direita” e “esquerda”. Dada a importância dessas palavras e seu enorme potencial para gerar confusões e mistificações, convém discuti-las de modo mais aprofundado.

Costumo dizer que o capitalismo não existe. Naturalmente, não é uma negação a ser levada a sério de modo absoluto. No entanto, ao enunciá-la eu pretendo dizer algo verdadeiro, em contraposição a alguns usos equivocados do termo que se fazem com muita frequência. Nesta seção levantarei quatro ressalvas a eles. Ao criticá-los, os usos equivocados correlatos do termo “socialismo” também deverão ficar claros, embora a explicação nesses casos possa ser menos desenvolvida.

2.1. O falso pressuposto de que vivemos em um mundo capitalista

Convém iniciar essa discussão pelo senso comum, como já foi feito na primeira seção. A Wikipédia anglófona define o capitalismo nos seguintes termos:

O capitalismo é um sistema econômico em que o comércio, a indústria e os meios de produção são controlados por proprietários privados com o objetivo de obter lucros em uma economia de mercado. As características centrais do capitalismo incluem acumulação de capital, mercados competitivos e trabalho assalariado. Em uma economia capitalista, tipicamente os preços mediante os quais se oferecem ativos, mercadorias e serviços são determinados pelas partes envolvidas em uma transação.13

Essa definição está bastante próxima do conceito mais difundido de capitalismo: indústria, comércio e meios de produção são possuídos e controlados por indivíduos que pretendem lucrar com isso, competem entre si, pagam seus empregados e acumulam dinheiro sem restrições. E os preços das coisas são determinados pelas partes envolvidas nas transações – em outras palavras, por vendedores e compradores. Está claramente implicado nessa descrição um papel nulo ou bastante limitado para o Estado na esfera econômica, seja como regulador ou produtor. Na verdade, o artigo acrescenta já no parágrafo seguinte: “O grau de competição, os papéis da intervenção e da regulação e o escopo da propriedade pública variam entre os diferentes modelos de capitalismo.” Entretanto, é fácil ver que, se o papel do Estado for significativo, a definição dada no início já não vale mais. Dizendo de outro modo, a participação do Estado na economia deve ser reduzida o suficiente para que sua omissão não prejudique a pertinência da definição fornecida.

A questão posta por essas considerações é a seguinte: podemos dizer que capitalismo é sinônimo de liberalismo econômico? Se a resposta for negativa, fica mais difícil dizer a que se refere o termo, pois essa identificação parece natural tanto para os detratores do livre mercado quanto para muitos de seus mais ardorosos defensores. Ela pode ser problematizada, sem dúvida, mas ainda não encontrei um autointitulado anticapitalista que simpatize com o liberalismo econômico, nem um crítico deste último que aceite a pecha de amigo do capitalismo. Esse fato precisa ser levado em conta por qualquer análise que pretenda dissociar as duas ideias. Embora o termo seja, em teoria, passível de outras definições, essa associação é mais forte que tais artifícios. Parece, portanto, que devemos nos inclinar a uma resposta afirmativa à pergunta do início do parágrafo.

Contudo, isso levanta outro problema. Ignora-se quase sempre que a palavra “capitalismo” foi cunhada pela esquerda do século XIX para designar o sistema governado por seus inimigos. A imensa popularização do termo, que se perpetuou sem nenhuma distorção significativa em relação ao seu sentido original, é mais um grande indicativo da força cultural da esquerda no Brasil e no Ocidente em geral. Assim como o próprio esquema convencional de classificação das ideologias, discutido na seção anterior, a conceituação de capitalismo sempre serviu ao modo esquerdista de ver o mundo. Ao mesmo tempo, quem fala em socialismo quase sempre tem em mente uma situação ausente que, quando muito, se concretizará no futuro e da qual só se podem ver agora exemplos imperfeitos em alguns países. A realidade concreta, ao contrário, é vista como capitalista, já que, por definição, o capitalismo é o que existe nos regimes modernos onde o socialismo não triunfou.

Essa maneira de pensar é bastante comum na esquerda, conquanto haja exceções históricas notáveis. Apesar disso, ela não é compatível com a ideia do capitalismo como sinônimo de (ou inevitavelmente associado a) liberdade econômica. Olhando em volta, é fácil ver que nos países considerados capitalistas há graus muito discrepantes de liberdade econômica, efetiva ou pretendida. E as variações não ocorrem apenas entre países, mas também entre gestões e entre programas partidários. Não há motivo para surpresa nisso, pois existem visões políticas de quase todos os tipos militando em cada país democrático, e as disputas de poder político repercutem na orientação econômica de um país. O mesmo ocorre, aliás, em regimes socialistas, dos quais o caso chinês é o mais óbvio.14 Em parte alguma há um exemplo de perfeito liberalismo econômico, nem de perfeito controle estatal da economia.

Por conseguinte, a lógica da associação entre capitalismo e liberalismo econômico (e entre socialismo e controle estatal ou “social” da economia) deveria levar à conclusão de que estamos em um mundo de economia mista, no qual cada lado luta para fazer prevalecer seu ideal, mas raramente com alto grau de sucesso. Em especial, o Brasil de hoje passaria a ser visto como uma espécie de meio-termo entre capitalismo e socialismo.15 Essa concepção faz justiça à realidade, mas cria problemas para quem está confortavelmente habituado a reclamar de todos os males do país e do mundo como resultantes do capitalismo. Afinal, um dos maiores álibis do socialismo nas disputas retóricas é sua inexistência concreta: ele não veio, ou então foi implantado de modo tão distorcido que se tornou irreconhecível. Uma visão mais realista do assunto evitará o falso pressuposto de que o status quo é capitalista. É o primeiro erro a que leva o mau uso do termo, e que todos fariam bem em evitar.

2.2. A primazia imerecida da economia

O segundo erro é mais fundamental que o primeiro, e se relaciona a algo que foi mencionado na seção 1: afirmei ali, limitando-me a registrar o fato, que nem todo opositor da esquerda o é por amor ao capitalismo. Para avançar na discussão, é necessário entender esse fato.

A palavra “capitalismo” surgiu vários séculos mais tarde que o termo “capitalista”, e foi criada para designar o sistema governado pelo burguês. Esse uso do termo pressupõe um modo específico de enxergar e interpretar a sociedade, evidenciando que seu autor atribui ao aspecto econômico uma importância fundamental. Há nisso uma lição a ser aprendida. Se o termo “capitalismo” foi inventado pela esquerda para descrever aquilo a que ela se opõe, o “direitista” que se proclama defensor do capitalismo está aceitando os termos do adversário e, de certa forma, vestindo a carapuça. Sempre que o usuário da palavra não tiver consciência da carga semântica embutida nela, as distorções intrínsecas às cosmovisões esquerdistas poderão se manifestar em seu próprio discurso, a despeito de sua intenção de se opor a elas.

Uma das convicções centrais que dão sentido ao termo “capitalismo” é a do primado do aspecto econômico. Essa absolutização indevida da economia é um dos traços mais amplamente difundidos dos posicionamentos políticos de esquerda, e se reflete com frequência em suas prioridades práticas. Diante disso, é natural que a defesa entusiasmada do capitalismo (seja lá o que for que se queira dizer com isso) se manifeste entre aqueles que não são antiesquerdistas o bastante, isto é, os que compartilham em algum grau dessa mesma absolutização. Os opositores mais radicais e autoconscientes da esquerda se negarão com muita naturalidade a se enquadrar nos critérios que ela usa para definir a luta política.

Por isso, os liberais tendem a ser defensores mais empolgados do capitalismo que os conservadores: em comparação com aqueles, estes últimos se preocupam mais com problemas morais e culturais, que veem (com razão, creio eu) como mais básicos que os puramente econômicos. Para os liberais, como para os esquerdistas, a economia tende a ocupar o primeiro plano, e uma consequência disso é que tanto uns quanto outros deixam de ver as amplas afinidades que têm entre si fora do âmbito estritamente econômico. Elas começam em um berço comum na Revolução Francesa e na adesão ao secularismo e terminam com frequência em itens bastante específicos como a legalização do aborto e das drogas ou as boas-vindas a um eventual governo mundial.

Sendo assim, minha segunda objeção é que o conceito de capitalismo, sobretudo quando visto em oposição fundamental ao socialismo, coloca o aspecto econômico em primeiro plano e tende a varrer para debaixo do tapete todos os outros elementos envolvidos na disputa política, muitos dos quais revelariam afinidades impressionantes entre supostos inimigos mortais.

2.3. A exacerbação da luta de classes

Em parte pelo que acabo de explicar, o uso da palavra “capitalismo” para designar o mundo ocidental de hoje acarreta uma unidimensionalização perniciosa da realidade. Essa tendência serve a um propósito retórico e ideológico específico que não ajuda a entender melhor o mundo. Em especial, há usos do termo “capitalismo” que só fazem sentido à luz da ideia da luta de classes.

Devo reconhecer que essa conexão não é onipresente, embora seja comum o bastante para merecer menção neste ensaio. Como afirmei em 2.2, muitos que defendem o liberalismo econômico não hesitam em chamá-lo de capitalismo, e um dos meios pelos quais fazem essa defesa passa justamente pela negação de um conflito fundamental entre os interesses dos patrões e os dos empregados – ou seja, a negação da luta de classes.16 Além disso, o significado preciso e as implicações da luta de classes nem sempre foram consenso na própria esquerda, havendo casos extremos de pensadores de forte influência marxista, como o francês Jean Jaurès (1859-1914),17 para os quais esse conceito nunca teve grande importância prática. Uma das grandes divergências internas do marxismo nas primeiras décadas do século XX girou em torno disso, com os assim chamados “revisionistas” sendo acusados pelos “ortodoxos” de negar, na teoria ou na prática, a importância da luta de classes.

Os atenuantes que acabo de citar provam duas coisas. A primeira é que, embora a palavra “capitalismo” seja usada quase sempre para expressar uma visão de mundo em que a luta de classes tem um papel proeminente, não é impossível usá-la com outras acepções, como fazem os liberais. A segunda é que as tensões históricas do marxismo em torno da questão só mostram que nem as ideologias mais polarizadoras podem deixar de fazer concessões à realidade. A esquerda nunca conseguiu definir de modo claro, sem contradições nem reducionismos, a relação entre os valores de classe e os valores humanos universais. De qualquer modo, as versões mais polarizadoras do marxismo e seus descendentes são agora mais fortes do que naquele tempo, e hoje há muitas pessoas que não conseguem pensar fora do velho mantra da luta de classes.

Não pretendo negar que sejam comuns os conflitos de interesse entre patrões e empregados. Mas nego que o motor da história consista nisso. Afinal, também podem existir (e existem) conflitos de interesse entre quaisquer dois grupos de seres humanos postos em relação mútua – pais e filhos, homens e mulheres, governantes e governados, comerciantes e clientes, mestres e alunos, gerentes e subalternos, sindicalistas e funcionários não-sindicalizados, etc. Nada prova que alguma dessas categorias de conflitos seja mais fundamental que as demais, e tampouco que os conflitos sejam mais fundamentais que outras formas de relacionamento social.18 A absolutização indevida de uma categoria específica traz duas consequências danosas à apreensão da realidade social: a perda de vista dos interesses em comum entre as classes e a falsa oposição entre os interesses dos revolucionários e os da elite econômica.

2.3.1. A perda de vista dos interesses em comum entre as classes

O discurso da luta de classes ignora todos os interesses em comum que possam existir entre ricos e pobres. Tal comunidade começa pelo fato de que todos os envolvidos em uma empresa, do patrão ao faxineiro, têm interesse no sucesso dela, e prossegue em muitas outras áreas mais ou menos alheias às relações econômicas, nas quais todos têm interesses em comum na qualidade de cidadãos, de pais de família etc.

Uma das reclamações mais recorrentes ao longo da história dos movimentos socialistas, em especial os de orientação marxista, é que os proletários cujos interesses eles julgam representar não têm “consciência de classe”, ou seja, não sabem o que é melhor para si mesmos e se apegam à ilusão de que têm interesses em comum com seus patrões. Decorre daí a importância da educação (ou doutrinação) no marxismo, que nisso mantém uma tradição herdada do iluminismo. Porém, não se deve excluir sumariamente a possibilidade de os “proletários” terem bons motivos para pensar assim, embora isso leve à conjectura (muito mais plausível) de que o marxismo é que vive de colocar os homens uns contra os outros. Uma vez assumido que o direito de decidir o que é melhor para o povo cabe a um punhado de indivíduos ideologicamente iluminados e reunidos sob um determinado partido, não há meios consistentes de evitar a justificação de qualquer tipo de barbaridade.19

2.3.2. A falsa oposição entre os interesses dos revolucionários e os da elite econômica

A segunda consequência é que, uma vez assumido o primado da luta de classes, é fácil inferir daí uma suposta oposição entre os interesses da classe econômica mais privilegiada e os de qualquer um que reivindique para si a posição de representante dos interesses do povo. A ligação das duas ideias é, aliás, parte essencial da invariavelmente autolisonjeira cosmovisão do militante de esquerda. Trata-se, porém, de uma falsa associação. Mais de cem anos atrás, o escritor inglês G. K. Chesterton (1874-1936) expressou isso muito bem em um de seus romances, durante uma conversa sobre um levante anarquista:

Você fala de multidões e classes operárias como se elas fossem o nó da questão. Está contaminado por uma ideia eterna e idiota: se a anarquia vier, virá dos pobres. Por quê? Os pobres foram rebeldes, mas anarquistas, nunca! Mais do que os outros, têm interesses em que haja um governo decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico, não; pode embarcar num iate para a Nova Guiné. Algumas vezes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas.20

O trecho acima é manifestamente literário e talvez um pouco chocante; não é à toa que seu autor é considerado o mestre do paradoxo. Mas seu cerne não é mera pantomima literária: há aí mais verdade do que pode parecer à primeira vista. O economista austríaco Rudolf Hilferding (1877-1941), um dos pensadores mais interessantes da história do marxismo, percebeu muito bem o quanto os interesses do “capital financeiro” são contrários ao liberalismo econômico21 e favoráveis a um Estado forte e monopolizador. Em consequência disso, Hilferding também viu que o triunfo dessa modalidade de “capitalismo” tornaria mais fácil a transição para o socialismo. Ele só não extraiu daí a conclusão de que é perfeitamente legítima e lógica a aliança (ainda que parcial e provisória) entre os grandes banqueiros e empresários e os socialistas, pois isso seria fatal à coerência interna de sua ideologia. Mas não há boas razões para rejeitar essa hipótese a priori.

Quando começamos a prestar atenção nessa possibilidade, alguns fatos começam a fazer sentido. Por exemplo, em 1981 foi realizada a Third International Conference of Institutions for Christian Higher Education,22 evento que tratou do marxismo de uma perspectiva cristã e acadêmica, e à qual compareceram palestrantes com graus bastante variados de afinidade por ele. Mais tarde, foi publicado um livro com as participações do evento.23 O autor mais simpático ao socialismo é John Perkins, partidário da teologia da libertação e envolvido com “teologia negra”. Seu texto, que é intelectualmente o mais fraco do livro, possui sete páginas,24 das quais um total de duas linhas é dedicado a críticas ao comunismo e quase todo o restante ataca o “capitalismo”. Mas o importante para o presente contexto é que Perkins era também o único participante do evento que contava com o apoio oficial da Fundação Ford.25

Esse é apenas um exemplo dentre muitos que apontam para o interesse dos “grandes capitalistas” em apoiar e financiar aqueles que, segundo sua própria teoria, são seus maiores inimigos. E isso ajuda a entender outro fato pertinente e pouco conhecido: quem acessar sites e blogs mantidos por conservadores americanos descobrirá que eles não se consideram defensores dos interesses dos ricos, e que seus maiores inimigos não são os comunistas, e muito menos os pobres, mas sim indivíduos e entidades bilionários que gravitam em torno de governos e organismos internacionais. Esses inimigos costumam apoiar não só o intervencionismo estatal na economia, mas também vários programas muito caros à nova esquerda, como os movimentos gays, a legalização do aborto e das drogas, as ações afirmativas, etc.

O uso da palavra “capitalismo” sem a consciência da frequente comunhão de interesses entre os grandes ricos e a militância socialista traz consigo o sumiço de todo um lado da realidade política. Uma das vítimas locais de tais compreensões é Demétrio Magnoli, um esquerdista moderado e bastante sensato em vários de seus posicionamentos, mas que viu na implementação das cotas raciais pelo governo Lula a prova de uma “crise do pensamento de esquerda”26 no Brasil, com base em parte no argumento de que as cotas são apoiadas pela Fundação Ford.27 E tudo isso porque lhe parece inverossímil que os grandes ricos apoiem algum programa de esquerda.

2.4. A confusão de categorias econômicas, políticas e culturais

A quarta objeção que faço ao uso da palavra “capitalismo” é que ela leva com facilidade à confusão quanto à relação entre economia, política e cultura. O termo é usado algumas vezes para descrever tão somente uma determinada configuração econômica, ou os traços essenciais a um conjunto delas. Em outras situações, porém, ele pode adquirir um sentido bem mais amplo, designando instituições políticas e sociais, bem como valores morais e culturais vigentes em uma sociedade cuja economia é considerada capitalista. É assim que muitos pretendem, por exemplo, que palavras como “consumismo”, “individualismo” ou “democracia” designem qualidades intrínsecas ao “capitalismo”.

Tais associações não são sempre problemáticas, mas passam a sê-lo quando envolvem reducionismo. A ideia marxiana da superestrutura, por exemplo, destina-se a fazer crer que as condições econômicas de uma sociedade determinam, de algum modo, a configuração de todo o resto. Há sempre uma tendência reducionista, com graus diversos de concretização, no discurso e na reflexão teórica de escolas, partidos e doutrinas comprometidos com a absolutização da economia. Esse é um vício compartilhado pelos setores majoritários do socialismo e do liberalismo político. O pressuposto por trás disso é, em última análise, materialista. Quem não se dispõe a enveredar por esse caminho faz bem em questionar a validade desse pressuposto.

Contudo, o reducionismo, já abordado na seção 2.2, não é o único problema. Afinal, é possível combater conscientemente o economicismo e ainda endossar os erros de categoria ligados ao conceito de “capitalismo”, seja para combatê-lo, seja para defendê-lo. D. A. Carson observa28 que muitas vezes falta sutileza nas discussões sobre democracia, ignorando-se as mutações do conceito e da realidade ao longo da história e suas variantes nos diversos países. Um cuidado semelhante deveria existir com relação ao conceito de “capitalismo”. Se essa recomendação fosse seguida, as discussões em torno do tema seriam bem menos retóricas. Em especial, muitas das falsas associações entre categorias políticas, culturais e econômicas seriam prontamente vistas como falaciosas, e seria também mais fácil fazer justiça aos momentos de verdade restantes nas associações mais corriqueiras.

Não há espaço aqui para discorrer de modo amplo sobre as razões pelas quais convém evitar essa confusão de categorias, mas exporei a que julgo a mais importante. É natural que ideologias que supervalorizam a economia vejam tudo o mais como decorrente dela. Em consequência disso, seus adeptos não verão sua própria missão como uma simples reforma econômica, e sim como uma transformação integral da realidade humana. Além disso, verão tudo aquilo que reprovam na sociedade atual como efeito do sistema econômico que combatem. Em especial, o próprio fato de terem menos poder do que gostariam será interpretado como uma consequência das injustiças do presente sistema. Daí à rejeição das limitações que esse sistema impõe ao seu poder a distância é muito pequena. Combinado com uma ênfase coletivista, esse fator leva com demasiada facilidade ao radicalismo político e a diversas modalidades de violência.

Dizendo de outro modo, a busca de uma unidade fundada no aspecto econômico, uma vez refletida no vocabulário, leva a uma confusão conceitual entre categorias econômicas e políticas que, por sua vez, abre as portas para a legitimação do combate à democracia e ao estado de direito.29 Afinal, se o esquerdista radical defende a instauração de uma “ditadura do proletariado”, só pode ser porque vê a democracia representativa e o estado de direito como facetas um tanto hipócritas do “sistema capitalista”, os quais ajudam a perpetuar a opressão econômica e, portanto, não merecem sua lealdade.

Brota daí a ambiguidade muitas vezes presente no discurso político de esquerda, mesmo nos casos menos radicais: o mesmo termo “capitalismo” é usado para designar, ora uma configuração econômica tida como liberal (em geral, aliás, de modo equivocado), ora as instituições políticas, sociais e culturais vigentes. Sem dúvida há casos em que esse uso das palavras revela simples confusão mental de indivíduos honestos. Contudo, há também casos em que a confusão é promovida de modo intencional, e serve ao propósito de ocultar projetos de poder que não receberiam o mesmo apoio se fossem declarados sem disfarces.

A aceitação irrefletida do uso corrente do termo “capitalismo” para descrever nossa sociedade nos priva da capacidade de resistir de modo firme a tais artifícios, e assim, inadvertidamente, nos leva a colaborar com o triunfo cultural e político de ideologias com as quais muitos de nós de fato não desejamos compactuar. Esse erro basilar deve ser resistido se não quisermos correr o risco de, no intento de denunciar abusos do poder financeiro, ajudar alguns a corroer as bases da própria democracia. O termo “capitalismo” presta-se com demasiada facilidade ao papel de alimentar bodes expiatórios.

3. Esclarecimentos e considerações finais

Se o espaço permitisse, haveria mais a ser dito sobre outros termos que padecem de maus usos semelhantes, como democracia, ideologia, progresso, reação, revolução, justiça social, conservadorismo, liberalismo, individualismo, coletivismo, totalitarismo, laicismo etc. Contudo, não devo encerrar esta exposição sem fazer um esclarecimento ao leitor sobre o que pretendo e o que não pretendo promover com a argumentação das seções precedentes. Um bom atalho para isso consiste em refletir de modo breve sobre as seguintes palavras do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), dado o forte paralelo entre as minhas intenções e as dele:

A obra intelectual aspira, frequentemente em vão, a esclarecer um pouco as coisas, enquanto a do político, ao contrário, geralmente consiste em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia moral. Além disso, a existência desses qualificativos contribui muito para falsificar mais ainda a “realidade” do presente, já falsa por si só, porque as experiências políticas a que cada uma corresponde giraram cento e oitenta graus, como demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias.30

Existem duas maneiras de entender essas declarações. Como frequentemente acontece, a mais fácil é a errada: equivocar-se-á quem tomá-las como um incentivo à insurreição contra todas as definições, todos os posicionamentos e todos os compromissos. No contexto do presente ensaio, convém combater os rótulos de modo a que ninguém se deixe enganar por eles. Mas, ao fazer isso, não pretendo dar munição aos que se comprazem em fugir das definições firmes. Todos conhecem os velhos chavões comuns no meio evangélico, como “não sou de direita nem de esquerda, e sim de Cristo”. Há certo valor em tal postura, mas é fácil ver que, por trás de uma máscara de equilíbrio, caráter conciliador e superioridade intelectual ou espiritual, ela pode ocultar (e muitas vezes oculta) um simples desejo covarde de não desagradar ninguém ou, pelo menos, um desinteresse oriundo da pura ignorância.

Diante disso, é necessário enfatizar duas verdades. A primeira é que posturas evasivas desse tipo, ao contrário do que proclamam seus possuidores, não eliminam os dualismos. Apenas substituem os existentes por outros: entre equilibrados e desequilibrados, entre os tolos que aceitam rótulos e os sábios que os rejeitam. E, como em outros casos analisados neste ensaio, os novos dualismos também servem ao propósito de elogiar implicitamente seus adeptos. A segunda é que nada garante a utilidade de tais posturas na compreensão da realidade política. Quem se põe acima de todas as definições e correntes políticas pode muito bem continuar não entendendo nada de algumas delas, ou mesmo de todas. Assim, não há razões sérias para promover um agnosticismo em matéria de conceituação política, e tampouco uma imparcialidade absoluta em termos de posicionamento político. É nessa perspectiva que devem ser entendidos tanto a citação de Ortega transcrita acima quanto o espírito deste ensaio.

Há um sentido em que a postura do cristão precisa, de fato, fugir às categorias impostas por correntes políticas alheias às verdades do cristianismo. Afinal, os critérios e prioridades dessas correntes estão sempre, de alguma forma, apoiados em uma cosmovisão fundamentalmente equivocada. Da mesma forma, se recusamos um posicionamento ao lado dos sunitas ou dos xiitas, ninguém pode reclamar que estamos em cima do muro. A distinção entre sunitas e xiitas é uma divisão interna do islamismo, e não faz sentido para quem não é muçulmano. Os cristãos podem ter razões para considerar um desses grupos melhor que o outro sob algum critério, mas jamais poderão se identificar com ele em um sentido absoluto sem que deixem de ter uma cosmovisão autenticamente cristã.

Esse princípio também se aplica no terreno da política, tanto na luta concreta quanto na epistemologia. É importante que saibamos evitar a tirania das palavras, não necessariamente deixando de usá-las,31 mas usando-as de modo que expressem a verdade de modo consciente e intencional. Devemos lembrar que o problema último não está nas palavras, e sim no coração do homem, que é mais enganoso que todas as coisas (Jeremias 17.9). Por isso, não é saudável supor que nos livraremos do risco de errar apenas porque evitamos certos termos, e tampouco que a invenção de termos novos é suficiente para nos aproximar da verdade. Basta que saibamos que os termos usados colocam em evidência certos fatos e relações ao mesmo tempo em que ocultam certos outros. Usá-los sem ter consciência do que se faz é um meio seguro de ficar aquém da verdade. Ao cair nessa armadilha verbal, tornamo-nos portadores de uma ideologia falsa por excesso de simplificação.

As palavras são úteis quando as dominamos, e deixam de sê-lo quando elas nos dominam – ou, o que é ainda pior, quando alguém nos domina através delas. De um modo ou de outro, isso é o que acontece quando (e na medida em que) não submetemos nossa compreensão da realidade ao senhorio de Cristo. O reconhecimento de Deus como Criador e Soberano da dimensão política da realidade e de suas leis é o único caminho seguro para nos levar à verdade sobre o assunto, pois qualquer outra coisa será idolatria. A mudança em nosso uso das palavras só pode ser proveitosa se ocorrer como consequência desse compromisso fundamental.

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1A obra foi lançada no Brasil pela editora Contraponto (Rio de Janeiro, 2010).
2Como se pode ver, há várias semelhanças entre Klemperer e seu contemporâneo inglês George Orwell (1903-1950), escritor bem mais famoso e também interessado na relação entre linguagem e totalitarismo.
3KLEMPERER, Victor, Os diários de Victor Klemperer: testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista, 1933-1945 (São Paulo: Companhia das Letras, 1999), p. 442.
4Esse é o motivo pelo qual dedico algum espaço a esse esquema no presente ensaio, embora haja também acadêmicos que o endossam; cf., por exemplo, Norberto BOBBIO, Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (São Paulo: Unesp, 1995), p. 119. Por isso, passo a me referir a ele usando a expressão “classificação convencional”, ou outras equivalentes.
5Disponível em http://www.politicalcompass.org/. Acesso em 2 de março de 2014.
6Um esquema bidimensional semelhante, embora não idêntico, é apresentado por Franklin FERREIRA no artigo “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho” (Teologia Brasileira, n. 29, 2014). Dsponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392. Acesso em 8 de julho de 2014.
7A pertinência dessa semelhança também é ressaltada e defendida por FERREIRA, op. cit.
8Cf. o estudo de Marlene LARUELLE, Aleksandr Dugin: A Russian Version of the European Radical Right?, disponível em http://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/OP294.pdf. Acesso em 4 de abril de 2014.
9Cf. o pungente testemunho pessoal prestado por Gustavo Corção (1896-1978) em seu livro A descoberta do outro (São Paulo: Agir, 1944) sobre os círculos revolucionários que frequentou na década de 30, antes de sua conversão ao catolicismo: “Fiquei então convencido, nesse tempo, de que o mundo estava torto, intencionalmente torto, por malícia humana, para benefício exclusivo da detestada classe burguesa. [...] Encontrei amigos velhos e conheci novos. [...] Formamos logo um grupo conspirador onde havia um pouco de tudo o que fosse revolucionário: leninistas, trotskistas e fascistas. [...] De excitação em excitação, e certos de que todo o mal estava na direção burguesa baseada ou na mais-valia ou na mentira vital, a maior parte do grupo não fazia questão da doutrina. A mim, devo confessar que o materialismo histórico nunca me pareceu suficientemente claro. Dessa displicência surgiam discussões porque os outros não podiam suportar essa espécie de agnosticismo revolucionário, e três ou quatro rostos ansiosos de catequese viravam-se para mim. E lá vinha o Manifesto, a sociedade sem classes e tudo mais. Mas pouco se me dava o materialismo histórico: o que eu queria era o fígado do burguês. Nesse ponto havia uma instantânea concordância. E assim ficávamos, até altas horas, espancando esse judas ausente, com entremeios de anedotas inéditas.” O capítulo “O viúvo viu a ave”, que contém esses trechos, está disponível em http://permanencia.org.br/drupal/node/86. Acesso em 8 de julho de 2014.
10Tal conclusão brota naturalmente, por exemplo, da leitura de The Founders, o primeiro volume da trilogiaMain Currents of Marxism, de Leszek KOLAKOWSKI (Oxford: Clarendon Press, 1978), focado sobretudo no século XIX; cf. especialmente o capítulo X, “Socialist ideas in the first half of the nineteenth century as compared to Marxian socialism” (p. 150-191).
11MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Cátedra, 1987, p. 27.
12Citado por Jonas MADUREIRA em Afinal, o que é “totalitarismo”? Disponível em http://jonasmadureira.com/2009/12/07/afinal-o-que-e-totalitarismo/. Acesso em 30 de maio de 2014.
13Capitalism, disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Capitalism. Acesso em 7 de junho de 2014. Tradução minha.
14Sobre o funcionamento do Estado chinês e alguns efeitos de suas disputas internas de poder, ver CHAO, Jonathan, “Function and the role of the state: the place of religion and education (a case study: China)”, in VANDER STELT (org.), John C., The Challenge of Marxist and Neo-Marxist Ideologies for Christian Scholarship (Sioux Center: Dordt College Press, 1982, p. 187-209). Gary NORTH, em Marx’s Religion of Revolution: Regeneration through Chaos (Tyler: Institute for Christian Economics, 1989, p. 200-231), fornece um interessante exemplo adicional ao tratar do histórico das oscilações no grau de liberdade econômica da União Soviética.
15Convém acrescentar, nesse contexto, que o Brasil não tem nenhuma tradição forte de liberalismo econômico, e esse é apenas um dos motivos pelos quais é tremendamente impróprio associar a assim chamada “direita” brasileira às vertentes clássicas do conservadorismo ou do liberalismo político. Em nosso país, via de regra, a visão da “direita” sobre economia não é muito menos estatista que a da esquerda.
16Um exemplo disso pode ser encontrado em vários momentos da obra pública de Rodrigo Constantino, um dos mais famosos economistas liberais da imprensa brasileira atual.
17Um bom resumo de seu pensamento e sua relação com outras correntes marxistas pode ser encontrado no volume 2 (The Golden Age) de KOLAKOWSKI, op. cit., p. 447-467.
18O filósofo neocalvinista holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977) expressou a mesma ideia ao criticar o conceito de classes sociais vigente no socialismo do século XIX: para ele, as relações sociais “podem exibir um caráter de mútua neutralidade, de confronto, livre cooperação, antagonismo, competição ou luta” Cf. A New Critique of Theoretical Thought, vol. 3 (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1957), p. 177, citado em DOOYEWEERD, Herman, Roots of Western Culture: Pagan, Secular, and Christian Options(Toronto: Wedge, 1979), p. 201-202.
19A doutrina leninista da “vanguarda do proletariado” é um exemplo histórico bastante típico, tanto no discurso quanto nas consequências mais concretas, do que esse elitismo igualitário pode fazer. Vladimir Lênin (1870-1924) também foi o pensador marxista mais explícito em sua denúncia do caráter burguês da “ideologia” dos operários não submetidos ao Partido.
20CHESTERTON, G. K., O homem que foi Quinta-feira: um pesadelo (São Paulo: Círculo do Livro, 1976), p. 132.
21Por essa razão, entre outras, o uso do termo “neoliberalismo” para descrever a economia globalizada promovida por esses ricos é outro dos grandes equívocos que convém evitar.
22Ocorrida em Sioux Center, Iowa, de 13 a 20 de agosto de 1981.
23VANDER STELT, John C. (org.), op. cit.
24Ibid., p. 104-110.
25Ibid., p. 264.
26MAGNOLI, Demétrio, O grande jogo: política, cultura e ideias em tempo de barbárie. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, p. 247.
27“A política de cotas raciais surgiu nos Estados Unidos como reação conservadora aos movimentos pelos direitos civis e propagou-se, entre ativistas negros, sob o patrocínio de instituições do establishmentcomo a Fundação Ford” (ibid., p. 244).
28Cf. a discussão em CARSON, D. A., Cristo e cultura: uma releitura (São Paulo: Cultura Cristã, 2012), p. 111-116.
29É importante deixar claro que não estou dizendo que todos os absolutizadores da economia fazem isso, e sim que, uma vez assumidos seus pressupostos, não há meios coerentes de manter as portas bem fechadas contra essa possibilidade.
30ORTEGA Y GASSET, José, A rebelião das massas (São Paulo: Martins Fontes, 2007), p. 25-26. Essas palavras foram escritas originalmente em 1937.
31Em especial, as palavras discutidas aqui podem ser (e têm sido) usadas com sentidos descritivos e científicos bem definidos, conquanto não isentos de divergências interpretativas. Não é meu objetivo impugnar os debates sérios nessa área. O propósito deste ensaio é denunciar usos que ocultam a verdade em vez de revelá-la, e isso acontecerá com tanto maior frequência quanto mais retóricos e ideológicos forem. Um esforço autenticamente científico envolvendo esses termos não ignorará as questões levantadas aqui.




Por André Venâncio

Espectro político, mentes cativas e idolatria



Aquele nosso inimigo era leão quando se enfurecia abertamente; agora é dragão quando ocultamente arma ciladas. (...) Como a nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim precisamos da vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana do que quando se enfurece.

Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo; então coagia, agora ensina. Então introduzia violências; agora, insídias. Aparecia então furioso, agora mostra-se insinuante e dificilmente aparenta erro.1



1. Esquerda e direita
Diante do debate político ora em curso, é necessário se definir o que vem a ser “direita” e “esquerda”. A esquerda pode ser definida como aquele modelo do espectro político em que há pouca ou nenhuma liberdade pessoal e econômica, em que o Estado ou partido ganha uma dimensão transcendente, agindo para estender seu domínio sobre todas as esferas da sociedade. Por outro lado, a direita privilegia a liberdade pessoal e econômica, e a garantia dos direitos individuais, sendo os limites o respeito à vida, à propriedade e à liberdade dos demais.2 Tais termos ganharam este significado após o começo da Guerra Fria.

No Brasil, convencionou-se tratar como “direita” o regime militar, que tomou o poder no Brasil entre 1964-1985, e como “esquerda” os grupos que se opuseram às forças armadas e almejavam um regime socialista. Curiosamente, tanto os militares como a esquerda compartilhavam o autoritarismo e o desenvolvimentismo intervencionista. Mas, se a direita assume como absoluta a valorização do indivíduo, como este sistema pode se degenerar em autoritarismo ou totalitarismo? Há exemplos históricos de regimes autoritários ou totalitários que afirmaram a liberdade individual? Na verdade, não. Antes, foram regimes esquerdistas que almejaram controlar (Gleichschaltung) firmemente todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa), a partir da noção da transcendência do Estado/Partido.3

Paul e Raphael Freston, no artigo “De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos”,4 citando Norberto Bobbio, definem a direita como o espectro político que “enfatiza o ideal da liberdade individual”. Todavia, antes, eles escreveram que se ignora “os exemplos – muito mais numerosos – de autoritarismo de direita”. Porém, a sugestão ou afirmação de que o nazismo, o fascismo e as ditaduras militares da América Latina das décadas de 1960-1980 representam a “direita” é baseada numa contradição entre definição conceitual e realidade histórica.5 O fato é que os ditadores mais cruéis da história do século XX foram esquerdistas: Lênin e Stalin (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), Adolf Hitler (Alemanha) e Walter Ulbricht (Alemanha Oriental), Nicolae Ceauşescu (Romênia), Pol-Pot (Cambodja), Mao Tsé-Tung (China) e Hồ Chí Minh (Vietnã). Cuba, Coreia do Norte e Venezuela são hoje estados-modelos de esquerdismo.6

Nestes debates, a esquerda nunca é comparada à direita. A armadilha do discurso da esquerda é comparar uma ideia “perfeita” com a realidade, como se isso fosse prova da superioridade esquerdista. Porém, a honestidade intelectual exige que se compare o socialismo real com o capitalismo real. Nesse caso, fica escancarada a inferioridade da esquerda. Pois, como escreve Denis Rosenfield, a comparação “deveria ser entre a Alemanha [Ocidental] capitalista e a [Alemanha Oriental] socialista, ou ainda, entre a Coreia [do Sul] capitalista e a [Coreia do Norte] socialista”, mas a comparação é filtrada por uma “mentalidade religiosa”, “teológico-política”, onde se compara a direita real “com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições”.

Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real). (...) Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles ‘existem’ no capitalismo.7

Wolfhart Pannenberg lembra que devemos ter em mente que o “anticristo se manifesta (...) particularmente em doutrinas intramundanas [utópicas] de redenção e salvação, às quais as pessoas das sociedades modernas estão expostas”. Na escatologia das utopias intramundanas “explicitaram-se, pois, as consequências do aproveitamento funcionalista dos indivíduos (...), particularmente no caso do marxismo pelo fato de a felicidade dos agora vivos ser sacrificada sem escrúpulos em nome do pretenso alvo da humanidade”, em que “apenas os indivíduos da geração então vivente poderiam participar” deste “milênio secularizado”. E o contraste entre esta utopia e a esperança ensinada pela fé cristã é claramente estabelecido:

Em toda escatologia intramundana [como o marxismo] a consumação (supostamente) geral tem de ser buscada e afirmada à custa dos indivíduos [em que ‘os indivíduos de gerações passadas’ não ‘participarão da concretização futura de sua destinação’]. Essa é a estrutura anticristã da escatologia intramundana. Em contrapartida, a escatologia cristã preserva o vínculo indissolúvel de destinação individual e geral da humanidade. Através da glorificação dos indivíduos de mãos dadas com a glorificação do Pai e do Filho por eles, se concretizará o reino de Deus e será não apenas consumada, mas também aceita em geral a justificação de Deus perante os sofrimentos do mundo.8

Então, diferente do que se apregoa, partidos de esquerda e extrema-esquerda não são de orientação democrática. Suas propostas são inspiradas na ideia do Estado coercitivo, julgador e punidor. Não reconhecem a dinâmica de equilíbrio dos segmentos da sociedade e das instituições republicanas. Por pensarem desse modo, facilmente são corrompidos pela ideia de que são os “donos da verdade” e únicos porta-vozes da justiça.9

Aliás, a degeneração institucional, a perseguição a jornalistas e o uso de violência e prisões arbitrárias para tentar sufocar os protestos por democracia na Venezuela torna o silêncio de setores da imprensa e do governo esquerdista brasileiro indigno e cúmplice.10 O incrível é que só na América Latina esta devoção ao esquerdismo sobrevive. As nações latino-americanas tornaram-se, de fato, a vanguarda do atraso.

2. Liberalismo e democracia
Ainda que a divisão entre direita e esquerda tenha se tornado lugar comum no debate político no Pós-Guerra e Guerra Fria, só sobrevivem hoje na cultura norte-americana com mais ou menos consistência ideológica. E deve-se lembrar de que o sistema bipartidário dos Estados Unidos foi uma criação dos Pais Fundadores, para que o sistema bloqueasse qualquer radicalismo político. Hoje o sistema entrou “em curto” nos Estados Unidos, especialmente porque Deus, que era importante no pensamento político dos Pais Fundadores, foi melancolicamente afastado para a esfera privada por dirigentes dos partidos Republicano e Democrata.11

Parece que na cultura europeia e brasileira talvez faça mais sentido falar em termos de “liberal” e “antiliberal”.12 A partir de tal paradigma, pode-se perceber que há incrustada no país uma mentalidade antiliberal, entre as elites (coronéis, famílias, conglomerados) e governo (qualquer que seja), que se caracteriza por protecionismo, economia dirigida e centralizada, ódio feroz às privatizações e ao mercado, alta taxa de impostos, pacto a favor do estado e contra as liberdades fundamentais do povo/indivíduos – conceitos associados, tradicionalmente, à esquerda. É importante notar que todos os governos a partir da proclamação da república no Brasil foram antiliberais e populistas – uma marca da política de toda a América Latina. Isso se aplica especialmente a Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, o regime militar, Fernando Collor, Lula e Dilma Rousseff.13

Essa mentalidade antiliberal também se revela na estrutura estatal. O estado brasileiro interfere e intervém em todas as esferas da sociedade (família, artes, esportes, igreja, economia e imprensa). Porém, tudo o que o estado faz é tradicionalmente marcado por ineficiência, incompetência e corrupção. E, num caso de dissonância cognitiva, “ongueiros” profissionais, políticos e “ativistas” ligados a partidos de esquerda e extrema-esquerda como PT, PSOL e PSTU dizem que o país precisa de mais Estado.

Por outro lado, o liberalismo preconiza que se precisa de menos Estado, e que este seja enxuto e eficaz; a redução da interferência do Estado na economia ao mínimo necessário; a defesa da propriedade privada; a privatização das empresas estatais e de serviços públicos que possam ser oferecidos pela iniciativa privada; o livre mercado; e a redução das despesas do governo com a consequente redução da carga tributária. Assim como afirma o respeito ao Império da Lei e às liberdades individuais; à iniciativa privada; às diversas esferas que compõem a sociedade; e o fomento às estruturas mediadoras (intermediate bodies). Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul, entre outros, são guiados por ideais liberais em maior ou menor grau – e o resultado está à vista de todos.14

3. “Geração Coca-Cola”
Diante dessas considerações, é interessante identificar quais os motivos da tendência esquerdista entre os jovens. Estes parecem pertencer à classe alta ou média alta, estudam em universidades estaduais ou federais e recebem bolsas governamentais para (não raro) estudar no exterior. Para eles, os proletários, por viverem para o trabalho, não têm consciência de seu estado de escravidão. E são os membros desta nova classe de “homens novos” que poderão não somente iluminar, mas guiar as massas na luta contra a opressão.

O mundo passa a ser interpretado a partir de uma “nova moral”, que opõe estes que almejam a "construção de um mundo melhor" contra a mentalidade rígida da sociedade. Portanto, o mundo é dividido em opressores e oprimidos, onde todos os bons são oprimidos, todos os que discordam são opressores, e estes devem ser cooptados, silenciados ou eliminados. A complexidade social é reduzida a uma luta entre o bem e o mal, uma luta entre o povo e as elites. Não raro, os trabalhadores são tratados como “massa alienada” por não os apoiar, rotulados como gente que “não quer mudar” e que não enxerga “a luta por mudança”. Curiosamente, durante a Guerra Fria, na Polônia e na Alemanha Oriental, estes idealistas eram chamados pelo proletariado, com cinismo, de “burgueses vermelhos”. A mesma repulsa já se evidencia aqui no Brasil, especialmente por parte das camadas mais baixas da sociedade.15

Urge estudar as conexões de Black Blocs (mascarados vestidos de preto e armados com bombas, coquetéis molotov, pedras e paus) com partidos da esquerda e extrema-esquerda, como o PSOL.16 Quem financia e orienta os Black Blocs? Quem lhes presta assessoria jurídica? O modus operandi desta milícia é velho, antiquado, nada diferente das forças de choque fascistas (Itália, 1920), nazistas (Alemanha, 1930) e esquerdistas (Alemanha, 1970-1998) presentes na história da Europa no século XX.17 Também há similaridades com o procedimento de vários grupos de guerrilha no Brasil durante a ditadura, tais como a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).18 Os Black Blocs fazem ressurgir a violência em manifestações nas ruas justamente em um momento de ascensão de um discurso de intolerância e ódio em relação às principais instituições que dão sentido a uma democracia, vista por estes como um sistema burguês tirânico.19

Não apareceu nas páginas destes grupos ou partidos uma “nota de condolências” ou uma referência à morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes.20 Os que escreveram nas páginas do grupo sugeriam que a tragédia foi um erro “das empresas de comunicação” ou culpa do Estado. Ou rebateram com a lembrança de “tudo que a Polícia Militar já fez”, como um exemplo de “contraviolência”. Nisso também lembram os antigos guerrilheiros, que justificavam suas ações violentas com o termo “represália”.21 Assim sendo, os partidos que apoiam os Black Blocs não têm lastro moral para criticar os “justiceiros” do bairro do Flamengo-RJ.22 Ora, em um país sob uma carta constitucional, a lei não vale para todos, igualmente?23

Deste modo, parece que a violência dos Black Blocs só serve ao governo federal do PT, pois, além de jamais ostentar cartazes ou gritar palavras de ordem contra a falência da saúde e da educação, esvazia as manifestações legítimas com sua violência. Do “milhão”, as passeatas recuaram para os milhares e, finalmente, as centenas, como nas últimas ocasiões.

Espantam-me cada vez mais os rumos da esquerda brasileira. Em vez de aproveitar a oportunidade de sua passagem pelo poder e pôr em prática os ideais de educação, conscientização e espírito de coletividade e trabalho (marcas registradas das promessas socialistas), eles preferem disseminar entre os jovens um espírito de revolta, ignorância e demagogia. Como nota Demétrio Magnoli, “há algo de profundamente errado com um país incapaz de enxergar a face do mal, quando ela se esconde atrás da máscara de uma ideologia”.24

Alguns destes jovens associados à esquerda se identificam como cristãos, mas possuem mais conexão com grupos paraeclesiásticos do que com igrejas locais. Estes cristãos que militam em partidos e grupos de esquerda e extrema-esquerda se autodenominam no Brasil de “cristãos progressistas”. Curiosa – e reveladoramente – os católicos poloneses que apoiavam os nazistas, antes da II Guerra, e os comunistas, no Pós-Guerra, também se chamavam de “cristãos progressistas”.

O que parece é que a ausência do “totalmente outro” (totaliter aliter) leva pessoas a adotar uma ideologia que almeja transcendência, e que supostamente as auxilia a superar as contradições de uma sociedade existencialmente opressiva, satisfazendo a “preocupação suprema” de suas vidas, o sonho de um “outro mundo possível”, a “realização da utopia”.25 Portanto, uma pergunta se impõe aos pregadores e às comunidades cristãs: como responder a este anseio por algo além e acima da criação, que todas as pessoas almejam? Como satisfazer tal desejo, levando pessoas da idolatria à “transcendência desviada”, isto é, ao ente estatal e a ideologia (de direita ou de esquerda), para o culto ao Deus todo-poderoso, o “totalmente outro”, que se revela apenas nas Escrituras Sagradas? Será que na atualidade o evangelho, as boas novas de Deus em Cristo – morto por nossos pecados e ressuscitado para nossa redenção –, tem sido oferecido com paixão e dependência do Espírito Santo? O Deus-Trindade é oferecido como o único que pode satisfazer a “preocupação suprema” que todas as pessoas experimentam?

4. “Não terás outros deuses diante de mim”
A mentalidade esquerdista antiliberal é binária: “nós” e “eles”, os “bons” e os “maus”, os revolucionários e os reacionários, a esquerda e a direita. Esquerdistas não conseguem pensar em termos de gradações.26Então, se alguém os critica, este deve ser, forçosamente, de “direita”. E acaba-se o debate, pois o esquerdista, para equalizar o confronto, começará a falar dos problemas da suposta direita no Brasil – como se houvesse de fato uma direita organizada e partidos políticos liberais no país. E, de forma típica, em vez de colocar argumento contra argumento, o esquerdista usará o discurso da vitimização ou do constrangimento moral/espiritual para se evadir das profundas contradições de seu sistema. Ou apelará para a difamação pura e simples.

Só que “o marxismo”, como escreveu Richard Sturz, “não passa de uma heresia ao cristianismo. Em vez de abolir a religião, o marxismo tornou-se uma religião secular. Seus ensinos são apresentados como substitutos para as doutrinas cristãs”.27 Esta elevação transcendental da ideologia e a incapacidade de autocrítica revela na esquerda uma lealdade idolátrica.

Os cristãos, que buscam confessar sua fé em submissão às Escrituras, creem que há um só Senhor e Rei, o único Deus todo-poderoso. Os cristãos são súditos do “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15). E esperam a “pátria [que] está nos céus”, de onde aguardam “o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20), o único que traz o juízo e a salvação para toda a sociedade.

Os cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria, uma quebra do primeiro mandamento.28 Portanto, os cristãos têm a liberdade – que mesmo os melhores entre os incrédulos não têm – de criticar qualquer sistema político, qualquer ideologia, pois eles o fazem a partir da crença de que somente o Senhor Deus tem o direito de comandar todas as esferas da sociedade. Nenhum governo ou partido recebeu este direito. E os cristãos também creem que governos e partidos que anseiam ser totais deixam de ser a “autoridade ordenada por Deus” (Rm 13.1-7),29 para se tornar “uma besta” que recebeu “seu trono e grande autoridade” do dragão (Ap 13.1-18). E diante desta, a resposta cristã é: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Portanto, o autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos cristãos, por todos os meios legítimos. E, para tanto, precisamos perguntar: “Se o cristão crê que Deus é o único rei e senhor absoluto, ele pode entregar sua lealdade ao partido ou ao Estado autoritário ou totalitário?”. A resposta é: “Não”! É incompatível alguém declarar que adora a Deus como o Senhor que fala apenas por meio de sua Palavra e tornar-se servil a um Estado iníquo. Isso implica que um cristão que se submete a tal Estado coloca-se numa posição contrária à Escritura, tornando-se meramente “o lacaio sagrado do governo”.30

Geralmente – mas não exclusivamente – são teólogos liberais que apoiam o esquerdismo. E estes são os que descartam as Escrituras Sagradas como a única Palavra de Deus que se deve ouvir, e também diminuem a glória e majestade de Deus, como ocorre no teísmo aberto e nas teologias da libertação. Para estes, “a alternativa é crer em um deus que tem o nome, mas não as qualidades do Deus revelado nas Escrituras, e não passa de uma simples capitulação ao marxismo”.31 Mesmo o ser humano é estranho à esquerda – não há interesse no destino da pessoa real e concreta, mas apenas na emancipação da classe proletária, oprimida e alienada.32

Há um esforço consciente de cooptar o que for necessário para dar respeitabilidade a esta tentativa de fundir o esquerdismo com uma revisão da fé cristã. O legado de Dietrich Bonhoeffer é um exemplo desta associação a serviço do marxismo. Cita-se como apoio a uma interpretação esquerdista de Bonhoeffer seu exemplo de resistência ao nazismo e algumas frases de sua correspondência, Resistência e submissão. Mas não há preocupação de colocar o mártir alemão em contexto.33 Como um teólogo alistado no serviço de inteligência militar (Abwehr), amigo de militares nacionalistas que ansiavam por uma paz em separado com a Inglaterra e os Estados Unidos para, aliados a estes, atacarem a União Soviética, pode ser usado como inspiração para uma aproximação entre cristãos e esquerdistas, ou como precursor da teologia da libertação?

Em um apêndice de sua tese de doutorado, escrita em 1927, Bonhoeffer tratou da questão da igreja e do proletariado.34 Ele afirmou a necessidade da igreja evangélica alemã pregar o evangelho ao proletariado, que vivia em miséria e isolamento. E isso se daria quando a igreja parasse de se dirigir apenas à burguesia, que usufruía segurança, relações familiares ordenadas e relativa cultura; se a igreja não anunciasse o evangelho ao proletariado, este seria seduzido pelos socialistas. Para o teólogo alemão, o que estava em jogo era a exclusividade do evangelho, Deus em juízo e graça. Como ele conclui, o evangelho não pode ser confundido com o socialismo, e não será por meio desta ideologia que o Reino de Deus virá à terra. Este será consumado somente por meio do evangelho.

Portanto, o objetivo dos esquerdistas é adequar uma revisão da fé cristã a uma ideologia que lhe é completamente oposta. Por isso o ódio teológico (odium theologicum) que os teólogos liberais têm pela fé reformada. Pois, na verdade, as doutrinas da autoridade da Escritura, da predestinação e da aliança são as verdadeiras motivações de revoluções políticas de longo alcance, como as revoluções inglesa e americana, nos séculos XVII e XVIII.

Diante dos fatos, há os que apelam para o argumento emocional de que uma postura antiesquerdista é “insensível”, “descaridosa” e “alienada”. Não custa lembrar: cristãos fazem “o bem a todos”, e “principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.7-10), constrangidos por amor e lealdade a Jesus Cristo; não terceirizam seu amor, entregando-o ao arbítrio do Estado. Em Atos 2.41-47, passagem tão ao gosto desta mentalidade, os primeiros cristãos repartem o que possuem não constrangidos pelo Estado ou pelo imperador – mas o fazem livremente por amor ao Senhor Deus e ao próximo.

5. “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança”
Helmuth James Graf von Moltke foi preso em janeiro de 1944 por fazer parte da resistência alemã contra o Partido Nacional Socialista. Levado ao tribunal, ele travou o seguinte diálogo com o juiz-algoz, pouco antes de sua morte, em 23 de janeiro de 1945:

No decorrer de seus discursos, [o juiz Roland] Freisler me disse: ‘O Nacional Socialismo assemelha-se ao cristianismo em apenas um aspecto: nós exigimos a totalidade do homem’. Não sei se os outros que estavam sentados ali puderam compreender o que foi dito, pois esse foi o tipo de diálogo travado entre Freisler e eu – um diálogo subentendido, visto que não tive a chance de dizer muita coisa – um diálogo por meio do qual passamos a conhecer um ao outro totalmente. Freisler era o único do grupo que me entendia completamente, e o único que percebia por que deveria me matar... No meu caso, tudo era determinado da forma mais severa. ‘De quem você recebe ordens, do outro mundo ou de Adolf Hitler? Onde você deposita sua lealdade e sua fé’?

Tal pergunta também não está ligada à luta entre a lealdade à esquerda (assim como a qualquer outra posição do espectro político) e a exclusiva adoração ao Deus-Trindade, o único e verdadeiro soberano e rei?

A frase decisiva no processo foi: ‘Herr Conde, o cristianismo e nós, nacional socialistas, temos apenas uma coisa em comum; uma única coisa: nós reivindicamos a totalidade do homem’. Eu gostaria de saber se ele realmente compreendia o que havia dito ali. (...)

Mantive minha posição (...) não como um protestante, não como um proprietário de terras, não como um nobre, não como um prussiano, nem mesmo como um alemão... Nada disso, mantive minha posição como um cristão e nada mais... 35


Que Deus nos ajude a alcançar tal firmeza, ao custo da própria vida, se necessário. Pois Deus não tolera culto a outros seres ou entes. Somente Deus, o senhor todo-poderoso, cujos sinais de seu reino já se fazem presentes por meio do ressurreto Jesus Cristo, é digno de todo culto, devoção e glória.

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1Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 39,1 (São Paulo: Paulus, 1997), p. 635-636.
2Para esta conceituação e bibliografia, cf. Franklin Ferreira, Curso Vida Nova de teologia básica: Teologia sistemática (São Paulo: Edições Vida Nova, 2013), p. 210-212. Neste livro também estabelece-se uma diferenciação entre a posição fundamentalista evangélica de rejeição do espaço público e o desenvolvimento de uma compreensão reformada, que entende Deus como o senhor absoluto de toda a realidade (p. 212-218).
3Para o significado de autoritarismo, cf. Norberto Bobbio; Nicola Matteucci; Gianfranco Paquino, Dicionário de política (Brasília: UnB, 1986), p. 94-104. Para uma conceituação de totalitarismo, exemplificado na Alemanha nazista e na União Soviética comunista, cf. Hannah Arendt, Origens do totalitarismo (São Paulo: Companhia das Letras, 1989), p. 339-531.
4Publicado na revista Ultimato, nº 346. Para uma análise deste texto, cf. Jonas Madureira, Tolerância: a atitude própria de toda alma robusta, http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=366.
5Rotular o Partido Nacional-Socialista Alemão (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiters Partei) como “extrema direita” é somente a repetição de um cliché comum que, admito, é muito popular, mas não se coaduna com a realidade. Os líderes do Partido Nazista se viam como legítimos socialistas, desprezando a aristocracia, o livre mercado, o capitalismo e a democracia liberal, abolindo a liberdade de imprensa, praticando a censura e apregoando uma teoria política com suposta fundamentação científica. E a sociedade alemã foi organizada pelos nazistas sob o efeito coercitivo da “camaradagem” como forma de grupamento social, onde “pensar, sentir e agir em categorias de condução de vida individual e de responsabilidade pessoal estava dissociado do ditame de uma moral que somente permitia o que estava a serviço” da sociedade. O alvo do ditador era a “construção do Estado social do povo”, um “Estado social” exemplar, no qual “as barreiras (sociais) seriam progressivamente derrubadas”. Entre 1925 e 1929 os comunistas estalinistas ajudaram as forças armadas alemãs a se rearmarem – o que era proibido pelo Tratado de Versalhes –, e o treinamento da força aérea e das forças blindadas alemãs se deu em território soviético. Em 1934 havia moedas nazistas cunhadas com a foice e o martelo (basta uma procura no Google Imagens, por “Tag Der Arbeit”). E, no começo da Segunda Guerra, nazistas e comunistas tinham um pacto de não-agressão. Inclusive, duas semanas após a invasão alemã da Polônia, os soviéticos a invadiram, pois a partilha daquele país era parte do pacto de não agressão teuto-soviético. No conjunto, os dois totalitarismos foram responsáveis por alguns dos maiores genocídios da história, como o Holocausto judeu (Shoah) efetuado pelos nazistas, e o genocídio ucraniano (Holodomor), perpetrado por Stalin. Portanto, em última instância, tanto o comunismo como o nazismo são socialismos, sendo o primeiro um socialismo de classe e internacional, e o segundo um socialismo étnico e nacionalista. E só houve guerra entre os dois totalitarismos porque a extrema-esquerda tem caráter autofágico, multiplicando as dissensões internas quando as externas arrefecem – como ocorreu com Stalin, por exemplo, que com medo de traição mandou matar cerca de um milhão de líderes do partido e do alto comando das forças armadas no Grande Expurgo, entre 1934-1940. Curiosamente, na atualidade, o neonazismo ressurge nas cidades da antiga Alemanha Oriental comunista. Para uma introdução a esta classificação do nazismo e comunismo, cf. Alain Besançon, A infelicidade do século (São Paulo: Bertrand Brasil, 2000). Cf. também Sönke Neitzel e Harald Welzer, Soldados: sobre lutar, matar e morrer (São Paulo: Companhia das Letras, 2014), p. 41-45, 49-81.
6Chega-se a uma cifra de 85 a 100 milhões de mortos por comunistas no século XX. Cf. Stephanie Courtois (org.), O livro negro do comunismo (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999). Aos nazistas são atribuídos cerca de 20 milhões de mortos.
7Denis Lerrer Rosenfield, “O embuste ideológico”, em O Globo: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-embuste-ideologico-11167368. Agradeço a Rodrigo Majewski, professor do Instituto Bíblico Esperança, em Porto Alegre-RS, por me chamar a atenção a este ponto.
8Wolfhart Pannenberg, Teologia Sistemática. vol. 3 (Santo André: Academia Cristã & São Paulo: Paulus, 2009), p. 767, 828.
9Ainda assim, deve-se tomar cuidado em não se cair no dualismo esquerdista (ver tópico IV abaixo) e supor que não há inteligência e/ou honestidade na centro-esquerda. Parafraseando Rodrigo Constantino, reconheço na socialdemocracia uma esquerda legítima, da qual se pode discordar com respeito e abertura ao diálogo. Mas, curiosamente, quando na presidência da república brasileira, esta socialdemocracia foi rotulada de “conservadora”, “direitista” e “neoliberal” por partidos de esquerda e extrema-esquerda.
10Em 6 de março de 2014 quatro ex-presidentes da América Latina condenaram a repressão na Venezuela: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/06/internacional/1394125471_182731.html. Os autores da declaração conjunta foram Fernando Henrique Cardoso, Oscar Arias Sánches, Ricardo Lagos e Alejandro Toledo. Cf. o depoimento de Renato Vargens, “Relato daquilo que eu vi na Venezuela de Nicolás Maduro”, em http://renatovargens.blogspot.com.br/2014/04/coisas-que-eu-vi-na-venezuela.html.
11Ainda que a fé de quase todos os Pais Fundadores fosse deísta, a crença na divindade desempenhava papel vital na interpretação da Declaração de Independência e, especialmente, da Constituição dos Estados Unidos. Cf. David Holmes, The Faiths of the Founding Fathers (New York, NY: Oxford University Press, 2006). Outra razão para a crise do bipartidarismo seria a ingerência política do FED sobre os partidos políticos dos Estados Unidos.
12Sobre essa conceituação, cf. a entrevista no programa “Painel”, da Globo News, com Luiz Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo e Bolívar Lamounier, sob a mediação de William Waack: http://www.youtube.com/watch?v=lwEUK8_E60k.
13De acordo com Marco Antônio Villa, há no Brasil “uma tradição antidemocrática solidamente enraizada e que nasceu com o positivismo, no final do Império. O desprezo pela democracia foi um espectro que rondou o nosso país durante cem anos de república. Tanto os setores conservadores como os chamados progressistas transformaram a democracia em um obstáculo à solução dos grandes problemas nacionais, especialmente nos momentos de crise política”. “Ditadura à brasileira”, Folha de São Paulo Opinião, 5 de março de 2009, em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0503200908.htm. Cf. também Nelson Paes Leme, “Os donos do poder”, em http://oglobo.globo.com/opiniao/os-donos-do-poder-12305436.
14Segundo o Democracy index 2012 produzido pela revista The Economist, o Brasil está em 44º no ranking da democracia, com as seguintes avaliações: geral: 7.12; processo eleitoral e pluralidade: 9.58; governança: 7.50; participação política: 5.00; cultura política: 4.38; liberdades civis: 9.12. Os países ranqueados até o 25º lugar são considerados “democracias completas”; do 26º até o 79º, “democracias falhas”; do 80º até o 116º, “regimes híbridos”; do 117º até o 167º, “regimes autoritários”. A Venezuela está em 95º, como um regime híbrido, com avaliação geral de 5.15 e Cuba está em 127º, um regime autoritário com avaliação geral em 3.52. Deve-se destacar que desde 2006 tanto as avaliações do Brasil como da Venezuela caíram. Cf. Democracy index 2012: Democracy at a standstill – A report from The Economist Intelligence Unit, em: http://pages.eiu.com/rs/eiu2/images/Democracy-Index-2012.pdf.
15um exemplo sintomático: “Sininho”, a jovem ativista do grupo dos Black Blocs, foi insultada na rua como “patricinha hipócrita” por passageiros de ônibus. Cf. http://oglobo.globo.com/rio/sininho-chamada-de-patricinha-hipocrita-ao-deixar-delegacia-11573691.
16O PSOL é um partido de extrema-esquerda, que tem entre seus fundadores um terrorista italiano (Achille Lollo) e que lutou para dar asilo a outro terrorista italiano (Cesare Battisti).
17Para aludir à famosa frase de Karl Marx em O 18 brumário de Luís Bonaparte, “a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”, recomendo o filme O Grupo Baader Meinhof (2008), que conta a história do grupo de extrema-esquerda Fração do Exército Vermelho (RAF).
18O ex-militante de esquerda Augusto de Franco comentou que havia a tática de provocar a polícia para obter respostas violentas e, assim, desacreditar as instituições responsáveis pela ordem. Cf. http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/v/entre-aspas-discute-a-atuacao-dos-black-blocs-na-morte-do-cinegrafista-santiago-andrade/3147060.
19Cf. Merval Pereira, “O futuro da democracia”, em O Globo: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?blogadmin=true&cod_post=526563&ch=n: “Segundo a Freedom House, um centro de estudos nos Estados Unidos dedicado à análise da liberdade no mundo, 2013 foi o oitavo ano seguido em que a liberdade global declinou”.
20Como jornalistas da TV Globo atribuíram a morte do cinegrafista inicialmente à Policia Militar, Alon Feuerwerker considerou 7 de fevereiro de 2014 como “o dia em que a TV russa salvou o jornalismo brasileiro”, por causa das imagens da agência de notícias russa Ruptly, que foram fundamentais para descobrir que o artefato que vitimou Santiago Andrade foi lançado por Black Blocs.
21VAR-Palmares chegou a planejar a execução (ou, em linguagem revolucionária, “justiçamento”) de militares. Cf. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,var-palmares-planejou-execucao-de-militares,705934,0.htm?p=1. Ex-militantes, como Fernando Gabeira, confessam que os programas de seus grupos realmente incluíam a “ditadura do proletariado” no Brasil. Cf. http://www.youtube.com/watch?v=8VtXhnxWHC0. Cf. também Marco Antonio Villa, sobre o conturbado período da ditadura: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,golpe-a-brasileira,1131917,0.htm.
22f. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1407239-adolescente-e-agredido-a-pauladas-e-acorrentado-nu-a-poste-na-zona-sul-do-rio.shtml.
23Tal procedimento ilustra um uso ideologicamente contaminado dos direitos humanos. Cf. Ruy Fabiano, “Direitos humanos seletivos”, O Globo, http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2014/02/15/direitos-humanos-seletivos-524517.asp.
24Demétrio Magnoli, “Causa mortis”, O Globo, http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2014/02/13/causa-mortis-524204.asp.
25Outro elemento que vale a pena ser destacado é a culpa difusa que esses jovens de família abastada provavelmente sentem pela desigualdade, uma culpa que recebe nome e solução nas ideologias de esquerda. Cf. Norma Braga Venâncio em A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã (São Paulo: Vida Nova, 2012), p. 179-181.
26Cf. John M. Ellis, em Literature Lost (New Haven & Londres: Yale University Press, 1997), que analisou o fenômeno chamado por ele de “lógica do tudo-ou-nada” (all or nothing logic) no campo das ciências literárias nas universidades americanas, tomadas pelo pensamento de esquerda.
27Richard J. Sturz, “O marxismo e a fé cristã”, em Colin Brown, Filosofia e fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2007), p. 274.
28Karl Barth, “O primeiro mandamento como axioma teológico”, em Walter Altmann (org.), Karl Barth: Dádiva & louvor; artigos selecionados (São Leopoldo: IEPG & Sinodal, 1996), p. 127-139.
29 Para a teologia anti-imperial de Paulo, cf. N. T. Wright, Paulo: novas perspectivas (São Paulo: Loyola 2009), p. 83-106.
30Cf. Eberhard Busch, “Igreja e política na tradição reformada”, em: Donald McKim (ed.), Grandes temas da tradição reformada, p. 160-175. A questão de fundo aqui é a legitimidade do Estado. A comunidade cristã honra o Estado quando este é legítimo, inclusive servindo-o, mas resiste-o quando se torna não-legítimo. Para tal, é necessário distinguir entre ordem e arbítrio, democracia e tirania, liberdade e anarquia, etc. Cf. Karl Barth, “Comunidade cristã e comunidade civil”, p. 289-315.
31Richard J. Sturz, “O marxismo e a fé cristã”, p. 277.
32Richard J. Sturz, “O marxismo e a fé cristã”, p. 268-271.
33Isso ocorre tipicamente nos cursos de graduação em teologia, ao tratar de teologia contemporânea; ensinam-se alguns temas da teologia de Barth e Bonhoeffer, por exemplo, mas há pouco ou nenhum esforço de inseri-los no contexto intelectual, político ou social da Europa ocidental das décadas de 1910 a 1940. Cf. especialmente Dean G. Stroud (ed.), Preaching in Hitler’s Shadow: Sermons of Resistance in the Third Reich (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2013), p. 3-48.
34Dietrich Bonhoeffer, Sociologia de la Iglesia: Sanctorum Communio (Salamanca: Ediciones Sígueme, 1969), p. 248-251. Para um exemplo de resistência ao totalitarismo cubano, baseado em Bonhoeffer, cf. a história do pastor batista Mario Felix Lleonart Barroso, autor do blog cubanoconfesante.com, em “Cuba Case Study: Bonhoeffer-Inspired Pastor Arrested After Blogs, Tweets, and D.C. Trip”: http://www.christianitytoday.com/gleanings/2014/january/cuba-case-study-pastor-mario-lleonart-arrested-csw.html.
35Cf. Michael Haykin, Palavras de amor (São José dos Campos: Fiel, 2011), p. 139-140. Este trecho é de uma carta escrita da prisão de Tegel para sua esposa, Freya, em 11 de janeiro de 1945. Moltke era luterano, e membro do Círculo de Kreisau, de resistência não violenta ao nazismo, mas foi executado na prisão de Plötzensee, em Berlim, na esteira do fracasso da Operação Valquíria.




Por Franklin Ferreira

A relação entre a igreja e o estado



Deus estabelece na criação várias instituições para a ordem social, cada qual com sua própria esfera de atividade e missão, e responsável por algo diante dele.1 Mas, antes de considerarmos a posição reformada sobre a relação da igreja com o estado, será útil compará-la com outros modelos políticos e teológicos rivais.

O gráfico abaixo ilustra as percepções de cristãos influenciados pelo fundamentalismo americano, que se tornou um dos principais modelos de relação com a sociedade entre os evangélicos no século XX. A partir desse modelo, defendia-se não somente uma separação do Estado, mas também uma separação de outras esferas da criação, percebendo-as como essencialmente pecaminosas e impedidas de qualquer possibilidade de redenção:





A visão reformada da sociedade não se centraliza no indivíduo nem na instituição, mas na soberania de Deus sobre as esferas da criação, nas quais diferentes instituições estão debaixo do reinado de Deus. Como Koyzis afirma, esta posição é uma afirmação não hierárquica da sociedade civil, na medida em que “(1) a soberania derradeira pertence somente a Deus; (2) toda soberania terrena é subsidiária da soberania de Deus e (3) não há nenhum foco último (ou penúltimo) de soberania neste mundo do qual todas as demais soberanias sejam derivadas”.2

Essa posição destaca que “todos os homens vivem numa rede de relacionamentos divinamente ordenada.” Nesse sentido, “as pessoas não encontram sentido ou propósito quer em sua própria individualidade, quer como parte de um todo coletivo.” Na verdade, “elas atendem a seus chamados dentro de uma pluralidade de associações comunais, como família, escola e Estado”, portanto “Deus ordenou cada uma dessas esferas de atividade como parte da ordem original. Juntas, elas constituem a comunidade da vida.”3 O gráfico abaixo esboça essa posição:




Nessa posição, a família, o indivíduo e a igreja são esferas independentes do Estado, pois existem sem este, derivando sua autoridade somente de Deus. O papel do Estado é mediador intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra o abuso dos demais. Deste modo, a convicção que está por trás desta posição foi assim expressa por Abraham Kuyper: “Na extensão total da vida humana não há nenhum centímetro quadrado acerca do qual Cristo, que é o único soberano, não declare: Isto é meu!”.4

Abaixo, é oferecido um desenvolvimento dessa posição por meio de algumas premissas que podem guiar o entendimento evangélico da relação entre o cristão e a política:5

Em primeiro lugar, afirma-se a distinção entre igreja e Estado, lembrando que toda autoridade procede de Deus. As tarefas da igreja e do Estado são de dois tipos e são distintas, não podendo ser confundidas. Deus instituiu o governo civil para nosso benefício a fim de refrear o mal e promover o bem (Rm 13.1-7; 1Pe 2.13-17), e deve haver distinção entre aquilo que é governado pela igreja e aquilo que está sob a autoridade do governo civil (Mt 22.21). A existência do Estado deve ser reconhecida como um dom e uma ordem de Deus. Portanto, os que assumem cargos públicos devem reconhecer que sua autoridade é delegada. O governo estabelecido por Deus é mediado pelo povo, que elege seus governantes. Estes são eleitos para servir ao povo, ao mesmo tempo em que cumprem suas tarefas com senso de dever, pois sabem que darão contas de seus atos perante uma autoridade maior.

Em segundo lugar, rejeita-se o conceito de soberania absoluta do Estado e o conceito de soberania absoluta do povo. Para a fé cristã, o poder reside em Deus e em Cristo, que é o Senhor de todo poder e autoridade (Ef 1.21,22) e “o soberano dos reis da terra” e “REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 1.5; 19.16), comandando todas as esferas sociais. Somente Deus detém o poder absoluto: “Porque o SENHOR é o nosso juiz; o SENHOR é o nosso legislador; o SENHOR é o nosso rei; ele nos salvará” (Is 33.22). Portanto, Deus é a fonte final da lei e de toda autoridade. Logo, prestar fidelidade ou lealdade absoluta ao Estado é idolatria (Dn 3.1-30), pois é Deus quem estabelece o certo por meio de sua lei, portanto deve-se compartilhar a lei de Deus por meio da mudança das estruturas sociais. Por isso que, na mesma medida em que as leis estabelecidas numa nação devem ser derivadas da lei de Deus, essas leis devem ser aplicadas a todas as pessoas, incluindo os governantes. Mesmo numa nação que não é cristã, pode-se apelar à lei de Deus escrita na criação e gravada na consciência dos seres humanos, que é coincidente com a lei revelada. Portanto, numa nação, não há ninguém que esteja acima da lei (Dt 17.18-20). Esse é o princípio da lex rex (a lei é o rei), que se opõe ao princípio despótico da rex lex (o rei é a lei).6 Como Calvino escreveu:

O Senhor, portanto, é o Rei dos reis, e a ele devemos ouvir acima de todos tão logo abra sua boca. De forma secundária, devemos estar sujeitos aos homens que têm preeminência sobre nós, mas somente sob a autoridade de Deus. Se as autoridades ordenarem algo contra o mandamento de Deus, devemos desconsiderá-lo completamente, seja quem for o mandante.7

Em terceiro lugar, Deus delega autoridade tanto ao governante quanto às pessoas. Ao ocupar um cargo de autoridade, nenhum homem tem poder sobre outro, a não ser quando essa capacidade é delegada por Deus. Mas essa autoridade é relativa e revogável. Por isso, os cristãos devem opor-se a todo sistema político totalitário. Mais do que um direito, isto é um dever (Êx 1.17,21; Dn 3.18; 6.10; Et 4.16; Mt 2.8,12; At 4.18,20; 5.29). A fé cristã honra as autoridades, embora negue ao Estado o direito de intervir em matérias de culto, doutrina e ética. O respeito à autoridade é necessário, mas jamais ao custo da liberdade de consciência, pois somente Deus é o único Senhor. Neste sentido, “no momento em que os magistrados vão além dos limites de sua autoridade, (...) tornam-se semelhantes aos ladrões, usurpadores e violadores”.8 Já que a autoridade não é algo intrínseco ao governante, mas delegado por Deus, os cristãos devem resistir, pelos meios corretos e legítimos, a quem exerce a autoridade política contra a vontade de Deus. Assim sendo, para a tradição reformada, o governo é governo legítimo quando e na medida em que é servo de Deus. Assim, não devemos identificar um governo, de forma direta e automática, com a vontade de Deus.9 Nesse sentido, a resistência ao Estado que faça mau uso da autoridade que lhe foi delegada deve ser entendida como desobediência civil.10 Desde que exercido dentro de limites aceitáveis, esse é um mecanismo legítimo a que tem direito todo cidadão e, de forma específica, todo cristão, quando em confronto com um Estado totalitário que interfere na esfera litúrgica, doutrinária ou ética, e requer para si o que equivale à adoração (Ap 13.1-18). Portanto, a “rebelião contra os tiranos é obediência a Deus” (Rebellion to tyrants is obedience to God).

Em quarto lugar, nenhuma ideologia é absoluta nem pode ser confundida com o evangelho. Com acerto, aDeclaração Teológica de Barmen afirma: “Rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes”.11 Sempre que cristãos identificam determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica, essa mensagem não apenas foi distorcida, como também acabou sendo obliterada. Por outro lado, a igreja deve manter vigilância sobre o Estado. Não se pretende com isso substituir o sermão baseado na Escritura pelo discurso político. Adorar a Deus, proclamar sua Palavra e ministrar os sacramentos é a principal tarefa da igreja, além da qual não existe outra. Ao proclamar com fidelidade a Palavra de Deus, a Igreja influencia o Estado, fazendo com que suas leis se conformem com a vontade de Deus. De tal fidelidade ao chamado primário da comunidade cristã decorrem consequências políticas e sociais na sociedade.

Em quinto lugar, o realismo cristão ressalta que a corrupção na política tem origem primariamente no coração dos seres humanos. Se a doutrina da criação afirma a dignidade humana, o ensino bíblico sobre a queda afirma a corrupção humana. Os pecados individuais se tornam pecados estruturais, tais como idolatria, egoísmo, violência, despotismo, corrupção; estes acabam por afetar as estruturas do poder constituído. Por isso, a igreja cristã “prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus”, crendo que, a partir do arrependimento e quebrantamento pessoal, as estruturas serão limpas de iniquidades.12 Um ponto importante que se deve destacar aqui é que a “corrupção da chamada classe política” deve ser interpretada como “um reflexo da sociedade, pois a sociedade é corrupta e isso inclui a igreja”. Com consternação, constata-se que “o povo de Deus deveria ser um exemplo de conduta e obediência, mas nossas ações revelam que não somos muito diferentes da sociedade em geral”.13 Acabamos por reproduzir os pecados da sociedade, em vez de influenciá-la, santificando-a.

Por outro lado, a revelação geral e a graça comum ensinam que “há princípios que, se aplicados, produzirão a ética na política.” Essas são as doutrinas que proporcionam a base dos valores éticos em pessoas que não são cristãs. Portanto, “o caminho para a ética na política” não passa pela conversão de todos ao cristianismo, nem consiste “em colocar em cargos políticos quem se professa cristão”, mas em “contribuir para que a lei de Deus seja reconhecida” por todos.14 Por isso, podemos cooperar com incrédulos como cobeligerantes na esfera política, lutando contra males aos quais também nos opomos.

O fundamento da cobeligerância é a área de consenso ético que tem por base a Escritura: por exemplo, homicídio, adultério, furto e “falso testemunho” são moralmente errados (Êx 20.13-16). Na esfera política, pode-se servir pontual e transitoriamente com pessoas, grupos, movimentos, organizações e instituições que convirjam em termos de valores éticos cristãos.15 A Igreja mantém sua independência e identidade, tendo a Escritura como padrão e o Espírito Santo como fonte de discernimento, assim como a confissão de fé e catecismos como “fiel exposição do sistema de doutrina, ensinado nas Escrituras".16

Em sexto lugar, por causa do pecado na sociedade, a república se torna não apenas o melhor sistema, mas o sistema mais viável. A forma de governo que mais se aproxima do modelo bíblico é a república, na qual a nação é governada pela lei constitucional e administrada por representantes eleitos pelo povo. Porque somente Deus concentra em si todo o poder (Is 33.22), deve haver a divisão e a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, de modo que nenhum governo ou ramo do governo monopolize o poder. Assim, a república se torna o melhor sistema, pois é a salvaguarda das liberdades individuais, “designada para fragmentar o poder político, de modo que ele não possa ameaçar as vidas, liberdades e propriedades".17 Portanto, devido à inclinação humana para a injustiça, advinda do pecado, a república torna-se necessária; e devido à inclinação humana para a justiça, capacitada pela graça comum, a república torna-se possível. Como disse Winston Churchill, talvez o mais importante político do século XX: “Muitas tentativas foram feitas para diferentes formas de governo, e muitas ainda serão tentadas neste mundo de pecado e dor. Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.18

Portanto, em conclusão, os cristãos defendem os fatores que definem uma república, que são aqui esboçados e que podem ser deduzidos ou inferidos da Escritura:

• Ênfase nas funções primordiais do Estado, em que os governantes têm a obrigação de zelar pela segurança do povo, afinal, para isso pagamos impostos (Rm 13.1-7);

• Limitação da extensão e do poder do Estado, pois, a partir das Escrituras, entende-se que o governo não tem autoridade para estabelecer impostos exorbitantes, redistribuir propriedades ou renda ou confiscar depósitos bancários;

• Separação e cruzamento fiscalizador (freios e contrapesos) entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, para que nenhum poder possua poderes absolutos, e para que sempre haja entre os poderes separação, independência e harmonia;

• Lembrar que o papel do Estado não é igualar a todos, mas dar oportunidade de ascensão social a todos, investindo e promovendo educação e serviços médicos de qualidade;

• Apoio a associações e organizações que promovam a justiça em todos os aspectos da vida, especialmente aos marginalizados e oprimidos (Jr 22.3; Tg 1.27; 2.1-10; 5.1-8).19

• Promoção de uma ética protestante do trabalho, que “é um conjunto de virtudes econômicas [fundamentadas na Escritura]: honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento — ‘seis dias trabalharás’, obediência ao oitavo mandamento — ‘não furtarás’, e obediência ao décimo mandamento — ‘não cobiçarás’”, reconhecendo que a ênfase no “trabalho produtivo origina-se da Bíblia e da Reforma”;20

• Direito à propriedade privada como direito fundamental (Êx 20.15,17; 1Rs 21.1-29);21
• Alternância do poder civil, que impede que um partido ou autoridade se perpetue no poder, assim como a defesa do pluralismo político e partidário;

• Centralidade do contrato social, que é um acordo entre os membros de uma sociedade pelo qual reconhecem a autoridade sobre todos de um conjunto de regras; a constituição, que limita o poder, organiza o Estado e define direitos e garantias fundamentais;

• Garantia das liberdades individuais, por meio do estabelecimento de normas gerais de conduta, que redundem em liberdade de expressão, associação e de imprensa;

• Voto distrital para o poder legislativo, em que o país ou o estado é dividido em distritos eleitorais com aproximadamente a mesma população; cada distrito elege um deputado e, assim, completam-se as vagas no congresso e nas câmaras estaduais.22

Esses são o conjunto de princípios que a tradição reformada tem afirmado ao tratar da relação dos fiéis e da comunidade cristã com o Estado. Que, à luz desse ensino, os cristãos orem e intercedam pelos governantes, “para que tenhamos uma vida tranquila e serena, em toda piedade e honestidade” (1Tm 2.1-3).

O Estado não é a solução última (ou penúltima) para a sociedade, pois o melhor que o Estado pode fazer é refrear a injustiça causada pelo pecado. A salvação somente é encontrada em Deus e em Jesus Cristo. Portanto, o papel da igreja é proclamar essa salvação como a única solução final para a sociedade: “Porque o SENHOR é o nosso juiz, o SENHOR é o nosso legislador, o SENHOR é o nosso Rei; ele nos salvará” (Is 33.22).

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1Revisado e ampliado de Franklin Ferreira, Curso Vida Nova de teologia básica: Teologia sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2013), p. 212-218. Esta publicação é continuação do ensaio “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho”, publicado em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392. O texto “Uma agenda para o voto consciente”, publicado em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=402, deve ser lido como uma aplicação das teses aqui expostas. A palestra proferida em 27 de setembro do presente ano, na Igreja Batista do Morumbi-SP, no 3º Encontro Teológico, que tratou do tema Cristo & César, teve por base este ensaio.
2David Koyzis, Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 278.
3Gordon Spykman, “The principled pluralistic position”, em Gary Scott Smith (ed.), God and Politics: Four Views on the Reformation of Civil Government (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1989), p. 79, citado em Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus (São Paulo: Vida, 2006), p. 93.
4Abraham Kuyper, “Sphere Sovereignty”, in: James D. Bratt, Abraham Kuyper: A Centennial Reader(Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1998), p. 488.
5Pontos básicos extraídos de: Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade: Carta de princípios 2006 (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006); Wayne Grudem, Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer (São Paulo: Vida Nova, 2014); Eberhard Busch, “Igreja e política na tradição reformada”, em Donald McKim (ed.), Grandes temas da tradição reformada (São Paulo: Pendão Real, 1998), p. 160-175; “Um manifesto cristão”, em Francis Schaeffer, A igreja no século 21 (São Paulo: Cultura Cristã, 2010), p. 157-239; André Biéler, A força oculta do protestantismo (São Paulo: Cultura Cristã, 1999); Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), p. 85-115; Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus, p. 92-101; Johannes Althusius, Política(Rio de Janeiro: TopBooks, 2003); David W. Hall, The Genevan Reformation and the American Founding(Lanham, MD: Lexington, 2005).
6Cf. Samuel Rutherford, Lex, Rex, or The Law and the Prince (Harrisonburg, VA: Sprinkle, 1982), obra que foi profundamente influente nas reformas constitucionais britânicas no fim do século XVII e começo do século XVIII, e foi considerado um dos documentos fundantes dos debates políticos que conduziram à independência americana, no século XVIII. Cf. também David Hall, The Genevan Reformation and the American Founding, p. 253-260.
7João Calvino, A instituição da Religião Cristã, IV.20.32. Vol. 2 (São Paulo: UNESP, 2009), p. 902.
8Harro Höpfl (ed.), Sobre a autoridade secular: Lutero e Calvino (São Paulo: Martins Fontes, 1995), p. XXXIX. O autor está resumindo o pensamento de João Calvino. Neste contexto, é importante destacar que Calvino não elaborou uma doutrina da resistência ao Estado. Estes desenvolvimentos se deram em círculos reformados na França, Holanda e outros lugares.
9Eberhard Busch, “Igreja e política na tradição reformada”, p. 164.
10No passado, as revoluções, em geral, desembocaram em guerras e mortes, muitas vezes resultando em tirania. Um modelo de revolução sem derramamento de sangue foram os movimentos ocorridos há vinte anos, na época da derrubada do comunismo e do retorno à democracia na Polônia, Hungria, Alemanha e Tchecoslováquia. É necessário destacar como foram fundamentais nesse processo as reuniões de oração pela paz, dirigidas pelo Rev. Christian Führer na Nikolaikirche, em Leipzig, que gerou o movimento que culminou na revolução pacífica no leste alemão. Cf. especialmente Timothy Garton Ash, Nós, o povo: a revolução de 1989 em Varsóvia, Budapeste, Berlim e Praga (São Paulo: Companhia das Letras, 1990), e Michael Meyer, 1989: O ano que mudou o mundo (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009). Esses eventos chegaram ao seu clímax na inesquecível noite de 9 de novembro de 1989, com queda do muro de Berlim, e o consequente fim da Guerra Fria.
11“A Declaração Teológica de Barmen”, em A Constituição da Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América, Parte 1: Livro de Confissões (São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969), 8.18.
12Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade, passim.
13Ponto destacado por Kenneth L. Davis, diretor-executivo de Edições Vida Nova e professor de Hermenêutica no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos-SP, em troca de e-mails.
14Augustus Nicodemus Lopes, op. cit., passim.
15Cf. Cláudio A. C. Leite, Guilherme V. R. de Carvalho e Maurício J. S. Cunha (orgs.), Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social (Viçosa, MG: Ultimato, 2006), p. 274. O conceito de cobeligerância tem sua origem em Francis Schaeffer e sua obra Um manifesto cristão.
16Manual Litúrgico da Igreja Presbiteriana do Brasil (São Paulo: Cultura Cristã, 2005), p. 127, 170, 185.
17W. Gary Crampton & Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã (Brasília, Monergismo, 2009), p. 76.
18Winston S. Churchill, Speech, House of Commons, November 11, 1947, citado em Robert Rhodes James (ed.), Winston S. Churchill: His Complete Speeches, 1897–1963, vol. 7 (New York and London: Chelsea House and R.R. Bowker, 1974), p. 7566.
19O leitor deve ter em mente que é a Escritura Sagrada e não uma cultura secularizada e decadente que define quem são os marginalizados e oprimidos, ou seja, o pobre, o estrangeiro, o órfão, a viúva e o que sofre violência. A luz deste ponto, na Antiguidade Clássica, “em Roma, a Igreja sustenta 1500 pobres e viúvas, por alturas de 250. As igrejas de Roma e de Cartago mandavam para África e Capadócia muito dinheiro, destinado a remir [os] cativos, após as invasões bárbaras de 254 e 256. Duas gerações antes, o Estado Romano, em face de problemas idênticos, após uma invasão, lava as suas mãos, abandonando os pobres provinciais; (...) Na realidade, ser cristão, em 250, dava mais garantias a um homem do que sercives romanus”. Cf. Peter Brown, O fim do mundo clássico: de Marco Aurélio a Maomé (Lisboa: Verbo, 1972), p. 72. Para um desenvolvimento deste tópico, cf. Timothy Keller, Justiça generosa: a graça de Deus e a justiça social (São Paulo: Vida Nova, 2013).
20W. Gary Crampton & Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã, p. 72.
21Cf. Wayne Grudem, Negócios para a glória de Deus (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), p. 21: “Em algumas culturas, direitos de propriedade são egoisticamente reservados a uma minoria de pessoas poderosas, e as regulamentações [burocráticas] governamentais são tão complexas e morosas que tornam impossível às pessoas pobres possuir qualquer propriedade ou um negócio pequeno. Nos países comunistas, a propriedade privada de casas e negócios é proibida por lei, e o governo possui todas as fábricas e todos os imóveis. Tal sistema é maligno porque permite às pessoas possuir apenas alguns bens e, dessa maneira, as impede de ter a oportunidade de glorificar a Deus pela posse de um bem, de uma casa ou de um negócio”.
22Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Itália e França estão entre os países que adotam o voto distrital. Na Alemanha o sistema é misto, e o voto distrital subordinado ao sistema proporcional. No Brasil vigora o voto proporcional nos pleitos para deputados federais, deputados estaduais e vereadores, no qual a proporção de cadeiras parlamentares ocupada por cada partido é diretamente determinada pela proporção de votos obtida. O voto majoritário é adotado nos pleitos para presidentes, governadores, senadores e prefeitos.




Por Franklin Ferreira