domingo, 26 de outubro de 2014

A boca está fechando



No jargão dos institutos de pesquisa, os gráficos de pontuação formam o desenho da boca de um jacaré. Quando os índices de um candidato são maiores que os do adversário, o desenho é de uma boca de jacaré se abrindo, e geralmente essa tendência se mantém ao longo da disputa. A boca do jacaré se abrindo é sinal de vitória.
Ao contrário, quando a boca do jacaré vai se fechando, devido à redução da diferença entre os dois candidatos, é sinal de que a eleição pode estar caminhando para uma vitória apertada de quem está na frente, ou para uma reviravolta, dependendo do tempo existente até as urnas e as circunstâncias da disputa.

As pesquisas apresentadas ontem pelo Datafolha e pelo Ibope mostram a boca do jacaré se fechando, embora os dois institutos indiquem que o mais provável é a vitória da presidente Dilma. O Ibope é mais ousado e afirma que a presidente está muito perto de ser reeleita. Já o Datafolha mostra um empate técnico no limite da margem de erro, e diz que o mais provável é que a presidente esteja na frente, sem, no entanto, cravar nada.

Os dois institutos mostram uma parada do crescimento da presidente Dilma e um movimento ascensional do candidato do PSDB Aécio Neves. Além dos erros que os dois mais conhecidos institutos de pesquisa cometeram no primeiro turno, há uma série de outros institutos menores ou menos conhecidos que apontam resultados distintos.

A Confederação Nacional dos Transportes (CNT) apresentou uma pesquisa do instituto MDA que mostra Aécio Neves na frente por uma pequena margem: 50,3%

49,7% A seu favor está o fato de que foi o primeiro instituto a registrar a virada da presidente Dilma no segundo turno, de 50,5% a 49,5%.

Já no Vox Populi, ligado ao PT, os números são 53,4% para Dilma e 46,5% para Aécio. O instituto Sensus, ligado ao PSDB, dá o contrário: Aécio 54,6% e Dilma 45,4%. Tudo indica, portanto, que a disputa está muito acirrada e chegaremos hoje nas urnas sem uma definição do resultado, como em eleições anteriores.

Fatores aleatórios poderão influenciar no resultado, como abstenção causada por chuvas ou dificuldade de condução em regiões mais distantes. Também há uma indefinição sobre votos nulos e em branco e ainda há um número de indecisos que podem mudar o resultado numa eleição tão apertada como aparenta ser esta.

Por região, na pesquisa do Ibope, temos alguns dados importantes. Dilma lidera com folga no Nordeste (68% a 27% dos votos totais), sem alterações na margem de erro em relação à última pesquisa, mas Aécio cresceu 3 no Sudeste, passando a vencer por 50% a 39%. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, ele parece estar recuperando a maior votação que chegou a ter, de 67%. Está no momento com 63% a 37%. Em Minas, tem 54% a 46%. No Rio, a diferença a favor de Dilma é grande: 51% a 37%.

Há empate técnico no Norte/Centro-Oeste (Dilma 48%, Aécio 45%) e no Sul Aécio subiu 2 pontos e a presidente perdeu 3, ficando com 43%, enquanto o candidato do PSDB tem 47%.

A mais recente polêmica da eleição é a da edição antecipada da revista Veja com uma reportagem que revela que o doleiro Alberto Yousseff disse aos promotores que o ouvem na delação premiada que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma sabiam de todo o esquema de corrupção na Petrobras.

O PT denunciou a reportagem como golpista e membros da Juventude Socialista vandalizaram a sede da Editora Abril, que publica a revista, em São Paulo. O partido tentou ainda impedir a circulação da revista e conseguiu no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma proibição de divulgar a capa em qualquer mídia, o que foi denunciado pelos órgãos de defesa da liberdade de imprensa como um atentado à livre informação.

O PT mostrou nesse caso, além da habitual intolerância à imprensa independente, que tem dois pesos e duas medidas, pois no debate do SBT a presidente Dilma perguntou a Aécio sobre uma denúncia que acabara de ser publicada no site da Folha de S. Paulo, de que o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, já falecido, havia recebido dinheiro do esquema da Petrobras para boicotar a CPI sobre a estatal.
A notícia foi negada dias depois pelo próprio Yousseff, mas já fora utilizada no debate sem que ninguém do PT achasse golpe sua publicação em meio à campanha eleitoral.





Por Merval Pereira

Saem Aécio e Dilma, volta Paulinho



Hoje à noite será conhecido o nome do próximo presidente, e a partir de amanhã as petrorroubalheiras voltarão a ter o destaque que merecem. Trata-se do maior e melhor documentado escândalo da História. Diante dele, o mensalão é coisa de flanelinhas. Pela primeira vez, o Ministério Público e o Judiciário terão a oportunidade para desvendar, expor e punir uma rede que envolve burocratas, operadores, políticos e grandes empresas. A colaboração de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef com as autoridades já gerou um lote de inquéritos que se desdobrarão em diligências e prisões. No vértice dessa pirâmide, estará o relator do processo no Supremo Tribunal Federal, ministro Teori Zavascki. Faltou sorte aos envolvidos, pois se trata de um magistrado silencioso, rápido e eficiente como a lâmina de uma guilhotina.

Até agora, pelos vazamentos desordenados, as investigações estão poluídas por acusações que produzem mais calor do que energia. Por exemplo: o “amigo Paulinho” disse que, em 2009, repassou R$ 10 milhões ao presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, para que ele ajudasse a travar uma CPI destinada a investigar a Petrobras. O capilé teria sido pago pela empreiteira Queiroz Galvão, uma das donatárias da obra da refinaria Abreu e Lima, aquela que deveria ter custado US$ 2,5 bilhões, já custou US$ 20 bilhões e ainda não está pronta. Prova, até agora, nenhuma. Paulinho contou também que, em 2010, derramou R$ 1 milhão na campanha da petista Gleisi Hoffmann para o Senado. Essa acusação ampara-se numa anotação existente em sua agenda: “PB 0,1”. Seriam as iniciais de Paulo Bernardo, ministro das Comunicações, marido de Gleisi e alto comissário do PT paranaense. Esse dinheiro teria sido entregue, em espécie, a um intermediário. O Ministério Público e o Judiciário sabem que, com esses elementos, as duas acusações valem rigorosamente nada. Se a Queiroz Galvão pagou a Guerra, será preciso rastrear o ervanário. O mesmo sucede no caso da senadora. Ou aparece a grana, ou “PB” tanto pode ser Paulo Bernardo como Papa Bergoglio, e “0,1” pode significar 1 milhão ou uma esmola de dez centavos.

O “amigo Paulinho” e Youssef merecem fé porque, pelos seus acordos com a Viúva, ficarão anos na cadeia se forem apanhados mentindo. O que vazou não é tudo o que eles contaram, e o Ministério Público e a Polícia Federal deverão aprofundar as investigações, documentando-as. Só esse trabalho poderá converter em acusação aquilo que por enquanto é um “ele me disse”.

A exposição das petrorroubalheiras criou uma situação paradoxal. Ao mesmo tempo em que se fala numa negociação das grandes empreiteiras para conseguirem um acordo de leniência com a Viúva, tanto a Odebrecht como a Camargo Corrêa negaram terem se metido em qualquer ato ilícito. No máximo, teriam sido extorquidas. Como? O procurador-geral Rodrigo Janot matou essa charada chamando a proposta de “cartel da leniência”. O “amigo Paulinho” deu à Justiça os nomes dos representantes de Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão com quem traficava. Só as investigações poderão mostrar do que tratavam e por quanto tratavam.



Por Elio Gaspari

Desafios que esperam o país em 2015

Novo governo lidará com inflação alta, desemprego maior e nó do setor elétrico



Seja qual for o resultado das urnas neste domingo, o cenário para 2015 será de inflação alta e taxa de desemprego maior, em um ambiente de baixo crescimento econômico. O próximo governo terá que lidar com outros sérios desafios para colocar o Brasil em uma trajetória de crescimento sustentado da economia: a reorganização das contas públicas, um dos maiores déficits nas contas externas do país e um rombo na Previdência que deve superar os R$ 50 bilhões este ano ao lado do envelhecimento da população brasileira.
Diante da pressão da elevação do dólar, do aumento de tarifas de energia elétrica e dos custos de serviços ainda em nível alto, os preços continuarão acima do que seria desejado. Nem mesmo a fraca atividade econômica, que inibe a demanda, deve compensar esses outros impactos.

O setor energético será um capítulo à parte na gestão econômica: a falta de chuvas e as medidas adotadas pelo governo federal levaram a aumentos em 2014 e devem colaborar para reajustes elevados também em 2015.

A dificuldade na criação de vagas, principalmente formais, deve se acentuar e tende a levar a uma taxa de desocupação acima dos pisos históricos que vêm sendo registrados, dizem analistas.

A preocupação se dá principalmente diante das previsões do mercado, que espera que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fique em 6,3% no próximo ano, segundo a última edição do Boletim Focus, do Banco Central. Já para o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto dos bens e serviços produzidos no país), a projeção é de alta de apenas 1%.

Desde 2010, as expectativas do mercado têm sido mais otimistas que o desempenho efetivo dos dois indicadores. Pelo boletim, as estimativas para o IPCA feitas ao fim do ano anterior eram de 4,5% para 2010, 5,32% para 2011, 5,32% para 2012 e 5,47% para 2013. As taxas efetivamente alcançadas foram de 5,88%, 6,50%, 5,84% e 5,91%, respectivamente. Para 2014, previa-se em dezembro do ano passado uma inflação de 5,98% e agora o número esperado é de 6,45%.

A conjuntura ainda terá que lidar com as consequências de um ano em que o investimento ficou em suspenso: em dúvida sobre o futuro, muitos empresários preferiram a cautela e adiaram investimentos.

A economia feita pelo governo para pagar juros da dívida pública (o chamado superávit primário) despencou e isso levou ao aumento da dívida pública em relação ao PIB. Na esteira da deterioração fiscal, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s piorou a nota de crédito do Brasil, e a Moody’s colocou o rating do país em perspectiva negativa.

A situação das contas externas é fonte de preocupação: o mercado prevê que o rombo das transações correntes fique em US$ 81 bilhões em 2014. O cenário reúne baixa competitividade das empresas, balança comercial com saldo perto de zero, recuo nos preços de commodities, desconfiança dos empresários e comércio internacional enfraquecido com lenta recuperação de países avançados.

— O ano de 2015 será difícil. Teremos que lidar com a inflação, a deterioração no mercado de trabalho, uma economia que cresce pouco e o problema fiscal — afirma o professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Antônio Licha.

O economista Joaquim Eloi Cirne de Toledo aponta que há questões complexas a serem tratadas ao mesmo tempo: reduzir o déficit externo, o que exige melhora de produtividade, de infraestrutura e taxa de câmbio mais atraente:

— Todas essas coisas têm impactos sociais e políticos. Qualquer um que ganhar terá que tocar isso com luvas de pelica — diz Toledo.




Por Lucianne Carneiro, Martha Beck, / Gabriela Valente, Eliane Oliveira, / Geralda Doca, Danilo Fariello, / Karla Mendes, Rennan Setti e Lino Rodrigues

Amanhã, recomeçamos

Foi uma longa batalha que não só dividiu o país como dividiu amigos 



Mais um domingo, o último de outubro. Hoje é dia. Foi uma longa batalha que não só dividiu o país como dividiu amigos. A partir de amanhã, é hora de falar em reconciliação. Individualmente, não se pode ignorar o outro. Politicamente, é um erro ignorar metade do país. Não importa que vencedor, o discurso dos primeiros dias tentará cicatrizar as feridas do embate. O problema é que o PT acredita no confronto, na oposição dos contrários, como a única lei do movimento.

Confesso que conheci Dilma melhor nessa campanha. Sobre sua visão política e o assalto à Petrobras já escrevi muito. Registro a decadência cotidiana da política nacional. E temo que estas eleições tenham apenas acentuado minhas advertências. Em todas as minhas viagens pelo Sudeste, esbarrei com a seca. No Rio Piracicaba, na nascente do São Francisco, até a Fonte da Vovó, em Guaratiba, em muitos lugares surgem as marcas da estiagem. E nada de seca nos debates. Não me refiro à inútil tentativa de culpar um ao outro pela seca. Mas uma política de recursos hídricos, recuperação dos rios, fortalecimento dos comitês de bacia, que é uma excelente ferramenta de gestão.

Desde muito que as evidências já não importam mais. Os cínicos triunfaram impondo a tese de que importam apenas as versões. A suprema vitória foi adoção da tática de Goebbels: repetir a mentira muitas vezes para que se confunda com a verdade.

E não é só a adoção de uma tática nazista que marca a descida aos mais baixos níveis de luta política. Há também a admiração dos observadores que se apegam à sua eficiência eleitoral e a medem em números de pesquisa. Quando digo que conheci melhor a Dilma é porque, nessas eleições, através de muitos vídeos, observei nela algo que é muito caro entre escritores: a luta com a palavra, a luta mais vã, segundo o poeta Carlos Drummond.

No entanto, não era exatamente a angustiante escolha da palavra certa que me chamou a atenção, mas sim a fuga escorregadia de proparoxítonas e o sumiço repentino de expressões como tsunami. É uma questão de memória. As revistas científicas divulgam uma pesquisa feita no Massachusetts Institute of Technology que revela algo interessante sobre o tema. Se ao ouvirmos o som da buzina não a associarmos com a vinda de um carro, isso é muito perigoso. Por outro lado, estabelecer vínculos entre milhares de acontecimentos pode ser inútil, criando medos artificiais.

As pesquisas revelaram que na região do córtex se produzem células destinadas a reprimir os neurônios que são responsáveis pela lembrança. Lá dentro do cérebro já existe uma luta independente de nossa vontade entre o lembrar e o esquecer. Depois do debate do SBT, visivelmente cansada, Dilma esbarrou na palavra inequívoca e capitulou na palavra mobilidade: deu um branco. Ela já estava dando sinais de cansaço no final do debate. Numa das perguntas, completou as últimas frases com clichês, demonstrando que acionara o piloto automático. Momentos depois, os gestos começaram a ganhar autonomia. Creio que ela estava, inconscientemente, tentando apoiar o queixo com a mão, disfarçando a tentativa alongando o gesto.

Numa conferência que realizou na CNI, disponível na internet, não havia sinais de cansaço. Mas a memória também falhou. Essa palestra ficou conhecida na internet por causa do erro aritmético: Dilma disse que treze menos quatro é sete. Todos riram e adiante ela corrigiu sua conta. O mais interessante no vídeo é sua luta com a palavra tsunami, que se escondeu numa gaveta, recusava-se a aparecer. “Aquele furacão, aquele Fukushima... no Japão, como é que chama? Tsunami.”

Lembrei-me do meu pai. Ele usava a expressão genérica “como é que chama” para se referir a todas as palavras que escapavam de sua memória:

— Menino, vai ao lado do fogão e pega a como é que chama.

Era preciso ir atento e procurar ao lado do fogão aquilo que poderia ser a como é que chama. Voltava triunfante com a vassoura, certo de que era ela.

Sinceramente, não sei se, em termos eleitorais, todos os lapsos atrapalham Dilma. Os discursos políticos são tão pasteurizados que, às vezes, uma performance como a do tsunami dá uma certa vida. Se for reeleita ao longo desses anos difíceis, talvez os burocratas só a deixem fazer intervenções lendo um texto. Os lapsos são apenas o traço pessoal a ser sepultado pela cuidadosa criação da imagem. Como os neurônios de Dilma vão se combinar para inibir ou produzir lembranças é uma nota ao pé de página nessa campanha de maré baixa na política.

Há certamente temas para não serem esquecidos: esquemas de suborno na sua base aliada, o processo de corrupção na Petrobras, crise hídrica, economia em baixa, violência em alta. De uma certa forma, a luta de Dilma com a palavra a humaniza. É a pessoa pedindo socorro, sob a pesada armadura de estadista em que a cobriram. Uma fantástica máquina de propaganda e um poderoso esquema de corrupção ocuparam o lugar central na política. Até quando? Hoje à noite, saberemos. E amanhã, recomeçamos. Com que esperanças e frustrações, só a definitiva pesquisa das urnas vai dizer.



Por Fernando Gabeira

sábado, 25 de outubro de 2014

A captura



O adiamento dos dados ruins não anula os fatos, mas tem um efeito que vai além das possíveis vantagens eleitorais do governo. Institutos do Estado não podem agir como se fossem do partido no poder. Essa captura das instituições traz estragos permanentes. O Ipea e o Inpe deixaram de divulgar dados para não constranger o governo ou inibiram estudos com conclusões desagradáveis.

Todos os dois institutos são maiores e mais importantes do que os autores dessa decisão controversa. Há excelentes profissionais nas duas casas. Mas a captura das instituições do Estado pelo governo é uma distorção que não se pode aceitar numa democracia.

O Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, chega aos números de desmatamento através de dois sistemas: um traz informações parciais para alertar de forma rápida o que está acontecendo, o Deter; o outro consolida todas as informações, é o Prodes. Por alguma razão, que não é difícil imaginar, deixaram de ser divulgados em tempo real. O Imazon, uma instituição não governamental que processa imagens dos mesmos satélites, informou que em agosto e setembro o desmatamento aumentou 191% em relação ao mesmo período do ano passado. Por que era tão importante avisar o que está acontecendo em tempo real? Para evitar que piore, já que em 2013, pelos dados finais consolidados, a elevação do desmatamento foi de 29%.

O Ministério do Meio Ambiente informa que as notícias serão divulgadas em novembro. Por que será? E alega que dará dados mais precisos. Balela. O Deter significa Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real. Ou seja, é para ser um alerta. A transição para um novo sistema que consiga ver desmates em áreas menores não deveria comprometer o mais importante dessa tecnologia, que é a velocidade do alerta. Importa saber, diante do que aconteceu no ano passado, se foi um fato isolado ou se estamos vivendo um retrocesso que exige mudança urgente nas políticas de controle.

O Inpe deveria não só divulgar na data certa o dado colhido, como deveria ser independente para fazê-lo. Não pode, nem deve ficar submetido ao Ministério do Meio Ambiente por duas razões: primeiro porque está ligado formalmente ao Ministério da Ciência e Tecnologia e não ao do Meio Ambiente. Segundo, deveria ser responsável para informar o que apura, da mesma forma que o IBGE não tem que divulgar seus dados através de um ministério, nem mesmo àquele ao qual está ligado hierarquicamente. O caso mais grave, entre os atrasos, é o do desmatamento, pela distorção institucional imposta aos excelentes cientistas do Inpe e porque o silêncio tem consequências irreversíveis.

O Ipea veio ao mundo para ser uma visão crítica das políticas públicas. Pode indicar que o caminho é virtuoso, deve mostrar os riscos de cada estratégia. Não pode ser, como tem sido nos últimos anos, uma parte do marketing governamental. Seu argumento para não informar não faz justiça às inteligências que abriga. Diz que não divulga para não favorecer um dos lados em disputa, e, assim, acaba por conseguir o contrário: favorece um dos lados do pleito. Isso não deve estar em consideração em um órgão técnico, do Estado. Ele tem que ser neutro. Com microdados do IBGE ou de outros bancos de dados, o instituto, desde que foi criado há 50 anos, é um centro de estudos que, apesar de ser público, não pode ser governamental. O Ipea é maior do que sua atual orientação, felizmente.

Outros órgãos da administração direta deixaram para divulgar números ou tomar decisões em novembro. Guardam segredos de polichinelo. O que prejudica mais o país não é um número sonegado. É o uso da máquina pública e a perda de credibilidade das instituições.




Por Míriam Leitão e Marcelo Loureiro

Brasil esta à margem de sistema produtivo mundial



Mal situada em ranking sobre integração a cadeias globais de produção, economia brasileira se isola e abre mão de conseguir elevar produtividade e de crescer.

Na ditadura militar, com ênfase no governo Ernesto Geisel, o país se tornou ainda mais protecionista, a fim de realizar o sonho de contar com uma indústria de base própria, para substituir as importações de insumos petroquímicos, de máquinas e equipamentos.

Uma formidável massa de dinheiro público foi destinada a este projeto estratégico, lastreado em uma ampla reserva de mercado. O desfecho foi um estrondoso fracasso.

Constituiu-se, na história republicana do país, uma das maiores transferências de renda do contribuinte para um pequeno número de empresários, os “campeões nacionais” daquela época. Quase quarenta anos depois, num governo do PT, na outra ponta do espectro ideológico, o país comete o mesmo erro: ergue mais barreiras protecionistas, restabelece a ideia de reserva de mercado, também com a vã ideia de aumentar o “conteúdo” local da produção de sua indústria. Colherá o mesmo fracasso.

Como o mundo é outro, bem mais globalizado, o equívoco se torna mais visível. É o que está registrado no relatório anual da Organização Mundial do Comércio (OMC), dirigida pelo brasileiro Roberto Azevêdo, divulgado segunda-feira.

Nele, a brasileira é uma das últimas colocadas numa relação das economias mais integradas a cadeias globais de produção. Enquanto apenas 40% das importações brasileiras são de componentes de bens a serem exportados, este índice chega a 75% em Taiwan, a primeira colocada neste ranking em que o Brasil se encontra na 27ª posição. Até a China, de economia ainda muito centralizada, um capitalismo selvagem de estado sob uma ditadura comunista, está mais bem situada que o Brasil, no 20º lugar.

O próprio Azevêdo lamenta, porque, como diz, participar dessas cadeias globais aumenta a produtividade e, por decorrência, o crescimento econômico. Tudo aquilo que escasseia no país nos tempos que correm.

Na raiz deste equívoco está o erro crasso da política externa de aprofundar a dependência do Mercosul, bloco comercial hoje alimentado muito mais por ideologia do que por interesses nacionais legítimos.

Sem se abrir a acordos bilaterais de comércio, o Brasil subordina as exportações de produtos manufaturados ao destino de economias como a argentina — atemorizante, como se sabe. E não consegue índices de produtividade para entrar em outros mercados, nada que a taxa de câmbio consiga resolver.

Entende-se por que o Global Trade Alert, entidade que acompanha medidas de política comercial pelo mundo, coloque o Brasil como o quarto país com maior número de medidas protecionistas decretadas desde 2008, abaixo apenas da Rússia, Índia e, nenhuma surpresa, a aliada Argentina. Péssima companhia e futuro preocupante.




Fonte: O Globo (editorial 24/10/2014)

Militância nova



Há muitas mensagens circulando contra e a favor de cada candidato.
Resolvi fazer a minha. Não me lembro de ter me engajado em uma campanha eleitoral. Sempre votei consciente, mas nunca fui para militância.

Parto de duas premissas:

I) "Todo homem, por menor parcela de poder que detenha, tende a dela abusar "(Maquiavel);
II) Não há uma só pessoa boa sem defeito, a qualidade está na supremacia dos benefícios em relação aos defeitos.


Por isso, não me iludo em pretender encontrar a perfeição em Aécio. Porém, estou convencido que suas qualidades positivas superam as negativas.
Por outro lado, também não nego os benefícios que o PT trouxe ao Brasil. Porém, está evidente que ultrapassou qualquer limite do razoável.
A ambição pelo poder destruiu o discurso da ética, da democracia, da nova forma de governar. Tudo isso, a tal ponto, que ofuscou completamente qualquer avanço que tenha feito.

Nada do que fizera justifica as mazelas que trouxe.

O projeto, está evidente, é de poder e não de Estado.

As instituições públicas estão aparelhadas por petistas e seus aliados, em prejuízo da escolha de pessoas técnicas, a meritocracia.

A corrupção, com o fim claro de abastecer o esquema, foi institucionalizada.

Contra o jogo democrático, se ataca a honra dos adversários e se propalam mentiras, com um cinismo sem precedentes. Frauda-se, assim, o próprio jogo democrático, à medida que, confunde-se o eleitorado de forma orquestrada.

O presidente Lula e a presidente Dilma, de forma vexatória, negam a prática do mensalão e todos os outros episódios de corrupção. Isso é gravíssimo. As pessoas mais influentes do sistema presidencialista atribuem normalidade a crimes graves. Essa é uma mensagem desastrosa para toda sociedade, sobretudo aos menos esclarecidos.

A cúpula do PT, que ainda define nossos destinos, está presa e é tratada, por eles, como injustiçados.

Não fossem os votos do beneficiários do Bolsa família, das ong's, do MST, todos sustentados pelos que trabalham, a Dilma teria perdido no primeiro turno.

Esse ponto merece atenção especial. Para tanto, invoco o pensamento de dois grandes sábios: Aristóteles e Luiz Gonzaga.

O primeiro, 400 anos antes de Cristo, chamou a atenção para o risco do sistema democrático se transformar na ditadura da plebe, o que já está acontecendo, pelo populismo e pelo terror com as ameaças de suspensão do bolsa família. Ou seja, por pouco nossa democracia não existe apenas no papel, enquanto, de fato, somos governados por uma ditadura disfarçada.

Já Luiz Lua Gonzaga, antevendo tudo isso, há mais de cinquenta anos, afirmou: "Seu dotô o nordestino tem muita gratidão, pela ajuda do sulista nessa seca do sertão, mas dotô uma esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão."

Hoje estamos assistindo a formação de uma sociedade de viciados pela esmola do Estado, sem o menor estímulo de evoluir para o mercado de trabalho. Se contentando a viver à margem da dignidade humana.

E muitos outros argumentos poderia elencar. Para não ficar enfadonho, limito-me a esses.

Por tudo isso, resolvi me engajar nessa luta, pela alternância de poder e sugerir a cada amigo uma reflexão sobre qual país queremos para nossos filhos.

Se pensar como eu, divulgue, tente conquistar pelo menos 45 votos para Aécio.



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